Empreendedorismo no semiárido
Capítulo 6 – Relação entre a motivação para empreender dos empreendedores aracatienses e suas ações para o desenvolvimento da economia local
Capítulo 6 – Relação entre a
motivação para empreender
dos empreendedores
aracatienses e suas ações para
o desenvolvimento da
economia local
Sophia Caroline da Costa Soares, Suely Xavier dos Santos,
Agostinha Mafalda Barra de Oliveira
6.1 Introdução
O empreendedorismo ganha cada vez mais destaque no âmbito
mundial. Por isso, apresenta-se como um fator fundamental para
aquecer o mercado e gerar, com isso, negócios que buscam criar e
melhorar produtos e/ou serviços para atender a necessidades, bem
como propiciar mais emprego e renda. Como afirma Dornelas (2001,
p. 24), “[...] o empreendedorismo é o combustível para o
crescimento econômico, criando emprego e prosperidade”.
Nesse contexto, estudos têm sido desenvolvidos para mensurar
os impactos causados pelo empreendedorismo no desenvolvimento
econômico. Um deles é a pesquisa anual do Global
Enterpreneurship Monitor (GEM). Essa pesquisa foi realizada, pela
primeira vez, em 1999, com a participação de 10 países. Desde
então, já obteve a participação de quase 100 países, em momentos
diferentes. Em 2015, contou com a participação de 60 países (GEM,
2015). Acredita-se que isso se deva ao fato de que essa pesquisa
vem sendo considerada a maior sobre empreendedorismo, em nível mundial, com o objetivo de entender a função deste no
desenvolvimento econômico dos países participantes.
O GEM (2010) classifica o empreendedorismo, quanto à
motivação para empreender, em: empreendedorismo por
necessidade e empreendedorismo por oportunidade, e defende que
o empreendedorismo por oportunidade contribui mais para o
desenvolvimento econômico de um país. No entanto, não há
estudos empíricos alheios ao GEM que comprovem essa premissa.
Por isso, faz-se necessário um estudo visando comprovar se o
empreendedorismo por oportunidade tem uma contribuição maior
para o desenvolvimento econômico de uma localidade que o
empreendedorismo por necessidade.
Pelo exposto, este trabalho pretende realizar tal comprovação no
município de Aracati. Essa escolha deveu-se à importância que o
município, com aproximadamente 72 mil habitantes, teve e ainda
tem no cenário econômico e social do estado e do país. O município
de Aracati, região Leste do Estado do Ceará, está localizado a
aproximadamente 150 km da capital Fortaleza e possui uma
população de 72.248 pessoas (INSTITUTO BRASILEIRO DE
GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA [IBGE] CIDADES, 2014). Sua base
econômica é situada nas atividades comerciais e industriais, tendo a
pesca de crustáceos, o turismo receptivo, o cultivo de algumas
frutas, como o caju e melão, e a extração petrolífera como principais
destaques para o desenvolvimento econômico da cidade
(ARACATINET, 2009). A cidade também é bastante conhecida pelas
belezas de suas praias, como Canoa Quebrada e Majorlândia, que
recebem milhares de turistas em várias épocas do ano, bem como
pelo histórico arquitetônico presente nos azulejos dos casarões e
em suas igrejas barrocas.
Para tanto, estabelece-se, como objetivo geral deste trabalho,
analisar a relação entre a motivação para empreender dos
empreendedores aracatienses e suas ações para o
desenvolvimento da economia local. E, como objetivos específicos:
classificar os empreendedores, em relação a sua motivação para
empreender, em por oportunidade ou por necessidade; verificar as
ações desenvolvidas e pretendidas de cada empreendedor, que
contribuem para o desenvolvimento da economia local; verificar se há diferenças significativas entre as ações desenvolvidas pelos
empreendedores por oportunidade e os empreendedores por
necessidade.
Nos dois tópicos seguintes, será apresentada uma breve explana-
ção sobre a relação do empreendedorismo com o desenvolvimento
econômico de um país e um detalhamento em relação à
classificação da motivação para empreender do GEM, seguidos dos
tópicos de procedimentos metodológicos, apresentação e análise
dos dados e considerações finais.
6.2 Importância do
empreendedorismo para o
desenvolvimento da economia
O empreendedorismo vem desempenhando um papel de
relevância para o progresso econômico. Isso se deve à ação do
agente do empreendedorismo, o empreendedor. A contribuição do
empreendedor é pautada pela concorrência estabelecida no
mercado e pela inovação. Schumpeter (1983) argumenta que o
empreendedor, indivíduo responsável pelo processo de destruição
criativa, é quem impulsiona e aquece o chamado capitalismo, por
meio da criação de novos produtos/serviços, novas técnicas de
produção e de distribuição, que são utilizados como uma forma de
excluir os métodos ineficientes tanto em relação ao tempo quanto ao
custo.
Nesse sentido, é notório que o empreendedorismo vem
desempenhando um papel de destaque no aquecimento econômico,
como gerador de emprego e renda e de inovação contínua para o
mercado. Como afirma Drucker (2005), o empreendedorismo é um
fenômeno cultural, econômico e tecnológico. Sendo assim, é o
impulsionador da economia, pois gera emprego e renda, ajuda a
desenvolver pesquisas e estimula o desenvolvimento nos âmbitos
local e nacional.
Em termos mais operacionais, de acordo com o GEM (2015, p. 7),
empreendedorismo refere-se a: “[...] qualquer tentativa de criação de
um novo empreendimento, como, por exemplo, uma atividade
autônoma, uma nova empresa ou a expansão de um
empreendimento existente.”
Na área de pesquisa, o empreendedorismo surge como estímulo
para docentes e discentes de instituições de ensino, especialmente
as de nível superior, desenvolverem pesquisas sobre a cultura
empreendedora, sobre as necessidades dos próprios
empreendedores e sobre a contribuição das ações do
empreendedorismo para o crescimento econômico do país. Assim, o
empreendedorismo é o fomento para a criação de empresas
inovadoras de cunho tecnológico (incubadoras e parques), para a
realização de estudos viáveis à sociedade e para a construção de
projetos que promovem o desenvolvimento do mercado de risco.
Com o grande número de empresas que vem surgindo, é
imprescindível oferecer, além de qualidade, um produto inovador,
que surpreenda e deixe satisfeito o consumidor para agregar valor e
diminuir a paridade entre as empresas. Dessa maneira, a inovação
tecnológica vem se destacando por estar diretamente relacionada
com o empreendedorismo no desenvolvimento econômico.
Nesse ambiente de inovação tecnológica, as pequenas e médias
empresas (PMEs) se destacam, passando a oferecer o maior
número de empregos e a concorrerem no mercado local, no
nacional e, até mesmo, no internacional (DOLABELA, 1999). Assim,
o empreendedorismo assume o papel de captar os recursos
disponíveis para o desenvolvimento e utilizá-los de forma eficiente
para gerar valor. Dessa forma, o empreendedorismo age tanto no
desenvolvimento local, em nível regional, quanto em nível nacional.
Segundo Dornelas (2001, p. 40), o desenvolvimento econômico
“[...] é dependente de quatro fatores críticos, que devem ser
analisados, para então se entender o processo empreendedor”. Os
quatro fatores críticos para o autor seriam o talento, a tecnologia, o
capital e o know-how, elementos fundamentais para empreender e
obter um negócio de sucesso.
O talento diz respeito às características empreendedoras
presentes no indivíduo, como percepção, senso de direção, dedicação, espírito inovador e as habilidades/competências para
lidar com as adversidades que o negócio irá proporcionar.
Juntamente com o talento, a tecnologia apresenta um papel
importante para que o processo empreendedor possa acontecer.
A tecnologia, que é o conjunto de técnicas, instrumentos,
métodos, tem como objetivo solucionar um problema, apresentando
um papel fundamental no âmbito da inovação. Fomentar a
tecnologia no processo empreendedor possibilita ao negócio
conquistar um diferencial para produzir produtos/serviços com maior
qualidade. Porém, para que esses recursos possam ser explorados
e revertidos em ações benéficas ao negócio, faz-se necessário
possuir um capital apropriado. Isso porque o capital será o
combustível para que tudo o que foi planejado possa ser
concretizado.
Outro fator de grande importância para o processo empreendedor
é o know-how. Essa expressão inglesa diz respeito à junção de
todos os conhecimentos (técnicas, habilidades, informações) que
venham agregar valor ao negócio e trazer vantagem competitiva
(DORNELAS, 2012).
Contudo, para avaliar o impacto que o empreendedorismo
acarreta no crescimento econômico, é indispensável considerar e
identificar a motivação para empreender. Devido a sua importância,
em especial para este estudo, o tópico seguinte será destinado a
tratar sobre a classificação do empreendedorismo quanto à
motivação para empreender.
6.3 Classificação do
empreendedorismo quanto à
motivação para empreender
De acordo com o GEM (2010), o empreendedorismo, quanto à
motivação, pode ser classificado em dois tipos: empreendedorismo
por necessidade e empreendedorismo por oportunidade. Essa foi a
classificação utilizada neste trabalho. Pelo exposto, os subtópicos seguintes detalham as características particulares desses dois tipos
de empreendedorismo.
6.3.1 Empreendedorismo por necessidade
O empreendedorismo por necessidade se dá por falta de opção
de emprego, não é baseado na identificação de novas chances, de
ideias inovadoras que possibilitem negócios diferenciados. Essa
forma de empreender está muito ligada à falta de emprego e renda,
sendo constatado que, no momento em que a oferta de trabalho
aumenta, o empreendedorismo por necessidade tende a diminuir
(GEM, 2010). Dessa forma, os agentes desse empreendedorismo,
os empreendedores por necessidade, são “[...] aqueles que iniciam
um empreendimento autônomo por não possuírem melhores opções
para o trabalho e então abrem um negócio a fim de gerar renda para
si e suas famílias.” (GEM 2011, p. 47).
O agente do empreendedorismo por necessidade é motivado, não
pela identificação de oportunidade, mas sim pela necessidade de
sobreviver. Por esse motivo, acaba desenvolvendo a atividade
empreendedora de forma não planejada e sem grandes
perspectivas. Para Dornelas (2012, p. 13), no empreendedorismo
por necessidade,
[...] o candidato a empreendedor se aventura na jornada empreendedora
mais por falta de opção, por estar desempregado e não ter alternativas de
trabalho. Nesse caso, esses negócios costumam ser criados informalmente,
não são planejados de forma adequada e muitos fracassam bastante rápido,
não gerando desenvolvimento econômico e agravando as estatísticas de
criação e mortalidade dos negócios.
Mendes aponta que (2009, p. 10), “[...] os empreendedores por
necessidade oscilam entre a vontade de vencer e a vontade de
voltar ao mercado de trabalho formal”. Lemes Júnior e Pisa (2010)
complementam que os empreendedores por necessidade
geralmente iniciam seu negócio de maneira informal.
Degen (2009) defende que, nos negócios iniciados por
necessidade, o empreendedor tende a trabalhar bem mais e ganhar menos que se estivesse em um emprego. Por esse motivo, só
recorre ao empreendedorismo por necessidade e ao auto emprego
como uma opção de sobrevivência, quando não há habilidades nem
competências para desempenhar um trabalho na forma de emprego
formal. Prova disso é que muitos deles, na primeira oportunidade de
se inserir no trabalho formal ou retornar a ele, não pensam duas
vezes para liquidar o seu negócio.
Em consequência, os negócios que começam motivados pela
necessidade podem ser classificados como medíocres. Geralmente,
esses negócios são considerados medíocres, porque apresentam
uma baixa lucratividade, bem como um crescimento restrito. São
negócios que não apresentam dificuldade para serem montados por
qualquer empreendedor e que nascem do excesso de demanda do
mercado. No entanto, precisam lidar com os riscos provindos do
negócio, principalmente devido à concorrência acirrada. Isso, por
sua vez, faz com que esse tipo de empreendedorismo cause pouco
impacto no crescimento econômico de um país. Além disso, devido
à criação de negócios sem inovação e com pouco ou nenhum
recurso tecnológico, os empreendimentos iniciados por necessidade
não oferecem uma boa perspectiva de geração de emprego e renda.
Dornelas (2012) e Lemes Júnior e Pisa (2010) afirmam que o
empreendedorismo por necessidade é predominante em países em
desenvolvimento. Tal afirmação se deve ao cenário de desemprego,
à falta de incentivos e de condições favoráveis para desenvolver a
atividade empreendedora, à ausência de qualificação dos
empreendedores para gerenciarem o negócio, bem como às
limitações para inserção no mercado de trabalho formal.
Em um cenário econômico caracterizado por um índice crescente
de desemprego estrutural, é notória a presença do
empreendedorismo por necessidade. Nesse sentido, Degen (2008,
p. 17) enfatiza que “[...] uma maior atividade empreendedora por
necessidade geralmente reflete uma situação de estagnação ou
crise econômica no país, a falta de empregos ou mesmo a redução
de empregos força as pessoas a empreender para sobreviver”.
Castelo Branco e Schneider (2012, p. 29) ainda acrescentam que
o empreendedorismo por necessidade “[...] é um tipo de
empreendedorismo com maior probabilidade de insucesso e que se mostra mais presente em sociedades com maior desequilíbrio
econômico e social”. Ou seja, à proporção que a economia, bem
como a sociedade do país entram em um estado de crescimento
compensado, esse tipo de empreendedorismo começa a ficar
menos evidente.
No entanto, também é importante ressaltar outros fatores que
geram ou impedem a atividade empreendedora em um país. Degen
(2008, p. 17) aponta que os fatores que inibem o desenvolvimento
do empreendedorismo são
[...] a educação e o treinamento da população, o número e a qualidade dos
centros de pesquisa e de tecnologia, a disponibilidade de capital de risco, a
profundidade do mercado, a existência de uma infraestrutura adequada e
uma legislação que facilite atividade empreendedora.
Ao analisar o empreendedor por necessidade de acordo com os
cinco fatores motivacionais desenvolvidos por Naffziger, Hornsby e
Kuratko (1994), é perceptível a ineficiência para desenvolver a
atividade empreendedora. O empreendedor por necessidade não
está disposto a correr riscos nem apresenta características que o
auxiliem na gestão e no crescimento do negócio. O indivíduo não
empreende por influência de terceiros, não esquematiza metas para
ampliação do negócio, muito menos avalia as influências que
poderão afetar o negócio, pois a necessidade de sobrevivência é a
sua motivação. Assim, nota-se que o empreendedorismo por
necessidade é feito de forma rápida e sem preparo, pois não há
preocupação para realizar um planejamento ou estudo sobre o
negócio.
Pelo exposto, de acordo com o GEM (2010), o empreendedorismo
por necessidade não é considerado o mais relevante para o
crescimento econômico de um país. Isso é devido à falta de
inovação e de recursos tecnológicos mais marcantes nos negócios
dessa natureza, o que caracteriza um atraso no desenvolvimento,
tanto no aspecto econômico quanto no social, gerando altos índices
de atividade informal e de mortalidade de empresas.
6.3.2 Empreendedorismo por oportunidade
Por outro lado, empreendedorismo por oportunidade ocorre
quando, mesmo havendo uma opção de trabalho, existe o desejo de
investir em uma ideia inovadora com o objetivo de independência
pessoal e financeira, além da necessidade de realização e de
autonomia. Assim, os empreendedores por oportunidade são
aqueles que “[...] optam por iniciar um novo negócio, mesmo quando
possuem alternativas de emprego e renda, ou ainda, para manter ou
aumentar sua renda pelo desejo de independência no trabalho.”
(GEM 2011, p. 47).
Esse tipo de empreendedorismo atende à visão de
empreendedorismo como um processo. Assim, as fases do
processo empreendedor são: o reconhecimento de uma
oportunidade, a decisão de ir em frente e reunir os recursos iniciais,
o lançamento do novo empreendimento, a construção do sucesso e
a coleta das recompensas. Essas fases do processo empreendedor
se desenvolvem continuamente ao longo do tempo, estando todas
interligadas (BARON; SHANE, 2007).
Ao considerar a primeira fase do processo de empreender como o
reconhecimento de uma oportunidade para criar algo novo é que a
atividade vem ganhando maior relevância no mercado e cada vez
mais adeptos, sejam práticos ou estudiosos sobre ela. Dolabela
(1999, p. 87) acrescenta que a oportunidade
[...] tem algo novo e atende a uma demanda dos clientes, representando um
nicho de mercado. Ela é atrativa, ou seja, tem potencial para gerar lucros,
surge em um momento adequado em relação a quem irá aproveitá-la – o que
a torna pessoal – é durável e baseia-se em necessidades insatisfeitas.
Segundo Baron e Shane (2007), os estudos respaldados nos
princípios de Schumpeter identificaram três fontes de oportunidade,
denominadas de: mudança tecnológica, mudança política ou de
regulamentos e mudança social e demográfica.
A mudança tecnológica é uma fonte de oportunidade, pois
possibilita que pessoas façam algo de forma mais inovadora e
eficiente. Por sua vez, as mudanças políticas ou de regulamentação
possibilitam a concepção de ideias a serem utilizadas para
remanejar os recursos de maneira inovadora, visando distribuir as
riquezas de uma pessoa para outra. Importante ressaltar que nem sempre esse tipo de mudança incrementa a produtividade, gerando
apenas o lucro à custa dos outros. As mudanças sociais e
demográficas são importantes minas de oportunidades de
empreendedorismo. Isso ocorre por possibilitarem a alteração da
demanda por produtos e serviços e por proporcionarem igualmente
soluções para as necessidades dos clientes (BARON; SHANE,
2007).
Assim, pode-se dizer que aquilo que tem uma utilidade ou que
atende a uma necessidade pode tornar-se uma oportunidade.
Portanto, é importante partir da premissa de que as oportunidades
são, por sua vez, advindas das necessidades humanas. Essas
necessidades podem ser do próprio empreendedor ou de outros que
estão a sua volta. Assim, conhecendo bem essas necessidades,
será possível localizar lacunas, nichos e focos pouco descobertos
(CASTELO BRANCO; SCHNEIDER, 2012).
Dessa forma, o empreendedorismo por oportunidade é a vontade
de valer-se de uma oportunidade existente no mercado por meio da
concepção de um negócio. Assim diferentemente do
empreendedorismo por necessidade, que demanda imediatismo, o
empreendedorismo por oportunidade preza pela análise da ideia e
do ambiente, pelo planejamento das estratégias. Após esse
processo, o empreendedor busca a inovação para conseguir um
diferencial e assim alcançar seu objetivo, que é gerar emprego e
renda (LEMES JÚNIOR; PISA, 2010). Nessa perspectiva, Filion
(1999, p. 19) afirma que
[...] o empreendedor caracteriza-se por ser uma pessoa criativa, marcada
pela capacidade de estabelecer e atingir objetivos e que mantém alto nível
de consciência do ambiente em que vive, usando-a para detectar
oportunidades de negócios. Um empreendedor que continua a aprender a
respeito de possíveis oportunidades de negócios e a tomar decisões
moderadamente arriscadas que objetivam a inovação, continuará a
desempenhar um papel empreendedor.
Para Degen (2008), o empreendedorismo motivado por
oportunidade consegue gerar um maior impacto no crescimento
econômico de um país. Isso porque os empreendedores estão mais
bem preparados, desenvolvem seus negócios utilizando inovações e tecnologias recentes. Assim, muitos desses negócios apresentam
um potencial elevado do que o autor denomina de “crescimento
sustentado”. Dessa maneira, esse tipo de empreendedorismo
consegue gerar maiores índices de emprego e riqueza.
Para Castelo Branco e Schneider (2012), o empreendedorismo
por oportunidade é respaldado na análise do ensejo, de modo que
as decisões são mais planejadas, influenciadas pela razão e pela
vontade de empreender. Portanto, nesse tipo de
empreendedorismo, são realizados estudos de mercado, análise de
tendências, de demandas, para detectar as oportunidades.
Outro aspecto importante é que, diferentemente do
empreendedorismo por necessidade, esse tipo de
empreendedorismo está mais presente nos países desenvolvidos.
Para entender como o empreendedorismo pode influenciar e afetar
o desenvolvimento econômico de um país e ser até mesmo
predominante em países desenvolvidos, Sarfati (2013) enumera três
estágios de desenvolvimento econômico: o estágio movido por
fatores de produção, o estágio movido pela eficiência e o estágio
movido pela inovação.
No estágio movido pelos fatores de produção, são encontradas as
atividades com baixos índices de desenvolvimento econômico,
presentes no setor agrícola e nos chamados empreendedores “estilo
de vida”, que são as pessoas que empreendem para suprir a
necessidade. Já no estágio de eficiência, há predominância na
produção de mercadorias tendo um baixo número de empresas
prestadoras de serviço. Assim, esse estágio é marcado pela
industrialização e pela busca de fazer (produzir) mais com menos
(recursos). E, no estágio movido pela inovação, prevalecem as
atividades pautadas no conhecimento e na informação voltadas para
a qualidade de produtos e serviços, sendo sinônimas do
empreendedorismo (SARFATI, 2013). De acordo com tais
considerações, é notório que o empreendedorismo tem um papel
fundamental na economia de países movidos pela inovação
(desenvolvidos), pois as atividades são pautadas no
desenvolvimento pessoal, de serviços e de educação.
Considerando a perspectiva da realidade nacional, os resultados
obtidos pelo GEM (2013) demonstraram que o empreendedorismo vem crescendo ano após ano, tanto quantitativamente quanto
qualitativamente. Em 2002, primeiro ano em que o Brasil participou
da pesquisa, a taxa de empreendedorismo por oportunidade não
chegava a 43%; já em 2013, onze anos depois, a proporção de
empreendedores por oportunidade no país foi de 71,3%. Os
resultados de 2013 demonstraram que a relação
oportunidade/necessidade no Brasil era de 2,5, ou seja, dentre os
empreendedores iniciais, existiam 2,5 que começaram um negócio
por terem identificado uma oportunidade para cada empreendedor
por necessidade. Tal constatação “[...] indica a vitalidade dessa
atividade no Brasil, onde o empreendedorismo por oportunidade
continua sendo uma alternativa para milhões de brasileiros” (GEM,
2013).
Tendo como base sua pesquisa e os estudos do GEM (2010;
2011), Dornelas (2012) também argumenta que, no
empreendedorismo por oportunidade, o empreendedor tem definido
um objetivo. O empreendedor cria o negócio sabendo aonde deseja
chegar, possuindo uma visão de futuro, utilizando-se do
planejamento estratégico para conseguir gerar mais lucro e serviço.
6.4 Procedimentos metodológicos
Para alcançar o objetivo proposto, a entrevista semiestruturada foi
utilizada como instrumento de coleta para o referido trabalho. Para
tanto, o roteiro de entrevista foi estruturado em duas partes. Na
primeira parte, foram colhidas informações sobre os dados pessoais
do empreendedor e do empreendimento, tais como sexo (feminino/
masculino), idade, nível de escolaridade, atividade desenvolvida
pela empresa (comércio, serviço ou indústria). A segunda parte
continha 14 questões estruturadas a fim de obter as respostas dos
empreendedores conforme os objetivos específicos deste trabalho.
O roteiro de entrevista encontra-se no Apêndice deste trabalho.
Para realizar o estudo, foram contatados 20
microempreendedores individuais (MEIs) da cidade, cadastrados no
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
(Sebrae), para explicar o estudo e sua relevância, bem com solicitar-lhes a participação. Apesar do número crescente de
microempreendedores individuais no município de Aracati, a
entrevista foi realizada apenas com seis indivíduos. Isso se deveu à
indisponibilidade de tempo da maioria dos empreendedores para
participarem do estudo.
Dessa forma, a pesquisa do presente trabalho foi desenvolvida
com seis MEIs locais, sendo quatro MEIs com empreendimentos no
comércio, um na indústria e mais um na prestação de serviços.
Todos esses empreendimentos possuem dois anos ou mais de
abertura. Dentre os MEIs, três são do sexo masculino e três são do
sexo feminino, com idade entre 20 e 50 anos. Dos seis
entrevistados, um possui o ensino fundamental incompleto, dois
possuem o ensino médio completo, um é graduado em Letras, um
está cursando Administração e o outro Recursos Humanos. Por uma
questão de praticidade e melhor entendimento, cada entrevistado
será tratado pela letra E, que remete a empreendedor, seguido de
um número que vai de 1 a 6.
O E1 é do sexo masculino, tem 43 anos, possui o ensino médio
completo e trabalha na área de comércio de artigos de caça, pesca
e camping. Com quatro anos de empresa legalizada, o E1 tem,
como público-alvo, agricultores da região, uma clientela razoável,
porém fiel. O estabelecimento é próprio e está localizado no centro
da cidade, porém o espaço é pequeno para acomodar os inúmeros
produtos.
O E2 é do sexo feminino, tem 34 anos, possui graduação em
Letras e trabalha na área de comércio de vestuário e acessórios. A
empresa tem dois anos de legalização, o estabelecimento é
alugado, com um espaço agradável e organizado para atender ao
público feminino de todas as idades.
O E3 é do sexo masculino, tem 21 anos, está cursando o ensino
superior em Recursos Humanos e trabalha na área de comércio de
alimentos (lanchonete). Com um ano e nove meses de empresa
legalizada, o estabelecimento é localizado na residência do
empreendedor, não conta com uma estrutura organizada e atende
apenas às pessoas do bairro.
O E4 é do sexo masculino, tem 30 anos, está cursando o ensino
superior em Administração e trabalha na área de comércio de artigos de cama, mesa e banho e peças decorativas para o lar. A
empresa tem três anos e meio, está localizada em um ponto central
da cidade, com um espaço bem estruturado, planejado para atender
a todos os clientes com conforto e segurança.
O E5 é do sexo feminino, tem 47 anos, possui apenas o ensino
fundamental incompleto e trabalha na área de prestação de serviço,
como costureira. A empresa está legalizada há quatro anos e
funciona na residência da empreendedora, atendendo ao público em
geral.
O E6 é do sexo feminino, tem 38 anos, possui o ensino médio
completo e trabalha na área da indústria, com a fabricação de peças
artesanais. A empresa está funcionando há dois anos e três meses
em um centro de artesanato, com um espaço reduzido, porém
suficiente para atender aos clientes e expor, de forma satisfatória, as
peças produzidas. As informações até agora explanadas estão
resumidas no Quadro 5:
Quadro 5 – Caracterização dos sujeitos de pesquisa
Entrevistado Sexo Idade Escolaridade Atividade
desenvolvida
E1 Masculino 43 Ensino médio Comércio
completo
E2 Feminino 34 Ensino superior Comércio
completo
E3 Masculino 21 Ensino superior em Comércio
andamento
E4 Masculino 30 Ensino superior em Comércio
andamento
E5 Feminino 47 Ensino fundamental Serviço
completo
E6 Feminino 38 Ensino médio Indústria/
completo Comércio
Fonte: Elaboração própria (2015).
Na ocasião do primeiro contato, as entrevistas foram agendadas
com os seis que se dispuseram a participar. Tais entrevistas foram
realizadas com, no máximo, duas semanas após o primeiro contato,
no final do mês de julho de 2015, nos respectivos empreendimentos
dos empreendedores. E1 e E6 preferiram que acontecesse durante
a manhã, pois seria mais tranquilo e não haveria interrupções.
Embora E1 tenha escolhido o período da manhã pela tranquilidade
no comércio, a entrevista ainda foi interrompida por duas vezes, pois
havia clientes no empreendimento e não havia funcionário para
atendê-los. Já os outros quatro empreendedores escolheram o
período da tarde. As entrevistas tiveram uma duração entre 47 e 118
minutos. Apenas E4 estava acompanhado por uma pessoa da
família, mas que não interferiu na entrevista. Os demais estavam
sozinhos.
Para atingir os objetivos pretendidos, a pesquisa foi do tipo
qualitativa. Na pesquisa qualitativa, o conhecimento revela-se
mediante os aspectos relacionados à condição do sujeito. Minayo
(1996, p. 10) conceitua o método qualitativo como “[...] aquele capaz
de incorporar a questão do significado e da intencionalidade como
inerentes aos atos, às relações, e às estruturas sociais, sendo essas
últimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua transformação,
como construções humanas significativas”.
Para o tratamento dos dados, recorreu-se a uma técnica chamada
de “análise de conteúdo”, sugerida por Bardin (1979, pg. 31), que a
define como
[...] um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter,
através de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo
das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam inferir
conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis
inferidas) dessas mensagens.
6.5 Apresentação e análise dos dados
A motivação para empreender por necessidade predomina em E3
e E5, visto que os respondentes afirmam que só resolveram criar a
empresa por não terem uma opção de trabalho, como fica evidente na fala de E3 (2015): “O que me fez abrir a lanchonete foi a
necessidade de poder me sustentar. Isso porque tinha acabado o
ensino médio e não tinha condições de me manter”. Da mesma
maneira, é evidente na fala de E5 (2015):
[...] estudei pouco, me casei cedo, tive meus filhos... [pausa]. Por não ter
estudo, não consegui um trabalho “direitinho”, que ajudasse nas contas. Daí,
como sempre costurei e tinha que ajudar meu marido nas contas e criar
meus meninos, uni as duas coisas. Depois de uns anos, com os filhos já
maiores, foi que eles resolveram abrir essa empresa.
Ao falar sobre a volta ao trabalho formal, é notória a vontade de
E3 em ingressar no mercado de trabalho formal: “[...] assim que
conseguir esse emprego, eu fecho a lanchonete e pronto. Quero
estabilidade, um porto-seguro, me firmar, estabelecer. E pra eu
conseguir isso, só com um trabalho, é lógico!”. Já E5 (2015) reflete
que, se estivesse em um emprego formal, poderia estar ganhando
mais. No entanto, devido à idade e à falta de estudos, acaba se
contentando com a situação atual, como é perceptível nesta sua
fala: “Num sei... [pausa para refletir] se eu tivesse estudado mais,
acho que podia até ganhar um ‘dinheirinho’ a mais, mas não deu.
Mas tá bom assim mesmo, as costuras tão aumentando”.
Os empreendedores E3 e E5 demonstram empreenderem por
necessidade devido a problemas financeiros e por não terem
opções melhores de emprego, o que vai ao encontro do ponto de
vista de Dornelas (2012) e do GEM (2011). Dornelas (2012) defende
que o indivíduo que se lança na jornada empreendedora por falta de
alternativa e/ ou pelo desemprego é um empreendedor por
necessidade. Também existem evidências, no discurso desses
entrevistados, de disputa entre a vontade de crescer e a de
ingressar no mercado formal (MENDES, 2009). Outra característica
perceptível na fala de E5 e que representa o empreendedorismo por
necessidade é a deficiência da educação e do treinamento da
população, que acaba inibindo o desenvolvimento das
características empreendedoras (DEGEN, 2008).
Além disso, os empreendimentos de E3 e E5 não oferecem ou
apresentam perspectiva de geração de emprego. Para E3: “[...] isso
pra mim é um ‘bico’, quando arranjar um emprego eu vou fechar a empresa. Por isso, não penso em crescer ou colocar outras pessoas
pra trabalhar aqui. Até porque mal consigo dinheiro pra mim que dirá
pra mais gente, né?”. E E5 diz: “Espero ainda ‘tá’ costurando muitas
peças, do meu jeito e em casa. Quero trabalhar até onde puder, mas
só eu mesma. Não sou uma pessoa ambiciosa, sabe? Quero só
ajudar minha família”.
No outro extremo, a motivação para empreender por oportunidade
está evidente nas falas de E2 e E4. Ao serem perguntados sobre a
motivação para criar a empresa, os entrevistados responderam que
sempre tiveram o sonho de ter seu próprio negócio, como no relato:
Tudo começou por eu ter vontade de ter meu negócio próprio, de ter um
espaço pra vender, uma coisa minha, sabe? [...] Bom, mesmo com o
emprego de professora e o ‘bico’ como cabelereira nas horas vagas, a renda
era pequena. Então, peguei um dinheiro emprestado com uma pessoa da
família, aluguei um ponto comercial, comprei algumas peças de vestuário e
uns acessórios e comecei meu sonho (E2, 2015).
Da mesma forma, E4 (2015) relata: “Eh... [pausa para reflexão] o
que motivou a gente a abrir o negócio foi a insatisfação com nosso
trabalho na época. [...] Fora essa questão, a gente tinha vontade de
ter nosso negócio”.
Outro aspecto que confirma que E2 e E4 apresentam o perfil do
empreendedor por oportunidade é quando falam sobre o trabalho
formal. Ambos demonstram, em seus discursos, não terem vontade
de voltar ao trabalho formal e à condição de empregado.
Bem... [pausa para reflexão] a loja ainda é pequena se comparada com
outras da cidade, mas estou satisfeita com o que ela me proporciona
mensalmente. Além de “tá” feliz por realizar meu sonho, “tô” ganhando mais
do que no tempo de escola. Por isso, não penso em voltar ao trabalho formal
[...] (E2, 2015).
Para E4, a satisfação em ter seu próprio negócio é enorme. Ele
acrescenta que “posso conciliar horários, lazer, família e
independência financeira” (E4, 2015).
Os empreendedores E2 e E4 empreenderam por meio do
reconhecimento de uma oportunidade, pela decisão de seguir em
frente e conseguir recursos, pela criação do negócio, pela construção do sucesso e pela coleta de recompensas (BARON E
SHANE, 2007). Além disso, os entrevistados empreenderam,
mesmo possuindo uma alternativa de emprego, movidos pela
vontade de independência e para manter ou aumentar a renda
(GEM, 2011).
Também é perceptível, nos dois entrevistados, E2 e E4, a análise
da ideia e do ambiente, por meio de estratégias, resultando em
decisões influenciadas pela razão, para conseguir gerar emprego e
renda, como retratado por Lemes Júnior e Pisa (2010) e Castelo
Branco e Schneider (2012). A visão de futuro para o negócio
também é evidente, ou seja, o empreendedor por oportunidade
inicia a empresa sabendo aonde deseja chegar (DORNELAS, 2012).
Contudo, os empreendedores E1 e E6 apresentam características
predominantes tanto no empreendedorismo por oportunidade
quanto no empreendedorismo por necessidade. Isso porque ambos
os entrevistados iniciaram seus negócios pela necessidade de se
sustentarem, mas, no decorrer do negócio, inovaram, aproveitaram
chances e empreenderam por oportunidade. A falta de vontade em
possuir um negócio próprio está presente no discurso de E1 (2015),
que relatou: “[...] quero ser empregado e ter tranquilidade do que ter
as responsabilidades e problemas de um patrão”. E E6 afirma: “[...]
as coisas aconteceram de uma forma muito, como eu posso falar...
repentina. Mas por eu ter que pagar meus remédios, minhas
despesas, me manter, eu uni o útil ao agradável [...] daí surgiu a
oportunidade de trabalhar no centro de artesanato, montar uma
lojinha”.
O discurso evidencia que os entrevistados E1 e E6 iniciaram seus
negócios por necessidade, ou seja, por precisarem pagar suas
contas, se sustentarem. Porém, também há evidências de que os
dois entrevistados acabaram empreendendo por aproveitarem uma
oportunidade, como é perceptível quando E1 conta que: “Daí, resolvi
deixar o ramo de alimentos e vender produtos pra agricultores,
ferramentas em geral. Como conhecia muita gente e via a falta de
produtos com preço mais em conta e de qualidade, eu resolvi
montar meu negócio”. Já E6, aproveitou a oportunidade de montar
seu negócio no centro de artesanato. O que demonstra a coragem e
a ousadia para arriscar, como é perceptível nesta fala: “Quando sai do emprego e me recuperei do acidente, comecei a bordar e vender
umas peças. Foi aí que surgiu a oportunidade de trabalhar no centro
de artesanato e não pensei duas vezes. Agarrei a chance e montei
minha lojinha”.
Em síntese, por meio das entrevistas, foi possível classificar os
empreendedores quanto à motivação para empreender
(necessidade ou oportunidade) defendida pelo GEM. O
empreendedorismo por necessidade prevaleceu nos entrevistados
E3 e E5, que empreenderam por não terem alternativa de renda e
emprego formal. Já E2 e E4 empreenderam por oportunidade, ou
seja, esses empreendedores tinham o desejo de independência, a
vontade de possuir o negócio próprio e aproveitaram oportunidades
para empreender. No meio termo, estão E1 e E6, pois ambos
começaram a empreender por necessidade, mas, no decorrer do
negócio, perceberam alguma oportunidade ou inovaram no
produto/serviço ofertado. A classificação dos empreendedores
quanto à motivação e suas características até agora explanadas
estão resumidas no Quadro 6:
Quadro 6 – Classificação dos sujeitos de pesquisa quanto à
motivação para empreender
Entrevistado Tipo de empreendedor Características
E1 Empreendedor por -falta de emprego
necessidade / portunidade formal;
-percepção de uma
oportunidade;
-coragem e ousadia
para arriscar;
Fonte: Elaboração própria (2015).
Entrevistado Tipo de empreendedor Características
E2 Empreendedor por -possuía um trabalho
oportunidade formal;
-vontade de ter o
próprio negócio;
-satisfação com a
renda;
-empregado de
carteira assinada;
E3 Empreendedor por -falta de emprego
necessidade formal;
-vontade de ser
empregado;
E4 Empreendedor por -possuía um trabalho
oportunidade formal;
-vontade de ter o
próprio negócio;
-satisfação com a
renda;
-empregado de
carteira assinada;
E5 Empreendedor por -suprir as
necessidade necessidades
familiares;
-falta de qualificação;
E6 Empreendedor por -falta de emprego
necessidade / Oportunidade formal;
-percepção de uma
oportunidade;
-coragem e ousadia
para arriscar.
Fonte: Elaboração própria (2015).
Para analisar as ações desenvolvidas pelos empreendedores,
foram estabelecidos cinco fatores: legalização da empresa, geração
de emprego, vontade de crescimento da empresa, inovação e
geração de renda.
No fator legalização da empresa, constatou-se que todos os
entrevistados estão formalizados na condição de MEI, por estarem
cientes de que é uma forma simplificada de empresa, mas com
inúmeros benefícios. E1 (2015) explica que aderiu à legalização “[...]
Porque tanto eu podia comprar meus produtos direto da empresa,
com preço mais barato e ainda contribuir pra aposentadoria [...]”.
Para E2 (2015), com a formalização da empresa, foi possível
conseguir “[...] o alvará de funcionamento, pago previdência e agora
assinei a carteira de uma funcionária”. Já E4 (2015) enfatiza que
reconhece a importância de ter um negócio legalizado para poder
comprar seus produtos.
Como a categoria de empresa em estudo é o MEI, forma mais
simples de empresa, o empreendedor só tem a possibilidade de
registrar um funcionário. Assim, em relação à geração de emprego,
apenas E2 e E4 confirmaram ter utilizado esse benefício, como
podemos perceber na fala de E2 (2015): “[...] e recentemente
assinei a carteira de uma funcionária” e na de E4 (2015): “[...] e
assinei a carteira da minha mulher [...]”. Já E6 pretende, em um
futuro próximo, contratar um funcionário.
Quanto à vontade de crescimento da empresa, E3 e E5 não
demostraram interesse ou empenho para que a empresa pudesse
crescer. Como afirma E3 (2015), “[...] a empresa só vai ficar aberta
enquanto eu não arranjar um emprego”. De forma oposta, os demais
entrevistados (E1, E2, E4, e E6), ao falarem de como imaginam sua
empresa daqui a cinco anos, demonstraram uma perspectiva de
crescimento e desenvolvimento. E1 (2015) pretende “[...] comprar
um ponto comercial pra família toda trabalhar comigo”. Da mesma
forma, E2 (2015) acrescenta que “[...] também quero abrir uma loja,
mesmo que menor, em uma cidade aqui vizinha”. E de maneira
parecida, porém de forma mais estruturada, E4 diz que “pretendo
aumentar a empresa, virar uma microempresa, contratar mais um
funcionário, abrir outra loja para vender tanto as peças quanto os
móveis para a casa”. Já E6 (2015) comenta que “[...] fico imaginando minha lojinha cheia de produtos, uma pessoa me
ajudando e também penso em ter outra lojinha no centro”.
O quesito inovação foi o mais deficiente, pois apenas E2 destacou
formas inovadoras que sua empresa utiliza para conquistar e
fidelizar seus clientes:
Eh...[pausa para pensar] existem muitas lojas na cidade e o produto acaba
ficando defasado. Por isso, a gente criou algumas formas de atrair nossas
clientes. Por exemplo, temos uma página no facebook, onde a gente toda
semana coloca fotos das peças. Também quando chega algo novo, como
roupas e acessórios, a gente liga pras clientes mais assíduas. Ah...criamos o
cartão felicidade, que funciona assim: depois de um número x de peças, a
cliente ganha uma roupa e um acessório da loja. Buscamos fazer sorteios.
Isso tudo ajuda a divulgar a loja e chamar mais clientes (E2, 2015).
Por último, a geração de renda proporcionada pela empresa é
satisfatória para E2 e E4. O entrevistado E2 (2015) afirma: “Bem a
loja ainda é pequena se comparada com outras da cidade, mas
estou satisfeita com o que ela me proporciona mensalmente”.
Igualmente, E4 (2015) relata: “[...] estou satisfeito com o que
construímos. Posso conciliar horários, lazer, família e independência
financeira”.
Assim, os cinco critérios (legalização da empresa, geração de
emprego, vontade de crescimento da empresa, inovação e geração
de renda) estabelecidos foram fundamentais para analisar a relação
entre a motivação e ação de empreender. Todos os entrevistados
estão formalizados na condição de MEI. Já em relação à geração de
emprego, apenas E2 e E4 confirmaram ter utilizado esse benefício e
E6 disse pretender contratar um funcionário. Quanto à vontade de
crescimento da empresa, é notória a falta de interesse apenas de
E3 e de E5. No que diz respeito à inovação, há uma grande
deficiência, pois esse fator só é utilizado por E2. E a geração de
renda, por sua vez, é considerada satisfatória por E2 e E4. A
classificação dos empreendedores quanto à motivação e as ações
desempenhadas para o desenvolvimento estão resumidas no
Quadro 7:
Quadro 7 – Relação entre a motivação para empreender dos
sujeitos de pesquisa e suas ações
Entrevistado Motivação Ações para o desenvolvimento
local
E1 Necessidade/ -Não há geração de emprego;
oportunidade -Satisfação com o negócio;
-Pretensão em expandir o negócio
e torná-lo familiar.
E2 Oportunidade -Geração de emprego;
-Renda satisfatória;
-Expansão e crescimento do
negócio.
E3 Necessidade -Não há geração de emprego;
-A renda é insatisfatória;
-Não há pretensão em continuar no
negócio.
E4 Oportunidade -Geração de emprego;
-Renda satisfatória;
-Expansão e crescimento do
negócio.
E5 Necessidade -Não há geração de emprego;
-Não há pretensão em expandir o
negócio;
E6 Necessidade/ -Não há geração de emprego;
oportunidade -Renda satisfatória;
-Pretensão em expandir o negócio.
Fonte: Elaboração própria (2015).
6.6 Considerações finais
Por meio da entrevista com os empreendedores, foi possível
classificá-los de acordo com a motivação para empreender, por
oportunidade ou por necessidade, apresentada no GEM (2010,
2011, 2013). O empreendedorismo por necessidade prevaleceu nos
entrevistados E3 e E5, que empreendem por falta de um trabalho e
renda, na forma de emprego formal. Já E2 e E4 empreendem por
oportunidade, ou seja, esses empreendedores gostam de possuir o
próprio negócio e buscam reconhecer oportunidades para
empreender. No meio termo, estão E1 e E6, pois ambos começaram
a empreender por necessidade, mas, atualmente, começam a
identificar e explorar oportunidades ou a inovar no produto/serviço
ofertado, ainda que de forma incipiente.
Todos os entrevistados estão formalizados na condição de MEI.
Os empreendedores motivados pela necessidade, E3 e E5, não são
geradores de emprego e a renda não é considerada satisfatória.
Essa afirmação deve-se à vontade dos empreendedores de
conseguir um trabalho formal, o que também evidencia a falta de
interesse em expandir o negócio. Por sua vez, os empreendedores
por oportunidade, E2 e E4, possuem um empregado de carteira
assinada, o que indica que ambos são geradores de emprego. A
renda originada pela empresa é considerada satisfatória pelos
empreendedores E2 e E4. No entanto, o fator inovação está
presente apenas na empresa de E2, porém isso não anula a
vontade desses empreendedores de crescer e expandir o negócio.
Na zona de transição entre o empreendedorismo por necessidade e
o empreendedorismo por oportunidade, estão os entrevistados E1 e
E6. E1 pretende expandir seu negócio, visando ao crescimento da
empresa e a uma maior geração de renda e E6 cogita a
possibilidade de contratar um funcionário e assim gerar emprego.
Em síntese, os entrevistados por oportunidade, E2 e E4, são
geradores de emprego, a renda produzida pela empresa impulsiona
o seu crescimento, bem como a busca constante por oportunidades
e inovação. De forma diferente, os empreendedores por
necessidade, E3 e E5, mantêm o empreendimento apenas para
suprir suas necessidades financeiras, gerando renda insuficiente
para sustentar a si e a suas famílias e sem perspectiva de gerar
emprego e renda para outros. Com base nos resultados encontrados, foi perceptível que eles corroboram com o que é
defendido pelo GEM (2010, 2011, 2012, 2013); ou seja, que as
ações dos empreendedores por oportunidade são mais benéficas e
significativas para o desenvolvimento econômico que as daqueles
que empreendem por necessidade.
Neste estudo, foi possível constatar que tanto o
empreendedorismo movido por necessidade quanto o movido por
oportunidade estão presentes nos empreendimentos aracatienses.
Ademais, os resultados deste estudo confirmam, ainda que
embrionariamente, o que é defendido pelo GEM (2010, 2011, 2013).
Dessa forma, foi possível constatar que os aracatienses que
empreendem por oportunidade; em outras palavras, que identificam
uma oportunidade de negócio, analisam a ideia, fazem pesquisa de
mercado, possuem o desejo de ter o próprio negócio e de
independência financeira; contribuem mais para a economia local
por gerarem emprego e renda e por terem perspectivas de
crescimento. O que ocorre inversamente com os empreendedores
por necessidade, que, por sua vez, empreendem pela falta de opção
de trabalho formal, de forma não planejada e sem perspectivas de
crescimento.
Vale salientar que esse estudo foi considerado embrionário,
devido as suas limitações, em especial no que diz respeito ao
número de participantes, bem inferior ao previsto. Ademais, por
tratar-se de um estudo de caráter qualitativo, devido a sua natureza,
não possibilita a inferência/generalização dessas informações para
outro contexto. No entanto, não obstante as suas limitações,
contata-se a relevância do empreendedorismo por oportunidade
nesse contexto específico, bem como da importância do papel do
empreendedor no desenvolvimento econômico e social, pela
geração de emprego e renda para o município.
Para estudos futuros, sugere-se ampliar o número de
entrevistados para conseguir um maior aprofundamento da análise.
Como sugestão, também seria interessante utilizar uma amostra de
empreendedores classificados com um porte de faturamento maior,
como, por exemplo, os microempresários (MEs), ou até mesmo
fazer um comparativo de acordo com o setor/atividade de cada
empreendedor. Ou ainda analisar a relação da motivação para empreender com aspectos pessoais como idade, sexo e grau de
instrução. Por fim, outra sugestão é a replicação deste estudo com
uma abordagem quantitativa.
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SCHUMPETER, J. A teoria do desenvolvimento econômico. São
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Apêndice - roteiro de entrevista
Sexo: _______
Idade: _______
Nível de escolaridade: _______
Atividade desenvolvida pela empresa: _______
1. O que motivou a criação da empresa?
2. Você foi induzido a empreender por alguém (família, amigos,
instituições)?
3. Por que decidiu legalizar sua empresa?
4. Trabalhava em algum lugar quando decidiu iniciar seu negócio?
E atualmente, trabalha em algum lugar além de seu negócio?
5. Você tem a intenção/vontade de retornar ao mercado de
trabalho formal como um empregado?
6. Se você estivesse como empregado em uma empresa, acredita
que estaria ganhando mais do que como dono da sua própria
empresa?
7. Você realizou alguma pesquisa de mercado, analisou ideias de
negócio ou fez um planejamento antes de iniciar sua empresa?
8. Você considera que tem competência necessária para gerenciar
seu negócio?
9. Busca participar de cursos que o ajudem nesse gerenciamento
do negócio?
10. Você se considera um ser empreendedor? Por quê?
11. Você considera que os produtos/serviços que oferece são
inovadores? Por quê?
12. Você está atento às oportunidades do mercado ou procura não
dar importância para elas?
13. Ao identificar uma oportunidade de negócio (seja no sentido de
ofertar um novo produto/serviço ou de expandir a empresa),
você arrisca, mesmo sabendo das incertezas dessa decisão ou
não busca correr riscos, deixa a chance passar?
14. Daqui a cinco anos, como você imagina que sua empresa
esteja no mercado?