Empreendedorismo no semiárido
Capítulo 2 – Influência do ensino do empreendedorismo nas IES para o desenvolvimento da intenção e do potencial de empreender dos discentes das engenharias
Capítulo 2 – Influência do
ensino do empreendedorismo
nas IES para o desenvolvimento
da intenção e do potencial de
empreender dos discentes das
engenharias
Jéssica Taiane Rocha Pinheiro, Agostinha Mafalda Barra de
Oliveira, Leonardo Andrade Rocha
2.1 Introdução
A ação empreendedora afeta, de forma significativa, a economia
de um setor ao gerar empregos e construir uma base econômica
forte. Dado o impacto na economia global, os interesses nos estudos
da área do empreendedorismo têm se intensificado nos últimos
tempos, principalmente, devido à influência direta que tem essa
área, ao interferir no desenvolvimento econômico de um país.
Segundo Santos (2008, p. 21), “[...] Essa busca não só existe nos
países desenvolvidos, como também pode ser encontrada nos
países classificados como emergentes, subdesenvolvidos ou em via
de desenvolvimento.”.
Hisrich, Peters e Shepherd (2009) reforçam que a importância do
fenômeno do empreendedorismo dá-se, principalmente, pelo papel
que este desempenha no processo de desenvolvimento econômico
de um país, visto que envolve não apenas o aumento de produção e
da renda per capita, mas também mudanças na estrutura dos
negócios e da sociedade. Juntamente com isso, ocorrem o crescimento e o aumento da produção e, como consequência, mais
riquezas passam a ser divididas pelos vários participantes dessa
sociedade.
Dessa forma, o empreendedorismo continua sendo o caminho
mais eficiente para ligar ciência e mercado, criando novas empresas
e levando ao mercado novos produtos e serviços (HISRICH;
PETERS; SHEPHERD, 2009). Por isso, a importância da inserção
do ensino do empreendedorismo nas Instituições de Ensino Superior
(IES).
O quadro de instabilidade dos empregos no Brasil, acrescido do
grande percentual de bacharéis que são lançados no mercado todos
os anos, pedem um novo perfil de egressos. Tendo em vista que
muitos desses bacharéis não serão absorvidos pelo mercado de
trabalho formal, fica, como alternativa para as IES, incluir em suas
grades curriculares o ensino do empreendedorismo. Essa inclusão
contribui para que as IES não lancem no mercado meros bacharéis
prontos para atuarem em grandes corporações, mas sim pessoas
preparadas e providas de conhecimentos para abrirem seus próprios
negócios (HENRIQUE; ROSSONI; FERREIRA, 2005; HENRIQUE;
CUNHA, 2008).
Mais especificamente, considerando as mudanças ocorridas nas
relações de trabalho e as experimentadas pelo setor produtivo
brasileiro, a demanda atual é por engenheiros com perfis
empreendedores, que possam acompanhar os grandes avanços
tecnológicos e os estrondosos aumentos da competitividade no
mercado (FERREIRA; SOUZA; SPRITZER, 2008; HISRICH;
PETERS; SHEPHERD, 2009; LIRA; LIRA; MORAIS, 2005). Isso, por
sua vez, tem levado a que muitos cursos de engenharia introduzam,
em suas grades curriculares, disciplinas que contribuam com a
formação empreendedora desse novo egresso.
O curso de Bacharelado em Ciências e Tecnologia (BCT), ofertado
pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), Campus
Mossoró, serve de ingresso para as engenharias: Civil, Mecânica, de
Energia, de Petróleo, Química e de Produção e tem o propósito de
desenvolver profissionais com perfil empreendedor (RODRIGUES,
2010). A fim de atender a essa nova demanda, na grade curricular
deste curso, consta a disciplina Administração e empreendedorismo, de caráter obrigatório. Pelos motivos expostos, a verificação da
interferência da referida disciplina para o desenvolvimento da
intenção e do potencial de empreender é de extrema importância
para docentes e discentes que têm interesse por essa temática. No
entanto, até o presente momento, nenhum estudo acerca da eficácia
dessa disciplina foi realizado. Dessa forma, estabelece-se, como
objetivo deste estudo: identificar se o ensino do empreendedorismo
nos cursos de engenharia tem um papel realmente eficaz para o
desenvolvimento da intenção e do potencial de empreender dos
seus discentes.
Para tanto, o presente trabalho está distribuído em mais três
tópicos. No segundo tópico, apresenta-se o perfil ou as
características do empreendedor, o agente do empreendedorismo.
Na continuação, opta-se por fazer uma breve discussão sobre a
influência do ensino do empreendedorismo nas IES, em especial,
nos cursos de graduação das engenharias. No quarto tópico,
descrevem-se o tipo de pesquisa, bem como as estratégias de
coleta e de análise dos dados. Na sequência, apresentam-se os
resultados encontrados. Por fim, no sexto e último tópico, têm-se as
considerações finais, apontando os principais resultados,
contribuições da pesquisa, limitações e sugestões para trabalhos
futuros.
2.2 Perfil empreendedor
O perfil do empreendedor é o conjunto das características
inerentes ao agente empreendedor, são tendências pessoais
associadas a este. Dolabela (1999) ressalta que a identificação do
perfil de um empreendedor de sucesso torna-se importante, pois,
dessa forma, o aspirante a empreendedor poderá saber que atitudes
e comportamentos são adequados, a fim de que essas
características empreendedoras possam ser adquiridas ou
desenvolvidas.
Seguindo a definição de empreendedor proposta por Lezana e
Tornelli (1998), empreendedor é todo indivíduo que empreende um
negócio e o faz prosperar. Para isso, esse indivíduo precisa possuir capacidade de iniciativa, imaginação fértil, para assim obter ideias,
flexibilidade para adaptação dessas ideias, criatividade para
transformá-las em um negócio de sucesso, motivação para pensar
conceitualmente e capacidade para ver, perceber a mudança como
uma oportunidade. De acordo com Leite (2000), as principais
qualidades ou características de um empreendedor que merecem
destaque são: ação iniciativa, visão de negócio ou capacidade de
visualizar oportunidades, coragem, firmeza em suas decisões,
capacidade de dirigir e organizar projetos.
Dolabela (1999, p. 68) remete-se ao empreendedor como: “[...]
alguém que define por si mesmo o que vai fazer e em que contexto
será feito.”. Logo após completa: “Ao definir o que vai fazer, ele leva
em conta seus sonhos, desejos, preferências, o estilo de vida que
quer ter.” Essa definição tem uma forte relação com o conceito de
lócus de controle interno de Rotter (1990), que se refere ao grau em
que uma pessoa atribui a si, a suas características e habilidades
pessoais, as consequências e resultados de suas ações (MACIEL;
CAMARGO, 2010; MAGALHÃES; TEIXEIRA, 2013). Pessoas que
têm o lócus de controle interno mais desenvolvido demonstram ser
mais persistentes e eficientes e possuem uma consciência de si
maior que aquelas que têm o lócus de controle externo mais
desenvolvido (NORIEGA et al., 2007).
A definição estabelecida por Filion (1999) para esclarecer o que é
ser empreendedor engloba algumas das características principais do
perfil empreendedor, já mencionadas por estudiosos como: Lezana e
Tonelli (1998), Dolabela (1999) e Leite (2000). Na visão de Filion,
empreendedor refere-se a
[...] uma pessoa criativa, marcada pela capacidade de estabelecer e atingir
objetivos e que mantém alto nível de consciência do ambiente em que vive,
usando-a para detectar oportunidades de negócios. Um empreendedor que
continua a aprender a respeito de possíveis oportunidades de negócios e a
tomar decisões moderadamente arriscadas que objetivam a inovação
continuará a desempenhar um papel empreendedor (FILION, 1999, p.19).
Essa caracterização deixa explícito que os empreendedores são
indivíduos que possuem uma criatividade aguçada. Além disso,
vivem em função do alcance de seus objetivos estabelecidos, possuem um conhecimento amplo de sua esfera de vida e estão em
constante processo de aprendizagem, para poderem, assim,
continuar a empreender e a ajustarem-se às novas situações.
Para Dornelas (2005), o empreendedor deve ser um individuo
curioso e bastante atento ao que acontece ao seu redor, pois sabe
que suas chances de identificação de oportunidades se multiplicam
quando adquire novos conhecimentos. Dornelas completa ainda que
um indivíduo com tendências ao empreendedorismo deve ter, no
mínimo, como características: “[...] iniciativa para criar um novo
negócio e paixão pelo que faz; utilizar os recursos disponíveis de
forma criativa transformando o ambiente social e econômico onde
vive; aceitar assumir os riscos calculados e a possibilidade de
fracassar.” (2005, p. 39).
Tais características são consideradas indispensáveis,
considerando-se que, primeiramente, o processo de empreender
deve envolver a criação de algo novo que possua valor econômico.
Em segundo lugar, dedicação, devoção e comprometimento com o
empreendimento são extremamente necessários para fazê-lo
crescer. Por fim, a ousadia e o ânimo para aceitar os erros e falhas
cometidos são necessários quando se assumem riscos calculados e
tomam-se decisões críticas acerca do negócio.
De acordo com Degen (2009, p. 14-15), existem duas
características do perfil do empreendedor bem-sucedido,
importantes e necessárias para o seu futuro: “A vontade dos
empreendedores em vencer todas as dificuldades para desenvolver
seu negócio, pagando o preço do sacrifício pessoal para ter
sucesso, é função direta de sua necessidade de realizar.” e “[...] seu
inconformismo irracional com a situação atual das coisas e sua ânsia
por mudanças.”
Degen (2009, p 15) reuniu ainda as ideias de Shaw, Schumpeter e
McClelland e descreveu o empreendedor bem-sucedido como
Alguém que não se conforma com os produtos e serviços disponíveis no
mercado e procura melhorá-los; alguém que, por meio de novos produtos e
serviços, procura superar os existentes no mercado; alguém que não se
intimida com as empresas estabelecidas e as desafia com o seu novo jeito de
fazer as coisas.
Hisrich, Peters e Shephero (2009) apontam o perfil empreendedor
como um tipo comportamental que abrange: tomada de iniciativa,
organização e reorganização de mecanismos sociais e econômicos
para a transformação de recursos, assim como tirada de proveito
das situações, aceitação do risco ou do fracasso. Complementam
esse conjunto de características empreendedoras com: “a
necessidade de obter ou conseguir algo, de experimentar, de
realizar ou talvez de escapar à autoridade de outros.” (2009, p. 30).
De acordo com Santos (2008), o perfil empreendedor é algo
latente, que pode vir a ser desenvolvido. Portanto, possuir um
potencial empreendedor equivale a apresentar traços ou
características de personalidade afins à de empreendedores de
sucesso. A determinação desse perfil é uma questão que tem
atravessado anos. Essa questão direcionou vários estudos que
examinaram os traços de personalidade como não aversão ao risco,
tenacidade, confiança em si próprio, tolerância para com a
ambiguidade, além de valores e comportamentos éticos.
Santos (2008) complementa que é provável que um
empreendedor seja o somatório das características inatas e
adquiridas durante a sua jornada e que este faça parte de um grupo
de indivíduos diferenciados do restante da população. Segundo o
autor, as características que diferenciam o empreendedor do
restante da população estão agrupadas em quatro grupos de
construtos: necessidades, conhecimentos, habilidades e valores.
Com isso em mente, Santos (2008), em sua tese, desenvolveu
uma escala para mensurar o perfil empreendedor de um indivíduo.
Essa escala possui fatores que medem tanto a intenção quanto o
potencial empreendedor. Dessa forma, sua escala é composta de
duas partes: intenção de empreender e potencial empreendedor. A
primeira parte busca prenunciar a intenção de possuir, seja
adquirindo de outrem, seja partindo do zero, um negócio próprio. A
segunda parte busca medir o potencial empreendedor constituído
nos seguintes fatores: oportunidade, persistência, eficiência,
informações, planejamento, metas, controle, persuasão e rede de
relações.
O fator oportunidade refere-se à capacidade de um indivíduo em
estar atento ao que acontece à sua volta, identificar as necessidades do mercado e ser capaz de aproveitar situações que são incomuns
para iniciar novas atividades ou negócios. Já o fator persistência diz
respeito à capacidade de um indivíduo em se manter firme na busca
do alcance de seus objetivos e metas, superando todos os
obstáculos pelo caminho. O fator eficiência, por sua vez, foca sobre
a capacidade de fazer as coisas de forma correta e, caso seja
necessário, de promover a elaboração rápida de mudanças para se
adaptar ao ambiente. Na continuação, o fator informações refere-se
à disponibilidade para aprender coisas novas e demonstrar sede de
conhecimento em sua área de atuação ou mesmo fora dela. Em
complemento, o fator planejamento está relacionado à capacidade
de um indivíduo para planejar suas atividades com base nos
objetivos definidos, de forma integrada. O fator metas foca na
capacidade de um indivíduo de mostrar determinação e senso de
direção e de estabelecer objetivos e metas que definam, de forma
clara, aonde se pretende chegar. Em adição, o fator controle refere-
se à capacidade de acompanhar a execução dos planos elaborados,
manter registros e utilizá-los no processo decisório. O fator
persuasão consiste na capacidade de convencer e motivar outros,
liderar equipes e estimulá-las usando as palavras e ações
adequadas para influenciar e persuadir de forma positiva. Por fim, o
fator rede de relações refere-se à habilidade de estabelecer uma
boa rede de relacionamento com todos aqueles que, direta ou
indiretamente, possam ser úteis para o alcance de seus objetivos.
Para efeito deste trabalho, adota-se a definição do perfil
empreendedor proposta por Santos (2008), visto que seu perfil se
baseia em um grupo mais amplo de características, o que torna mais
eficaz a identificação do individuo empreendedor.
2.3 Influência do ensino do
empreendedorismo nas IES e nas
engenharias
O estudo do perfil do empreendedor é base para o entendimento
do ser humano em seu processo de criação de riquezas, assim como no processo de realização pessoal. Por esse motivo, a
conduta de qualquer sociedade que busca se desenvolver
economicamente ou entender a fundo os desejos e comportamentos
daqueles que a compõem deve ser apoiada e estimulada pelo
incremento do empreendedorismo em seu meio.
Dornelas (2005) atribui a intensificação do interesse pelo
empreendedorismo ao avanço tecnológico, que tem se acelerado de
um modo considerável. Logo a carência por empreendedores é
muito maior do que alguns anos atrás. Neste ínterim, grandes
transforma- ções no campo da economia, acarretadas pelo processo
de desenvolvimento econômico, vêm dando sinais de que os atuais
modelos de educação não são mais adequados para explicar
problemas e prover soluções. E é justamente para suprir essa
deficiência que o ensino do empreendedorismo deve ser propagado
nas IES. Com isso em mente, Dolabela (1999, p. 41) sugere que
[...] se no passado - e ainda hoje – desenvolvemos grande habilidade em
incutir em nossos filhos e alunos valores como emprego, estabilidade
financeira e nível universitário como instrumentos fundamentais de realização
pessoal, temos agora a obrigação de educar nossas crianças e jovens dentro
de valores como autonomia, independência, capacidade de gerar o próprio
emprego, de inovar e gerar riqueza, capacidade de assumir riscos e crescer
em ambientes instáveis[...].
O cenário nacional atual revela que muitos dos egressos das IES
brasileiras chegam ao mercado de trabalho e se deparam com altos
índices de desemprego, o que pode levar os egressos a empreender
justamente pela falta de opção de carreira (HENRIQUE; ROSSONI;
FERREIRA, 2005). Porém, tais tipos de empreendimentos não
contribuem de forma positiva para o desenvolvimento do país, visto
que nenhuma inovação estará sendo lançada no mercado se esses
empreendedores escolherem tal caminho como uma solução para
sobreviverem (DEGEN, 2009; SANTOS, 2008, GEM 2010).
De acordo com os últimos relatórios GEM (2010, 2011, 2012),
educação e capacitação são consideradas elementos limitantes ao
desenvolvimento do empreendedorismo no Brasil. Especificamente
em relação ao Brasil, o relatório GEM (2010) traz algumas constata-
ções e sugestões acerca do ensino e da implantação de uma cultura empreendedora e defende que o incentivo à educação e à
capacitação empreendedora seria um dos aspectos passíveis de
melhoria.
Uma alternativa enfatizada por Henrique, Rossoni e Ferreira
(2005) e reforçada por Henrique e Cunha (2008), para se tentar
amenizar tal problema e inserir as IES na sociedade atual, seria
incluir, em suas grades curriculares, o ensino do empreendedorismo.
Tal alternativa já está sendo implementada em muitas IES, tendo
como justificativa: a maior mescla de opções que teriam os
graduados e o fato de estes não serem mais forçados a empreender
por necessidade, considerando-se que teriam como amadurecer ou
adquirir um perfil empreendedor no âmbito do curso de graduação.
Henrique, Rossoni e Ferreira (2005, p. 2) completam ainda: “Essa
mudança acarretaria em lançar no mercado não mais simples
bacharéis prontos para atuar em grandes corporações e sim
pessoas arquitetadas de conhecimentos para vir a abrir um negócio,
um empreendimento.”. Ribeiro, Araújo e Oliveira (2012) são
enfáticos em afirmar que as IES são as principais responsáveis pela
disseminação do espírito empreendedor e, por conseguinte,
exercem um papel fundamental no desenvolvimento de seus
discentes como empreendedores. Dessa maneira, fica clara a
importância do ensino do empreendedorismo nas IES, no sentido de
proporcionar aos futuros egressos competências que lhes deem
oportunidade de empreenderem, estejam ou não inseridos em uma
organização, achando de todo modo um meio sustentável para
sobreviver nessa sociedade altamente competitiva.
Em complemento, Dolabela (1999, p. 45) lança sobre o ensino do
empreendedorismo a função de cura para o que ele chama de
“síndrome do empregado”, além da função de suporte ao processo
de desenvolvimento econômico do país. Por sua vez, Degen (2009)
acredita que o ensino do empreendedorismo tem muito a contribuir
para o desenvolvimento de negócios econômicos e sustentáveis.
Para consolidar ainda mais a importância do ensino do
empreendedorismo, nas palavras de Hisrich, Peters e Shepherd
(2009, p. 27): “Segundo pesquisas, os indivíduos que estudam o
empreendedorismo têm de 3 a 4 vezes mais chances de iniciar seu próprio negócio e ganharam de 20 a 30% mais do que os estudantes
de outras áreas.”
Afunilando-se ainda mais a abordagem acerca da importância do
ensino do empreendedorismo no âmbito das IES, voltam-se as
atenções doravante para a influência deste ensino nas graduações
em engenharia. Tal questão mostra-se relevante, uma vez que, dado
o avanço tecnológico e o aumento da competitividade, o cenário
atual vivencia mudanças ocorridas nas relações de trabalho e no
setor produtivo (FERREIRA; SOUZA; SPRITZER, 2008; HISRICH;
PETERS; SHEPHERD, 2009; LIRA; LIRA; MORAIS, 2005).
De acordo com Rodrigues et al. (2006, não paginado), de um lado,
tem-se a formação técnica em engenharia e sua necessidade de
ensino tecnológico; do outro, a área de ensino do
empreendedorismo, que prioriza a necessidade da inovação, que
funciona como ferramenta elementar do desenvolvimento
tecnológico. Logo, conclui esse autor: “Empírica e dedutivamente,
pode-se verificar um necessário nexo casual e intercomunicação
entre a engenharia e o empreendedorismo.”.
Os engenheiros são os responsáveis por conceber, planejar,
desenvolver, viabilizar, implantar, gerenciar e operar
empreendimentos humanos, sendo esses empreendimentos de
infraestruturas, de sistemas ou de produtos. Por conseguinte, em
ambos os campos, empreendedorismo e engenharia, percebe-se
que são exigidas do profissional: criatividade, praticidade, disposição
para correr riscos calculados e capacidade para identificar
oportunidades (FERREIRA; SOUZA; SPRITZER, 2008).
Levando-se em conta tais considerações, Ferraz et al. (2000)
realizaram uma pesquisa, de caráter qualitativo, na Universidade
Federal Fluminense, com 19 discentes, no semestre 1999.1, com o
objetivo de constatar o impacto do ensino do empreendedorismo na
graduação em engenharia. Com base na análise das informações
coletadas, eles concluíram que o ensino do empreendedorismo
aumentou a confiança que os discentes tinham em serem capazes
de produzirem um Plano de Negócios, assim como aumentou a
intenção de empreender e a visão que tinham a respeito do conceito
de emprego. Ou seja, “Os resultados obtidos mostram o potencial
que o ensino do empreendedorismo pode ter para mudanças de percepção dos alunos quanto a suas expectativas de trabalho após
a formatura [...]” (FERRAZ et al.,2000, não paginado)
Em suma, observa-se que o ensino do empreendedorismo nos
cursos de graduação das engenharias mostra-se substancioso, visto
que o emprego de metodologias corretas poderá levar ao
desenvolvimento de competências empreendedoras nos estudantes
de engenharia, o que acarretará no desenvolvimento do profissional
que o mercado está requerendo, o engenheiro com perfil
empreendedor (FERREIRA; SOUZA; SPRITZER, 2008).
Compactuando da ideia de que a educação deve influenciar, de
forma positiva, na disseminação da cultura empreendedora,
Dolabela (1999) desenvolveu uma metodologia que facilita o
aprendizado do empreendedor em potencial, ou seja, do pré-
empreendedor. Para desenvolver sua proposta metodológica, ele
parte do pressuposto de que trabalhar o fator comportamental e
atitudinal é essencial. Por esse motivo, em sua metodologia, são
utilizados os seguintes instrumentos de suporte: o conceito de si que
cada indivíduo desenvolve, a descrição do perfil empreendedor,
entrevistas e depoimentos com empreendedores de sucesso. Da
mesma forma, para desenvolver o fator atitudinal, faz uso de
instrumentos como: amadurecimento da visão, desenvolvimento de
uma rede de relações, avaliação da ideia inicial do empreendimento,
plano de negócios e desenvolvimento de técnicas de negociação e
apresentação.
Dolabela (1999) destaca ainda que essa metodologia deve ser
inspirada nos processos de aprendizagem utilizados pelo
empreendedor na vida real, pois, para se alcançar a didática
adequada para a área de empreendedorismo, é preciso que o
processo de aprendizado seja insistentemente contextualizado, de
tal forma que o discente seja submetido constantemente a situações
similares àquelas encontradas no dia-a-dia.
Ao se adotar tal metodologia, deve-se estimular os discentes a
cruzarem os muros do âmbito do ensino, para assim
compreenderem o funcionamento do mercado. Porém, em sala de
aula, também se devem desenvolver os processos de trabalho
semelhantes aos dos empreendedores (DOLABELA, 1999). Degen
(2009), assim como Dolabela (1999), mostra a importância de se desenvolverem metodologias apropriadas para serem aplicadas ao
ensino do empreendedorismo. Ele ainda ressalta que o período
médio de duração de um curso com o intuito de desenvolver
potenciais empreendedores deve possuir um tempo médio de
duração de um ano, para que assim toda a metodologia seja
trabalhada, de forma detalhada, dentro e fora da sala de aula.
Dornelas (2005, p. 40) ressalta que qualquer curso de
empreendedorismo deve concentrar-se
[...] na identificação e no entendimento das habilidades do empreendedor; na
identificação e análise de oportunidades; em como ocorre a inovação e o
processo empreendedor; na importância do empreendedorismo para o
desenvolvimento econômico; em como preparar e utilizar um plano e em
como gerenciar e fazer a empresa crescer.
Henrique e Cunha (2008) defendem que as práticas didático-
pedagógicas voltadas ao ensino do empreendedorismo devem ser
dinâmicas e instigar a superação de desafios. Para tanto, devem
utilizar-se de métodos de ensino que unam teoria e prática, tais
como estudos de casos, elaboração de planos de negócios e
vivências com empreendedores reais. Diante do que foi abordado na
literatura e considerando que a disciplina Administração e
Empreendedorismo, ofertada na Ufersa para o BCT, é uma mescla
desses métodos de ensino, estabelece-se, como hipótese deste
trabalho, que o perfil empreendedor dos discentes de BCT aumenta
após a sua participação na disciplina Administração e
Empreendedorismo.
2.4 Procedimentos metodológicos
De acordo com seu objetivo, este estudo se enquadra como
pesquisa explicativa ou conclusiva, que “[...] têm como propósito
identificar fatores que determinam ou contribuem para a ocorrência
de fenômenos. [...]” (GIL, 2010, p. 28). Para tanto, a fim de
possibilitar uma comparação, a intenção de empreender e o
potencial empreendedor dos futuros discentes das engenharias foram mensurados antes e depois da disciplina Administração e
Empreendedorismo ser-lhes ministrada.
O instrumento utilizado para a coleta dos dados foi um
questionário elaborado e validado por Santos (2008), em sua tese
de doutorado. Esse questionário possui a função de mensurar a
intenção de empreender e o potencial empreendedor de um
indivíduo, por meio de traços de personalidade e características, já
mencionados em literatura, relacionados ao perfil do empreendedor
(DEGEN, 2009; DOLABELA, 1999; DORNELAS, 2005; FILION,
1999; HISRICH; PETERS; SHEPHERD, 2009; LEITE, 2000;
SANTOS, 2008).
Ao todo, o questionário é composto por 49 itens, sendo 4 itens
relacionados ao fator intenção de empreender (INT.EMP) e 45 itens
relacionados ao fator potencial empreendedor (POT.EMP). O fator
potencial empreendedor, conforme descrito no referencial teórico, é
composto de subfatores, como segue: oportunidade, com 5 itens
(OPO); persistência, com 6 itens (PES); eficiência, com 3 itens (EFI);
informações, com 5 itens (INF); planejamento, com 4 itens (PLA);
metas, com 7 itens (MET); controle, com 5 itens (CON); persuasão,
com 6 itens (PER); e rede de relações, com 4 itens (REL). Os itens
podem ser classificados em uma escala que vai de 0 a 10, de acordo
com a aceitação da afirmação e da situação exposta. O Quadro 2
traz a identificação de cada variável (fator/subfator) e seus
respectivos itens.
Quadro 2 – Itens por variáveis
Variáveis Itens
Intenção de 1 Com certeza, um dia terei meu próprio negócio
empreender
(INT.EMP) 2 Mesmo que eu trabalhe para outrem, não
abandonarei o desejo de ter meu próprio negócio
3 Minha maior realização será ter o meu próprio
negócio
Fonte: Adaptado de Santos (2008).
Variáveis Itens
4 Ser auto empregado, um empreendedor, sempre
foi minha aspiração
5 Sinto-me capaz de identificar oportunidades de
negócios e sair lucrando com isso
6 Vivo em estado de alerta para alguma
oportunidade que me possa surgir
Oportunidade 7 Creio sinceramente que as oportunidades estão
(OPO) aí para serem identificadas
8 Gosto de me informar sobre as necessidades
das pessoas
9 Percebo as necessidades dos outros e como
elas podem ser satisfeitas
10 Quando levo um tombo, levanto e continuo
11 Entendo que os obstáculos existem para serem
superados
12 Quando cometo um erro de planejamento,
Persistência redefino as coisas e vou em frente
(PES) 13 Busco, de forma permanente, atingir meus
objetivos
14 Encaro o fracasso como fonte de aprendizado
para não cometer o mesmo erro novamente
15 Não me deixo abater pelo fracasso
Eficiência 16 Gosto de cumprir prazos
(EFI)
17 Quando é preciso, faço as adaptações
necessárias para que as coisas funcionem
Fonte: Adaptado de Santos (2008).
Variáveis Itens
18 Gosto de realizar meus trabalhos de forma
correta e dentro dos prazos estabelecidos
19 Se for preciso, pedirei ajuda a especialistas que
me ensinem como fazer as coisas da melhor
forma
20 Quero saber cada vez mais, pois só assim sairei
na dianteira
Informação
(INF) pertinentes ao que faço 21 Procuro estar informado sobre as coisas
22 Quando estou em determinado ramo, tenho que
aprender tudo sobre ele
23 O mundo é dinâmico e preciso acompanhá-lo
buscando sempre novos conhecimentos
24 Só sei se estou acertando se tiver um
planejamento das minhas atividades
25 Defino onde quero chegar e detalho todos os
Planejamento passos que devo seguir
(PLA) 26 Não consigo fazer nada sem um planejamento
bem detalhado
27 Quem não consegue planejar suas atividades
tende a fracassar
Metas (MET) 28 Sei onde pretendo chegar e o quanto pretendo
alcançar
Fonte: Adaptado de Santos (2008).
Variáveis Itens
29 Sei que posso definir meus rumos de curto,
médio e longo prazos
30 Tenho convicção de que vou alcançar meus
objetivos e metas
31 Sei determinar claramente quais são meus
objetivos e metas
32 O que pretendo alcançar está claramente
definido
33 Sou capaz de traçar um rumo e estabelecer os
ganhos que vou ter no final
34 Gosto de estabelecer objetivos e metas para me
sentir desafiado
35 Consulto meus registros antes de tomar
decisões
36 Costumo fazer anotações e manter registros das
minhas ações
Controle 37 Meus controles me auxiliam na revisão de meus
(COM) planos
38 Vejo o planejamento como um guia para
controlar as minhas ações
39 Costumo verificar se as coisas estão
acontecendo como planejei
Persuasão 40 Tenho formas de convencer as pessoas a
(PER) mudarem de opinião
Fonte: Adaptado de Santos (2008).
Variáveis Itens
41 Posso convencer pessoas a superar conflitos e
atuar em equipe, objetivando alcançar
determinado resultado
42 Sei quais as palavras e ações adequadas para
estimular as pessoas
43 Sou capaz de estimular as pessoas a realizarem
tarefas para as quais estão desmotivadas
44 Sei que sou capaz de liderar uma equipe e
atingir metas
45 Ajo de forma a motivar as pessoas e manter alto
o moral em qualquer situação
46 Procuro manter contato constante com as
pessoas de minha rede de relações
47 Procuro estabelecer uma boa rede de
relacionamentos com conhecidos, amigos e
Rede de pessoas que possam me ser úteis
relações (REL) 48 Sempre que posso, procuro atender às
solicitações que me fazem as pessoas de minha
rede de relações
49 Tenho como manter contato fácil com as
pessoas de minha rede de relações
Fonte: Adaptado de Santos (2008).
A aplicação do questionário foi realizada antes e depois de a
disciplina Administração e Empreendedorismo ser ministrada aos
discentes, no semestre 2013.1. Dessa forma, os respondentes
desse questionário constituíram-se dos discentes do BCT
matriculados na disciplina de Administração e Empreendedorismo no
semestre 2013.1. Esses discentes estavam matriculados e distribuídos em cinco turmas nos períodos: matutino, vespertino e
noturno, totalizando uma amostra de 195 discentes.
Na primeira coleta de dados, que foi realizada na segunda
semana letiva do semestre 2013.1, 141 discentes responderam ao
questionário. Contudo, três discentes não se identificaram, usando
matrícula ou nome completo. Como a identificação era necessária
para a análise posterior, os questionários desses discentes não
foram considerados, perfazendo um total de 138 questionários
válidos.
A segunda parte da coleta de dados foi realizada na penúltima
semana letiva do semestre 2013.1, quando 119 discentes
responderam ao questionário. Após o pareamento dos 141
questionários respondidos na primeira coleta com os 119
questionários respondidos na segunda coleta, 30 questionários
foram excluídos da análise, por não apresentarem número de
matrícula ou nome que possibilitassem sua identificação ou ainda
por não haverem respondido à primeira coleta ou só haverem
respondido à segunda coleta. Dessa forma, apenas 89 compuseram
a amostra final deste estudo.
2.4.1 Teste de hipótese
O teste empregado para comparar duas médias em um mesmo
grupo de estudo, visando detectar se as diferenças são
estatisticamente diferentes após a exposição de um tratamento
(participação na disciplina Administração e Empreendedorismo),
consiste no procedimento denominado ‘Teste para Amostra
Pareada’. Em um estudo pareado, trabalha-se com duas amostras,
de modo que cada observação da primeira amostra (dados
coletados no início da disciplina) é pareada com uma observação da
segunda amostra (dados coletados no final da disciplina). Tal
delineamento ocorre frequentemente quando se analisam medidas
feitas antes e depois no mesmo indivíduo. A priori, define-se que a
amostra selecionada de indivíduos que são expostos ao tratamento
satisfazem os critérios básicos da “atribuição aleatória”. Ou seja, as
características observadas nos indivíduos que recebem o tratamento
não afetam a probabilidade de o grupo vir a recebê-lo (CA- MERON; TRIVEDI, 2005). No presente estudo, o grupo que recebe o
tratamento consiste no mesmo grupo antes da exposição, não sendo
necessária a comparação com um grupo controle ou contrafactual.
Dessa forma, cada observação pode ser definida como segue:
x ≡ observação do indivíduo i no momento 1 1i
x ≡ observação do indivíduo i no momento 2 2i
Para a construção das amostras (antes e depois) de cada i-ésimo
indivíduo, pode-se definir uma nova amostra a partir das diferenças
entre as observações de cada indivíduo, da seguinte forma:
d = x – x i 2i1i
Com a construção da amostra das diferenças, podem-se
empregar métodos inferenciais, calculando-se um intervalo de
confiança para a diferença média e testar se a diferença média é
estatisticamente igual a um valor particular (usualmente zero) ou
não. No caso de uma comparação com o valor zero, tem-se:
Com a construção da estatística t-student, tomando-se as
diferenças médias e o erro-padrão das diferenças , pode-se adotar
um teste de hipótese considerando um nível de significância de α%:
No caso da hipótese de teste , caso não seja rejeitada, adota-se
que as diferenças entre as observações não diferiram estatisticamente ao nível de significância. Assim, pode-se concluir
que as amostras, antes e depois, não sofreram mudanças
estatisticamente perceptíveis. Em contraste à hipótese inicial,
rejeição de H (e consequentemente aceitação de H ), adota-se que 0 α
as diferenças entre as observações apresentaram resultados
estatisticamente significativos, de maneira que o vetor de influência
na amostra pareada é estatisticamente perceptivo.
Contudo, para uma análise mais consistente do método, um
importante fator precisa ser destacado no teste de hipótese: as
estimativas de erro-padrão das diferenças entre as médias – . No
método tradicional de estimação, tem-se:
Por se tratar de uma amostra, pode-se empregar o estimador de
variância amostral das diferenças entre as médias:
Esse método, embora tradicionalmente empregado na maioria dos
pacotes estatísticos, requer que importantes pressupostos sejam
garantidos: as variáveis de interesse devem ser distribuídas
normalmente (ou distribuição gaussiana). Com essa violação de
pressuposto, as estatísticas t-student calculadas, assim como os
intervalos de confiança, não são válidas e, portanto, qualquer
inferência sobre as diferenças pode estar comprometida. Na
existência de tais riscos, uma importante metodologia vem ganhando
amplo destaque nos modelos estatísticos: o método de bootstrap.
O método de bootstrap consiste em uma abordagem não
paramétrica de inferência estatística que substitui os métodos
tradicionais, cujos pressupostos clássicos de distribuição das
variáveis não podem ser relaxados. Esse método foi apresentado
pioneiramente por Efron (1979), como uma alternativa mais ‘segura’
à abordagem de jackknife. Isso porque o método de jackknife ignora
um importante aspecto no cálculo da estatística, assume que os
dados sejam idêntica e independentemente distribuídos (i.i.d.). A
vantagem do estimador proposto de bootstrap corresponde em obter
estimativas consistentes sem que o pressuposto de i.i.d. seja
necessariamente observado. Portanto, permite estimar uma
distribuição amostral de uma estatística de interesse sem as devidas
suposições tradicionais da forma funcional da população ou nas
definições explícitas da própria distribuição amostral (FOX, 2008).
Assim, os métodos usuais de inferência dependem de uma teoria
assintótica que conduz a distribuição dos dados diretamente para
formas funcionais pré-estabelecidas, como a exemplo da distribuição
normal (CAMERON; TRIVEDI, 2005). A ideia básica por trás do
método consiste em definir sucessivas subamostras ou reamostras a
partir da amostra original, denominadas de replicações amostrais, às
quais serão estimadas as estatísticas de interesse:
onde consiste no estimador calculado a partir da i-ésima
reamostra e , na média dos valores reamostrados. A partir da
variância calculada, estima-se o desvio-padrão e, em seguida,
constroem-se os intervalos de confiança para inferir sobre a
significância da estatística de teste.
Contudo, para proceder com o método, uma importante pergunta
precisa ser respondida: qual o número adequado de reamostragens a serem implementadas pelo método? Essa resposta não é tão
simples quanto parece. Por esse motivo, os parágrafos seguintes
apresentam importantes discussões sobre essa solução. Efron e
Tibshirani (1993) afirmam que 50 replicações são um número
suficiente para se obter uma “boa” estimativa de erro-padrão.
Contudo, Andrews e Buchinsky (2000) sugerem um tamanho maior
de replicações para obter estimativas mais confiáveis, adotando um
número B=400. Cameron e Trivedi (2010, p.433) adotam uma regra
simples para definição do número ‘adequado’ de replicações, , onde
‘n’ representa o tamanho da amostra e ‘’ o nível de significância a
ser usado na construção do intervalo de confiança (os autores
adotam o número padrão de ).
Assim, quanto maior o tamanho da amostra, maior o número de
replicações. Neste estudo, serão apresentadas as estatísticas dos
três tamanhos a título comparativo, enfatizando que o método
proposto por Cameron e Trivedi (2010) seja o mais adequado,
devido aos autores apresentarem um procedimento mais intuitivo na
definição das reamostras. Além disso, será considerado um nível de
significância máximo de 10% (). O número ideal de replicações
consiste em 889 reamostras, o que equivale a mais do dobro do
proposto por Andrews e Buchinsky (2000). Quanto maior o número
de reamostras, mais consistente será a estimativa de erro-padrão e,
consequentemente, a confiança nos testes de hipótese.
2.5 Apresentação e análise dos dados
Após o cálculo das estatísticas de teste, constituiu-se a Tabela 1.
Essa tabela apresenta os resultados de acordo com as diferenças
entre as médias (Ddepois – Aantes) e os seus respectivos erro-
padrão e p-valor obtidos por cada método para cada variável. Uma
breve explanação desses resultados será apresentada nos
parágrafos seguintes.
Tabela 1 – Test t para amostras pareadas Variáveis Diferenças Variáveis Diferenças Método Método Bootstrap Bootstrap Bootstrap Bootstrap
( ( ) ) tradicional tradicional (B=50) (B=50) (B=400) (B=400) D-A D-A
Erro-Erro-p-valor Erro-p-valor Erro-p-valor Erro-p-valor Erro-p-val p-val
Padrão Padrão Padrão Padrão Padrão Padrão
INT.EMP 0,1910 1,7194 0,2975 0,1836 0,2940 0,1851 0,33 D
-
INT.EMPA
POT.EMP 0,0019 0,7481 0,9812 0,0800 0,9610 0,0813 0,97 D
-
POT.EMPA
OPO - 0,3876 7,2785 0,6166 0,7506 0,6860 0,7664 0,63 D
OPOA
PES - -1,1461 6,1825 *0,0838 0,6512 0,1180 0,6895 0,10 D
PES A
EFI - -0,6348 3,3378 *0,0762 0,3060 *0,0780 0,3626 *0,09 D
EFI A
INF - -0,0169 5,6991 0,9778 0,5901 0,9800 0,6068 0,96 D
INFA
PLA - 0,6629 5,5554 0,2633 0,5863 0,3140 0,5739 0,23 D
PLA
MET - -0,5674 7,1387 0,4553 0,7888 0,4710 0,7695 0,47 D
MET A
CON - 1,0000 8,5719 0,2741 0,8482 0,2160 0,8972 0,27 D
CONA
PER - 0,3202 7,1542 0,6739 0,9364 0,7840 0,7582 0,66 D
PERA
REL - 0,0787 5,5519 0,8940 0,5511 0,8430 0,5970 0,91 D
REL A
Nota: Os asteriscos *,**,*** correspondem aos respectivos níveis de s
5%, 1%.
Fonte: Dados da pesquisa (2013).
Na variável intenção de empreender (INT.EMP), a conclusão foi a
mesma em todos os métodos. Assim, percebe-se que a intenção de
empreender após o tratamento foi maior que antes, embora essa
diferença não tenha se revelado estatisticamente significativa ao
nível máximo de 10%.
Da mesma forma, a variável potencial de empreender (POT.EMP),
cuja composição das outras 9 variáveis mostrou um aumento pouco
expressivo depois do tratamento, di = 0,0019. Tal diferença não se
revelou significativa mesmo ao nível de 10% em todos os métodos
estimados (tradicional e bootstrap com 50, 400 e 889 replicações).
Esse resultado pode ser explicado com o detalhamento das
variáveis que a compuseram, tendo em vista que, das nove variáveis
que a compõem, cinco indicaram um aumento e quatro indicaram
uma diminuição.
As variáveis OPO, PLA, CON, PER e REL apresentaram um
padrão similar no sentido da diferença. Sendo assim, após o
tratamento, os índices médios dessas variáveis foram maiores do
que antes. Porém, em todos os casos, tais diferenças não foram
estatisticamente significativas, considerando o nível de 10%.
Em contrapartida, as variáveis INF e MET apresentaram uma
pequena diferença (di = -0,0169, e di = -0,5674, respectivamente).
Isso indica que, depois do tratamento, houve uma queda em seus
indicadores médios, embora não significativo ao nível de 10%. Esse
padrão persistiu nos demais métodos de bootstrap (50, 400 e 889),
não rejeitando a hipótese de médias estatisticamente iguais.
Por fim, infere-se que as variáveis que apresentaram diferenças
estatisticamente significativas foram PES e EFI. Na variável PES,
houve uma redução no indicador após o tratamento (-1,1461) e
significativa ao nível de 10%, considerando o método tradicional de
cálculo da estimativa de erro-padrão. Da mesma forma, na variável
EFI, a diferença média foi di = -0,6348. Isso sugere que, após o
tratamento, essa variável apresentou uma redução. Essa diferença,
embora inferior à variável PES, foi mais significativa ao se comparar
com o método de bootstrap, com 889 replicações (p-valor de 0,0670
contra 0,0730).
Considerando-se o método de bootstrap com 50 replicações
amostrais, a variável PES não apresentou diferença significativa
(mesmo ao nível de 10%). Esse padrão de não significância
continuou a se apresentar com 400 replicações (p-valor = 0,1020).
Contudo, no método com 889 replicações, tais diferenças voltaram a
apresentar significância estatística (ao nível de 10%). Embora este
último método venha a apresentar resultados similares com o
método tradicional, são visíveis os ganhos de significância em
decorrência da redução do p-valor calculado, revelando-se um
método mais eficiente.
Em suma, como resultado, os métodos estimados (tradicional e
bootstrap) mostram significância estatística em somente duas
variáveis PES e EFI, de maneira que o efeito do tratamento em
ambos os indicadores apresentou um efeito negativo e
estatisticamente significativo ao nível de 10%. Portanto, a hipótese
deste estudo não foi confirmada.
2.6 Considerações finais
Os dados indicam que somente duas variáveis, PES e EFI,
tiveram um efeito estatisticamente significativo ao nível de 10%. No
entanto, esse efeito foi negativo, ou seja, em lugar de aumentar,
essas variáveis diminuíram após a participação dos discentes na
disciplina de Administração e Empreendedorismo.
Uma justificativa plausível para esse resultado é que a
mensuração dessas variáveis requer um alto nível de conhecimento
interpessoal e de capacidade de autoavaliação. No momento em
que os discentes tomaram conhecimento de que o empreendedor
tem um lócus de controle interno desenvolvido, auto avaliaram-se
com mais responsabilidade e viram a importância de melhorar
nesses aspectos, pois ficaram mais exigentes consigo próprios
(NORIEGA et al., 2007).
Outra possível explicação para esse resultado é que essas
variáveis, em conjunto com a variável OPO, compõem as chamadas
necessidades de realização de McCllelland (SANTOS, 2008).
Segundo Campos (2007), as pessoas movidas pela necessidade de realização tendem a canalizar suas energias para o aperfeiçoamento
contínuo de seu desempenho. No entanto, considerando que os
discentes do BCT cursam a disciplina de Administração e
Empreendedorismo em conjunto com mais outras seis ou sete
disciplinas e que a segunda parte da coleta de dados aconteceu no
final de um semestre, quando a carga de avaliações e trabalhos é
intensa, a energia desses discentes estava dispersa para atender às
exigências inerentes ao curso. Isso significa que, considerando a
conjuntura em que esses discentes se encontravam, é pertinente
que o grau de persistência e de eficiência haja diminuído.
Em síntese, com base nos dados obtidos, conclui-se que, após a
disciplina Administração e Empreendedorismo ser ministrada aos
discentes matriculados no período letivo 2013.1, a intenção de
empreender e o potencial empreendedor destes não sofreram
aumento significativo. Logo se infere que a disciplina de
Administração e Empreendedorismo não está desenvolvendo a
contento o perfil empreendedor dos seus discentes.
Tais resultados, não necessariamente, levam à constatação de
que a disciplina não possui efeito perante o aumento da intenção de
empreender e do potencial empreendedor, visto que,, como
mencionado anteriormente o fenômeno do empreendedorismo
abrange vários âmbitos: econômico, social e comportamental, assim
como levantado por Dolabela (1999) e Filion (1999). Esses aspectos
não são trabalhados por completo durante a disciplina, devido ao
seu curto período de duração.
Outro fator que pode ter influenciado tal resultado dizem respeito
aos métodos de ensino que estão sendo utilizados para abordar o
assunto, visto que, como mencionado por Dolabela (1999), para
desenvolver características empreendedoras, é necessária uma
metodologia adequada, que trabalhe não só os aspectos
conceituais, mas também os aspectos comportamentais e
atitudinais. Essa disciplina tem uma carga de conteúdo programático
extensa, que engloba, no mínimo, duas disciplinas de 60 horas em
um curso graduação em Administração: Introdução à Administração
e Empreendedorismo. Esse fato impossibilita que seus docentes
possam ir além do aspecto conceitual.
Outra consideração a ser feita é com relação ao período de
duração da disciplina. A disciplina Administração e
Empreendedorismo é ministrada com uma durabilidade média de
apenas quatro meses, um semestre. Nesses quatro meses, parte do
conteúdo é destinada à introdução do ensino de administração de
empresas. Logo, é um período de tempo muito reduzido para se
desenvolver toda uma metodologia que possa vir a ser eficiente e
eficaz, assim como a descrita por Dolabela (1999). Principalmente,
levando-se em consideração o tempo médio ideal estimado por
Degen (2009) para o desenvolvimento de cursos que tenham o
intuito de desenvolver empreendedores de, em média, um ano.
Como explicitado, além do curto período de tempo para o ensino
do empreendedorismo, esse tempo ainda é compartilhado com o
ensino introdutório à administração de empresas, outro fator que
pode ter influenciado para o não aumento da intenção e do potencial
empreendedor de forma significativa. Lembrando que, segundo
Dolabela (1999), a tendência de se repetir o modelo dos cursos de
administração de empresas já existe, por si só, no desenvolvimento
de qualquer curso de empreendedorismo, o que, segundo ele, é
totalmente inadequado didaticamente.
Além disso, é necessário que não apenas uma única disciplina
tenha o objetivo de desenvolver um perfil empreendedor em seus
discentes, mas sim ações integradas e realizadas em todas as
disciplinas desse curso que promovam o desenvolvimento da
intenção de empreendedor e do potencial empreendedor (VIEIRA;
MELATTI; RIBEIRO, 2011).
Ainda deve-se levar em consideração o caráter quantitativo da
pesquisa desenvolvida neste trabalho, o que pode ter influenciado
nos resultados alcançados, visto que os resultados obtidos no
presente trabalho contrastam bastante com os atingidos na pesquisa
qualitativa de Ferraz et al. (2000), que indicou que o ensino do
empreendedorismo influenciou, de forma positiva, sobre a atitude
dos discentes dos cursos de engenharia.
Portanto, um ou todos esses aspectos enfatizados podem ser
motivos pelos quais os dados coletados sobre a intenção e o
potencial empreendedor não indicaram um aumento significativo
para a maioria dos discentes que cursaram a disciplina Administração e Empreendedorismo no semestre 2013.1. Espera-se
que, com base nestes resultados, a disciplina possa vir a ser
incrementada pelos que a ministram, com a adoção de novas
metodologias de ensino, como, por exemplo, as propostas por
Dolabela (1999), ou apenas com a melhoria da metodologia já
utilizada. Ou ainda com o desmembramento da disciplina em duas,
uma voltada para introdução à administração e outra voltada
especificamente para empreendedorismo.
Para finalizar, espera-se também que, com o desenvolvimento
deste trabalho, a instituição possa vir a demonstrar maior interesse
pelo campo do empreendedorismo, promovendo ações integradas
junto às outras disciplinas do curso, realização de cursos de
extensão e mais pesquisas relacionadas ao assunto, uma vez que
que o tema é bastante abrangente e, como exposto no trabalho, é
de interesse de várias áreas do conhecimento.
A pesquisa apresentou, como uma das principais limitações, o
curto período de tempo para coleta e análise dos dados, uma vez
que os dados coletados na primeira fase foram analisados
concomitantemente com os dados coletados na segunda fase, tudo
isso atendendo a um prazo estipulado para a entrega do trabalho.
Esse pequeno intervalo de tempo acarretou na coleta dos dados
com o conteúdo da disciplina não concluído em todas as turmas. Na
turma 3, por exemplo, o conteúdo abordado até a data da segunda
coleta ainda não incluía o plano de negócios, que é de extrema
importância para o desenvolvimento das características
empreendedoras.
Outro ponto que limitou a pesquisa foi a redução do número da
amostra, pois muitos discentes se ausentaram das aulas iniciais, o
que levou ao descarte dos questionários respondidos apenas na
segunda coleta, visto que esses dados não eram pareados. Em
adição, muitos dos discentes respondentes da primeira coleta
cancelaram suas matrículas, trancaram ou desistiram da disciplina e
assim não participaram da segunda coleta. Do mesmo modo, a não
identificação do questionário com o correspondente número de
matrícula do discente levou à não utilização desses dados, uma vez
que não se conseguiu analisar em conjunto os dados da primeira e
da segunda fase de aplicação.
Pelo exposto, sugere-se o desenvolvimento de uma pesquisa com
o intuito de constatar se existem outras características, como, por
exemplo, as demográficas, que influenciam no desenvolvimento da
intenção e do potencial empreendedor dos discentes que cursam a
disciplina Administração e Empreendedorismo. Ou ainda uma
pesquisa com a finalidade de constatar se há relação entre a
escolha da engenharia e a intenção e o potencial de empreender
dos discentes.
Pode-se também constatar, por meio de pesquisa, se a disciplina
de Empreendedorismo, que é destinada aos cursos de
Administração, Engenharia de Pesca e Biotecnologia, interfere de
algum modo na intenção e no potencial empreendedor dos
discentes. Essa pesquisa seria bastante interessante, visto que a
disciplina ofertada nesses cursos é voltada apenas para o ensino do
empreendedorismo, não havendo o risco de ocorrer uma mescla
com o ensino de administração de empresas, como ocorre no
Bacharelado em Ciência e Tecnologia. Por fim, uma investigação
sobre as ações realizadas pelas demais disciplinas do curso para
desenvolver o perfil empreendedor de seus egressos podem nortear
seus gestores na reformulação de suas grades curriculares e em
suas atividades em e extra sala de aula.
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