Empreendedorismo no semiárido

Agostinha Mafalda Barra de Oliveira · Capítulo 8 de 9

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Empreendedorismo no semiárido

Capítulo 6 – Relação entre a motivação para empreender dos empreendedores aracatienses e suas ações para o desenvolvimento da economia local

Capítulo 6 – Relação entre a

 

motivação para empreender

 

dos empreendedores

 

aracatienses e suas ações para

 

o desenvolvimento da

 

economia local

 

Sophia Caroline da Costa Soares, Suely Xavier dos Santos,

Agostinha Mafalda Barra de Oliveira

 

6.1 Introdução

 

O empreendedorismo ganha cada vez mais destaque no âmbito

mundial. Por isso, apresenta-se como um fator fundamental para

aquecer o mercado e gerar, com isso, negócios que buscam criar e

melhorar produtos e/ou serviços para atender a necessidades, bem

como propiciar mais emprego e renda. Como afirma Dornelas (2001,

p. 24), “[...] o empreendedorismo é o combustível para o

crescimento econômico, criando emprego e prosperidade”.

Nesse contexto, estudos têm sido desenvolvidos para mensurar

os impactos causados pelo empreendedorismo no desenvolvimento

econômico. Um deles é a pesquisa anual do Global

Enterpreneurship Monitor (GEM). Essa pesquisa foi realizada, pela

primeira vez, em 1999, com a participação de 10 países. Desde

então, já obteve a participação de quase 100 países, em momentos

diferentes. Em 2015, contou com a participação de 60 países (GEM,

2015). Acredita-se que isso se deva ao fato de que essa pesquisa

vem sendo considerada a maior sobre empreendedorismo, em nível mundial, com o objetivo de entender a função deste no

desenvolvimento econômico dos países participantes.

O GEM (2010) classifica o empreendedorismo, quanto à

motivação para empreender, em: empreendedorismo por

necessidade e empreendedorismo por oportunidade, e defende que

o empreendedorismo por oportunidade contribui mais para o

desenvolvimento econômico de um país. No entanto, não há

estudos empíricos alheios ao GEM que comprovem essa premissa.

Por isso, faz-se necessário um estudo visando comprovar se o

empreendedorismo por oportunidade tem uma contribuição maior

para o desenvolvimento econômico de uma localidade que o

empreendedorismo por necessidade.

Pelo exposto, este trabalho pretende realizar tal comprovação no

município de Aracati. Essa escolha deveu-se à importância que o

município, com aproximadamente 72 mil habitantes, teve e ainda

tem no cenário econômico e social do estado e do país. O município

de Aracati, região Leste do Estado do Ceará, está localizado a

aproximadamente 150 km da capital Fortaleza e possui uma

população de 72.248 pessoas (INSTITUTO BRASILEIRO DE

GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA [IBGE] CIDADES, 2014). Sua base

econômica é situada nas atividades comerciais e industriais, tendo a

pesca de crustáceos, o turismo receptivo, o cultivo de algumas

frutas, como o caju e melão, e a extração petrolífera como principais

destaques para o desenvolvimento econômico da cidade

(ARACATINET, 2009). A cidade também é bastante conhecida pelas

belezas de suas praias, como Canoa Quebrada e Majorlândia, que

recebem milhares de turistas em várias épocas do ano, bem como

pelo histórico arquitetônico presente nos azulejos dos casarões e

em suas igrejas barrocas.

Para tanto, estabelece-se, como objetivo geral deste trabalho,

analisar a relação entre a motivação para empreender dos

empreendedores aracatienses e suas ações para o

desenvolvimento da economia local. E, como objetivos específicos:

classificar os empreendedores, em relação a sua motivação para

empreender, em por oportunidade ou por necessidade; verificar as

ações desenvolvidas e pretendidas de cada empreendedor, que

contribuem para o desenvolvimento da economia local; verificar se há diferenças significativas entre as ações desenvolvidas pelos

empreendedores por oportunidade e os empreendedores por

necessidade.

Nos dois tópicos seguintes, será apresentada uma breve explana-

ção sobre a relação do empreendedorismo com o desenvolvimento

econômico de um país e um detalhamento em relação à

classificação da motivação para empreender do GEM, seguidos dos

tópicos de procedimentos metodológicos, apresentação e análise

dos dados e considerações finais.

 

6.2 Importância do

 

empreendedorismo para o

 

desenvolvimento da economia

 

O empreendedorismo vem desempenhando um papel de

relevância para o progresso econômico. Isso se deve à ação do

agente do empreendedorismo, o empreendedor. A contribuição do

empreendedor é pautada pela concorrência estabelecida no

mercado e pela inovação. Schumpeter (1983) argumenta que o

empreendedor, indivíduo responsável pelo processo de destruição

criativa, é quem impulsiona e aquece o chamado capitalismo, por

meio da criação de novos produtos/serviços, novas técnicas de

produção e de distribuição, que são utilizados como uma forma de

excluir os métodos ineficientes tanto em relação ao tempo quanto ao

custo.

Nesse sentido, é notório que o empreendedorismo vem

desempenhando um papel de destaque no aquecimento econômico,

como gerador de emprego e renda e de inovação contínua para o

mercado. Como afirma Drucker (2005), o empreendedorismo é um

fenômeno cultural, econômico e tecnológico. Sendo assim, é o

impulsionador da economia, pois gera emprego e renda, ajuda a

desenvolver pesquisas e estimula o desenvolvimento nos âmbitos

local e nacional.

Em termos mais operacionais, de acordo com o GEM (2015, p. 7),

empreendedorismo refere-se a: “[...] qualquer tentativa de criação de

um novo empreendimento, como, por exemplo, uma atividade

autônoma, uma nova empresa ou a expansão de um

empreendimento existente.”

Na área de pesquisa, o empreendedorismo surge como estímulo

para docentes e discentes de instituições de ensino, especialmente

as de nível superior, desenvolverem pesquisas sobre a cultura

empreendedora, sobre as necessidades dos próprios

empreendedores e sobre a contribuição das ações do

empreendedorismo para o crescimento econômico do país. Assim, o

empreendedorismo é o fomento para a criação de empresas

inovadoras de cunho tecnológico (incubadoras e parques), para a

realização de estudos viáveis à sociedade e para a construção de

projetos que promovem o desenvolvimento do mercado de risco.

Com o grande número de empresas que vem surgindo, é

imprescindível oferecer, além de qualidade, um produto inovador,

que surpreenda e deixe satisfeito o consumidor para agregar valor e

diminuir a paridade entre as empresas. Dessa maneira, a inovação

tecnológica vem se destacando por estar diretamente relacionada

com o empreendedorismo no desenvolvimento econômico.

Nesse ambiente de inovação tecnológica, as pequenas e médias

empresas (PMEs) se destacam, passando a oferecer o maior

número de empregos e a concorrerem no mercado local, no

nacional e, até mesmo, no internacional (DOLABELA, 1999). Assim,

o empreendedorismo assume o papel de captar os recursos

disponíveis para o desenvolvimento e utilizá-los de forma eficiente

para gerar valor. Dessa forma, o empreendedorismo age tanto no

desenvolvimento local, em nível regional, quanto em nível nacional.

Segundo Dornelas (2001, p. 40), o desenvolvimento econômico

“[...] é dependente de quatro fatores críticos, que devem ser

analisados, para então se entender o processo empreendedor”. Os

quatro fatores críticos para o autor seriam o talento, a tecnologia, o

capital e o know-how, elementos fundamentais para empreender e

obter um negócio de sucesso.

O talento diz respeito às características empreendedoras

presentes no indivíduo, como percepção, senso de direção, dedicação, espírito inovador e as habilidades/competências para

lidar com as adversidades que o negócio irá proporcionar.

Juntamente com o talento, a tecnologia apresenta um papel

importante para que o processo empreendedor possa acontecer.

A tecnologia, que é o conjunto de técnicas, instrumentos,

métodos, tem como objetivo solucionar um problema, apresentando

um papel fundamental no âmbito da inovação. Fomentar a

tecnologia no processo empreendedor possibilita ao negócio

conquistar um diferencial para produzir produtos/serviços com maior

qualidade. Porém, para que esses recursos possam ser explorados

e revertidos em ações benéficas ao negócio, faz-se necessário

possuir um capital apropriado. Isso porque o capital será o

combustível para que tudo o que foi planejado possa ser

concretizado.

Outro fator de grande importância para o processo empreendedor

é o know-how. Essa expressão inglesa diz respeito à junção de

todos os conhecimentos (técnicas, habilidades, informações) que

venham agregar valor ao negócio e trazer vantagem competitiva

(DORNELAS, 2012).

Contudo, para avaliar o impacto que o empreendedorismo

acarreta no crescimento econômico, é indispensável considerar e

identificar a motivação para empreender. Devido a sua importância,

em especial para este estudo, o tópico seguinte será destinado a

tratar sobre a classificação do empreendedorismo quanto à

motivação para empreender.

 

6.3 Classificação do

 

empreendedorismo quanto à

 

motivação para empreender

 

De acordo com o GEM (2010), o empreendedorismo, quanto à

motivação, pode ser classificado em dois tipos: empreendedorismo

por necessidade e empreendedorismo por oportunidade. Essa foi a

classificação utilizada neste trabalho. Pelo exposto, os subtópicos seguintes detalham as características particulares desses dois tipos

de empreendedorismo.

 

6.3.1 Empreendedorismo por necessidade

 

O empreendedorismo por necessidade se dá por falta de opção

de emprego, não é baseado na identificação de novas chances, de

ideias inovadoras que possibilitem negócios diferenciados. Essa

forma de empreender está muito ligada à falta de emprego e renda,

sendo constatado que, no momento em que a oferta de trabalho

aumenta, o empreendedorismo por necessidade tende a diminuir

(GEM, 2010). Dessa forma, os agentes desse empreendedorismo,

os empreendedores por necessidade, são “[...] aqueles que iniciam

um empreendimento autônomo por não possuírem melhores opções

para o trabalho e então abrem um negócio a fim de gerar renda para

si e suas famílias.” (GEM 2011, p. 47).

O agente do empreendedorismo por necessidade é motivado, não

pela identificação de oportunidade, mas sim pela necessidade de

sobreviver. Por esse motivo, acaba desenvolvendo a atividade

empreendedora de forma não planejada e sem grandes

perspectivas. Para Dornelas (2012, p. 13), no empreendedorismo

por necessidade,

 

[...] o candidato a empreendedor se aventura na jornada empreendedora

mais por falta de opção, por estar desempregado e não ter alternativas de

trabalho. Nesse caso, esses negócios costumam ser criados informalmente,

não são planejados de forma adequada e muitos fracassam bastante rápido,

não gerando desenvolvimento econômico e agravando as estatísticas de

criação e mortalidade dos negócios.

 

Mendes aponta que (2009, p. 10), “[...] os empreendedores por

necessidade oscilam entre a vontade de vencer e a vontade de

voltar ao mercado de trabalho formal”. Lemes Júnior e Pisa (2010)

complementam que os empreendedores por necessidade

geralmente iniciam seu negócio de maneira informal.

Degen (2009) defende que, nos negócios iniciados por

necessidade, o empreendedor tende a trabalhar bem mais e ganhar menos que se estivesse em um emprego. Por esse motivo, só

recorre ao empreendedorismo por necessidade e ao auto emprego

como uma opção de sobrevivência, quando não há habilidades nem

competências para desempenhar um trabalho na forma de emprego

formal. Prova disso é que muitos deles, na primeira oportunidade de

se inserir no trabalho formal ou retornar a ele, não pensam duas

vezes para liquidar o seu negócio.

Em consequência, os negócios que começam motivados pela

necessidade podem ser classificados como medíocres. Geralmente,

esses negócios são considerados medíocres, porque apresentam

uma baixa lucratividade, bem como um crescimento restrito. São

negócios que não apresentam dificuldade para serem montados por

qualquer empreendedor e que nascem do excesso de demanda do

mercado. No entanto, precisam lidar com os riscos provindos do

negócio, principalmente devido à concorrência acirrada. Isso, por

sua vez, faz com que esse tipo de empreendedorismo cause pouco

impacto no crescimento econômico de um país. Além disso, devido

à criação de negócios sem inovação e com pouco ou nenhum

recurso tecnológico, os empreendimentos iniciados por necessidade

não oferecem uma boa perspectiva de geração de emprego e renda.

Dornelas (2012) e Lemes Júnior e Pisa (2010) afirmam que o

empreendedorismo por necessidade é predominante em países em

desenvolvimento. Tal afirmação se deve ao cenário de desemprego,

à falta de incentivos e de condições favoráveis para desenvolver a

atividade empreendedora, à ausência de qualificação dos

empreendedores para gerenciarem o negócio, bem como às

limitações para inserção no mercado de trabalho formal.

Em um cenário econômico caracterizado por um índice crescente

de desemprego estrutural, é notória a presença do

empreendedorismo por necessidade. Nesse sentido, Degen (2008,

p. 17) enfatiza que “[...] uma maior atividade empreendedora por

necessidade geralmente reflete uma situação de estagnação ou

crise econômica no país, a falta de empregos ou mesmo a redução

de empregos força as pessoas a empreender para sobreviver”.

Castelo Branco e Schneider (2012, p. 29) ainda acrescentam que

o empreendedorismo por necessidade “[...] é um tipo de

empreendedorismo com maior probabilidade de insucesso e que se mostra mais presente em sociedades com maior desequilíbrio

econômico e social”. Ou seja, à proporção que a economia, bem

como a sociedade do país entram em um estado de crescimento

compensado, esse tipo de empreendedorismo começa a ficar

menos evidente.

No entanto, também é importante ressaltar outros fatores que

geram ou impedem a atividade empreendedora em um país. Degen

(2008, p. 17) aponta que os fatores que inibem o desenvolvimento

do empreendedorismo são

 

[...] a educação e o treinamento da população, o número e a qualidade dos

centros de pesquisa e de tecnologia, a disponibilidade de capital de risco, a

profundidade do mercado, a existência de uma infraestrutura adequada e

uma legislação que facilite atividade empreendedora.

 

Ao analisar o empreendedor por necessidade de acordo com os

cinco fatores motivacionais desenvolvidos por Naffziger, Hornsby e

Kuratko (1994), é perceptível a ineficiência para desenvolver a

atividade empreendedora. O empreendedor por necessidade não

está disposto a correr riscos nem apresenta características que o

auxiliem na gestão e no crescimento do negócio. O indivíduo não

empreende por influência de terceiros, não esquematiza metas para

ampliação do negócio, muito menos avalia as influências que

poderão afetar o negócio, pois a necessidade de sobrevivência é a

sua motivação. Assim, nota-se que o empreendedorismo por

necessidade é feito de forma rápida e sem preparo, pois não há

preocupação para realizar um planejamento ou estudo sobre o

negócio.

Pelo exposto, de acordo com o GEM (2010), o empreendedorismo

por necessidade não é considerado o mais relevante para o

crescimento econômico de um país. Isso é devido à falta de

inovação e de recursos tecnológicos mais marcantes nos negócios

dessa natureza, o que caracteriza um atraso no desenvolvimento,

tanto no aspecto econômico quanto no social, gerando altos índices

de atividade informal e de mortalidade de empresas.

 

6.3.2 Empreendedorismo por oportunidade

Por outro lado, empreendedorismo por oportunidade ocorre

quando, mesmo havendo uma opção de trabalho, existe o desejo de

investir em uma ideia inovadora com o objetivo de independência

pessoal e financeira, além da necessidade de realização e de

autonomia. Assim, os empreendedores por oportunidade são

aqueles que “[...] optam por iniciar um novo negócio, mesmo quando

possuem alternativas de emprego e renda, ou ainda, para manter ou

aumentar sua renda pelo desejo de independência no trabalho.”

(GEM 2011, p. 47).

Esse tipo de empreendedorismo atende à visão de

empreendedorismo como um processo. Assim, as fases do

processo empreendedor são: o reconhecimento de uma

oportunidade, a decisão de ir em frente e reunir os recursos iniciais,

o lançamento do novo empreendimento, a construção do sucesso e

a coleta das recompensas. Essas fases do processo empreendedor

se desenvolvem continuamente ao longo do tempo, estando todas

interligadas (BARON; SHANE, 2007).

Ao considerar a primeira fase do processo de empreender como o

reconhecimento de uma oportunidade para criar algo novo é que a

atividade vem ganhando maior relevância no mercado e cada vez

mais adeptos, sejam práticos ou estudiosos sobre ela. Dolabela

(1999, p. 87) acrescenta que a oportunidade

 

[...] tem algo novo e atende a uma demanda dos clientes, representando um

nicho de mercado. Ela é atrativa, ou seja, tem potencial para gerar lucros,

surge em um momento adequado em relação a quem irá aproveitá-la – o que

a torna pessoal – é durável e baseia-se em necessidades insatisfeitas.

 

Segundo Baron e Shane (2007), os estudos respaldados nos

princípios de Schumpeter identificaram três fontes de oportunidade,

denominadas de: mudança tecnológica, mudança política ou de

regulamentos e mudança social e demográfica.

A mudança tecnológica é uma fonte de oportunidade, pois

possibilita que pessoas façam algo de forma mais inovadora e

eficiente. Por sua vez, as mudanças políticas ou de regulamentação

possibilitam a concepção de ideias a serem utilizadas para

remanejar os recursos de maneira inovadora, visando distribuir as

riquezas de uma pessoa para outra. Importante ressaltar que nem sempre esse tipo de mudança incrementa a produtividade, gerando

apenas o lucro à custa dos outros. As mudanças sociais e

demográficas são importantes minas de oportunidades de

empreendedorismo. Isso ocorre por possibilitarem a alteração da

demanda por produtos e serviços e por proporcionarem igualmente

soluções para as necessidades dos clientes (BARON; SHANE,

2007).

Assim, pode-se dizer que aquilo que tem uma utilidade ou que

atende a uma necessidade pode tornar-se uma oportunidade.

Portanto, é importante partir da premissa de que as oportunidades

são, por sua vez, advindas das necessidades humanas. Essas

necessidades podem ser do próprio empreendedor ou de outros que

estão a sua volta. Assim, conhecendo bem essas necessidades,

será possível localizar lacunas, nichos e focos pouco descobertos

(CASTELO BRANCO; SCHNEIDER, 2012).

Dessa forma, o empreendedorismo por oportunidade é a vontade

de valer-se de uma oportunidade existente no mercado por meio da

concepção de um negócio. Assim diferentemente do

empreendedorismo por necessidade, que demanda imediatismo, o

empreendedorismo por oportunidade preza pela análise da ideia e

do ambiente, pelo planejamento das estratégias. Após esse

processo, o empreendedor busca a inovação para conseguir um

diferencial e assim alcançar seu objetivo, que é gerar emprego e

renda (LEMES JÚNIOR; PISA, 2010). Nessa perspectiva, Filion

(1999, p. 19) afirma que

 

[...] o empreendedor caracteriza-se por ser uma pessoa criativa, marcada

pela capacidade de estabelecer e atingir objetivos e que mantém alto nível

de consciência do ambiente em que vive, usando-a para detectar

oportunidades de negócios. Um empreendedor que continua a aprender a

respeito de possíveis oportunidades de negócios e a tomar decisões

moderadamente arriscadas que objetivam a inovação, continuará a

desempenhar um papel empreendedor.

 

Para Degen (2008), o empreendedorismo motivado por

oportunidade consegue gerar um maior impacto no crescimento

econômico de um país. Isso porque os empreendedores estão mais

bem preparados, desenvolvem seus negócios utilizando inovações e tecnologias recentes. Assim, muitos desses negócios apresentam

um potencial elevado do que o autor denomina de “crescimento

sustentado”. Dessa maneira, esse tipo de empreendedorismo

consegue gerar maiores índices de emprego e riqueza.

Para Castelo Branco e Schneider (2012), o empreendedorismo

por oportunidade é respaldado na análise do ensejo, de modo que

as decisões são mais planejadas, influenciadas pela razão e pela

vontade de empreender. Portanto, nesse tipo de

empreendedorismo, são realizados estudos de mercado, análise de

tendências, de demandas, para detectar as oportunidades.

Outro aspecto importante é que, diferentemente do

empreendedorismo por necessidade, esse tipo de

empreendedorismo está mais presente nos países desenvolvidos.

Para entender como o empreendedorismo pode influenciar e afetar

o desenvolvimento econômico de um país e ser até mesmo

predominante em países desenvolvidos, Sarfati (2013) enumera três

estágios de desenvolvimento econômico: o estágio movido por

fatores de produção, o estágio movido pela eficiência e o estágio

movido pela inovação.

No estágio movido pelos fatores de produção, são encontradas as

atividades com baixos índices de desenvolvimento econômico,

presentes no setor agrícola e nos chamados empreendedores “estilo

de vida”, que são as pessoas que empreendem para suprir a

necessidade. Já no estágio de eficiência, há predominância na

produção de mercadorias tendo um baixo número de empresas

prestadoras de serviço. Assim, esse estágio é marcado pela

industrialização e pela busca de fazer (produzir) mais com menos

(recursos). E, no estágio movido pela inovação, prevalecem as

atividades pautadas no conhecimento e na informação voltadas para

a qualidade de produtos e serviços, sendo sinônimas do

empreendedorismo (SARFATI, 2013). De acordo com tais

considerações, é notório que o empreendedorismo tem um papel

fundamental na economia de países movidos pela inovação

(desenvolvidos), pois as atividades são pautadas no

desenvolvimento pessoal, de serviços e de educação.

Considerando a perspectiva da realidade nacional, os resultados

obtidos pelo GEM (2013) demonstraram que o empreendedorismo vem crescendo ano após ano, tanto quantitativamente quanto

qualitativamente. Em 2002, primeiro ano em que o Brasil participou

da pesquisa, a taxa de empreendedorismo por oportunidade não

chegava a 43%; já em 2013, onze anos depois, a proporção de

empreendedores por oportunidade no país foi de 71,3%. Os

resultados de 2013 demonstraram que a relação

oportunidade/necessidade no Brasil era de 2,5, ou seja, dentre os

empreendedores iniciais, existiam 2,5 que começaram um negócio

por terem identificado uma oportunidade para cada empreendedor

por necessidade. Tal constatação “[...] indica a vitalidade dessa

atividade no Brasil, onde o empreendedorismo por oportunidade

continua sendo uma alternativa para milhões de brasileiros” (GEM,

2013).

Tendo como base sua pesquisa e os estudos do GEM (2010;

2011), Dornelas (2012) também argumenta que, no

empreendedorismo por oportunidade, o empreendedor tem definido

um objetivo. O empreendedor cria o negócio sabendo aonde deseja

chegar, possuindo uma visão de futuro, utilizando-se do

planejamento estratégico para conseguir gerar mais lucro e serviço.

 

6.4 Procedimentos metodológicos

 

Para alcançar o objetivo proposto, a entrevista semiestruturada foi

utilizada como instrumento de coleta para o referido trabalho. Para

tanto, o roteiro de entrevista foi estruturado em duas partes. Na

primeira parte, foram colhidas informações sobre os dados pessoais

do empreendedor e do empreendimento, tais como sexo (feminino/

masculino), idade, nível de escolaridade, atividade desenvolvida

pela empresa (comércio, serviço ou indústria). A segunda parte

continha 14 questões estruturadas a fim de obter as respostas dos

empreendedores conforme os objetivos específicos deste trabalho.

O roteiro de entrevista encontra-se no Apêndice deste trabalho.

Para realizar o estudo, foram contatados 20

microempreendedores individuais (MEIs) da cidade, cadastrados no

Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas

(Sebrae), para explicar o estudo e sua relevância, bem com solicitar-lhes a participação. Apesar do número crescente de

microempreendedores individuais no município de Aracati, a

entrevista foi realizada apenas com seis indivíduos. Isso se deveu à

indisponibilidade de tempo da maioria dos empreendedores para

participarem do estudo.

Dessa forma, a pesquisa do presente trabalho foi desenvolvida

com seis MEIs locais, sendo quatro MEIs com empreendimentos no

comércio, um na indústria e mais um na prestação de serviços.

Todos esses empreendimentos possuem dois anos ou mais de

abertura. Dentre os MEIs, três são do sexo masculino e três são do

sexo feminino, com idade entre 20 e 50 anos. Dos seis

entrevistados, um possui o ensino fundamental incompleto, dois

possuem o ensino médio completo, um é graduado em Letras, um

está cursando Administração e o outro Recursos Humanos. Por uma

questão de praticidade e melhor entendimento, cada entrevistado

será tratado pela letra E, que remete a empreendedor, seguido de

um número que vai de 1 a 6.

O E1 é do sexo masculino, tem 43 anos, possui o ensino médio

completo e trabalha na área de comércio de artigos de caça, pesca

e camping. Com quatro anos de empresa legalizada, o E1 tem,

como público-alvo, agricultores da região, uma clientela razoável,

porém fiel. O estabelecimento é próprio e está localizado no centro

da cidade, porém o espaço é pequeno para acomodar os inúmeros

produtos.

O E2 é do sexo feminino, tem 34 anos, possui graduação em

Letras e trabalha na área de comércio de vestuário e acessórios. A

empresa tem dois anos de legalização, o estabelecimento é

alugado, com um espaço agradável e organizado para atender ao

público feminino de todas as idades.

O E3 é do sexo masculino, tem 21 anos, está cursando o ensino

superior em Recursos Humanos e trabalha na área de comércio de

alimentos (lanchonete). Com um ano e nove meses de empresa

legalizada, o estabelecimento é localizado na residência do

empreendedor, não conta com uma estrutura organizada e atende

apenas às pessoas do bairro.

O E4 é do sexo masculino, tem 30 anos, está cursando o ensino

superior em Administração e trabalha na área de comércio de artigos de cama, mesa e banho e peças decorativas para o lar. A

empresa tem três anos e meio, está localizada em um ponto central

da cidade, com um espaço bem estruturado, planejado para atender

a todos os clientes com conforto e segurança.

O E5 é do sexo feminino, tem 47 anos, possui apenas o ensino

fundamental incompleto e trabalha na área de prestação de serviço,

como costureira. A empresa está legalizada há quatro anos e

funciona na residência da empreendedora, atendendo ao público em

geral.

O E6 é do sexo feminino, tem 38 anos, possui o ensino médio

completo e trabalha na área da indústria, com a fabricação de peças

artesanais. A empresa está funcionando há dois anos e três meses

em um centro de artesanato, com um espaço reduzido, porém

suficiente para atender aos clientes e expor, de forma satisfatória, as

peças produzidas. As informações até agora explanadas estão

resumidas no Quadro 5:

 

Quadro 5 – Caracterização dos sujeitos de pesquisa

Entrevistado Sexo Idade Escolaridade Atividade

desenvolvida

 

E1 Masculino 43 Ensino médio Comércio

completo

 

E2 Feminino 34 Ensino superior Comércio

completo

 

E3 Masculino 21 Ensino superior em Comércio

andamento

 

E4 Masculino 30 Ensino superior em Comércio

andamento

 

E5 Feminino 47 Ensino fundamental Serviço

completo

 

E6 Feminino 38 Ensino médio Indústria/

completo Comércio

Fonte: Elaboração própria (2015).

Na ocasião do primeiro contato, as entrevistas foram agendadas

com os seis que se dispuseram a participar. Tais entrevistas foram

realizadas com, no máximo, duas semanas após o primeiro contato,

no final do mês de julho de 2015, nos respectivos empreendimentos

dos empreendedores. E1 e E6 preferiram que acontecesse durante

a manhã, pois seria mais tranquilo e não haveria interrupções.

Embora E1 tenha escolhido o período da manhã pela tranquilidade

no comércio, a entrevista ainda foi interrompida por duas vezes, pois

havia clientes no empreendimento e não havia funcionário para

atendê-los. Já os outros quatro empreendedores escolheram o

período da tarde. As entrevistas tiveram uma duração entre 47 e 118

minutos. Apenas E4 estava acompanhado por uma pessoa da

família, mas que não interferiu na entrevista. Os demais estavam

sozinhos.

Para atingir os objetivos pretendidos, a pesquisa foi do tipo

qualitativa. Na pesquisa qualitativa, o conhecimento revela-se

mediante os aspectos relacionados à condição do sujeito. Minayo

(1996, p. 10) conceitua o método qualitativo como “[...] aquele capaz

de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como

inerentes aos atos, às relações, e às estruturas sociais, sendo essas

últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação,

como construções humanas significativas”.

Para o tratamento dos dados, recorreu-se a uma técnica chamada

de “análise de conteúdo”, sugerida por Bardin (1979, pg. 31), que a

define como

 

[...] um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter,

através de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo

das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam inferir

conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis

inferidas) dessas mensagens.

 

6.5 Apresentação e análise dos dados

 

A motivação para empreender por necessidade predomina em E3

e E5, visto que os respondentes afirmam que só resolveram criar a

empresa por não terem uma opção de trabalho, como fica evidente na fala de E3 (2015): “O que me fez abrir a lanchonete foi a

necessidade de poder me sustentar. Isso porque tinha acabado o

ensino médio e não tinha condições de me manter”. Da mesma

maneira, é evidente na fala de E5 (2015):

 

[...] estudei pouco, me casei cedo, tive meus filhos... [pausa]. Por não ter

estudo, não consegui um trabalho “direitinho”, que ajudasse nas contas. Daí,

como sempre costurei e tinha que ajudar meu marido nas contas e criar

meus meninos, uni as duas coisas. Depois de uns anos, com os filhos já

maiores, foi que eles resolveram abrir essa empresa.

 

Ao falar sobre a volta ao trabalho formal, é notória a vontade de

E3 em ingressar no mercado de trabalho formal: “[...] assim que

conseguir esse emprego, eu fecho a lanchonete e pronto. Quero

estabilidade, um porto-seguro, me firmar, estabelecer. E pra eu

conseguir isso, só com um trabalho, é lógico!”. Já E5 (2015) reflete

que, se estivesse em um emprego formal, poderia estar ganhando

mais. No entanto, devido à idade e à falta de estudos, acaba se

contentando com a situação atual, como é perceptível nesta sua

fala: “Num sei... [pausa para refletir] se eu tivesse estudado mais,

acho que podia até ganhar um ‘dinheirinho’ a mais, mas não deu.

Mas tá bom assim mesmo, as costuras tão aumentando”.

Os empreendedores E3 e E5 demonstram empreenderem por

necessidade devido a problemas financeiros e por não terem

opções melhores de emprego, o que vai ao encontro do ponto de

vista de Dornelas (2012) e do GEM (2011). Dornelas (2012) defende

que o indivíduo que se lança na jornada empreendedora por falta de

alternativa e/ ou pelo desemprego é um empreendedor por

necessidade. Também existem evidências, no discurso desses

entrevistados, de disputa entre a vontade de crescer e a de

ingressar no mercado formal (MENDES, 2009). Outra característica

perceptível na fala de E5 e que representa o empreendedorismo por

necessidade é a deficiência da educação e do treinamento da

população, que acaba inibindo o desenvolvimento das

características empreendedoras (DEGEN, 2008).

Além disso, os empreendimentos de E3 e E5 não oferecem ou

apresentam perspectiva de geração de emprego. Para E3: “[...] isso

pra mim é um ‘bico’, quando arranjar um emprego eu vou fechar a empresa. Por isso, não penso em crescer ou colocar outras pessoas

pra trabalhar aqui. Até porque mal consigo dinheiro pra mim que dirá

pra mais gente, né?”. E E5 diz: “Espero ainda ‘tá’ costurando muitas

peças, do meu jeito e em casa. Quero trabalhar até onde puder, mas

só eu mesma. Não sou uma pessoa ambiciosa, sabe? Quero só

ajudar minha família”.

No outro extremo, a motivação para empreender por oportunidade

está evidente nas falas de E2 e E4. Ao serem perguntados sobre a

motivação para criar a empresa, os entrevistados responderam que

sempre tiveram o sonho de ter seu próprio negócio, como no relato:

 

Tudo começou por eu ter vontade de ter meu negócio próprio, de ter um

espaço pra vender, uma coisa minha, sabe? [...] Bom, mesmo com o

emprego de professora e o ‘bico’ como cabelereira nas horas vagas, a renda

era pequena. Então, peguei um dinheiro emprestado com uma pessoa da

família, aluguei um ponto comercial, comprei algumas peças de vestuário e

uns acessórios e comecei meu sonho (E2, 2015).

 

Da mesma forma, E4 (2015) relata: “Eh... [pausa para reflexão] o

que motivou a gente a abrir o negócio foi a insatisfação com nosso

trabalho na época. [...] Fora essa questão, a gente tinha vontade de

ter nosso negócio”.

Outro aspecto que confirma que E2 e E4 apresentam o perfil do

empreendedor por oportunidade é quando falam sobre o trabalho

formal. Ambos demonstram, em seus discursos, não terem vontade

de voltar ao trabalho formal e à condição de empregado.

 

Bem... [pausa para reflexão] a loja ainda é pequena se comparada com

outras da cidade, mas estou satisfeita com o que ela me proporciona

mensalmente. Além de “tá” feliz por realizar meu sonho, “tô” ganhando mais

do que no tempo de escola. Por isso, não penso em voltar ao trabalho formal

[...] (E2, 2015).

 

Para E4, a satisfação em ter seu próprio negócio é enorme. Ele

acrescenta que “posso conciliar horários, lazer, família e

independência financeira” (E4, 2015).

Os empreendedores E2 e E4 empreenderam por meio do

reconhecimento de uma oportunidade, pela decisão de seguir em

frente e conseguir recursos, pela criação do negócio, pela construção do sucesso e pela coleta de recompensas (BARON E

SHANE, 2007). Além disso, os entrevistados empreenderam,

mesmo possuindo uma alternativa de emprego, movidos pela

vontade de independência e para manter ou aumentar a renda

(GEM, 2011).

Também é perceptível, nos dois entrevistados, E2 e E4, a análise

da ideia e do ambiente, por meio de estratégias, resultando em

decisões influenciadas pela razão, para conseguir gerar emprego e

renda, como retratado por Lemes Júnior e Pisa (2010) e Castelo

Branco e Schneider (2012). A visão de futuro para o negócio

também é evidente, ou seja, o empreendedor por oportunidade

inicia a empresa sabendo aonde deseja chegar (DORNELAS, 2012).

Contudo, os empreendedores E1 e E6 apresentam características

predominantes tanto no empreendedorismo por oportunidade

quanto no empreendedorismo por necessidade. Isso porque ambos

os entrevistados iniciaram seus negócios pela necessidade de se

sustentarem, mas, no decorrer do negócio, inovaram, aproveitaram

chances e empreenderam por oportunidade. A falta de vontade em

possuir um negócio próprio está presente no discurso de E1 (2015),

que relatou: “[...] quero ser empregado e ter tranquilidade do que ter

as responsabilidades e problemas de um patrão”. E E6 afirma: “[...]

as coisas aconteceram de uma forma muito, como eu posso falar...

repentina. Mas por eu ter que pagar meus remédios, minhas

despesas, me manter, eu uni o útil ao agradável [...] daí surgiu a

oportunidade de trabalhar no centro de artesanato, montar uma

lojinha”.

O discurso evidencia que os entrevistados E1 e E6 iniciaram seus

negócios por necessidade, ou seja, por precisarem pagar suas

contas, se sustentarem. Porém, também há evidências de que os

dois entrevistados acabaram empreendendo por aproveitarem uma

oportunidade, como é perceptível quando E1 conta que: “Daí, resolvi

deixar o ramo de alimentos e vender produtos pra agricultores,

ferramentas em geral. Como conhecia muita gente e via a falta de

produtos com preço mais em conta e de qualidade, eu resolvi

montar meu negócio”. Já E6, aproveitou a oportunidade de montar

seu negócio no centro de artesanato. O que demonstra a coragem e

a ousadia para arriscar, como é perceptível nesta fala: “Quando sai do emprego e me recuperei do acidente, comecei a bordar e vender

umas peças. Foi aí que surgiu a oportunidade de trabalhar no centro

de artesanato e não pensei duas vezes. Agarrei a chance e montei

minha lojinha”.

Em síntese, por meio das entrevistas, foi possível classificar os

empreendedores quanto à motivação para empreender

(necessidade ou oportunidade) defendida pelo GEM. O

empreendedorismo por necessidade prevaleceu nos entrevistados

E3 e E5, que empreenderam por não terem alternativa de renda e

emprego formal. Já E2 e E4 empreenderam por oportunidade, ou

seja, esses empreendedores tinham o desejo de independência, a

vontade de possuir o negócio próprio e aproveitaram oportunidades

para empreender. No meio termo, estão E1 e E6, pois ambos

começaram a empreender por necessidade, mas, no decorrer do

negócio, perceberam alguma oportunidade ou inovaram no

produto/serviço ofertado. A classificação dos empreendedores

quanto à motivação e suas características até agora explanadas

estão resumidas no Quadro 6:

 

Quadro 6 – Classificação dos sujeitos de pesquisa quanto à

motivação para empreender

Entrevistado Tipo de empreendedor Características

 

E1 Empreendedor por -falta de emprego

necessidade / portunidade formal;

-percepção de uma

oportunidade;

-coragem e ousadia

para arriscar;

 

Fonte: Elaboração própria (2015).

Entrevistado Tipo de empreendedor Características

 

E2 Empreendedor por -possuía um trabalho

oportunidade formal;

-vontade de ter o

próprio negócio;

-satisfação com a

renda;

-empregado de

carteira assinada;

 

E3 Empreendedor por -falta de emprego

necessidade formal;

-vontade de ser

empregado;

 

E4 Empreendedor por -possuía um trabalho

oportunidade formal;

-vontade de ter o

próprio negócio;

-satisfação com a

renda;

-empregado de

carteira assinada;

 

E5 Empreendedor por -suprir as

necessidade necessidades

familiares;

-falta de qualificação;

 

E6 Empreendedor por -falta de emprego

necessidade / Oportunidade formal;

-percepção de uma

oportunidade;

-coragem e ousadia

para arriscar.

Fonte: Elaboração própria (2015).

Para analisar as ações desenvolvidas pelos empreendedores,

foram estabelecidos cinco fatores: legalização da empresa, geração

de emprego, vontade de crescimento da empresa, inovação e

geração de renda.

No fator legalização da empresa, constatou-se que todos os

entrevistados estão formalizados na condição de MEI, por estarem

cientes de que é uma forma simplificada de empresa, mas com

inúmeros benefícios. E1 (2015) explica que aderiu à legalização “[...]

Porque tanto eu podia comprar meus produtos direto da empresa,

com preço mais barato e ainda contribuir pra aposentadoria [...]”.

Para E2 (2015), com a formalização da empresa, foi possível

conseguir “[...] o alvará de funcionamento, pago previdência e agora

assinei a carteira de uma funcionária”. Já E4 (2015) enfatiza que

reconhece a importância de ter um negócio legalizado para poder

comprar seus produtos.

Como a categoria de empresa em estudo é o MEI, forma mais

simples de empresa, o empreendedor só tem a possibilidade de

registrar um funcionário. Assim, em relação à geração de emprego,

apenas E2 e E4 confirmaram ter utilizado esse benefício, como

podemos perceber na fala de E2 (2015): “[...] e recentemente

assinei a carteira de uma funcionária” e na de E4 (2015): “[...] e

assinei a carteira da minha mulher [...]”. Já E6 pretende, em um

futuro próximo, contratar um funcionário.

Quanto à vontade de crescimento da empresa, E3 e E5 não

demostraram interesse ou empenho para que a empresa pudesse

crescer. Como afirma E3 (2015), “[...] a empresa só vai ficar aberta

enquanto eu não arranjar um emprego”. De forma oposta, os demais

entrevistados (E1, E2, E4, e E6), ao falarem de como imaginam sua

empresa daqui a cinco anos, demonstraram uma perspectiva de

crescimento e desenvolvimento. E1 (2015) pretende “[...] comprar

um ponto comercial pra família toda trabalhar comigo”. Da mesma

forma, E2 (2015) acrescenta que “[...] também quero abrir uma loja,

mesmo que menor, em uma cidade aqui vizinha”. E de maneira

parecida, porém de forma mais estruturada, E4 diz que “pretendo

aumentar a empresa, virar uma microempresa, contratar mais um

funcionário, abrir outra loja para vender tanto as peças quanto os

móveis para a casa”. Já E6 (2015) comenta que “[...] fico imaginando minha lojinha cheia de produtos, uma pessoa me

ajudando e também penso em ter outra lojinha no centro”.

O quesito inovação foi o mais deficiente, pois apenas E2 destacou

formas inovadoras que sua empresa utiliza para conquistar e

fidelizar seus clientes:

 

Eh...[pausa para pensar] existem muitas lojas na cidade e o produto acaba

ficando defasado. Por isso, a gente criou algumas formas de atrair nossas

clientes. Por exemplo, temos uma página no facebook, onde a gente toda

semana coloca fotos das peças. Também quando chega algo novo, como

roupas e acessórios, a gente liga pras clientes mais assíduas. Ah...criamos o

cartão felicidade, que funciona assim: depois de um número x de peças, a

cliente ganha uma roupa e um acessório da loja. Buscamos fazer sorteios.

Isso tudo ajuda a divulgar a loja e chamar mais clientes (E2, 2015).

 

Por último, a geração de renda proporcionada pela empresa é

satisfatória para E2 e E4. O entrevistado E2 (2015) afirma: “Bem a

loja ainda é pequena se comparada com outras da cidade, mas

estou satisfeita com o que ela me proporciona mensalmente”.

Igualmente, E4 (2015) relata: “[...] estou satisfeito com o que

construímos. Posso conciliar horários, lazer, família e independência

financeira”.

Assim, os cinco critérios (legalização da empresa, geração de

emprego, vontade de crescimento da empresa, inovação e geração

de renda) estabelecidos foram fundamentais para analisar a relação

entre a motivação e ação de empreender. Todos os entrevistados

estão formalizados na condição de MEI. Já em relação à geração de

emprego, apenas E2 e E4 confirmaram ter utilizado esse benefício e

E6 disse pretender contratar um funcionário. Quanto à vontade de

crescimento da empresa, é notória a falta de interesse apenas de

E3 e de E5. No que diz respeito à inovação, há uma grande

deficiência, pois esse fator só é utilizado por E2. E a geração de

renda, por sua vez, é considerada satisfatória por E2 e E4. A

classificação dos empreendedores quanto à motivação e as ações

desempenhadas para o desenvolvimento estão resumidas no

Quadro 7:

 

Quadro 7 – Relação entre a motivação para empreender dos

sujeitos de pesquisa e suas ações

 

Entrevistado Motivação Ações para o desenvolvimento

local

 

E1 Necessidade/ -Não há geração de emprego;

oportunidade -Satisfação com o negócio;

-Pretensão em expandir o negócio

e torná-lo familiar.

 

E2 Oportunidade -Geração de emprego;

-Renda satisfatória;

-Expansão e crescimento do

negócio.

 

E3 Necessidade -Não há geração de emprego;

-A renda é insatisfatória;

-Não há pretensão em continuar no

negócio.

 

E4 Oportunidade -Geração de emprego;

-Renda satisfatória;

-Expansão e crescimento do

negócio.

 

E5 Necessidade -Não há geração de emprego;

-Não há pretensão em expandir o

negócio;

 

E6 Necessidade/ -Não há geração de emprego;

oportunidade -Renda satisfatória;

-Pretensão em expandir o negócio.

 

Fonte: Elaboração própria (2015).

 

6.6 Considerações finais

Por meio da entrevista com os empreendedores, foi possível

classificá-los de acordo com a motivação para empreender, por

oportunidade ou por necessidade, apresentada no GEM (2010,

2011, 2013). O empreendedorismo por necessidade prevaleceu nos

entrevistados E3 e E5, que empreendem por falta de um trabalho e

renda, na forma de emprego formal. Já E2 e E4 empreendem por

oportunidade, ou seja, esses empreendedores gostam de possuir o

próprio negócio e buscam reconhecer oportunidades para

empreender. No meio termo, estão E1 e E6, pois ambos começaram

a empreender por necessidade, mas, atualmente, começam a

identificar e explorar oportunidades ou a inovar no produto/serviço

ofertado, ainda que de forma incipiente.

Todos os entrevistados estão formalizados na condição de MEI.

Os empreendedores motivados pela necessidade, E3 e E5, não são

geradores de emprego e a renda não é considerada satisfatória.

Essa afirmação deve-se à vontade dos empreendedores de

conseguir um trabalho formal, o que também evidencia a falta de

interesse em expandir o negócio. Por sua vez, os empreendedores

por oportunidade, E2 e E4, possuem um empregado de carteira

assinada, o que indica que ambos são geradores de emprego. A

renda originada pela empresa é considerada satisfatória pelos

empreendedores E2 e E4. No entanto, o fator inovação está

presente apenas na empresa de E2, porém isso não anula a

vontade desses empreendedores de crescer e expandir o negócio.

Na zona de transição entre o empreendedorismo por necessidade e

o empreendedorismo por oportunidade, estão os entrevistados E1 e

E6. E1 pretende expandir seu negócio, visando ao crescimento da

empresa e a uma maior geração de renda e E6 cogita a

possibilidade de contratar um funcionário e assim gerar emprego.

Em síntese, os entrevistados por oportunidade, E2 e E4, são

geradores de emprego, a renda produzida pela empresa impulsiona

o seu crescimento, bem como a busca constante por oportunidades

e inovação. De forma diferente, os empreendedores por

necessidade, E3 e E5, mantêm o empreendimento apenas para

suprir suas necessidades financeiras, gerando renda insuficiente

para sustentar a si e a suas famílias e sem perspectiva de gerar

emprego e renda para outros. Com base nos resultados encontrados, foi perceptível que eles corroboram com o que é

defendido pelo GEM (2010, 2011, 2012, 2013); ou seja, que as

ações dos empreendedores por oportunidade são mais benéficas e

significativas para o desenvolvimento econômico que as daqueles

que empreendem por necessidade.

Neste estudo, foi possível constatar que tanto o

empreendedorismo movido por necessidade quanto o movido por

oportunidade estão presentes nos empreendimentos aracatienses.

Ademais, os resultados deste estudo confirmam, ainda que

embrionariamente, o que é defendido pelo GEM (2010, 2011, 2013).

Dessa forma, foi possível constatar que os aracatienses que

empreendem por oportunidade; em outras palavras, que identificam

uma oportunidade de negócio, analisam a ideia, fazem pesquisa de

mercado, possuem o desejo de ter o próprio negócio e de

independência financeira; contribuem mais para a economia local

por gerarem emprego e renda e por terem perspectivas de

crescimento. O que ocorre inversamente com os empreendedores

por necessidade, que, por sua vez, empreendem pela falta de opção

de trabalho formal, de forma não planejada e sem perspectivas de

crescimento.

Vale salientar que esse estudo foi considerado embrionário,

devido as suas limitações, em especial no que diz respeito ao

número de participantes, bem inferior ao previsto. Ademais, por

tratar-se de um estudo de caráter qualitativo, devido a sua natureza,

não possibilita a inferência/generalização dessas informações para

outro contexto. No entanto, não obstante as suas limitações,

contata-se a relevância do empreendedorismo por oportunidade

nesse contexto específico, bem como da importância do papel do

empreendedor no desenvolvimento econômico e social, pela

geração de emprego e renda para o município.

Para estudos futuros, sugere-se ampliar o número de

entrevistados para conseguir um maior aprofundamento da análise.

Como sugestão, também seria interessante utilizar uma amostra de

empreendedores classificados com um porte de faturamento maior,

como, por exemplo, os microempresários (MEs), ou até mesmo

fazer um comparativo de acordo com o setor/atividade de cada

empreendedor. Ou ainda analisar a relação da motivação para empreender com aspectos pessoais como idade, sexo e grau de

instrução. Por fim, outra sugestão é a replicação deste estudo com

uma abordagem quantitativa.

 

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SCHUMPETER, J. A teoria do desenvolvimento econômico. São

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Apêndice - roteiro de entrevista

 

Sexo: _______

 

Idade: _______

 

Nível de escolaridade: _______

 

Atividade desenvolvida pela empresa: _______

 

1. O que motivou a criação da empresa?

2. Você foi induzido a empreender por alguém (família, amigos,

instituições)?

3. Por que decidiu legalizar sua empresa?

4. Trabalhava em algum lugar quando decidiu iniciar seu negócio?

E atualmente, trabalha em algum lugar além de seu negócio?

5. Você tem a intenção/vontade de retornar ao mercado de

trabalho formal como um empregado?

6. Se você estivesse como empregado em uma empresa, acredita

que estaria ganhando mais do que como dono da sua própria

empresa?

7. Você realizou alguma pesquisa de mercado, analisou ideias de

negócio ou fez um planejamento antes de iniciar sua empresa?

8. Você considera que tem competência necessária para gerenciar

seu negócio?

9. Busca participar de cursos que o ajudem nesse gerenciamento

do negócio?

10. Você se considera um ser empreendedor? Por quê?

11. Você considera que os produtos/serviços que oferece são

inovadores? Por quê?

12. Você está atento às oportunidades do mercado ou procura não

dar importância para elas?

13. Ao identificar uma oportunidade de negócio (seja no sentido de

ofertar um novo produto/serviço ou de expandir a empresa),

você arrisca, mesmo sabendo das incertezas dessa decisão ou

não busca correr riscos, deixa a chance passar?

14. Daqui a cinco anos, como você imagina que sua empresa

esteja no mercado?