Dramaturgos, críticos e ratos: reflexões sobre o teatro em Edgar Allan Poe
3. Politian: cenas de um drama inédito
3. Politian: cenas de um drama
inédito
– Não há mais nada de Politian.
Edgar Allan Poe
O ano de 1835 parecia auspicioso para o drama estadunidense.
Talvez pudesse ter lugar uma “revolução estética” para o gênero, que passaria necessariamente pela escrita e pela representação de dramas amoldados a uma nova proposta dramatúrgica. Engajado, no campo das ideias, com o teatro americano, Edgar Allan Poe talvez pudesse estar à frente dessa renovação também no campo ficcional. Em dezembro, o público regular de um dos periódicos mais conhecidos de Richmond, o Southern Literary Messenger, leria três atos de um drama em versos subintitulados Cenas de um drama inédito (Scenes from an Unpublished Drama) e, em janeiro do ano
seguinte, mais dois de seus atos.1 Esses mesmos leitores perceberiam logo, no entanto, que o material estava disposto sem uma continuidade, isto é, fora da sequência temporal das ações. Havia também lacunas em seu enredo e ausência de um desfecho. Tratava-se, talvez, de um drama publicado parcialmente, cujos atos concluídos foram postos a público, enquanto o restante aguardaria seu momento.
De fato, havia ainda outros atos desse drama, em versão
manuscrita, onze no total, embora não completamente finalizados. Faltavam algumas linhas, que seriam completadas após a morte de Poe por seus editores. O drama, estes justificariam, já tinha acabamento estético e desenlace bem determinados e pressentidos pela leitura (Mabbott, 1969, p.241-298). Grande parte da versão original foi preservada por Sarah Anna Lewis (1824-1880), poeta e protetora de Poe, que teria posteriormente entregado partes do original a colecionadores, um dos quais o biógrafo John H. Ingram (1842-1916). Assim, em relação ao manuscrito, Poe teria publicado no Southern Literary Messenger, em dezembro de 1835, os atos IV, VI e VII, e, em janeiro de 1836, os atos III e IX. Embora esses atos não tivessem sido apresentados na ordem, ainda assim possuíam certa unidade, o que permitia a apreciação tanto em separado quanto em conjunto. O drama ainda esperava, senão a representação, ao menos sua publicação completa.
Quando, porém, em 1845 surgiu finalmente uma oportunidade de
dar ao público a versão completa do drama, na primeira edição de O corvo e outros poemas, Poe decidiu publicar aqueles mesmos atos,
apenas invertendo mais uma vez sua ordem.2 Politian é o título escolhido. Na variedade de suas produções como contista, poeta e crítico, a assinatura de apenas um drama, e nessas condições, torna a existência de tal obra bem mais peculiar do que poderia parecer à primeira vista. Sobretudo, por se tratar de um drama escrito por um autor engajado com o estabelecimento de uma tradição teatral o mais possível desligada das heranças colonizadoras. Talvez a intenção de Poe fosse desvinculá-los uns dos outros, apresentando para publicação cenas bem organizadas e apreciáveis individualmente. Também pode ser que Poe os tenha publicado separadamente para evitar uma apreciação da totalidade do drama, que talvez considerasse abaixo de seus valores
estéticos. 3 Admitindo-se essa possibilidade, então, o autor não teria logrado em sua peça uma “unidade de efeito”, princípio literário norteador imprescindível dentro de sua teoria estética.
As circunstâncias em que Politian foi publicado permitem várias
interpretações. Além da ideia de que o resultado do drama não condiria com as aspirações artísticas de Poe, temos aquelas ligadas às turbulências de sua vida, que, de qualquer forma, podem fornecer respostas possíveis, embora nem sempre completamente satisfatórias. Nada temos além de hipóteses. Aparentemente, Poe nunca quis publicar Politian. É pertinente dizer que se o escritor tornou públicos os cinco atos, o fez apenas para completar as edições do Southern Literary Messenger, a contragosto, por faltarem
matérias para o número. 4 A própria inclusão do drama em O corvo e outros poemas aconteceu a pedido de seu editor (Mabbott, 1978).
De fato, em carta5 escrita a um de seus editores, Evert Augustus Duyckinck (1816-1878), a 10 de setembro de 1845, Poe teria deixado claro que havia publicado aqueles cinco atos a contragosto e apenas “para encher o livro”. Em outra carta, em 15 de dezembro de 1846, desta vez para George W. Eveleth (1819-1908), em resposta à pergunta sobre sua intenção de ainda publicar o drama, Poe escreveria: “não há mais nada de Politian” (Mabbott, 1969, p.241).
A deliberação em não publicar Politian, apesar de explícita, ainda
deixaria em aberto a possibilidade de que o escritor tivesse passado por crises pessoais que o teriam impedido de realizar ajustes na peça. Porém, Poe prosseguia suas atividades normalmente no Southern Literary Messenger. Pertencem a esse período contos e poemas como “O duque de L’Omelette”, “O vale da inquietude”, “Quatro animais num só”, “Para Helen”, “Uma estória de Jerusalém”, “O jogador de xadrez de Maelzel” e “Metzengerstein”. Além disso, o ano de 1836 é um período de relativa felicidade na vida de Poe. Em suas biografias não se assinalam grandes disputas com seus editores, além das que ocorriam comumente. É também quando se casou com sua prima, Virginia Cleem (1822-1847), e é uma fase de razoável produção crítica do escritor. Poe só teve efetivamente problemas em fevereiro de 1837, quando deixou o Southern Literary Messenger, após uma discussão com seu editor, Thomas Willis White (1788-1843). É difícil apontar com certeza os motivos que teriam levado Poe a não concluir efetivamente seu drama. Ainda assim, não nos parece correto afirmar categoricamente que o escritor não conseguiu concluí-lo. De qualquer maneira, o fato de ter publicado cinco atos e em seguida ter abandonado outros seis pode ter sido uma ação deliberada de sua parte, não instigada por problemas pessoais de qualquer natureza.
Politian é um drama motivado por fatos históricos, baseado na
conhecida “tragédia de Kentucky”, crime passional ocorrido nesse estado dos Estados Unidos alguns anos antes:
[...] o assassinato do Coronel Salomon P. Sharp, em 1825, por Jereboam
O. Beauchamps. A sombria história é a seguinte. Sharp, um político,
seduziu uma menina de boa família, Ann Cook ou Cooke. O filho deles
morre, e Sharp se recusa a se casar com sua enamorada, que, em
consequência disso, passa a viver em retiro, muito dada à leitura.
Beauchamps, embora muito mais jovem, apaixona-se por ela e a pede em
casamento. Ela pede-lhe para vingá-la; e Beauchamps (que também era
ligado à política) tenta desafiar Sharp para um duelo. Este último se
recusa a lutar, porque se julgava culpado. (Mabbott, 1969, p.242)
Anos depois, já casados, Beauchamps e Ann Cook decidiram pôr
a antiga vingança em prática e, na noite de 6 de novembro de 1825, esfaquearam Sharp. O júri considerou o crime motivado por questões políticas, por conta do envolvimento de ambos com o Estado. Após a condenação, Beauchamps e Cook tentaram suicídio; ele, sem sucesso na empreitada, terminou sendo enforcado no ano seguinte.
O caso atraiu grande atenção da imprensa entre os anos de 1825
e 1826, por meio de notas, depoimentos dos acusados e narrativas orais. Nessa época, fazia seis anos que Poe, um jovem de 17 anos, retornara de Londres com os pais adotivos e frequentava academias em Richmond, onde se destacava em Latim e teatro amador. Assim, ele ainda não atuava como jornalista, embora pudesse ter tido acesso a materiais para a elaboração do enredo base de seu drama. Cerca de dez anos depois, Poe se apropriaria dessa intriga central e a transportaria a outro contexto: a Roma do século XVI. Poe reconstruiu a narrativa sob uma ambiência melancólica, cheia de humildade e tristeza, recorrendo às leituras em voz alta, aos apartes, a longos suspiros e ais. Politian se afasta de seus mais excitantes contos de horror, mistério e morte, mas, como observou seu tradutor para língua francesa, “se ele tivesse voltado sua atenção em direção ao teatro, teria podido preencher a lacuna que observou [nos dramas americanos], mesmo sob o risco de fazer peças tão terríveis para pôr em fuga os espectadores aterrorizados” (Hughes apud Poe, 1861, p.211-212).
O drama não foi levado da estante ao palco durante a vida de seu
autor. Sabe-se que Politian teve estreia apenas a 19 de janeiro de 1933, em homenagem ao aniversário de cento e vinte cinco anos do nascimento do escritor, sendo representado pelos atores da
Universidade da Virgínia, em conjunto com a Raven Society. 6 Se tivesse ido à cena em 1836, Politian encontraria circunstâncias cênicas análogas às de uma casa de espetáculos como o Park Theatre, cujo palco à italiana contribuiria com a manutenção da ilusão e da verossimilhança de uma cena mimética, pretendida por Poe em seu drama, e talvez contasse com alguns ratos entre os espectadores.
Um exercício interessante é ler os atos de 7 Politian tal qual foram
apresentados no Southern Literary Messenger entre 1835 e 1836. Apesar de ser possível recorrer à versão manuscrita completa, insistimos no interesse de se apreciar os atos em separado, pela formatação isolada das situações. O estabelecimento de uma unidade em cada ato não deixa de ser uma marca da influência da estética romântica sobre a criação do escritor, embora não como afirmação estrita de uma obra aberta, e é, além disso, a maneira pela qual os atos foram conhecidos pelos leitores de Poe à época.
O primeiro ato publicado (dezembro de 1835) traz a personagem
Lalage (correspondente a Ann Cook/Cooke, no caso Beauchamps), em sua sala de uso particular. Em luto, Lalage está sentada à mesa, em primeiro plano, lendo alguns livros e tendo à sua frente um pequeno espelho de mão. Sua empregada, Jacinta, está negligentemente repousada em segundo plano. O cenário é descrito de forma simples, com apenas alguns objetos funcionais indicados: a mesa à qual Lalage lê melancolicamente seus livros, o espelho em que se mira como forma de reflexão sobre a fugacidade da beleza e da felicidade, a cadeira na qual Jacinta senta-se para observar sua patroa com desprezo. A cena se passa entre os diálogos das duas personagens, ou entre os lamentos da primeira e os revides irônicos e irritados da segunda, que lhe fala, conforme nos indicam inicialmente as rubricas, de forma “impertinente”. Lalage tornou-se por alguma razão “humilde” e triste. A disposição da cena tem em vista manter uma ambiência de tristeza, seja pela nudez da mobília, seja pela presença da personagem em luto, seja pela ausência de objetos de valor. Por fim, pelos versos lidos em voz alta por Lalage:
LALAGE: “Em um outro clima”, o autor diz, “Pode crescer uma flor dourada e brilhante, mas não nesta
terra!”
(pausa – vira algumas páginas, e prossegue.) “Não há invernos longos por lá, nem neve, nem chuva – “Mas há o Oceano para reconfortar a humanidade
“Respira o ruidoso espírito do vento ocidental.’ Oh, beleza! – quanta beleza! – é como
Minha alma febril imagina o Céu!
Que terra feliz! (pausa.) Ela morreu! – a donzela morreu! Oh, é ainda mais feliz tal donzela, que pode morrer! Jacinta!
(Jacinta não responde; e Lalage continua.) Mais um! – um conto semelhante
Diz-nos de uma bela dama de além-mar!
Assim fala um tal Ferdinand, nos versos desse drama – “Ela morreu bastante jovem” – e um outro, Bossola, responde-lhe –
“Eu acho que não – sua infelicidade
Parecia datar de muitos anos” – Ah, infeliz dama! Jacinta! (ainda sem resposta.) Há aqui uma história ainda mais grave,
Porém, semelhante – oh, muito semelhante em seu desespero!
–
À história de uma rainha egípcia, que facilmente conquistou Mil corações – mas que perdeu, ao fim, o seu próprio. Ela morreu. Assim a história acaba – e suas criadas Inclinaram-se sobre ela e choraram – duas gentis mocinhas Com gentis nomes – Eiros e Charmion!
Arco-Íris e Pomba! – Jacinta!
JACINTA: (irritada.) Senhora, o que é?
LALAGE: Minha boa Jacinta, tu queres ser gentil E ir lá embaixo, na biblioteca, trazer-me
Os Santos Evangelistas?
Lalage lembra-se, então, de sua desonra pelas mãos do nobre
Castiglione (correspondente ao Coronel Salomon P. Sharp), que a havia abandonado após jurar fidelidade. Seus pensamentos tristes são interrompidos pela entrada de um monge, o qual insiste sobre a eternidade da alma e sobre o repouso dos tormentos em Deus. Lalage, contudo, reconhece-se em guerra contra tudo isso, e jura vingança contra Castiglione, sobre a cruz que se encontra gravada em seu punhal:
MONGE: Tu tens um refúgio no Céu,
Minha filha! Pensa nas coisas eternais!
Entrega tua alma à penitência, e reza!
LALAGE (levanta-se apressadamente.): Não posso rezar! Minha Alma está em guerra contra Deus!
Os aterradores sons de alegria lá embaixo Perturbam meus sentidos – vai embora! Não posso rezar –
Os doces ares do jardim inquietam-me!
Tua presença incomoda-me – vai! – Tuas vestes sacerdotais Enchem-me de pavor – teu crucifixo de ébano Enche-me de horror e temor!
MONGE: Pensa em tua preciosa alma!
LALAGE: Pensa em meus dias de infância! – Pensa em meu Pai E em minha mãe, no Céu! Pensa em nossa casa tranquila, E no rio que corria além no quintal!
Pensa em minhas irmãzinhas! – Pensa nelas! E pensa em mim! – pensa em meu amor inocente E em minha confiança – as promessas dele – minha ruína – pensa – pensa
Em minha indizível miséria! – Vai!
Porém, espera ainda! Espera ainda! – O que dissestes sobre
reza
E penitência? Não falastes de fé
E promessas diante do trono?
O segundo ato publicado (dezembro de 1835) se passa no salão
do palácio do duque Di Broglio, pai de Castiglione, onde se encontram hospedados Politian e seu amigo Baldazzar. Discute-se sobre a natureza de Politian, que se alterna entre exuberante, sonhadora e melancólica, para exasperação de Baldazzar, que tenta convencê-lo a ir à corte. Contudo, essa multiplicidade é compreendida pelo protagonista como marcas peculiares de seu caráter: ele mesmo seria um outro se se resolvesse a conter as manifestações de seu espírito. O diálogo é interrompido pela irrupção do som distante de uma melancólica canção: a voz é de Alessandra, noiva de Castiglione. Ao distinguir o canto, Politian decide permanecer em seu quarto, não indo ao encontro de seus anfitriões para a ceia.
POLITIAN: Fica quieto! – a música recomeça!
VOZ: Será teu coração tão forte
(muito baixa.) para abandonar-me assim, A mim, que tanto te amei
Na riqueza e na pobreza?
Será teu coração tão forte
Para abandonar-me assim?
Diga que não – Diga que não!
BALDAZZAR: A música é inglesa, e já a ouvi muitas vezes Na alegre Inglaterra – mas nunca tão melancólica – Shh! Shh! A música recomeça!
VOZ: Será teu coração tão forte
(mais alta.) para abandonar-me assim, A mim, que tanto te amei
Na riqueza e na pobreza?
Será teu coração tão forte
Para abandonar-me assim?
Diga que não – Diga que não!
BALDAZZAR: Faz silêncio e tudo está tão quieto!
POLITIAN. Não, não está quieto.
BALDAZZAR. Vamos descer.
POLITIAN. Desce, Baldazzar, desce!
O terceiro ato (dezembro de 1835) se passa no jardim de um
palácio, sob o luar. Na cena, Politian declara seu amor apaixonado a Lalage, mesmo conhecendo sua desonra e infelicidade. Politian se nega a deixá-la para buscar a glória ou para manter a honra de sua família, pois seus sentimentos por Lalage, baseados tanto em sua beleza quanto em seu triste destino, o seguiriam por toda a vida, e depois pela eternidade. Lalage se declara convencida de que Politian a ama de fato, porém, considera a existência de Castiglione um impedimento à felicidade de ambos. O ato termina com a promessa de Politian de tirar a vida do filho do duque Di Broglio imediatamente e com a efusão de sentimentos de Lalage, que, uma vez sozinha, reconhece ser o desejo de vingança uma fraqueza sua:
LALAGE: Tu falas de amor
Para mim, Politian? – Tu falas de amor
Para Lalage? – ai – ai de mim!
Esta zombaria é muito cruel! – certamente, muito cruel!
POLITIAN: Não chores! Oh, não soluces assim! – Tuas lágrimas
amargas
Enlouquecer-me-ão. Oh, não chores, Lalage – Consola-te! Eu sei – eu sei de tudo,
E, apesar disso, ainda falo de amor. Olha para mim, luminosa E bela Lalage! – Torna teus olhos para mim! Tu me perguntaste se eu poderia falar de amor, Sabendo o que eu sei, e vendo o que eu vi. Tu me perguntaste isso – e agora eu te respondo – Deste modo, ajoelhado, assim te respondo. (ajoelhando-se.) Doce Lalage, eu te amo – te amo – te amo;
Em tempos bons e maus – em tempos de felicidade e de
tristeza, eu te amo.
Nem uma mãe, com seu primogênito sobre os joelhos, Poderia sentir mais intenso amor do que eu por ti. Nem no altar de Deus, em nenhum tempo ou clima, Jamais queimou um sagrado fogo como este que queima agora Dentro de minha alma por ti. Tu perguntas se te amo? (ergue-se.)
Apesar de teus sofrimentos, eu te amo – apesar de teus
lamentos –
Por tua beleza e por teus lamentos.
LALAGE. Infelizmente, conde orgulhoso,
Esqueces-te de ti mesmo, ao lembrar-te de mim! De que maneira, no palácio de teu pai, entre as moças Puras e perfeitas de tua nobre família,
De que maneira a desonrada Lalage poderia permanecer? Tua esposa, e com uma memória maculada – Meu amaldiçoado nome, de que maneira o compararia Com as honras ancestrais de tua casa,
E com a tua glória?
No quarto ato (janeiro de 1836), o casal Alessandra e Castiglione
estão no salão de honra do palácio do duque Di Broglio. Alessandra percebe que seu noivo está triste e tenta extrair dele a verdade e as razões para tal sentimento. Castiglione nega seu estado de espírito – “Oh, eu sou o mais feliz, o mais feliz homem de Roma” –, embora não possa conter seus suspiros, sua tristeza e sua indignidade perante si mesmo. Alessandra censura Castiglione pela vida dissipada que vem levando, pelos vinhos e vigílias, pelas más companhias, por seu desleixo na hora de vestir-se, os quais não conviriam a um nobre, “filho do senhor Di Broglio e noivo de Alessandra”. Para tudo isso, Castiglione responde que mudará seu comportamento, porém, distraidamente, para exaspero da noiva. Também alheiamente deixa escapar em solilóquio que a “doce, gentil Lalage” ocupa seus pensamentos. Seu pai entra e anuncia a chegada de “Politian, da Grã-Bretanha, conde de Leicester”. Note-se que este ato é anterior ao antecedente, pois o protagonista ainda não havia entrado em cena, nem se hospedado no palácio. As opiniões a seu respeito dentro do grupo variam: Alessandra já tivera notícias suas por terceiros como um libertino; Castiglione já o teria visto, ele mesmo, e o considerava um sonhador que ignorava as paixões comuns.
ALESSANDRA: O quê?! Politian
Da Inglaterra, o conde de Leicester?
DI BROGLIO: O mesmo, meu amor.
Nós o teremos aqui no casamento. Um homem muito jovem Em idade, porém, bastante famoso. Eu ainda não o vi
pessoalmente,
Mas diz-se que é um prodígio,
Excepcional nas artes e no combate, e na riqueza, E que é de alta ascendência. Nós o teremos aqui no casamento.
ALESSANDRA: Já ouvi muito desse Politian. Feliz, caprichoso e impulsivo – não é?
E ele não pensa muito antes de agir.
DI BROGLIO: Longe disso, meu amor.
As pessoas dizem que não há nenhum ramo da filosofia Por mais profundamente oculta, que ele não haja dominado. Há poucos que sejam tão cultivados quanto ele.
ALESSANDRA: É muito estranho!
Conheci homens que viram Politian
E buscaram sua companhia. Falam dele
Como de alguém que se apresentou loucamente à vida, Tomando do cálice do prazer entre a escória.
CASTIGLIONE: Absurdo! Eu já vi Politian E o conheci bem – Ele não é nem cultivado, nem divertido.
É um idealista, um homem que despreza
As paixões comuns.
DI BROGLIO: Meus filhos, parem de discutir. Vamos sair e aproveitar do ar perfumado
Do jardim. Eu sonhei, ou ouvi dizer
Que Politian é um homem muito melancólico?
Por fim, o quinto e último ato (janeiro de 1836) se passa nos
subúrbios de Roma. Politian encontra-se em tal estado sentimental que se sente esvair, morrer “antes de ter vivido”. Sabemos que Politian havia convocado duelo contra Castiglione. Seu amigo Baldazzar chega trazendo a resposta negativa do filho do conde Di Broglio, pois, não vendo motivo para o duelo, o havia recusado. Em sua fúria, Politian mal acredita em tal resposta. Pede, porém, a Baldazzar que responda a Castiglione uma ofensa de sua parte, como razão para o duelo. Seu amigo adverte-lhe da gravidade da situação, porém, Politian, percebendo que Castiglione se aproximava, engana o amigo, tranquilizando-o, afirmando que pensará no caso com maior cuidado. À saída de Baldazzar, Castiglione chega, dizendo estar certo de que a notícia sobre o duelo tratava-se de um mal-entendido. Politian, porém, o ofende, incitando o início do combate. Ao ser pronunciado o nome de Lalage como justificativa à disputa, Castiglione recua, sob a culpa que lhe pesa a respeito da dama. O embate se dá nestes termos:
CASTIGLIONE: Ah! – covarde! – já é demais! (ele segura sua espada e se aproxima de POLITIAN, mas muda
de ideia antes de chegar perto, caindo ajoelhado aos pés do
conde.)
Ai de mim! Meu senhor,
Esta é – sim, é – a mais pura verdade. Neste caso, Sou um grande covarde. Tem piedade de mim!
POLITIAN (suavemente.): Ai de mim! – Tenho pena, sim –
realmente tenho pena do senhor.
CASTIGLIONE: E Lalage –
POLITIAN: Patife! – Levanta-te e morre!
CASTIGLIONE: Não precisa ser assim! – mas deste modo – Oh,
deixa-me morrer
Assim, em genuflexão. É justo
Que eu pereça por esta profunda humilhação, Porque no combate, eu não elevarei a mão Contra ti, Conde de Leicester. Acerta-me logo – (mostrando seu
peito.)
Não haverá obstáculos à tua arma –
Golpeia-me. Não lutarei com o senhor.
POLITIAN: Morte e Inferno!
O senhor pensa que não estou violentamente tentado A obedecer-te? Escuta-me, senhor!
Não tentes fugir de mim. Prepara-te
Para o insulto público nas ruas – Sob os olhos Dos cidadãos. Eu te seguirei –
Como um espírito vingador, eu te seguirei Mesmo até a tua morte. Diante daqueles que amas – Ante toda a Roma, eu te provocarei, vilão, – Eu te provocarei, Ouve-me? Quanta covardia – Então, não lutarás comigo? Mentira! Tu deverás! (sai.)
CASTIGLIONE: De fato, isso é justo!
Céu vingador, digníssimo e justo!
Assinalando sua inscrição primordial na estética romântica, Poe
apresenta-nos um indivíduo descentrado, em estado de paixão, como um dos temas que emergem muito particularmente das páginas de Politian. O personagem homônimo, de natureza instável, exuberante e, ao mesmo tempo, melancólica, esquece-se mesmo de suas obrigações para com a nobreza, abre mão de seu papel social estabelecido em nome de sua paixão por uma mulher que caíra em desonra. A incerteza quanto à natureza de Politian, como apreendemos pela conversa entre Alessandra, Castiglione e Di Broglio, é elemento fundamental ao caráter do personagem, que suscita rumores e comentários sobre si, alimentados por sua efusão sentimental ou por sua profunda melancolia. Igualmente ocorre com outros personagens, como Lalage, que se alterna entre um caráter doce e humilde e o de terrível e vingativa dama que deseja a morte daquele que a desonrou. A tristeza geral dos personagens ou a melancolia de Politian tomam forma em suas falas, mesmo sendo, por vezes, desconhecidas e incompreendidas deles próprios. A recitação poética funciona em Politian também como forma de concentrar nos versos a efusão lírica dos personagens, característica, aliás, bastante típica do romantismo, embora alguns pontos da dicção aproximem Politian das tragédias neoclássicas.
A intercalação de excertos poéticos também contribui, no drama,
com o desenvolvimento da intriga. O canto triste de Alessandra, pelo amor perdido de seu noivo, serve de introdução às novas ações de paixão e vingança do hóspede Politian, quanto ao envolvimento não esquecido de Castiglione com Lalage. Esses sentimentos se expandem também aos espaços ocupados, os quais variam de ato a ato, desde o salão de Lalage, o palácio de Di Broglio, um jardim e o subúrbio de Roma, a céu aberto. A intriga se desenvolve em dias diversos e em horários geralmente ligados à ambiência necessária ao estabelecimento de uma situação também triste – a noite contribui no drama com suas sugestões. A luz do luar desempenha um importante papel nesse sentido, na declaração de amor do conde de Leicester a Lalage. Apesar da tristeza que impregna as ações, para a qual cada personagem tem razões específicas, como o amor não correspondido ou o arrependimento por atos passados, há momentos dinâmicos, drásticos, da ação, como no duelo entre Politian e Castiglione. O gesto irrompe como elemento importante para o desenvolvimento tanto do dinamismo quanto da tristeza, segundo nos informam as rubricas, como quando Lalage segura sua cruz e a ergue, ao modo de afirmação da vingança.
Por fim, talvez, em superfície, se possa observar a aparente
incongruência de se publicar um drama em uma antologia poética, pelo fato de Politian ter sido integrado à primeira edição de O corvo e outros poemas, em 1845. Sua separação em atos curtos, unificados em si mesmos pela manutenção de um sentimento e de um tema, comunga em muito com a noção da brevidade da intercalação lírica, tônica na produção crítica do escritor estadunidense. Também a noção de situação teatral, sobretudo em seu sentido unificador de temas e efeitos, tem lugar na definição de alguns importantes conceitos da obra crítica e ficcional do escritor, como veremos mais adiante, por ser análoga à “unidade de efeito” – princípio axiológico norteador dos procedimentos trabalhados em uma obra literária – para a poesia e também para o conto curto, como o escritor declara no ensaio “A filosofia da composição”. Aquela “unidade de efeito”, é importante observar, tem ainda a possibilidade de ser decomposta em microunidades dentro de uma mesma obra, o que permite a comparação. Ainda, a manutenção de um sentimento poético depende da brevidade do excerto, o que transformaria o excedente de uma poesia em prosa. Investir na concepção de atos que possam ser apreciados isoladamente a partir de um efeito em comum é, deste modo, uma possibilidade de inserir sua criação teatral no conjunto de suas elaborações como teórico, crítico e escritor. Em sua crítica a O estudante espanhol, de Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882), Poe, elogiando o talento do escritor como poeta, em detrimento de sua qualificação como dramaturgo, afirma ser lamentável o fato de o texto não ter sido subintitulado um “drama poético”, em vez de um drama, pois seu elemento poético não lhe permitiria se sustentar sobre o palco. Talvez Politian viesse a ser considerado por seu autor mais uma obra para ser lida, talvez até mais uma poesia do que um “drama”, razão pela qual, o teria inserido entre “outros poemas” no volume de 1845.