Esconderijo
Sete
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Enquanto ele a rebocava, impaciente, através do lago, ela puxava pela perna direita, como se fosse incapaz de andar mais rápido do que aquilo. Precisava retardá-lo para ganhar tempo e pensar em algum outro truque.
Mas ela era apenas uma criança, e truques não se apresentam com tanta facilidade, mesmo a uma criança esperta como ela, mesmo a uma criança que passou dez anos arquitetando truques para fazer todo mundo pensar que era capaz de tomar conta de si própria, que ela era durona, que nunca iria chorar. A sua sacola de truques agora estava vazia, e ele nunca sentira tanto medo em toda sua vida.
Ele a arrastou ao longo de uns barcos enormes, parecidos com as gôndolas de Veneza que ela já vira em fotos, só que estas tinham proas em forma de dragão, como os navios vikings. Com o estranho puxando-a impaciente pelo braço, ela passou coxeando diante da cabeça ameaçadora de uma serpente, maior do que ela própria.
Folhas secas e papéis velhos tinham sido soprados pelo vento para dentro daquele imenso tanque vazio. Na brisa da noite, que de vez em quando soprava com mais intensidade, aquele lixo acumulado se agitava ao redor dos pés deles com um ruído que lembrava o rebentar das ondas de uma praia fantasmagórica.
— Vamos, vamos lá, meu tesouro — disse ele, naquela voz adocicada mas falsa. — Quero que suba o seu Gólgota, do mesmo jeito que Ele fez. Não acha isso muito adequado? Será que é pedir muito? Hmmm? Não estou pedindo que carregue sua própria cruz, estou? O que você acha, meu tesouro? Você quer andar mais depressa, porra1?
Ela estava aterrorizada e não tinha mais como esconder o fato, nem como esconder as lágrimas. Começou a tremer e a chorar, e sua perna direita ficou mais fraca, de verdade, a tal ponto que mal podia manter-se de pé, quanto mais caminhar mais depressa como ele exigia.
No passado, ela teria se voltado para Deus num momento como aquele, falaria com ele, falaria sem parar, porque ninguém tinha falado com Deus com maior freqüência ou mais franqueza do que ela o fizera desde pequenininha. Mas ela já havia talado com Deus quando vinha no carro e não achava que ele a tivesse escutado. É verdade que durante todos aqueles anos suas conversas tinham sido em mão-única, tudo bem, mas ela sempre soubera que ele pelo menos estava escutando, sempre tivera a sensação de uma enorme e pausada respiração do outro lado da linha. Mas agora ela sabia que ele não podia estar ouvindo, porque se estivesse, vendo o quanto ela estava desesperada, ele desta vez não deixaria de responder. Ele não estava lá; ela não tinha idéia de onde ele pudesse estar e se sentia mais sozinha do que em qualquer outra hora de sua vida.
Quando ela estava tão abatida pela fraqueza e pelas lágrimas que não conseguia mais andar, o estranho a ergueu nos braços. Ele era muito forte. Ela não conseguiu resistir, mas também não se segurou nele. Apenas cruzou os braços sobre o peito, cerrando os punhos, e enroscou-se sobre si mesma.
— Lá vou eu carregando meu pequeno Jesus — disse o estranho. — Minha ovelhinha, é um grande privilégio carregar você.
Não havia nenhum calor em sua voz a despeito das coisas que dizia: apenas ódio e escárnio. Ela conhecia aquele tom de voz... já o tinha ouvido antes. Não importa o quanto você se esforce para se adaptar aos outros e ser amiga de todo mundo, alguns garotos acabam odiando você por ser tão diferente deles; e em suas vozes ela já ouvira aquele mesmo tom, o que a fez encolher-se ainda mais.
Ele a conduziu nos braços através das portas largas, abertas, apodrecidas, para dentro de uma escuridão que a fez sentir-se muito pequena.
Lindsey nem sequer se deu o trabalho de descer do carro para ver se o portão podia ser aberto. Quando Hatch apontou naquela direção, ela empurrou o pé no acelerador, pisando até o fundo. O carro rugiu e projetou-se para a frente, e eles irromperam com estrondo no interior do parque, demolindo o velho portão e produzindo ainda mais estragos no carro, que já tinha um farol dianteiro arrebentado.
Sempre seguindo as indicações de Hatch, ela seguiu por uma estrada de serviço que rodeava o parque pelo lado de dentro. Do lado esquerdo ficava a alta cerca, coberta pelos restos retorcidos e nodosos de uma trepadeira, que antes havia ocultado inteiramente as correntes da cerca, mas que tinha secado depois que o sistema de irrigação foi desligado. Do lado direito, ficava aparte traseira daqueles brinquedos cujas estruturas eram construídas de forma permanente e que não seriam demolidas com facilidade- Havia também uma porção de prédios com fachadas fantásticas, seguras em suas posições por suportes de metal visíveis por trás.
Deixando a estrada de serviço, seguiram pelo espaço entre duas daquelas; estruturas, ao longo do que antigamente fora uma alameda por onde os freqüentadores do parque passeavam a pé. Uma roda-gigante, a maior que ela já vira, devastada pelo vento, pelo sol e por anos de abandono, erguia-se no meio da noite, como os ossos de um Leviatã roídos por abutres até ficarem totalmente sem carne.
Um carro estava parado perto do que parecia ser uma piscina vazia, diante de uma enorme estrutura.
— O túnel-do-terror — disse Hatch; ele já o tinha visto, mesmo que através de outros olhos.
A construção possuía um teto com três cumeeiras altas, assemelhando-se à lona de um circo de três picadeiros; as paredes de estuque estavam arruinadas e tomadas pelo mato. Ela podia avistar apenas trechos sucessivos daquela estru¬tura, à medida que os faróis do carro passavam ao longo dela, mas não gostou de nada do que viu. Ela não era por natureza uma pessoa supersticiosa—embora estivesse prestes a se tornar uma, depois de suas experiências mais recentes —, mas sentia uma aura de morte em redor daquele lugar, tanto quanto sentiria o ar frio se desprendendo de um bloco de gelo.
Estacionou atrás do outro carro. Um Honda. Seus ocupantes tinham partido com tanta pressa que deixaram as portos dianteiras escancaradas e as luzes acesas.
Erguendo sua lanterna numa mão e a Browning na outra, ela saiu do Mitsubishi e correu até o Honda, olhando dentro dele. Nenhum sinal de Regina.
Lindsey descobrira que havia um ponto a partir do qual o medo parava de crescer. Cada nervo parecia exposto ao ar. O cérebro ficava incapaz de processar mais informações, de modo que limitava-se a manter o nível máximo de terror já alcançado. Cada novo choque, cada novo pensamento de pavor não aumentava mais o fardo insuportável do medo, porque a mente apagava as informações mais antigas para dar lugar às novas. Ela mal conseguia lembrar algo do que tinha acontecido em casa ou durante aquela corrida surreal até o parque; a maior parte daquilo havia sumido, deixando apenas alguns farrapos esparsos de lembranças, deixando sua mente focalizada apenas no momento imediato.
No chão, aos seus pés, visível à luz que emanava do painel do carro e logo depois ao facho luminoso de sua lanterna, viu um pedaço de corda com pouco mais de um metro de comprimento. Ela o apanhou e viu que a corda tinha sido amarrada com um nó e depois cortada com uma faca. Hatch tomou a corda de sua mão.
— Estava em redor dos tornozelos de Regina—disse ele.—Ele queria que ela caminhasse.
— Onde estão agora?
Ele apontou com sua lanterna para o lado oposto do lago vazio, além das três gôndolas cinzentas, inclinadas, com enormes cabeças-de-proa: o facho luminoso mostrou um par de portas de madeira na base da construção. Uma pendia das dobradiças arrebentadas, a outra estava totalmente aberta. A lanterna dele era do tipo caseiro, de quatro pilhas, forte o bastante para iluminar aquelas portas distantes, mas incapaz de penetrar na terrível escu¬ridão que jazia do lado de dentro.
Lindsey afastou-se do carro e foi na direção do lado, saltando o muro que o circundava, Hatch gritou: "Lindsey, espere", mas ela não podia esperar um só momento mais — e ele, será que poderia? — à simples idéia de que Regina estaria ali, nas mãos do psicopata revivido, o filho de Jonas Nyebern.
Enquanto Lindsey cruzava o lago, o medo que sentia pela vida de Regina era superior a qualquer preocupação que pudesse ter com a própria seguran¬ça. Lembrando, porém, que ela própria devia manter-se viva se queria que Regina tivesse alguma chance de escapar, varreu com o facho da lanterna o espaço em todas as direções, antes de passar ao lado das enormes gôndolas.
Folhas secas e papel velho rodopiavam ao vento, sendo arrastados ao longo do piso de cimento que formava o chão do lago, mas às vezes erguiam-se num redemoinho, subindo em colunas e agitando-se sem cessar. Nada mais se movia.
Hatch emparelhou com ela no momento em que ela atingiu a porta de entrada do túnel-do-terror. Tinha se atrasado um pouco porque usara o pedaço de corda achado por Lindsey para amarrar sua lanterna ao crucifixo. Agora, podia carregar os dois com uma só mão, apontando a cabeça do Cristo para qualquer ponto que iluminasse. Isso deixava sua mão direita livre para segurar a Browning. Ele havia deixado a Mossberg calibre 12 para trás. Se tivesse amarrado a lanterna ao cano da espingarda, poderia ter trazido tanto a espingarda quanto a pistola. Evidentemente, acreditava que o crucifixo seria uma arma mais útil do que a Mossberg.
Lindsey não entendia por que ele trouxera a cruz que estivera pendurada no quarto de Regina. Ela também não acreditava que o próprio Hatch soubesse. Estavam atolados ate a cintura no rio lamacento do desconhecido e, além da cruz, ela gostaria de ter trazido também uma guirlanda de cabeças de alho, um frasco de água-benta, algumas balas de prata e qualquer outra coisa que pudesse ser útil.
Como artista, ela sempre soubera que o mundo dos cinco sentidos, sólido e seguro, não representava a totalidade da existência, e havia incorporado isso a sua obra. Agora, estava apenas incorporando a mesma coisa ao restante de sua vida, surpresa de que isso já não tivesse acontecido há muito mais tempo.
Com os fachos de luz das duas lanternas cortando a escuridão que se alargava à sua frente, ela e Hatch penetraram no túnel-do-terror.
Os truques de Regina para enfrentar situações desesperadas não tinham se esgotado por completo, afinal. Ela conseguiu inventar mais um.
Descobriu um recanto profundo em sua mente, para onde podia ir, e fechar a porta e ficar em segurança, um lugar que só ela conhecia, e onde nunca seria encontrada. Era um belo quarto com paredes pintadas de cor de pêssego, iluminação suave, e uma cama coberta com flores pintadas. Depois dela estar ali, a porta só podia ser aberta por dentro. Não havia janelas. Uma vez lá dentro daquele derradeiro refugio, ela não se incomodava com o que pudesse acontecer com a outra, a Regina física do pavoroso mundo lá fora. A verdadeira Regina estava segura em seu esconderijo, a salvo do medo e da dor, a salvo das lágrimas e da dúvida e da tristeza. Ela não podia escutar nenhum dos sons de fora, especialmente a voz melíflua do homem de preto. Ela não podia ver nada do que havia fora do quarto: via apenas as paredes cor de pêssego, sua cama pintada, as luzes suaves... nunca a escuridão. Nada de fora daquele quarto poderia tocá-la, especialmente as mãos pálidas do homem, que tinha acabado de tirar as luvas.
E, o mais importante de tudo, o único cheiro que havia no seu santuário era o perfume de rosas como aquelas pintadas na cabeceira de sua cama, uma fragrância limpa, doce. Nada que se parecesse ao cheiro de criaturas mortas. Nada que se assemelhasse ao nauseante odor de decomposição que podia fazer uma pessoa sentir uma golfada ácida de vômito subindo até a garganta, capaz de sufocá-la, se essa pessoa estivesse com a boca tapada por uma mordaça ensopada de saliva. Não, nada daquilo podia existir dentro do seu quarto, seu quarto secreto, seu quarto sagrado e profundo, seu abrigo mais seguro e mais solitário.
Algo estranho tinha acontecido com a garota. Aquela singular vitalidade que a tornava tão atraente parecia ter desaparecido.
Quando Vassago a sentou no chão, ao chegar no Inferno, as costas apoiadas na base da gigantesca imagem de Lúcifer, ele pensou que ela tivesse desmaiado. Mas não era isso. Em primeiro lugar, quando ele se agachou ao lado dela e pôs a mão sobre seu peito, viu que o coração dela batia como o de um coelho cujas patas traseiras tivessem acabado de ser abocanhadas por uma raposa. Ninguém poderia estar inconsciente e com o coração batendo daquele modo.
Além disso, os olhos estavam abertos. Olhavam cegamente para diante, como se não conseguissem se fixar em nada específico. Claro que ela não podia vê-lo no escuro do modo como ele a via, não podia ver nada, na verdade; mas não era por esse motivo que ela parecia olhar através do corpo dele. Quando ele tocou-lhe nas pálpebras com a ponta do dedo, ela não recuou, nem sequer piscou o olho. As lágrimas que molhavam seu rosto estavam secando, e ela não chorava mais.
Catatônica. Aputinha dera um jeito de escapar; tinha se trancado dentro da própria mente, transformando-se num vegetal. Isso não satisfazia de modo algum os seus propósitos. O valor de uma oferenda estava na vitalidade da pessoa sacrificada. A arte tinha que ser criada através de energia, vibração, dor e terror. Que tipo de conceito poderia ser formulado através daquele pequeno Cristo de olhos cinzentos, se a garota era incapaz de experimentar e exprimir sua agonia?
Ficou tão enraivecido com ela, tão furioso, decidiu que não queria mais brincar com ela. Mantendo uma mão apoiada sobre o peito da garota, por sobre o coelhinho assustado que pulsava lá dentro, puxou o canivete do bolso do casaco e o abriu.
Controle.
Teria rasgado o peito dela ali mesmo, e experimentado o prazer intenso de sentir o coração dela parar de bater nas suas mãos em concha, mas era um Mestre do Jogo, e sabia a importância e o significado do autocontrole. Ele era capaz de se privar dessa excitação passageira, para poder conseguir recompensas mais duradouras e valiosas. Hesitou apenas um instante antes de afastar a arma.
Ele era melhor do que aquilo.
Aquele lapso chegou a surpreendê-lo.
Talvez ela emergisse daquele transe, quando ele estivesse pronto para incorporá-la a sua coleção. Se não, ele tinha certeza de que quando o primeiro prego começasse a ser martelado através da palma de sua mão ela recuperaria os sentidos e se transformaria na radiante obra de arte que ele havia imaginado.
Deixou-a ali e foi na direção das ferramentas que estavam agrupadas próximo à extremidade da sua coleção, em forma de meia-lua. Ali ele dispunha de martelos e chaves de fenda, chaves-inglesas e alicates, serras e uma caixa de corte, uma perfuradora movida a bateria com um conjunto de brocas, parafusos e pregos, cordas e fios, suportes e pegadeiras de todos os tipos, e tudo que poderia ser necessário para aquele tipo de trabalho. Comprara tudo na Sears, quando percebera que a instalação e posicionamento de cada peça de sua coleção implicaria a construção de suportes habilmente projetados e, em alguns casos, de cenários que dessem reforço ao tema central. O meio de expressão artística que ele escolhera não era tão fácil de manusear quanto a pintura a óleo, ou a aquarela, ou a argila, ou o granito usado pelos escultores; a força da gravidade tendia a distorcer a maior parte dos efeitos que ele procurava criar em cada peça.
Ele sabia que não dispunha de muito tempo, que vinha gente nos seus calcanhares, gente que não iria compreender a sua arte e que por volta do amanhecer teria transformado o parque de diversões num lugar insuportável. Mas não faria diferença nenhuma, caso conseguisse fazer aquela última adição a sua galeria, completando-a com chave de ouro e conquistando a aprovação final com que ele sonhava. Melhor se apressar.
A primeira coisa a fazer, antes de erguer a garota e prendê-la numa posição ereta, era verificar se o material que constituía o corpo reptiliano e escamoso do Lúcifer podia receber um prego. Parecia ser uma espécie de borracha dura ou de plástico macio. Dependendo da espessura, flexibilidade e grau de estilhaçamento do material, um prego poderia entrar ali tão facilmente quanto numa tábua, ou ser repelido, ou se dobrar. Se a pele do demônio provasse ser demasiado resistente, ele teria que usar a furadeira elétrica em vez do martelo, e parafusos de duas polegadas em vez de pregos, mas isso não deveria afetar a integridade artística da obra: antes daria um toque moderno à recriação daquele rito milenar.
Pegou o martelo. Colocou o prego. A primeira pancada enterrou um quarto do prego na barriga do Lúcifer. A segunda o enterrou até a metade. Bom; poderia ser com pregos, então.
Baixou a vista até a garota, que permanecia sentada no chão, as costas apoiadas na base da estátua. Não tinha reagido ao som das marteladas.
Ele estava desapontado, mas ainda não perdera as esperanças.
Antes de instalar a garota em seu lugar, ele separou rapidamente todas as coisas de que iria precisar. Um par de tábuas para servir de apoio até que a aquisição estivesse definitivamente afixada em sua posição. Dois pregos. Um prego mais longo e mais pontudo, que bem poderia ser considerado um cravo. O martelo, claro. Mais depressa. Alguns pregos menores, um pouco maiores do que tachas, para serem colocados em sua testa, representando a coroa de espinhos. O canivete, com o qual ele poderia recriar o ferimento de lança atribuído a um soldado romano. Mais alguma coisa? Pense. Rápido, agora. Não dispunha de esponja nem do vinagre para embebê-la, portanto não poderia fazer a clássica oferta de bebida aos lábios ressequidos; mas não acreditava que a ausência desse simples detalhe pudesse comprometer a sua composição.
Estava pronto para começar.
Hatch e Lindsey penetraram no túnel das gôndolas, avançando o mais rápido que podiam, mas eram forçados a parar e projetar a luz das lanternas nos recessos mais profundos de cada um dos nichos e pequenos palcos que se abriam ao longo das paredes laterais. Aqueles fachos oscilantes faziam com que sombras negras saltassem e se agitassem por entre as estalactites e estalagmites de concreto e outras formações rochosas artificiais; mas todos os espaços que eles examinaram estavam vazios.
Duas pancadas profundas, como golpes de martelo, vieram ressoando lá da parte mais profunda do túnel, as duas em rápida sucessão. Depois, silêncio.
— Ele está lá na frente, em algum lugar — sussurrou Lindsey. — Mas não muito perto. Vamos mais depressa.
Hatch concordou.
Avançaram ao longo do túnel sem examinar todos os recantos escuros, onde um dia monstros mecânicos tinham estado à espreita. A certa altura, a ligação entre Hatch e Jeremy Nyebern se produziu novamente. Hatch experimentou toda a excitação do assassino, um desejo obsceno e palpitante. Captou também uma série de imagens desconexas: pregos, um longo cravo, um martelo, duas peças de tábua, um punhado de tachas espalhadas, a lâmina delgada de um canivete saltando, impelida pela mola...
Sua raiva ia aumentando na mesma medida que seu medo, mas ele não permitiu que aquelas imagens perturbadoras impedissem seu avanço; alcançou o fim do túnel horizontal e cambaleou para a frente, quase caindo, até perceber que o ângulo do piso mudara radicalmente sob os seus pés, dando início a uma rampa de descida.
Então, sentiu o cheiro pela primeira vez, trazido por uma corrente de ar. Tossiu, meio engasgado, e ouviu que Lindsey fazia o mesmo; mas cerrou a garganta e forçou-se a engolir.
Ele sabia o que os esperava lá embaixo. Pelo menos em parte. Vislumbres daquela galeria faziam parte das visões que o haviam assaltado quando ele vinha no carro pela rodovia. Se ele não mantivesse o autodomínio com mão de ferro, jamais conseguiria descer até o fundo daquele poço infernal; e tinha que descer até lá, para poder salvar Regina.
Aparentemente Lindsey pensara o mesmo, porque ela também dominou a náusea que sentia e o seguiu na descida da rampa.
A primeira coisa que chamou a atenção de Vassago foi um lampejo de luz que vinha do fundo da caverna, na parte superior, onde ficava a rampa de acesso ao túnel. A rapidez com que a luz se tornava mais e mais brilhante o convenceu de que ele não teria tempo de instalar a garota na sua coleção antes de ser interrompido pelos intrusos.
Sabia quem eram eles. Já os avistara durante aquelas visões, assim como eles, evidentemente, também o tinham avistado. Lindsey e seu marido o haviam seguido desde a casa de Laguna Níguel até ali. Vassago começava a admitir que havia mais forças envolvidas naquele caso do que parecera a princípio.
Considerou a possibilidade de deixar que descessem a rampa até o Inferno, atacá-los pelas costas, matar o homem, imobilizar a mulher, e em seguida partir para uma crucificação dupla. Mas havia alguma coisa no marido que o deixava inquieto, e que não conseguia definir.
Sabia agora que, apesar de todas as suas bravatas, tinha até então evitado qualquer tipo de confronto direto com aquele homem. Mais cedo naquela noite, na casa deles, quando o elemento surpresa estava do seu lado, poderia muito bem tê-lo atacado por trás e o eliminado desde logo, antes de ir à procura de Regina ou Lindsey. Se tivesse agido assim, talvez pudesse ter adquirido tanto a criança quanto a mulher, e naquele momento estaria tranqüilo, mutilando-as em paz.
Lá em cima, aquele halo de luz se transformara nos fachos de duas lanternas elétricas, na borda do conduto por onde a água antigamente se escoava. Depois de breve hesitação, começaram a descer. Com os óculos escuros guardados no bolso do casaco, Vassago contraiu os olhos diante daquelas lancinantes espadas de luz.
Como da vez anterior, decidiu não enfrentar o homem, mas fugir com a criança. Desta vez, no entanto, perguntou a si próprio por que tanta prudência.
Um Mestre do Jogo, repetiu ele para si mesmo, deve mostrar um controle de ferro sobre si mesmo e escolher os momentos mais adequados para demonstrar seu poder e sua superioridade.
Era verdade. Mas desta vez achou por um breve instante que aquilo não passava de uma vergonhosa desculpa para evitar um confronto.
Ora, absurdo. Não tinha medo de nada neste mundo.
Os fachos das lanternas continuavam a uma distância considerável e se dirigiam a maior parte do tempo para o solo; ainda não haviam atingido a metade de sua descida até o chão do Inferno. Vassago podia ouvir os passos dos dois, que soavam cada vez mais alto e se propagavam em ecos à medida que o casal penetrava naquele imenso recinto.
Ergueu nos braços a garota catatônica, como se ela não pesasse mais do que um travesseiro de penas, jogou-a sobre o ombro e afastou-se silenciosamente na direção de um grupo de rochas artificiais, que ocultavam uma porta de serviço.
— Meu Deus do céu!...
— Não olhe—disse Hatch, enquanto percorria com o facho da lanterna aquela coleção macabra. — Pelo amor de Deus, não olhe... Me cubra por trás, veja se ele não está vindo nos atacar.
Com alívio ela fez o que ele pedia, dando as costas ao semicírculo silencioso de cadáveres em várias fases de decomposição. Ela teve certeza de que, mesmo que chegasse a viver cem anos, não dormiria mais uma noite sequer sem ser assaltada pela visão daquelas formas e daqueles rostos. Mas, que brincadeira... ela nunca chegaria aos cem anos. Estava começando a achar que não chegaria ao fim daquela noite.
A simples idéia de respirar aquele ar viciado e impuro através da boca era o bastante para dar-lhe convulsões de náusea, mas ela preferiu fazê-lo para sentir menos aquele cheiro insuportável.
A escuridão era tão profunda. A luz das lanternas elétricas mal conseguia penetrá-la. Era como um xarope espesso, tentando se fechar novamente sobre aquele fino canal aberto pelo jato luminoso.
Ela ouviu que Hatch caminhava ao longo daquela coleção de cadáveres e entendeu o que ele estava fazendo: dando uma olhadela rápida em cada um, só para ter certeza de que Jeremy Nyebern não estava escondido entre eles, como uma monstruosidade viva dissimulando-se entre as outras já consumidas pela podridão, e esperando o momento certo para lançar-se sobre eles dois.
Onde estava Regina?
Lindsey começou a mover o facho da lanterna de um lado para outro, sem parar, criando um arco brilhante de luz, para não dar ao assassino nenhuma chance de se aproximar dela sem ser denunciado pelo jato luminoso. Mas, ah, ele era rápido. Ela vira como ele podia ser rápido. Deslizando pelo corredor até o quarto da garota, trancando a porta atrás de si; rápido, veloz como se tivesse asas, asas de morcego. E ágil. Descendo pelas trepadeiras da parede com a menina sobre o ombro, saindo ileso da queda, sumindo na noite com ela.
Onde estava Regina?
Ela ouviu que Hatch continuava se afastando e soube mais uma vez qual era a intenção dele: não estava apenas percorrendo o semicírculo dos corpos, mas rodeando aquela imensa estátua de Satã, para se certificar de que Jeremy Nyebern não se encontrava do lado oposto. Ele estava fazendo o que tinha de fazer. Lindsey sabia disso, mas mesmo assim não gostava, nem um pouco, porque agora era forçada a ficar ali sozinha, com todas aquelas pessoas mortas bem às suas costas. Alguns deles estavam ressequidos e certamente fariam algum tipo de barulho rascante se se tornassem animados e viessem em sua direção, enquanto que outros estavam em estágios mais horrendos de decomposição e iriam denunciar sua aproximação com ruídos úmidos, de pés chapinhando... Mas que pensamentos malucos eram aqueles? Aquelas pessoas estavam mortas. Não tinha nada a temer da parte deles. Os mortos continuam mortos. Só que às vezes, não — certo? Até onde ia a experiência dela própria, não. Mas ela continuou agitando a lanterna para um lado e para o outro, sem parar, resistindo ao impulso de virar-se e iluminar os corpos decompostos por trás dela. Sabia que devia lamentá-los, em vez de ter medo deles; devia revoltar-se contra o abuso e a indignidade que tinham sofrido, mas naquele instante sua mente só tinha espaço para o medo. E agora ela ouvia Hatch se aproximando, vindo pelo lado oposto da estátua, completando sua circunavegação, graças a Deus. Mas quando aspirou novamente aquele ar carregado, de sabor quase metálico, ela imaginou se seria mesmo Hatch ou algum daqueles corpos que estava se movendo. Ou Jeremy. Voltou-se, olhou para além dos corpos, em vez de diretamente para eles, e sua lanterna revelou que era Hatch que regressava.
Onde estava Regina?
Como se respondendo àquela pergunta, um rangido bastante audível ressoou no ar espesso. As portas do mundo inteiro fazem o mesmo barulho, quando as suas dobradiças estão enferrujadas e corroídas.
Ela e Hatch giraram suas lanternas no mesmo instante, na mesma direção. Os círculos de luz superpostos mostraram que a origem do som era uma espécie de formação rochosa na margem oposta daquilo que, cheio de água, devia ter formado um lago maior do que o que se via do lado de fora do edifício.
Antes de perceber o que estava fazendo, Lindsey partiu naquela direção. Hatch disse o nome dela em voz baixa, num tom de urgência que queria dizer afaste para lá, deixe, eu vou na frente. Mas afastar-se teria sido tão impossível naquele instante quando recuar e subir de volta a rampa. Sua Regina tinha estado ali, no meio dos mortos; talvez sendo poupada de vê-los, devido à estranha aversão que seu raptor tinha pela luz; mas consciente da presença deles, sem dúvida. Lindsey não podia suportar a idéia de permitir que aquela criança inocente permanecesse mais um minuto sequer dentro daquele matadouro. Sua própria segurança não tinha importância, e sim a de Regina.
Ao chegar no grupo de rochas e entrar no meio delas, apontando a lanterna para lá e para cá, fazendo as sombras saltarem de um lado para outro, ela começou a ouvir o gemido distante de sirenes. Os homens do xerife. O telefonema de Hatch tinha sido levado a sério. Mas Regina estava nas mãos da Morte. Se ainda estivesse viva, não duraria o tempo suficiente para que a polícia descobrisse o edifício onde estavam e descesse até ali. Assim, Lindsey penetrou mais no meio das rochas, a Bro wning numa mão, a lanterna na outra, rodeando os blocos falsos de pedra sem tomar precauções, arriscando-se, com Hatch logo atrás.
De repente, viu-se diante da porta. Metal, rajado de ferrugem; operada por uma barra transversal, não por uma maçaneta. E entreaberta.
Ela abriu a porta num repelão e cruzou o umbral, sem tomar nenhuma das precauções que deveria ter aprendido depois de passar uma vida inteira vendo filmes de suspense da TV. Rompeu através daquela abertura como se fosse uma leoa à caça de um predador que acabava de lhe roubar o filhote. Era estúpido; ela sabia que era estúpido expor-se assim e arriscar-se a ser morta, mas as leoas, quando arrebatadas pela febre da vingança matriarcal, não são criaturas muito razoáveis. Lindsey estava sendo movida agora puramente por instinto, e seu instinto lhe dizia que o criminoso estava fugindo, e que eles tinham de forçá-lo a continuar batendo em retirada a fim de impedi-lo de fazer com a garota aquilo que pretendia; deviam persegui-lo até o encurralarem num canto.
Além da porta escondida por entre as rochas, por trás das paredes do Inferno, havia uma espécie de sala de serviço, com uns seis metros de largura, que antigamente devia estar totalmente ocupada por maquinismos. Agora, as paredes estavam cobertas de parafusos e placas de metal nos lugares onde as máquinas tinham estado fixadas. Um sistema sofisticado de elevadores, agora adornado de teias de aranha, elevava-se verticalmente ao longo de uns quinze a vinte metros; ele dava acesso a outras portas ou a passadiços estreitos e painéis através dos quais aquele complexo sistema de equipamentos — geradores de vapor a frio, lasers — tinha sido controlado. Todo o equipamento havia sido levado embora há muito tempo.
De quanto tempo ele precisaria para abrir o corpo de Regina, extrair seu coração ainda batendo e satisfazer-se com sua morte? Um minuto? Dois? Talvez não mais do que isso. Para mantê-la a salvo, eles tinham que ficar nos calcanhares do criminoso.
Lindsey apontou o facho da lanterna para aquele aglomerado de canos e junções e placas metálicas, onde pendiam cortinas espessas de teias de aranha, e concluiu no mesmo instante que ninguém poderia ter se ocultado ali.
Hatch estava parado junto dela, um pouco mais atrás mas muito próximo. Ambos estavam arquejantes, não tanto pelo esforço físico, mas porque tinham o peito contraído pelo medo, apertando-lhes os pulmões.
Virando para a esquerda, Lindsey foi direto rumo a uma abertura na parede de concreto, do lado oposto daquele espaço fechado. Foi atraída para lá porque aquela passagem parecia ter sido fechada com tábuas tempos atrás; não completamente obstruída, mas o bastante para que alguém não pudesse passar por ali sem fazer algum esforço. Alguns dos pregos ainda eram visíveis na parede, de ambos os lados, mas as tábuas tinham sido todas arrancadas e atiradas para um lado.
Embora Hatch sussurrasse o seu nome, advertindo-a para não avançar, ela foi até a boca daquela abertura e apontou a lanterna para dentro dela: foi assim que descobriu que não se tratava de uma outra sala, e sim do poço de um elevador. As portas, a cabine e os cabos do mecanismo tinham sido retirados, deixando um buraco aberto no edifício, do mesmo modo como um dente extraído deixa um buraco na mandíbula.
Ela apontou a lanterna para o alto. O poço se elevava até uma altura de três pavimentos, e o elevador devia ter servido em outras épocas para transportar mecânicos e técnicos até o topo da construção. Ela foi descendo devagar o facho luminoso, notando a presença de barras enferrujadas formando degraus ao longo de uma das sujas paredes internas do poço.
Apta a alcançou no instante em que a luz atingiu a parte inferior do poço do elevador, revelando a presença de uma certa quantidade de lixo, um recipiente de isopor, várias latas vazias de cerveja não-alcoólica e um saco plástico cheio de lixo, tudo isso espalhado ao redor de um colchão velho e coberto de manchas.
Sobre o colchão, encolhido num recanto com as costas apoiadas na parede, estava Jeremy Nyebern. Regina estava em seu colo, apertada de encontro ao peito dele, de modo a servir-lhe de escudo. Ele tinha uma pistola na mão, e no instante em que a lanterna de Lindsey o localizou ele disparou dois tiros.
A primeira bala passou entre ela e Hatch, mas a segunda pegou-a no ombro. Ela foi jogada de encontro ao umbral da porta, largando a lanterna dentro do poço, cambaleou, dobrou-se para a frente e, perdendo o equilíbrio, caiu no buraco.
Durante a queda, não podia acreditar no que estava acontecendo. Mesmo no instante em que atingiu o fundo, caindo sobre o seu lado esquerdo, tudo aquilo ainda parecia irreal, talvez porque estivesse tão atordoada pelo impacto da bala que ainda não conseguia avaliar o estrago que ela lhe teria feito, e talvez porque caiu justamente sobre o colchão, do lado oposto ao que estava Jeremy, num baque que expulsou o resto de ar que havia em seus pulmões, mas que não pareceu quebrar nenhum de seus ossos.
Sua lanterna também caíra sobre o colchão e continuava funcionando, apontando para a parede.
Como se no meio de um sonho, e embora ainda não estivesse respirando direito, Lindsey ergueu a mão direita, apontando a arma para Jeremy... mas não havia arma. A Browning também havia escapado de sua mão durante a queda.
Jeremy devia ter acompanhado todo o trajeto dela com sua própria pistola, porque ela agora olhava diretamente para a boca da arma. O cano parecia impossivelmente longo, como se houvesse toda uma eternidade entre a câmara onde estava a bala e a abertura de saída.
Por trás da pistola ela viu o rosto de Regina, tão calmo quanto seus olhos estavam vazios; e por trás dela aquele outro rosto lívido da cor de leite, repugnante. Os olhos dele, sem a proteção dos óculos escuros, eram ferozes e estranhos. Ela podia vê-los, mesmo contraídos à luz da lanterna. Ao cruzar seu olhar com o dele, sentiu que estava face a face com alguma coisa que não pertencia a este mundo, algo que se fazia passar por um ser humano, e não muito bem.
Oh, absurdo, pensou ela, e soube que estava a ponto de desmaiar.
Desejou desmaiar antes que ele apertasse o gatilho. Embora não fizesse muita diferença. Ela estava tão próxima daquela arma que jamais chegaria a escutar o disparo que explodiria seu rosto.
O horror de Hatch ao ver Lindsey cair no poço do elevador foi ainda menor do que sua surpresa diante do que ele próprio fez um momento depois.
Quando viu que Jeremy a acompanhava com a pistola, até que ela caiu sobre o colchão com o rosto a um metro da arma dele, Hatch atirou sua própria Browning para um lado, sobre a pilha de tábuas que tinham servido para tapar a abertura do poço. Ele percebeu que não poderia acertar um tiro seguro em Jeremy, com Regina naquela posição. E sabia que nenhuma pistola seria adequada para liquidar aquela coisa em que Jeremy se transformara. Não teve tempo para examinar melhor essa idéia estranha, porque no momento em que largou a Browning, ele mudou a lanterna/crucifixo para a mão direita, e, sem que ele mesmo soubesse o que ia fazer no instante seguinte, saltou no poço do elevador.
Depois disso, tudo se tornou ainda mais estranho.
Ele teve a impressão de não ter caído direto sobre o colchão como seria de se esperar, mas flutuou em câmera lenta, como se fosse apenas um pouco mais pesado que o ar, levando cerca de meio minuto para atingir o fundo.
Talvez a sua noção do tempo tivesse apenas sido distorcida devido à intensidade do seu terror.
Jeremy viu o seu salto, mudou a mira da pistola de Lindsey para ele e disparou todas as oito balas que lhe restavam. Hatch tinha certeza de que teria sido atingido pelo menos três ou quatro vezes, embora não sentisse nenhum ferimento. Parecia impossível que o outro errasse tantos disparos, num espaço tão restrito.
Talvez aquela pontaria deficiente pudesse ser atribuída ao pânico de Jeremy e ao fato de que ele era um alvo em movimento.
Enquanto flutuava no ar como uma folha que cai, Hatch voltou a experimentar aquela conexão psíquica que o ligava ao filho de Nyebern e por um momento viu a si próprio, descendo pelo ar, através dos olhos do assassino. O que ele avistou, contudo, não foi apenas ele próprio, mas a imagem de alguém—ou alguma coisa—superposta à sua, como se outra criatura estivesse partilhando o seu corpo. Pensou ter visto asas dobradas de ambos os lados do corpo, e através do seu rosto viu o rosto de um estranho — um rosto que se assemelhava ao de um guerreiro, mais do que qualquer outro que já vira, mas ainda assim um rosto que não lhe causou medo.
Talvez Jeremy estivesse tendo uma alucinação, e o que Hatch estava captando não era o que ele via de fato, mas apenas o que ele imaginava ver. Talvez.
Então, Hatch se viu enxergando com seus próprios olhos novamente, ainda em meio àquela queda muito lenta, e ele teve certeza de que havia uma outra imagem superposta à de Jeremy Nyebern, uma forma e um rosto que lembravam tanto um inseto quanto um réptil. Ou talvez fosse apenas um efeito de luz, naquela confusão de sombras e dos feixes divergentes das lanternas.
Ele também não conseguiu explicar o diálogo que se travou entre os dois, embora voltasse a repassá-lo na memória muitas vezes nos dias que se seguiram.
— Quem é você? -— perguntou Jeremy, quando Hatch pousou no chão com a leveza de um gato, mesmo depois daquela queda de dez metros.
— Uriel — retrucou Hatch, embora aquele fosse um nome que ele jamais ouvira.
— Eu sou Vassago — disse o outro.
— Eu sei — disse Hatch, embora também estivesse ouvindo aquele nome pela primeira vez.
— Somente você pode me mandar de volta,
— E quando eu o fizer — disse Hatch, enquanto imaginava de onde aquelas palavras estariam brotando —, você não voltará como um príncipe.
Lá embaixo você será um escravo; você e esse garoto insensível e estúpido que lhe serviu de transporte.
Jeremy estava amedrontado. Pela primeira vez ele demonstrava ser capaz de sentir medo.
— E pensei que eu era a aranha—disse.
Com força, agilidade e uma economia de movimentos de que ele próprio não se sabia capaz, Hatch agarrou o cinto de Regina com a mão esquerda, puxou-a para longe de Jeremy Nyebern, afastando-a do perigo, e baixou o crucifixo com toda força, como se fosse uma clava, sobre a testa do assassino. As lentes da lanterna se espatifaram e o cilindro plástico se partiu, com as pilhas elétricas saltando para os lados.
Hatch desferiu um segundo golpe, ainda mais forte, e com o terceiro golpe ele enviou Jeremy Nyebern para o túmulo que ele fizera por merecer.
A raiva que Hatch sentiu naquele instante era uma raiva legítima. Quando deixou cair o crucifixo, quando tudo estava acabado, ele não sentiu nenhuma culpa, nenhuma vergonha. Ele não era igual a seu pai.
Teve a estranha sensação de que havia um poder abandonando-o, uma presença da qual ele não se apercebera até então. Teve a sensação de que uma missão acabava de ser cumprida, restabelecendo alguma espécie de equilíbrio. Todas as coisas estavam agora em seus devidos lugares.
Regina não respondeu quando ele a chamou. Fisicamente parecia intacta. Hatch não se preocupou muito com ela, porque de algum modo ele sabia que nenhum deles iria sofrer em demasia por ter-se envolvido... naquela coisa que os envolvera.
Lindsey estava inconsciente e sangrava. Ele examinou seu ferimento e viu que não era nada sério.
Vozes começaram a ressoar nos pisos superiores. Chamavam seu nome. As autoridades estavam chegando. Atrasadas, como sempre. Bem, nem sempre. Às vezes uma delas estava por perto, quando era preciso.
3
Todo mundo conhece aquela história anônima dos três cegos que examinam um elefante. O primeiro deles apalpa a tromba do elefante e, cheio de segurança, descreve o animal como sendo uma criatura enorme, semelhante a uma jibóia. O segundo apalpa as orelhas do elefante e anuncia que ele deve ser um pássaro de asas enormes, capaz de ascender a enormes alturas. O terceiro cego examina apenas a cauda eriçada e inquieta do animal e considera que ele é uma criatura curiosa, parecida com uma escova de limpar garrafas.
Assim são todas as experiências partilhadas pelos seres humanos. Cada participante a percebe de um modo diferente e extrai dela uma lição totalmente diversa.
Nos anos que se seguiram aos acontecimentos no parque de diversões abandonado, Jonas Nyebern perdeu o interesse pela medicina de reanimação; outros homens deram continuidade ao seu trabalho, com sucesso.
Ele vendeu em leilão as peças de arte religiosa das suas duas coleções incompletas e aplicou o dinheiro em investimentos que lhe garantiriam a maior taxa de lucro possível.
Embora continuasse a praticar a cirurgia cardiovascular, ele não encontrava mais nela o menor prazer. Depois de algum tempo aposentou-se e começou a procurar alguma outra atividade a que se dedicar durante as últimas décadas de sua vida.
Deixou de ir à missa. Já não acreditava que o Mal era uma entidade independente, uma presença real à solta pelo mundo. Tinha aprendido que a própria humanidade era uma fonte de maldade suficiente para explicar tudo que havia de errado no mundo. Em vista disso, ele decidiu que a humanidade teria que descobrir sua própria salvação.
Tornou-se um veterinário. E achou todos os pacientes merecedores de seu cuidado.
Nunca se casou novamente.
Não foi feliz nem infeliz, e ficou satisfeito com isto.
Regina ficou trancada em seu "quarto" interior por dois dias, e quando emergiu de lá nunca mais foi a mesma pessoa. Mas ninguém continua sendo a mesma pessoa durante muito tempo. A mudança é a única constante na vida. Chama-se a isto "crescer".
Passou a chamar Hatch e Lindsey de papai e mamãe: porque quis, e porque era assim que se sentia. Dia após dia, ela lhes deu tanta felicidade quanto a que eles lhe davam.
Ela nunca provocou uma reação-em-cadeia que destruísse todos os objetos de arte e antigüidades que eles tinham dentro de casa. Ela nunca os deixou constrangidos por algum excesso de sentimentalismo, por alguma crise de choro seguida por uma crise de coriza; ela produzia lágrimas e fungadelas apenas quando eram necessários. Nunca os matou de vergonha num restaurante ao tentar segurar um prato e fazê-lo despencar sobre a cabeça do presidente dos Estados Unidos na mesa vizinha. Nunca ateou fogo à casa sem querer, nunca soltou um pum diante de uma visita ilustre e nunca apavorou os garotos menores da vizinhança com aquele aparelho de metal na perna e a mão deformada. Melhor: parou de se preocupar com a possibilidade de que tudo isso (e muito mais) acontecesse, e depois de algum tempo ela nem sequer se lembrava do imenso desgaste de energia mental que aquelas preocupações tinham lhe causado um dia.
Continuou a escrever. Foi melhorando. Aos catorze anos, ganhou um concurso literário para adolescentes, em nível nacional. O prêmio era um belo relógio de pulso e um cheque de quinhentos dólares. Ela empregou parte do dinheiro numa assinatura do Publishers Weekly e numa coleção das obras completas de William Makepeace Thackeray. Ela não se interessava mais por histórias sobre porcos inteligentes vindos do espaço exterior, acima de tudo porque estava começando a descobrir personagens ainda mais estranhos ao seu redor, a maior parte deles nascidos ali mesmo, na Califórnia.
Não falava mais com Deus. Parecia uma coisa meio infantil. Além do mais, não precisava mais da atenção constante Dele. Durante um certo tempo, chegou a pensar que Ele tinha sumido, ou que nunca existira, mas logo concluiu que aquilo era bobagem. Tinha consciência da presença dele o tempo inteiro, piscando o olho para ela em cada flor, acalentando seu sono através da canção de um pássaro, sorrindo para ela no focinho peludo de um gato, tocando-a com a brisa suave do verão. Ela descobriu, num livro de Dave Tyson Gentry, uma frase que resumia essa sua nova condição: "Amizade verdadeira é quando o silêncio entre duas pessoas não se torna desconfortável." Bem.,, ninguém, a não ser Deus, podia se considerar seu melhor amigo; e ela não precisava dizer-lhe muita coisa, quando ambos já sabiam a coisa mais importante—a única que verdadeiramente importava: que um dos dois estaria sempre por perto, ao alcance do outro.
Os acontecimentos daqueles dias produziram menos mudanças em Lindsey do que ela tinha imaginado. Sua pintura sofreu uma certa melhora, mas nada de excepcional, Afinal, ela sempre achara de bom nível o trabalho que fizera até então. Amava Hatch tanto quanto em qualquer outra época e não acreditava que esse amor pudesse vir a diminuir.
A única coisa que lhe provocava uma contração de desagrado, o que nunca acontecera antes, era quando alguém dizia: "O pior já ficou para trás." Ela sabia que o pior nunca fica para trás. O pior vem no final. O pior era o fim, o simples fato de haver um fim. Nada podia ser pior do que isto. Mas ela aprendeu a viver com a consciência de que o pior nunca estava para trás, e conseguiu extrair de cada dia o prazer que ele podia lhe dar.
Quanto a Deus... esse assunto não a preocupava muito. Ela criou Regina dentro da fé católica, levando-a à missa todas as semanas, porque era parte do trato que tinha feito com o São Tomás durante o processo de adoção. Não o fazia apenas por obrigação. Achava que ir à igreja era bom para Regina, e que Regina poderia fazer bem à igreja, também. Qualquer instituição de que aquela garota viesse a fazer parte acabaria sendo transformada pela presença dela, na mesma medida em que a modificava — e para seu próprio bem. Lindsey chegara a dizer um dia que as preces nunca são atendidas, que os vivos vivem apenas para morrer; mas havia mudado de atitude. Tinha decidido esperar para ver.
Hatch continuou a negociar com antigüidades. Sua vida cotidiana prosseguiu mais ou menos do modo que ele desejava. Como sempre, era um sujeito tranqüilo. Nunca se zangava. Mas a diferença é que agora não tinha mais nenhuma fúria represada dentro de si. Sua suavidade agora era genuína.
De tempos em tempos, quando os padrões de regularidade da vida real pareciam sugerir algum grandioso propósito cujo sentido lhe escapava, e se via mergulhado num estado de espírito meio filosófico, ele descia até a saleta do andar térreo e tirava dois objetos que viviam trancados numa gaveta da escrivaninha.
Um deles era um exemplar chamuscado da revista Arts American.
O outro era um pedaço de papel que ele trouxera um dia da biblioteca, onde fora fazer uma pesquisa rápida. Havia dois nomes copiados nele, cada um com uma linha ao lado, identificando-o. "Vassago — de acordo com a mitologia, um dos nove príncipes coroados do Inferno." Abaixo, o nome que ele um dia dissera ser o seu: "Uriel — de acordo com a mitologia, um dos arcanjos que servem como auxiliares diretos de Deus."
Ele fitava aquelas coisas e pensava longamente sobre elas, sem nunca chegar a uma conclusão definitiva. Embora pensasse: se você passa oitenta minutos morto, e volta sem nenhuma lembrança do Outro Lado, talvez seja porque oitenta minutos desse conhecimento sejam mais do que o simples vislumbre de uma luz no fim de um túnel, e mais do que a sua mente pode conter.
E se você tem que trazer consigo alguma coisa do Além, e mantê-la consigo até que ela cumpra sua missão do lado de cá do Véu... um arcanjo não seria má escolha.
FIM
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Você terminou Esconderijo
Dean R. Koontz