Dramaturgos, críticos e ratos: reflexões sobre o teatro em Edgar Allan Poe
5. Teatro e ascendência: à guisa de conclusão
5. Teatro e ascendência: à guisa
de conclusão
“Fato bastante assinalável”, escreve o poeta francês Charles
Baudelaire (1821-1867), em conhecido ensaio a respeito de Edgar Allan Poe, “é que um homem de imaginação tão irradia e ambiciosa seja ao mesmo tempo tão amoroso das regras” (Baudelaire, 1999, p.12). Com efeito, insistindo em dinâmicas de verossimilhança interna e externa no teatro, Poe penetrou em um terreno bastante diverso daquele de seus excitantes contos de terror, mistério e morte. Em quarenta anos de vida, o escritor produziu incessantemente nos gêneros conto e poesia, e, no entanto, apenas um drama, incompleto. Empenhando-se sempre tão exaustivamente àquilo que declarava não ter valor para si, Edgar Allan Poe, que dizia ser sua verdadeira vocação a poesia, dedicou-se tão brilhantemente ao jornalismo e ao gênero conto que até elaborou uma teoria a respeito. Crítico ferrenho da literatura dramática de seu país, engajado com sua elaboração intelectual, Poe, no entanto, não trouxe a lume sequer um drama à altura de suas próprias pretensões artísticas, nem uma teoria do drama bem definida.
São as contradições do gênio. Seu projeto estético modificou-se
no curso de sua vida. Em 1836, ao mesmo tempo em que, em Politian, faz um evidente diálogo com a tragédia neoclássica, sobretudo no que toca à verossimilhança e à dicção, os personagens e espaços no seu drama encontram-se impregnados da mesma ambiência romântica dos seus melhores contos. Lembremos, ainda, que o escritor pertence, de fato, a um romantismo perpassado por anacronismos da explosão europeia. Dez anos depois, em seu projeto nacionalista (e ainda romântico) de desenvolver as artes dramáticas no país onde nascera, teve de tentar cortar as amarras com as tradições não nacionais, apostando na verossimilhança externa e no modo realista, enquanto defensor da apreensão e da retratação fiel da sociedade pelo artista, em vez de sua idealização. Em “O drama americano”, prega deliberadamente que se encontre a vida dos Estados Unidos nas obras nativas, para que estas não se assemelhem a meras cópias de modelos importados e mal refletidos. Daí que, no que diz respeito ao seu único drama, Politian, a primordial escolha de transportar um acontecimento contemporâneo à Roma do século XVI represente a ideia diametralmente oposta a seu projeto da maturidade. Talvez por isso o autor viria a demonstrar certa repulsa por Politian.
Suas concepções, por vezes, tão transcendentais, não impediram,
porém, que o escritor se integrasse às dinâmicas da modernidade, principalmente no que toca à sua percepção da emergência de formas de arte mais comerciais e menos inspiradas em um projeto de arte pela arte. Dentro de um contexto em que o teatro assumia um importante papel modernizador nas grandes metrópoles, Poe escreve em “O drama americano” que a “invenção” (a mesma invenção que deveria conduzir o desenvolvimento do drama) advém da “necessidade” – ou seja, daquilo que é imprescindível ou útil na arte, e nesse sentido, nas chamadas business arts, a “invenção” estaria sempre presente. Poe teve todo um contexto a favor desta opinião. Vivia-se, no teatro nos Estados Unidos, desde o romantismo, a cultura do “estrelismo cênico”, com a contratação de grandes atores:
[...] um desenvolvimento paralelo [à fantasmagoria e ao horror no palco] foi
a crescente comercialização do teatro, que começou nas grandes cidades
da Europa e estimulou a tendência para o estrelato no palco. A América
entrou em cena com sedutores contratos para convidados e atraiu os
grandes atores românticos, especialmente os de Londres, para Nova York,
Filadélfia e Boston. (Berthold, 2011, p.430)
Embora esse posicionamento possa ser desconcertante,
sobretudo para aqueles que se recordam da concepção de arte avessa a interesses comerciais que Poe tanto defendia para os
gêneros poéticos,1 é importante considerar que o escritor não estava alheio às novas dinâmicas do campo artístico proporcionadas pelo desenvolvimento do capitalismo e das formas de produção, como escreve em sua coluna “Marginalia”, na Democratic Review:
O progresso realizado em alguns anos pelas ‘revistas’ e ‘magazines’ não
deve ser interpretado como quereriam certos críticos. Não é uma
decadência do gosto ou das letras americanas. É, antes, um sinal dos
tempos; é o primeiro indício de uma era em que se irá caminhar para o
que é breve, condensado, bem dirigido, e se irá abandonar a bagagem
volumosa; é o advento do jornalismo e a decadência da dissertação.
Começa-se a preferir a artilharia ligeira às grandes peças. Não afirmarei
que os homens de hoje tenham o pensamento mais profundo do que há
um século, mas, indubitavelmente, eles o têm mais ágil, mais rápido, mais
reto, mais metódico, menos pesado. De um lado, o fundo dos
pensamentos se enriqueceu. Há mais fatos conhecidos e registrados, mais
coisa para refletir. Somos inclinados a enfeixar o máximo possível de
ideias no mínimo de volume, a espelhá-las o mais rapidamente que
pudermos. Daí nosso jornalismo atual; daí, também, nossa profusão de
magazines. (Poe, 1999b, p.165)
Para Poe, o utilitário, o condensado, o estritamente necessário
seriam os pontos nos quais deveria se apoiar a arte contemporânea, no intuito de responder aos anseios de deleite estético de sua própria época e de seu público. Lembremo-nos do limite de “uma assentada”, que Poe defende em “A filosofia da composição”, para apreciação de um objeto estético, fronteira que facilitaria a apreensão do todo de uma obra, numa época de fragmentação do tempo destinado à apreciação da arte. Observamos ainda o quanto tal ideia contribui à conceituação da ação dramática, se posta em analogia com poemas – líricos, e não épicos – e contos – por seu núcleo narrativo unitário. Isso porque, como Poe questiona em “O drama americano”, se uma obra sujeita o tempo todo seus leitores a reler trechos, a restabelecer conexões entre as partes, a tentar compreender a influência que uma personagem ou ação têm sobre o todo, o que além de fadiga pode resultar desse esforço? E, no momento da representação teatral, quando não se pode “voltar atrás” as ações representadas no palco, como lutar contra as falhas de memória, as desatenções, a importância dada a um personagem ou intriga secundários que, depois, se avaliam como não tendo valor para o efeito geral? O próprio século XIX seria propício ao esquecimento pela abundância de informações e mídias, não deixando tempo livre para a atividade de reconstituição da ação do drama.
Aquilo que não materializou na criação dramática, Poe o
presentificou pela crítica, pela teoria, e, sobretudo, pela pessoal e apaixonada defesa do teatro em seu país. Sensível ao moralismo que afastava a sociedade do teatro, Poe faz, no The Broadway Journal, em julho de 1845, seu louvor a essa arte, unido à
percepção de suas prováveis contribuições morais e intelectuais. 2 O escritor atesta sua repulsa ao preconceito que afasta os atores e a sociedade dos palcos, para ele, “hipocrisia desprezível” que desconsiderava tudo que o teatro elevava e enobrecia no espírito de uma nação. Se, observa Poe, há aqueles que, envolvidos com a arte teatral, se tornam dissolutos, isso decorre das “infelizes circunstâncias” que rodeiam a profissão, e não dela mesma. O teatro, para Poe, é enobrecido por suas amplas e inigualáveis facilidades em desenvolver o gênio, cabendo ao verdadeiro ator, o ator de talento, saber ignorar a mediocridade geral. Filho de uma atriz, embora as vicissitudes de sua vida o tivessem conduzido a um caminho diverso ao da vida nos palcos, Edgar Allan Poe exibiu sua ascendência teatral com orgulho, reconhecendo-se como fruto da bela e dura realidade daqueles que lançavam as raízes do teatro nos Estados Unidos. Não poderiam ser senão suas as palavras que fecham este livro:
O autor deste artigo é ele próprio filho de uma atriz – fez disso
invariavelmente seu motivo de orgulho – e nenhum conde jamais foi tão
orgulhoso de seu condado do que o é o autor por descender de uma
mulher que, embora bem nascida, não hesitou em consagrar ao drama
sua breve carreira de genialidade e de beleza. (Poe, 1845, p.259-260)