Esconderijo
Sob a luz das lâmpadas de halogênio,…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
— Tem uma coisa lá fora.
Seus olhos vacilaram, pesados de sono, e fecharam-se quase no mesmo instante.
— Sr. Harrison, pode me ouvir? — perguntou Jonas.
O paciente não respondeu.
O eletrocardiógrafo mostrou uma rápida desaceleração de suas batidas cardíacas; de 140 para 120 e logo para cem batidas por minuto.
— Sr. Harrison?...
Noventa batidas por minuto. Oitenta.
— Dormiu de novo — disse Ramona.
— Pelo menos parece.
— Está só dormindo—disse ela.—Não há possibilidade de que esteja em coma.
— Nenhuma -— concordou Jonas.
— Mas ele falou! Pôde entender o que ele disse?
— Mais ou menos, mas não tenho certeza - disse Jonas, inclinando-se sobre a cama para examinar as pálpebras do homem adormecido, que exibiam os tremores característicos dos globos oculares movimentando-se por baixo delas. Sono com movimentos rápidos dos olhos; Harrison estava sonhando.
Do lado de fora, a chuva de repente começou a cair muito mais forte do que antes, O vento também aumentou de intensidade e fustigou a janela. Ramona disse:
— As palavras que ele falou eram muito claras.
— Sim; a língua não estava presa. E ele falou frases completas.
— Então ele não sofreu afasia — disse ela. — Que maravilha.
Afasia, a completa incapacidade de falar ou de entender linguagem falada ou escrita, era uma das mais devastadoras formas de lesão cerebral resultante de doença ou de ferimentos. Uma vez afetado por ela, um paciente ficava reduzido à comunicação por meio de gestos, e muitas vezes as limitações dessa forma de comunicação acabavam por arremessá-lo numa depressão profunda, da qual muitos não voltavam a emergir,
Harrison, evidentemente, estava livre desse perigo, Se também tivesse escapado ao risco de paralisia, e se não houvesse muitos "buracos" na sua memória, ele tinha excelentes chances de poder se levantar em breve daquela cama e retomar sua vida normal.
— Não vamos tirar nenhuma conclusão prematura — disse Jonas. —
Nem vamos criar falsas esperanças. Ele ainda tem um caminho longo pela frente. Mas seria bom você anotar em seu relatório que ele voltou à consciência pela primeira vez às... às onze e trinta, duas horas depois da ressurreição.
Harrison estava murmurando baixinho em pleno sono. Jonas voltou a inclinar-se sobre a cama e pôs o ouvido próximo aos lábios do paciente, que mal se moviam. As palavras eram quase inaudíveis e pareciam ser emitidas através da simples exalação do ar dos pulmões de Harrison. Era como uma voz espectral ouvida através de um aparelho de rádio, transmitida por uma emissora situada do outro lado do mundo e que, tipos ser refletida de forma inesperada numa alta camada atmosférica, se filtrasse através de uma enorme distância e do mau tempo, chegando por fim ao seu receptor dotada de um tom misterioso e profético, apesar de já quase Ininteligível.
— O que ele está dizendo? — perguntou Ramona.
Com o uivo do vento ressoando lá fora, Jonas não podia perceber o bastante para ter certeza, mas teve a impressão de que Harrison estava repetindo as mesmas palavras que dissera antes: "Tem alguma coisa lá fora."
E naquele mesmo instante o vento uivou com mais força, e a chuva bateu tão forte de encontro à janela que por um momento pareceu a ponto de despedaçar a vidraça.
14
Vassago gostava da chuva. Naquela noite, as nuvens pesadas tinham se aglomerado no céu, não deixando nenhuma abertura por onde o brilho da lua pudesse se filtrar. A chuva também ajudava a embaçar a claridade dos postes de iluminação e dos faróis dos carros que passavam, bem como dos anúncios de néon. De um modo geral, tudo contribuía para abrandar a claridade da noite do condado de Orange, tornando possível que ele dirigisse de modo mais confortável do que conseguiria apenas com o uso de óculos escuros.
Tinha se deslocado rumo oeste a partir de seu esconderijo, depois rumo norte ao longo da costa, à procura de um bar onde as luzes não fossem muito fortes e onde pudesse haver uma ou outra mulher para avaliação. Muitos bares fechavam na segunda-feira, e outros não pareciam muito movimentados àquela hora, já próximo da meia-noite.
Finalmente ele encontrou um lugar em Newport Beach, junto à rodovia do Pacífico. Era uma boate elegante, com um toldo recobrindo um trecho da calçada, uma fileira de minúsculas lâmpadas brancas circulando o teto, e um letreiro que anunciava: "DANÇA DE QUARTA A SÁBADO — JOHNNY WILTON' S BIG BAND". Newport era a cidade mais afluente do país, com a maior marina de iates particulares do mundo, de modo que qualquer estabelecimento que se propusesse a ter uma freguesia abastada acabava conseguindo. A partir do meio da semana, provavelmente haveria um manobreiro disponível num local como aquele, o que não era bom para os seus planos, já que um manobreiro era uma testemunha em potencial; mas numa segunda-feira chuvosa não havia nenhum.
Estacionou na parte lateral da boate é, mal desligou a ignição, aquilo tomou conta de seu corpo. Sentiu como se tivesse recebido um choque elétrico não muito forte, mas contínuo. Seus olhos se reviraram, e por um momento ele achou que estava sofrendo convulsões, porque não conseguia respirar, nem engolir. Um gemido involuntário escapou por entre seus lábios. O ataque durou apenas dez ou quinze segundos e terminou com três palavras que pareceram ressoar no interior de sua cabeça: Tem... alguma coisa... lá fora... Não tinha sido apenas um pensamento aleatório produzido por um curto-circuito das sinapses em seu cérebro; aquilo veio a ele com o som claro de uma voz, com o timbre e a inflexão de palavras faladas, e não apenas formuladas mentalmente. Mas não era sua própria voz, e sim uma voz estranha. Ele teve uma sensação quase asfixiante da presença de outra pessoa ali, no interior do carro, como se um espírito tivesse rompido as cortinas que separavam dois mundos e viesse fazer-lhe uma visita; uma presença estranha, real apesar de invisível. Então, o episódio terminou de modo tão abrupto como tinha começado.
Ele permaneceu sentado durante algum tempo, esperando que acontecesse novamente.
A chuva martelava o teto do carro.
O carro emitiu uns estalidos e assobios à medida que o motor esfriava.
O que quer que tivesse sido aquilo, havia passado.
Ele tentou entender o que ocorrera. Será que aquelas palavras — Tem alguma coisa lá fora — eram um aviso, uma premonição psíquica? Uma ameaça? A quem poderiam estar se referindo?
Do lado de fora do carro, não parecia haver nada de excepcional naquela noite. Somente a chuva. E a bendita escuridão. Os reflexos distorcidos das luzes elétricas e dos anúncios luminosos reluziam no pavimento molhado, sobre as poças dágua e na enxurrada que descia ao longo da sarjeta nas calçadas. Tráfego pouco intenso fluía ao longo da rodovia do Pacífico, mas,,, até onde ele podia enxergar, não havia nenhum pedestre à vista... e ele enxergava tão bem quanto um gato.
Depois de algum tempo, concluiu que entenderia aquele episódio quando chegasse o momento adequado. Não adiantava de nada ficar quebrando a cabeça a respeito daquilo. Se era uma ameaça, fosse qual fosse sua origem, não chegava a preocupá-lo; ele era incapaz de sentir medo. Esta era a melhor coisa para quem, como ele, tinha abandonado o inundo dos vivos, mesmo tendo que ficar provisoriamente prisioneiro da zona fronteiriça entre a vida e a morte: nada naquele mundo poderia ameaçá-lo.
Ainda assim, aquela voz interior tinha sido uma das experiências mais estranhas de toda a sua vida. E não era por falta de experiências estranhas que pudessem servir de termo de comparação.
Saiu do seu Camaro prateado, bateu a porta e caminhou na direção da porta da boate. A chuva estava fria. As frondes das palmeiras, açoitadas pelo vento, chocalhavam como um saco cheio de ossos.
15
Lindsey Harrison estava também no quinto andar, num quarto situado no fim do corredor principal, na extremidade oposta ao do seu marido. O quarto estava imerso em escuridão quando Jonas entrou e se aproximou da cama; não havia nem sequer o brilho esverdeado de um monitor cardíaco. O vulto da mulher mal era visível.
Jonas imaginou se devia despertá-la, e teve uma surpresa quando ela falou:
— Quem é?...
— Pensei que estivesse dormindo — disse ele.
— Não estou conseguindo dormir.
— Não lhe deram um sedativo?
— Não adiantou.
Assim como no quarto onde o marido dela estava, a chuva fustigava furiosamente a janela. Jonas podia ouvir o ruído torrencial da água que jorrava de uma calha de alumínio nas proximidades, na parte externa do prédio.
— Como está se sentindo? — perguntou.
— Como acha que estou?
Ela tentou impor um tom de raiva às suas palavras, mas estava demasiado exausta e deprimida.
Jonas abaixou o gradil lateral da cama e sentou no colchão ao lado dela. Estendeu a mão, pressupondo que os olhos dela estivessem mais acostumados à escuridão do que os seus.
— Me dê sua mão.
— Porquê?
— Meu nome é Jonas Nyebern. Sou médico. Quero lhe falar sobre seu marido, e acho que talvez seja melhor se você me deixar pegar na sua mão.
Ela ficou em silêncio.
— Vamos, vamos, faça o que estou pedindo — insistiu ele.
Embora a mulher imaginasse que seu marido estava morto, Jonas preferia não lhe dar de imediato a notícia de sua ressurreição. Sabia por experiência própria que boas notícias desse tipo podem ser tão chocantes quanto más notícias; tinham que ser dadas com muito cuidado e muita atenção. Lindsey estava delirando ao dar entrada no hospital, devido ao choque e à exposição ao frio, mas essa condição tinha sido amenizada com aquecimento e medicação. Já fazia algumas horas que ela estava de posse de suas faculdades, tempo bastante para absorver a noção de que o marido estava morto e para começar a se adaptar à idéia dessa perda. Embora mergulhada numa dor profunda e longe de ter se acostumado totalmente àidéia da viuvez, ela havia encontrado nessa gradual adaptação um ponto de apoio no abismo em que caíra, um compromisso com a realidade—e era esse ponto de apoio que ele tinha a obrigação de retirar agora.
Além do mais, ele teria podido ser bem mais objetivo se tivesse apenas notícias inequivocamente boas para lhe dar. Mas ele não podia prometer que o marido seria de novo a mesma pessoa que era antes do acidente; não podia garantir que ele não guardaria marcas daquela experiência e recomeçaria sem problemas a vida de antes. Precisaria de muitas horas, talvez muitos dias, para examinar e avaliar as condições gerais de Harrison, antes de poderem fazer algum tipo de prognóstico quanto às suas chances de total recuperação. Talvez ele ainda tivesse pela frente semanas ou meses de terapia física e ocupacional, sem nenhuma garantia de cura definitiva.
Jonas permaneceu com a mão estendida até que ela estendeu a sua, num gesto hesitante.
Num ritual longamente amadurecido e praticado, ele começou a explicar para ela os princípios básicos da medicina de ressuscitação. Quando ela começou a perceber por que motivo ele tinha vindo até ali para lhe dar explicações sobre um assunto tão hermético, seus dedos apertaram a mão dele com uma força inesperada.
16
No quarto 518, Hatch estava mergulhado numa torrente de sonhos maus, que não passavam de imagens desconexas misturando-se umas às outras sem sequer estabelecer o ilógico fio narrativo que em geral dá forma aos pesadelos. Neve fustigada pelo vento. Uma enorme roda-gigante que às vezes surgia enfeitada com festivas gambiarras de luzes e outras vezes às escuras e desconjuntada, numa noite batida pela chuva. Bosques de árvores negras e retorcidas, com todas as folhas arrancadas pela ventania. Um caminhão carregado de engradados de cerveja, atravessado diagonalmente numa rodovia coberta de gelo. Um túnel com chão de concreto que se inclinava numa rampa até sumir numa escuridão profunda, uma escuridão onde alguma coisa desconhecida fazia seu coração disparar de pavor. Seu filho Jimmy, deitado muito pálido sobre os lençóis de uma cama de hospital, morrendo de câncer. Água, gelada e profunda, impenetrável à vista como tinta negra, estendendo-se de horizonte a horizonte, sem nenhuma fuga possível. Uma mulher nua, com a cabeça totalmente virada para trás, as mãos crispadas sobre um crucifixo...
De vez em quando ele percebia a presença de uma figura misteriosa e sem rosto, nas franjas das imagens geradas pelo sonho, vestida de negro e movendo-se com tanta harmonia em meio às sombras que ele próprio parecia ser uma delas. Outras vezes, ele não fazia parte da cena, mas parecia ser o ponto de vista através do qual a cena era observada, como se Hatch estivesse olhando com os olhos de alguém—olhos que contemplavam o mundo com a frieza calculista, impiedosa e faminta de um rato de cemitério.
Num dado momento, o sonho começou a adquirir uma certa continuidade narrativa, e Hatch se viu correndo ao longo da plataforma de uma estação de trens, tentando alcançar um vagão que começava a acelerar, afastando-se. Através de uma das janelas do vagão ele avistou Jimmy, muito pálido e de olhos fundos, devastado pela doença; ele vestia a bata do hospital e olhava com expressão triste na direção de Hatch, enquanto erguia um braço muito magro e acenava... adeus, adeus, adeus. Hatch corria e tentava desesperadamente agarrar a barra vertical do lado da porta do vagão, mas o trem aumentava de velocidade, até que ele foi ficando para trás, enquanto o vagão se afastava. O rosto de Jimmy foi ficando cada vez mais distante e indistinto até sumir por completo quando o vagão foi diminuindo e desaparecendo numa espécie de vácuo aterrador que existia para além da plataforma da estação, uma espécie de vazio tenebroso de cuja existência só agora Hatch se apercebia. Então, um outro trem de passageiros começou a se aproximar da direção oposta, clackety-clack, clackety-clack, e ele viu com surpresa Lindsey sentada junto a uma das janelas, olhando para fora, com uma expressão vazia no rosto. Ele gritou — "Lindsey!!!" — mas ela não pareceu ouvi-lo ou perceber sua presença; parecia estar numa espécie de transe, de modo que ele começou a correr novamente, tentando saltar para dentro do vagão, que no entanto ia se afastando, clackety-clack, clackety-clack, do mesmo modo que o vagão de Jimmy. "Lindsey!" A mão dele estava a apenas alguns centímetros de distância da barra de metal, e os degraus que davam acesso ao vagão estavam tão próximos, tão próximos... De súbito a barra de metal e os degraus desapareceram, e o trem não era mais um trem. Com a estranha fluidez das metamorfoses que acontecem num sonho, o trem transformou-se numa montanha-russa num parque de diversões, dando início a um de seus percursos. Clackety-clack. Hatch correu até o fim da plataforma sem conseguir saltar para dentro do carrinho ocupado por Lindsey, e a viu afastar-se velozmente, escalando a primeira subida do longo trajeto cheio de curvas. Então o último carrinho da montanha-russa passou ao lado dele; era o derradeiro, mesmo por trás daquele que conduzia Lindsey. Dentro dele havia um único passageiro. Um vulto vestido de negro — em torno do qual amontoavam-se sombras, como corvos pousados sobre o muro de um cemitério — estava sentado na parte da frente do carrinho, a cabeça pendida, o rosto escondido pelos cabelos que caíam para diante e lhe encobriam as feições como o capuz de um monge. Clackety-clackl Hatch gritou na direção de Lindsey, avisando-a para olhar para trás e ter cuidado com aquilo que a seguia no outro carro, pedindo-lhe para se segurar bem e para ter cuidado, pelo amor de Deus, segure-se bem! Como uma longa lagarta, o comboio de carros metálicos alcançou por fim a parte superior da subida, fez uma pausa ali por um instante, como se o próprio tempo tivesse se detido em seu curso, e então precipitou-se ladeira abaixo, por entre um rugido de metal e um coro uníssono de gritos.
Ramona Perez, a enfermeira noturna encarregada da ala do quinto andar que Incluía o quarto 518, ficou parada junto da cama, contemplando o paciente. Preocupava-se com ele, mas ainda não sabia se deveria procurar o Dr. Nyebern.
De acordo com o monitor cardíaco, a pulsação de Harrison estava flutuando em demasia. Em geral variava numa faixa tranqüilizadora de setenta a oitenta batidas por minuto. Periodicamente, contudo, dava saltos até 140. O lado positivo da situação era o fato de que não havia nenhum sinal do arritmia.
A pressão arterial estava sendo afetada por aquelas acelerações nos batimentos, mas ele não parecia correr perigo de um derrame ou de alguma hemorragia cerebral em conseqüência de hipertensão, já que sua leitura sistólica nunca se revelava demasiado alta. Ele suava profusamente, e os círculos em torno dos seus olhos pareciam cada vez mais escuros, a ponto de dar a impressão de que ele tinha sido maquilado. A despeito dos cobertores colocados sobre seu corpo, tremia da cabeça aos pés. Os dedos de sua mão esquerda — que estava descoberta, devido ao tubo de aplicação endovenosa — sofriam espasmos ocasionais, embora não tão intensos que pudessem correr o risco de afrouxar a agulha inserida em sua veia logo abaixo da parte interna do cotovelo.
Numa voz sussurrante, ele repetia o nome de sua mulher, e havia um tom de urgência em sua voz:
— Lindsey... Lindsey... Não!...
Estava sonhando, é claro, e as coisas que acontecem num sonho podem provocar respostas fisiológicas, tanto quanto as experiências reais.
Por fim, Ramona decidiu que a aceleração cardíaca era apenas o resultado do fato de o paciente estar tendo pesadelos, e não um sinal de desestabilização cardiovascular propriamente dita. Ele não corria perigo. Ainda assim, ela permaneceu ao lado da cama, por precaução.
17
Vassago sentou-se a uma mesa perto da janela, de onde se avistava a baía. Tinha parado no salão principal da boate por cerca de cinco minutos e concluíra que aquilo ali não representava um bom território de caça. A atmosfera estava toda errada. Arrependeu-se de ter pedido um drinque.
Não havia show musical ali nas segundas-feiras à noite, mas num recanto do salão um pianista tocava. Não executava as costumeiras interpretações pasteurizadas de canções dos anos 30 ou 40, nem os arranjos propositalmente banais de rocks de sucesso que contribuíam para embrutecer a mente dos freqüentadores daquele tipo de lugar; mas aplicava-se em reproduzir as melodias repetitivas de canções New Age, do tipo destinado a pessoas que acham música de elevador demasiado complexa e intelectual.
Vassago preferia música com batida pesada, música rápida e envolvente, algo que o deixasse rilhando os dentes. Desde que tinha se tornado um habitante da fronteira entre a vida e a morte, não conseguia mais ouvir com prazer a maior parte das músicas: sua estrutura demasiado ordeira acabava por irritá-lo. Suportava apenas música atonal, áspera, sem melodia. Sentia-se estimulado por mudanças bruscas de tom, acordes estridentemente dissonantes e solos de guitarra do tipo que pareciam arranhar os nervos. Gostava de padrões rítmicos discordantes e fragmentados. Excitava-se ao escutar música que trouxesse a sua mente imagens de sangue e violência.
Para Vassago, a cena que se avistava através daquela janela era tão desagradável quanto a música que o pianista estava tocando, pelo simples fato de ser bela. Barcos a vela e a motor se amontoavam nas docas particulares ao longo da marina. Estavam ancorados, as velas enroladas, os motores silenciosos, oscilando levemente sobre as águas, uma vez que a marina estava bem protegida e, apesar da chuva, o mar não se mostrava particularmente encapelado. Poucos dos ricos proprietários viviam a bordo, independentemente do tamanho ou do seu conforto, de modo que havia luzes em apenas um pequeno número de escotilhas. O brilho prateado da iluminação pública parecia transformar em mercúrio líquido a chuva que martelava os barcos, escorria como chumbo derretido ao longo dos seus mastros, empoçando-se no convés e jorrando para fora. Mas ele não tolerava a beleza, não tinha paciência para com imagens de cartão-postal cheias de composição harmoniosa: tudo aquilo lhe soava falso, soava como uma mentira tentando disfarçar a verdadeira natureza do mundo. Ele se sentia atraído, em vez disso, pela discórdia visual, pelas formas irregulares, por figuras malignas e putrescentes.
Com aquelas cadeiras macias e a suave iluminação âmbar, aquela boate era algo soft demais para um caçador como ele. Embotava seu instinto matador.
Olhou em torno, inspecionando os fregueses, tentando descobrir um alvo de qualidade, digno da sua coleção. Se encontrasse algo realmente fora de série que excitasse seu faro de colecionador, mesmo a atmosfera anestesiante naquele lugar não poderia minar suas energias.
Havia alguns homens sentados ao longo do balcão, mas não despertavam seu interesse. Os três homens que havia na sua coleção tinham sido sua segunda , quarta e quinta aquisições; tinham sido apanhados porque eram indivíduos solitários e vulneráveis, e não fora difícil para Vassago atraí-los sem despertar suspeitas. Ele não tinha nada contra matar homens, mas preferia as mulheres. Mulheres jovens. Gostava de apanhá-las antes que elas pudessem gerar mais vida.
As únicas pessoas mais jovens que havia no recinto era um grupo de quatro moças de vinte e poucos anos, que estavam sentadas junto a uma janela, três mesas depois da dele. Estavam meio embriagadas e tinham aparência frívola; curvavam-se para a frente como se estivessem trocando fofocas, falavam de modo afetado e de vez em quando desatavam em estrepitosas gargalhadas.
Uma delas era bonita o bastante para atrair o ódio de Vassago pela beleza. Tinha enormes olhos cor de chocolate e uma graça animal que lhe trazia à mente a imagem de uma corça. Ele a apelidou mentalmente de "Bambi". Seu cabelo negro estava cortado curto dos lados, expondo a parte inferior das orelhas.
Eram orelhas excepcionais, grandes mas de formas delicadas. Vassago avaliou que poderia fazer coisas interessantes com elas e continuou a observar a moça, tentando decidir se ela estava ou não à altura de seus critérios.
Bambi falava mais do que as outras amigas e falava mais alto do que todas. Sua risada era também a mais ruidosa; parecia o zurro de um jumento. Ela era excepcionalmente atraente, mas seu falatório incessante e sua risada desagradável estragavam o efeito geral. Era mais do que evidente que ela adorava o som da própria voz.
Ela ficaria bem melhor, pensou Vassago, se alguém a tornasse surda e muda.
Um acesso de inspiração tomou conta dele, e ele se empertigou na cadeira. Se removesse as orelhas dela e as enfiasse na boca, costurando seus lábios em seguida... sim, desse modo poderia simbolizar a falha central que existia na beleza dela. Era uma visão de tal simplicidade, mas ao mesmo tempo tão poderosa, que...
— Um rum com Coca — disse a garçonete, colocando diante de Vassago um copo envolto num guardanapo de papel. — Quer que anote?
Ele virou-se para ela, piscando, confuso. Era uma mulher sólida, de meia-idade, com cabelo avermelhado. Ele podia vê-la com clareza através das lentes escuras dos óculos, mas estava tão arrebatado por aquele acesso de inspiração criadora que a princípio não percebeu quem era.
Por fim falou:
— Anotar? Oh, não, não precisa. Pago agora.
Ao retirar do bolso a carteira, não a sentiu como uma carteira, mas como se fosse uma das orelhas de Bambi que estava apalpando. Ao deslizar seu polegar por sobre a superfície de couro, não sentiu o que de fato estava ali, e sim aquilo que esperava estar acariciando dentro de mais algum tempo: as delicadas saliências de cartilagem formando a aurícula e o pavilhão, as curvas graciosas dos canais que afunilavam as ondas sonoras na direção da membrana do tímpano...
Percebeu que a garçonete voltara a lhe dirigir a palavra, dizendo o preço da bebida, e que já era a segunda vez que o fazia. Tinha passado muito tempo acariciando a carteira; longos e deliciosos segundos mergulhados num devaneio cheio de morte e desfiguramento.
Puxou uma nota sem olhar e a estendeu para a mulher.
— Cem dólares? — disse ela. — Não tem menor?
— Não -— disse ele com impaciência, ansioso para se ver livre dela. —
É isso aí.
— Não trago tanto troco assim comigo. Vou ter que ir ao caixa do bar.
— Tudo bem, pode ir. Obrigado.
A mulher se afastou e ele voltou a concentrar sua atenção nas quatro moças da mesa próxima... apenas para constatar que elas estavam de pé, preparando-se para sair. Vestiam seus casacos, e duas delas já caminhavam na direção da porta.
Ele se ergueu, preparando-se para segui-las, mas imobilizou-se onde estava quando ouviu sua própria voz dizer: — Lindsey.
Ele não chamou aquele nome. Ninguém no bar o escutou. Ele foi o único a reagir, e sua reação foi de completa surpresa.
Por um momento ele hesitou, a mão apoiada sobre a mesa, a outra no espaldar da cadeira, semi-erguido. Enquanto ficou imobilizado naquela posição, as quatro moças deixaram o recinto. Bambi havia se tornado menos interessante para ele do que aquele nome Lindsey -—, de modo que ele voltou a sentar-se.
Ele não conhecia ninguém chamado Lindsey.
Ele tinha certeza de que nunca conhecera ninguém com esse nome.
Não fazia o menor sentido que de um momento para outro ele dissesse esse nome em voz alta.
Olhou pela janela, na direção da marina. Centenas de milhões de dólares consumidos para a gratificação de alguns egos estavam erguendo-se e baixando cadenciadamente de acordo com o balanço das ondas. O céu escuro parecia refletir o oceano, tão frio e impiedoso quanto a vastidão de águas que se estendia embaixo. O ar estava cheio de gotas de chuva que caíam formando milhões de riscos prateados e cinzentos, como se a natureza estivesse tentando costurar o céu e o mar um ao outro e com isso obliterar aquela delgada camada intermediária onde a vida se tornava possível. Tendo permanecido ao mundo dos vivos, depois ao mundo dos mortos, e sendo agora um dos mortos-vivos, Vassago se acostumara a ver a si próprio como o mais sofisticado dos seres, tendo passado por experiências de que nenhum outro homem nascido de mulher poderia se gabar. Tinha como certo que o mundo não poderia apresentar nada de novo aos seus olhos e não teria mais nada para lhe ensinar. E agora... aquilo. Primeiro o acesso que o dominara no automóvel: Tem alguma coisa lá fora... E agora Lindsey. As duas experiências eram diferentes, porque ele não escutara nenhuma voz em sua mente na segunda vez, e quando falara aquele nome tinha sido em sua voz normal, e não numa voz estranha. Mas os dois acontecimentos eram tão extraordinários que ele sabia que os dois deviam de estar ligados. Ao correr um olhar distraído ao longo dos barcos ancorados, da marina e da escuridão que reinava no resto da paisagem, ele sentiu que o mundo começava a parecer mais misterioso do que sempre tinha achado.
Pegou o copo e tomou um gole generoso de seu rum com Coca.
Ao pousar o copo de volta na mesa, disse:
— Lindsey.
O copo chocou-se desajeitadamente contra o tampo da mesa e quase virou, porque ele teve um sobressalto ao escutar aquilo. Não tinha dito aquele nome em voz alta para avaliar o seu som; na verdade, o nome simplesmente brotara de dentro dele, como na vez anterior, só que agora num tom um pouco sufocado e numa voz mais alta.
Interessante.
Aquele salão começou a lhe parecer um lugar levemente mágico.
Decidiu ficar por ali mais algum tempo e ver o que acontecia.
Quando a garçonete chegou trazendo o seu troco, ele disse:
— Me dê outro drinque. —Estendeu-lhe uma nota de vinte dólares.
Cobre aqui, e pode ficar com o troco.
Feliz da vida com aquela gorjeta, a mulher afastou-se.
Vassago virou-se para a janela outra vez, mas agora, em vez de olhar para a marina distante, fixou os olhos no seu próprio reflexo na superfície escura do vidro. As luzes suaves do recinto eram insuficientes para lhe dar uma imagem muito boa. Naquele espelho precário, seus óculos escuros apareciam sem nitidez, dando a impressão de dois enormes buracos escuros, como as órbitas de uma caveira. Aquela ilusão de ótica lhe deu prazer.
Num sussurro enrouquecido, baixo o suficiente para não chamar a atenção de outras pessoas, mas com mais urgência do que antes, ele disse:
— Lindsey, não!
Aquele impulso foi tão inesperado quanto os anteriores, mas não o inquietou. Já se adaptara com rapidez àqueles eventos inexplicáveis, e agora tentava apenas compreendê-los. Nada era capaz de surpreendê-lo por muito tempo. Afinal de contas, ele tinha ido até o Inferno e regressado de lá—tanto ', o Inferno verdadeiro quanto o que se ocultava no subterrâneo do parque abandonado —, de modo que nenhuma intrusão do fantástico na vida real seria capaz de causar-lhe medo ou espanto.
Pediu mais uma dose. Depois que se passou mais de uma hora sem que nada mais acontecesse, e quando a garçonete anunciou que iriam servir a, última rodada de drinques, ele saiu.
Aquela ansiedade continuava dentro dele, aquele impulso de assassinar... e de criar. Era um ardor em seu ventre que não tinha nada a ver com o rum, e uma tensão insuportável dentro do seu peito, como se no lugar do seu coração houvesse um mecanismo de relógio a que alguém tivesse dado corda até o ponto máximo, deixando-o a pique de estourar. Lamentou não ter seguido a moça com olhos de corça, aquela que apelidara de Bambi.
Será que teria deixado para remover suas orelhas quando estivesse morta, ou teria preferido fazê-lo ainda em vida?
Será que ela teria sido capaz de entender a proposta artística do seu ato de costurar os lábios dela sobre a sua boca cheia? Provavelmente não. Nenhuma das outras tinha demonstrado sensibilidade ou cultura suficientes para apreciar a singularidade do seu talento.
No estacionamento quase deserto, ele parou por algum tempo sob a chuva, deixando-se empapar por ela e extinguir um pouco do fogo de sua obsessão. Eram quase duas da manhã. Não lhe restava muito tempo para continuar caçando antes do amanhecer. Teria que retornar ao seu esconderijo sem levar nenhuma nova peça para incluir em sua coleção. Se queria dormir bem durante o dia para estar em plena forma na noite seguinte, teria que dar um jeito de apaziguar aquele impulso criativo que o dominava.
Daí a pouco, começou a tremer de frio. O calor interno de seu corpo foi dando lugar a um enorme frio. Ele ergueu uma mão, tocou o próprio rosto, listava frio, mas os dedos estavam mais frios ainda, como a mão de mármore de uma estátua de Davi que ele tinha admirado certa vez, num dos jardins do cemitério de Forest Lawn, quando fazia parte do mundo dos vivos.
Melhor assim.
Ao abrir a porta do carro, olhou em redor mais uma vez para a noite castigada pela chuva. Desta vez foi por vontade própria que disse em voz alta:
— Lindsey?...
Nenhuma resposta.
Quem quer que pudesse ser ela, ainda não tinha cruzado seu caminho.
Teria que ter paciência. Estava perplexo, e ao mesmo tempo curioso e fascinado. Mas o que quer que estivesse acontecendo teria que acontecer segundo seu próprio ritmo. Uma das virtudes dos mortos era a paciência, e embora ele ainda estivesse vivo, em parte, sabia que tinha de encontrar dentro de si próprio as forças para se equiparar ao estoicismo dos não-vivos.
18
Na manhã de terça-feira, uma hora antes do amanhecer, Lindsey não conseguia mais dormir. Todos os seus músculos e suas juntas doíam, e as poucas horas durante as quais tinha conseguido conciliar o sono não haviam contribuído muito para diminuir sua exaustão. Ela não queria mais sedativos. Incapaz de suportar uma demora tão longa, insistiu em ser levada para o quarto de Hatch. A enfermeira do horário entrou em contato com Jonas Nyebern, que continuava no hospital, e com a concordância dele colocou Lindsey numa cadeira de rodas e a conduziu para o 518.
Nyebern estava lá — o cabelo desgrenhado, os olhos vermelhos. Os lençóis da cama perto da porta não estavam revirados, mas exibiam marcas, como se o médico tivesse se limitado a esticar o corpo ali uma ou outra vez ao longo da noite.
Àquela altura Lindsey já tinha aprendido o bastante sobre Nyebern — parte com ele próprio, parte com as enfermeiras — para saber que ele era uma espécie de figura lendária. Tinha sido um eficiente cirurgião cardiovas-cular, mas nos últimos dois anos, após perder a esposa e os dois filhos num terrível acidente, dedicara cada vez menos tempo à cirurgia e mais à medicina de ressuscitação. Seu envolvimento com aquele trabalho era demasiado intenso para poder ser considerado simples dedicação. Era algo quase obsessivo. Numa sociedade que estava lutando para emergir de três décadas de auto-indulgência e egoísmo, era fácil admirar um homem como Nyebern, tão profundamente empenhado num esforço altruísta; e todos de fato pareciam admirá-lo.
Lindsey já o admirava; afinal, ele salvara a vida de Hatch.
Com sua fadiga sendo revelada apenas pelos olhos injetados de sangue e pela cama parcialmente desfeita, Nyebern afastou num gesto rápido a cortina que protegia a cama ao lado da janela e, segurando nas alças da cadeira de rodas de Lindsey, empurrou-a para perto do marido.
A tempestade da noite anterior já tinha amainado. O sol da manhã brilhava diagonalmente através das persianas, gravando sobre a brancura dos lençóis um padrão listrado com faixas de sombra e de luz dourada.
Hatch estava deitado por baixo daquela coberta que se assemelhava à pele de um tigre; tinha apenas o rosto e um braço do lado de fora. Embora aquelas linhas paralelas também estivessem projetadas sobre o seu rosto, não conseguiam esconder sua extrema palidez. Sentada na cadeira de rodas, olhando para Hatch de um ângulo estranho através do gradil lateral da cama, Lindsey sentiu um ligeiro assomo de náusea à visão do enorme hematoma e da ferida suturada que se estendia através de sua testa. Se não fosse pela prova do monitor cardíaco ligado e pelo movimento apenas perceptível do peito de Hatch erguendo-se e baixando ao respirar, ela teria certeza de que ele estava morto.
Mas ele estava vivo, vivo, e ela sentiu um aperto no peito e na garganta, um prenuncio de lágrimas, tão infalível quanto o relâmpago é prenuncio de trovão. Aquela vontade de chorar a surpreendeu, fazendo sua respiração se acelerar.
Desde aquele instante em que o Honda tombara na ravina, durante todo o suplício físico e emocional da noite anterior, Lindsey não tinha chorado nem uma vez sequer. Ela não se vangloriava de ser estóica ou algo semelhante era o seu jeito de ser, nada mais.
Não, não... melhor riscar isso.
Era o seu jeito de ser a partir da época da longa batalha de Jimmy contra o câncer. Do dia em que o diagnóstico foi revelado até o final de tudo, o menino levara nove meses para morrer, o mesmo tempo que ela levara para formá-lo no interior do seu ventre. Durante cada um dos dias daquela morte lenta, Lindsey tinha desejado não fazer outra coisa senão se enrodilhar sobre si própria na cama e chorar, apenas deixar que as lágrimas brotassem até esgotar toda a umidade de seu corpo, ressecar, pulverizar-se em pedacinhos, c cessar de existir. Ela havia chorado, de início. Mas suas lágrimas tinham assustado Jimmy, e ela percebeu que qualquer exteriorização do que lhe acontecia no íntimo não seria outra coisa senão um processo inconsciente de atrair piedade para si própria. Mesmo quando chorava às escondidas, Jimmy adivinhava: ele sempre tinha sido sensível e perceptivo, mais do que o normal da sua idade, e a doença parecia torná-lo ainda mais consciente de tudo que se passava em redor. A teoria imunológica contemporânea dava uma importância considerável a uma atitude positiva diante do câncer, considerando o riso e a autoconfiança como armas fundamentais no combate à doença. Assim, ela tinha aprendido a reprimir seu terror diante da perspectiva de perdê-lo. Tinha lhe dado riso, amor, confiança, coragem — e todas as razões para jamais duvidar de que acabaria vencendo a enfermidade.
Quando Jimmy morreu, Lindsey tinha aprendido tão bem a reprimir as lágrimas que simplesmente não era capaz de chamá-las de volta. Desprovida da válvula de escape que o choro poderia ter lhe proporcionado, ela acabou entrando em parafuso, mergulhando num estado de profundo desespero. Perdeu peso — cinco quilos, oito, dez — até ficar pálida e emaciada. Não se dava mais o trabalho de lavar o cabelo ou cuidar da aparência ou passar as roupas. Estava convencida de que tinha falhado a Jimmy, de que o tinha levado a confiar nela, e depois não tinha sido especial o bastante a ponto de ajudá-lo a vencer a doença; portanto, começou a acreditar que não merecia o prazer proporcionado pela comida, pela boa aparência, por um livro, um filme, um pouco de música... qualquer coisa. Depois de um certo tempo, com muita paciência e muito carinho, Hatch a ajudou a ver que essa insistência em assumir a responsabilidade por um ato cego do Destino acabava sendo uma doença, tanto quanto o câncer que vitimara Jimmy.
Embora ainda incapaz de chorar, ela havia conseguido sair do poço profundo que cavara para si própria. Desde essa época, no entanto, permanecera ali, bem na borda, equilibrando-se precariamente.
Agora, aquelas primeiras lágrimas depois de tanto, tanto tempo eram surpreendentes, inquietantes. Seus olhos ardiam, queimavam. Sua visão ficou embaçada. Incrédula, ela ergueu uma mão trêmula para limpar as gotas ardentes que lhe escorriam rosto abaixo.
Nyebern puxou um lenço de papel de uma caixa sobre a mesa-de-cabeceira e o estendeu para ela.
Esse pequeno gesto de delicadeza teve sobre ela um efeito desproporcional, e ela começou a soluçar.
— Lindsey...
A garganta de Hatch estava inflamada, depois de tudo por que tinha passado, tornando sua voz rouca, pouco mais do que um sussurro. Mas ela percebeu de imediato que fora ele, e não Nyebern, quem lhe dirigira a palavra.
Ela enxugou rapidamente os olhos com o lenço de papel e se inclinou para a frente, até que sua testa tocou a fria grade de metal da cama. O rosto de Hatch estava virado na direção dela. Seus olhos estavam abertos e pareciam lúcidos e alerta.
— Lindsey...
Ele tinha encontrado forças suficientes para retirar a mão direita de sob as cobertas e estendê-la.
Lindsey enfiou o braço por entre as barras do gradil e segurou a mão de Hatch.
A pele dele estava seca. A palma da mão estava coberta por uma bandagem. Ele estava fraco demais, e conseguiu apenas dar um leve aperto nos dedos dela; mas sua mão estava quente, abençoadamente cálida, e estava viva.
— Está chorando... — disse Hatch.
Sim, ela chorava mais do que nunca, uma torrente de lágrimas, mas ao mesmo tempo sorria. A dor não tinha sido capaz de libertar suas lágrimas durante aqueles cinco anos terríveis, mas finalmente a alegria tinha sido capaz de fazê-lo. Chorava de alegria, e aquilo lhe parecia uma coisa correta, uma coisa saudável. Ela sentiu que tensões longamente acumuladas dentro de si iam se afrouxando, como se antigas feridas fossem curadas, somente porque Hatch vivia, tinha morrido, mas agora estava vivo novamente.
Se um milagre não fosse capaz de libertar um coração, o que mais seria?
— Eu te amo — disse Hatch.
A torrente de lágrimas transformou-se num dilúvio, oh, Deus, um oceano, e ela se ouviu balbuciando: "Te amo também"; a seguir sentiu que Nyebern pousava a mão no seu ombro, num gesto reconfortante, uma outra pequena delicadeza que naquele instante pareceu imensa, fazendo-a soluçar ainda mais. Mas estava rindo por entre os soluços e viu que Hatch sorria também.
— Está tudo bem — disse ele, em voz rouca. — O pior... já passou. O pior... ficou para trás... atrás de nós.
19
Durante o dia, quando se mantinha longe da luz do sol, Vassago deixava seu Camaro estacionado numa garagem subterrânea que antigamente tinha sido usada para abrigar os bondes elétricos, os carrinhos, e os caminhões usados pelas equipes de manutenção do parque. Nenhum daqueles veículos estava mais ali: todos tinham sido levados embora pelos credores. O Camaro ficava sozinho no meio daquele espaço úmido e sem janelas.
Da garagem, Vassago desceu por um largo lanço de escadas—há muitos anos que os elevadores não funcionavam—até um nível ainda mais profundo. Todo o parque de diversões tinha sido construído sobre um vasto subterrâneo, onde ficavam abrigados os postos de controle da segurança, com dezenas de monitores de vídeo capazes de mostrar cada trecho do parque; o centro de controle dos brinquedos mecânicos, espécie de ninho high-tech repleto de computadores; oficinas elétricas e carpintarias; uma lanchonete para os funcionários; armários e vestiário para as centenas de empregados que trabalhavam ali em cada um dos turnos; uma enfermaria para casos de emergência; escritórios; e muito mais.
Vassago cruzou sem hesitação a porta que levava àquele piso e continuou a descer até os níveis mais profundos das instalações. Mesmo naquela região seca do sul da Califórnia, as paredes de concreto, àquela profundidade, estavam cobertas de um limo esverdeado. Nenhum rato fugiu correndo à sua passagem; aquilo o havia surpreendido na primeira vez em que descera ali, muitos meses atrás. Nas semanas seguintes, à medida que começara a percorrer os corredores tenebrosos e os aposentos abandonados daquela imensa estrutura, nenhum rato tinha aparecido, embora ele não tivesse se incomodado em dividir o espaço com eles. Gostava de ratos. Eram comedores de carniça, viviam se divertindo no meio da podridão e agiam como funcionários zelosos limpando tudo após a passagem da morte. Talvez nunca tivessem invadido os porões daquele parque porque depois do fechamento as instalações tinham sido praticamente esvaziadas. Tudo que restava era concreto, plástico e metal — nada biodegradável que pudesse lhes servir de alimento; muita poeira, claro, e muito papel apodrecido, mas afora isso o lugar era tão deserto quanto uma estação orbital e sem nenhum interesse para roedores.
Mais cedo ou mais tarde, algum rato poderia acabar encontrando a sua coleção no Inferno subterrâneo, alimentar-se um pouco e trazer outros para banquetear-se. Então ele passaria a ter alguma companhia durante as horas em que o sol brilhava e ele ficava impossibilitado de sair.
Ao terminar de descer o quarto e último lanço de escadas, dois andares abaixo da garagem subterrânea, Vassago cruzou um portal. Aporta tinha sido arrancada, do mesmo modo que praticamente todas as outras dali, por vagabundos que vendiam a madeira mais adiante.
Começava ali um túnel com seis metros de largura. O chão era liso, com uma faixa amarela pintada ao longo da parte central, como se fosse uma rodovia — o que de certa forma era. As paredes de concreto se encurvavam para cima, formando um teto abaulado.
Parte daquele piso inferior era ocupada por depósitos que em outros tempos tinham abrigado enormes quantidades de material. Copos plásticos, embalagens de hambúrguer, caixinhas de papelão para pipocas e batatas fritas, guardanapos de papel, ketchup e mostarda em embalagens longa-vida; tudo que seria utilizado pelas várias lanchonetes espalhadas pelo parque. E material de escritório para o setor de administração. Caixas de fertilizante e latas de inseticida para a manutenção dos gramados. Tudo aquilo — e todo o restante que aquela cidade em miniatura utilizava — tinha sido removido anos atrás. Os depósitos estavam vazios.
Uma intrincada rede de túneis fazia a ligação entre os depósitos e os elevadores que conduziam o material para a parte superior, até as instalações do parque e os restaurantes. Assim, era possível fazer a entrega de mercadorias e a entrada e saída de funcionários distante das vistas dos freqüentadores do parque, evitando quebrar a ilusão que eles pagavam para experimentar. A cada trinta metros havia um número pintado nas paredes do túnel, para facilitar a orientação, e em cada interseção havia placas com setas indicando os diversos setores:
CASA MAL-ASSOMBRADA
RESTAURANTE DO CHALÉ ALPINO
RODA DO COSMOS
MONTANHA DO PÉ-GRANDE
Vassago virou à direita na esquina seguinte, depois à esquerda, depois à direita novamente. Mesmo que sua extraordinária capacidade visual não lhe permitisse enxergar no meio daquela treva impenetrável, ele teria sido capaz de seguir sem errar na direção que pretendia, pois àquela altura já conhecia as artérias ressecadas daquele parque morto tão bem quanto conhecia seu próprio corpo.
Chegou por fim a uma placa — MECANISMO DO TÚNEL DO TERROR — perto de um elevador. As portas do elevador tinham sido retiradas, assim como a própria cabine e o mecanismo de tração; teriam sido revendidos a outra firma, ou até mesmo como ferro velho. Mas o poço do elevador permanecia, descendo mais de um metro abaixo do piso do túnel e subindo para o alto ao longo de cinco andares mergulhados na escuridão, até o piso que abrigava o setor de segurança e administração, depois o piso inferior do parque propriamente dito, onde Vassago tinha instalado sua coleção, e depois o segundo c o terceiro pisos das instalações do parque.
Ele deslizou para dentro do poço vazio, deixando-se cair sobre o velho colchão que colocara ali para tornar mais confortável seu esconderijo.
Erguendo os olhos para o alto, podia discernir apenas uns dois pisos, naquele poço mergulhado em trevas. As barras enferrujadas de uma escada de serviço subiam ao longo de uma das paredes do poço, até sumirem também na escuridão.
Subindo por aquela escada até o andar inferior do parque, ele iria dar num aposento de serviço situado por trás da parede do Inferno; era por ali que se tinha acesso para fazer reparos no mecanismo condutor das gôndolas antes do parque ser desativado.
Naquele aposento havia uma porta, disfarçada na parte lateral de uma das falsas rochas de concreto, que se abria para o interior do lago, agora vazio, de onde se elevava a enorme estátua de Lúcifer.
Ele estava agora no ponto mais profundo de seu esconderijo, dois andares — e mais um metro — abaixo do Inferno. Ali se sentia em casa, pelo menos até onde isso lhe era possível. Lá fora, no mundo dos vivos, ele se movia com a segurança de quem se sentia um dos mestres secretos do Universo, mas nunca conseguia achar que estava em seu próprio ambiente.
Embora não tivesse mais medo de coisa alguma, uma corrente contínua de ansiedade percorria seu corpo cada minuto que ele passava longe dos corredores desolados e das câmaras sepulcrais do seu esconderijo.
Depois de descansar por algum tempo, ele abriu a tampa de uma caixa de plástico reforçado, coberta por dentro com isopor, onde guardava latas de cerveja não-alcoólica. Sempre tinha gostado dessa cerveja. Trazer gelo para colocar dentro do recipiente daria muito trabalho, de modo que ele sempre a bebia morna; mas não ligava.
Também guardava ali pacotes de doces e salgadinhos, caixas de manteiga de amendoim, um pacote de batatas chips, biscoitos. Depois que ele penetrara no mundo dos mortos, algo de estranho acontecera ao seu metabolismo; ele parecia ter-se tornado capaz de comer o que bem entendesse, sem que isso o fizesse aumentar ou diminuir de peso. E (por alguma razão que ele não conseguia entender) as únicas coisas que tinha vontade de comer eram aquelas de que gostava quando garoto.
Abriu uma lata de cerveja morna e tomou um gole prolongado. Rasgou um pacote de biscoitos e retirou um. Com todo cuidado, separou os dois biscoitos de chocolate, sem parti-los, e olhou a parte interior deles: o recheio branco tinha ficado todo no biscoito que ele segurava na mão esquerda. Isso queria dizer que quando ele crescesse seria rico e famoso. Se tivesse ficado no da mão direita, significaria que ficaria famoso, mas não necessariamente rico, o que queria dizer que ele poderia tornar-se inúmeras coisas, desde cantor de rock a assassino de algum presidente dos Estados Unidos. Se o recheio ficasse dividido entre as duas metades, isso queria dizer que ele teria de comer outro biscoito — ou correr o risco de não ter futuro algum.
Enquanto lambia o recheio adocicado, deixando-o dissolver-se devagar na sua língua, ficou olhando para o alto do poço do elevador, pensando como era engraçado ter escolhido o parque de diversões abandonado para lhe servir de esconderijo, quando o mundo oferecia um número tão grande de lugares escuros e desertos. Ele freqüentara aquele local algumas vezes quando garoto, na época em que o parque estava em pleno funcionamento; a última vez fora oito anos atrás, quando tinha doze anos, menos de um ano antes do parque falir e fechar as portas. Naquela noite, a noite mais especial de sua infância, ele cometera ali o seu primeiro assassinato, dando início ao seu longo romance com a morte. E agora estava de volta.
Terminou de lamber o recheio.
Comeu o primeiro biscoito. Depois, o segundo.
Pegou outro de dentro do saco.
Bebeu mais um gole de cerveja.
Pensou como seria bom estar morto. Morto de verdade. Seria o único modo de começar a existir no Outro Lado.
— Se cada desejo que há no mundo fosse uma vaca — disse em voz alta —, a gente poderia comer bife todos os dias.
Comeu o biscoito, terminou de beber a cerveja e se estendeu sobre o colchão, pronto para adormecer.
Logo dormia profundamente, e começou a sonhar. Eram sonhos estranhos, onde apareciam pessoas que ele nunca vira, lugares onde nunca tinha estado, acontecimentos que ele desconhecia. Água, em redor dele, envolvendo-o por completo. Pedaços de gelo flutuando, e a queda furiosa da neve por entre a ventania. Uma mulher numa cadeira de rodas, rindo e chorando ao mesmo tempo. Uma cama de hospital, iluminada por faixas paralelas de luz e sombra. A mulher na cadeira de rodas, rindo e chorando. A mulher na cadeira de rodas, rindo. A mulher na cadeira de rodas. A mulher.