Estudos Linguísticos da/na Fronteira Sul
Prefácio
Ester Mírian Scarpa
“Equilibrado” foi o adjetivo que me veio à mente para descrever este livro, quando li a coletânea que ora se apresenta, como produto parcial desses últimos anos de atividades e pesquisas desenvolvidas no interior do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos. Harmoniosamente estruturados, os textos aqui apresentados são representativos das linhas de pesquisa eleitas para comporem o Programa. Sem se fixar em saberes estabelecidos, nem em repetições de temas e tópicos, este volume mostra que, em relativamente pouco tempo, o Programa encontrou seus nichos e consolidou sua identidade e produção.
Podem-se agrupar genericamente três partes temáticas que dividem a coletânea. Os três trabalhos da primeira parte tratam, respectivamente, de reflexões sobre o conceito de complexidade linguística, da intersecção entre Linguística e Literatura, através da metáfora do literário e do grande empreendimento de organizar o inédito Atlas Linguístico das línguas em contato nesta parte da fronteira sul. A segunda dedica-se a abordagens que pendem para a perspectiva formal da gramática. A terceira, a posturas discursivas.
Comecemos pela noção espinhosa de complexidade linguística, às vezes tão naturalizada, mas que tem assombrado várias facetas disciplinares ou não do estudo da linguagem. Tem sido tematizada nos critérios de tratamento de dados em áreas que vão desde a Morfossintaxe, a Semântica, a Sociolinguística, a Fonologia, passando pela Psicolinguística, Aquisição da Linguagem, indo até o estudo de patologias diversas de linguagem. Muitas vezes está na base de análises sobre a emergência de conhecimentos e capacidades linguísticas, como quando é usada como critério de aquisição de primeira e segunda língua, ou de métodos e teorias de ensino e elaboração de currículos. Renato Basso e Ednei de Souza Leal aceitam esse desafio com o texto “Complexidade linguística: o que é e como medir?”. Nele afirmam que uma ideia de complexidade baseada na morfologia, como se aceitava correntemente no século XIX, tem alcance preconceituoso e é pré-teórico. Os autores são otimistas, porém, apontando que essa é uma visão superada, pelo menos na academia. Sua visão oposta, de que “todas as línguas são iguais em complexidade”, oferece, por outro lado, uma complicação: como definir e como medir tal complexidade? Traçam, então, um percurso histórico das visões comumente assumidas de complexidade linguística, desde trabalhos do século XIX até os mais recentes, passando por teorias e abordagem que justifiquem os respectivos pontos de vista. Mostram, por exemplo, a contribuição da Sociolinguística, com a hipótese de diferentes graus de complexidade entre as línguas do mundo, visão esta mais aceita hoje em dia exatamente por exibir uma “heurística positiva”. Não que o assunto se esgote aí. As definições e critérios de medida de complexidade ainda são uma questão em aberto, sobretudo se se consideram a tensão entre complexidade da gramática e a complexidade de processamento, e as filiações teóricas e metodológicas que delineiam definições e medidas. Os autores mostram, aliás, que se pode medir a complexidade sob três pontos de vista: o da estrutura, o do uso e o da aquisição.
Na bem-vinda intersecção entre Linguística e Literatura, vem o texto de Valdir Prigol, “Metáforas do literário”. Tem a ver com o modo metafórico de ler, com a aproximação entre a crítica, a teoria e a história. Cita metáforas criadas por Piglia, que invocam, na expressão “memória alheia”, a singularidade de sua relação com a experiência estética, e mostram como as metáforas são necessária interface entre o texto e o social, entre o texto e o histórico. São, finalmente, emblemáticas na relação entre o texto e seus olhares e leituras, os da crítica, os da história e os da teoria.
Marcelo Jacó Krug e Cristiane Horst ocupam o espaço da Sociolinguística, porém reunindo, num mesmo modelo, as categorias sociolinguísticas e o espaço pluridimensional de análise geolinguística. Apresentam, no texto o “Atlas das Línguas em Contato na Fronteira”, seu projeto pioneiro e adiantam resultados da pesquisa. Trata-se de uma grande base de dados das línguas em contato na fronteira de três estados do Sul do Brasil e as fronteiras com a Argentina e o Paraguai, em que já foram localizadas 12 minorias linguísticas, cujos falantes entram em contato cotidiano com as línguas majoritárias (português e espanhol). A metodologia de coleta de dados é inovadora, baseada numa perspectiva sociogeolinguística pluridimensional. É desnecessário apontar o pioneirismo e o caráter inovador deste projeto no quadro da pesquisa sociolinguística e dialetológica brasileiras, além do fato de que abre grandes possibilidades de pesquisa futura.
Uma segunda vertente teórica geral do livro é a abordagem da gramática formal, em que se afirma a representação mental do conhecimento linguístico. Nesta vertente estão inseridos dois textos.
Como estudar o português de séculos atrás? Como fazer aflorar sons e sentidos da fala – ou de modos de dizer – mais próximos possíveis da língua cotidiana dos tempos que já passaram? Como extrair padrões de pistas prosódicas em textos escritos semiespontâneos confiáveis, que não sejam apenas os de literatura estabelecida que chegaram até nós, para se estudarem os fatos históricos da interface fonologia-morfologia-sintaxe? Esse tipo de questão iniciou-se no Brasil, com a tese pioneira de Gladis Massini-Cagliari, Cantigas de amigo: do ritmo poético ao linguístico – um estudo do percurso histórico da acentuação em Português, defendida na UNICAMP em 1995. É um desafio que se estende hoje em dia para a constituição de corpora de textos que forneçam instâncias para o estudo da história do português brasileiro. O desafio hoje em dia abrange o estabelecimento de ferramentas computacionais como constituição de metodologia de arquivação, codificação e análise e é enfrentado por Aline Peixoto Gravina, em seu texto “Linguística de Corpus: a importância do uso de ferramentas computacionais na construção de corpora linguísticos diacrônicos”. Novamente aqui se deve salientar o caráter inovador das pesquisas linguísticas da UFFS.
Uma terceira parte deste livro tem a ver com a Análise do Discurso, normalmente chamada “de linha francesa”. Essa teoria segue os princípios gerais dos movimentos pós-estruturalistas que começaram a se firmar por volta dos anos 50, 60 do século passado, inspirados na leitura da tradição saussureana e da Fonologia de Praga, estendida às Ciências Sociais, à experiência estética, à análise literária e, posteriormente, à Psicanálise e à Análise do Discurso. Tais princípios, em linhas gerais, afirmam a não existência de conhecimento a priori; a ilusão de “conhecimento” é o rastreamento de diferentes discursos ou práticas e é efeito e não determinante deles. A teoria prescinde da noção de representação mental e posiciona-se contra a ideia de sujeito psicológico, cognitivo, único e são a favor da heterogeneidade de vozes, discursos e práticas que resultam de várias posições do sujeito. Recusa divisões positivistas, conceitos a priori (sejam eles psicológicos, sociológicos, culturais, históricos). A consequência é que se depara com a incompletude do sujeito, do ser e do conceito e suporia a necessidade de outras práticas para preencher o espaço vazio deixado por essa incompletude, através da intertextualidade (dependência ao “já dito”). Enunciados dispersos encontrariam unidade em formações discursivas eminentemente ideológicas, que fazem dos indivíduos sujeitos históricos. A Análise do Discurso francesa é inserida no campo das Ciências Sociais na França, sobretudo pelos trabalhos de Althusser, Pêcheux e Foucault, que articularam interpretações inspiradas no materialismo histórico e de formações ideológicas aos princípios pós-estruturalistas de base, nos anos 60 e 70 do século passado. Tal teoria foi introduzida e difundida no Brasil, desta feita hospedada na grande área da Linguística, pelo trabalho de Eni Orlandi, nos anos 70 e 80 do século XX. No nosso país teve grande aceitação e espaço acadêmico, que perduram até hoje, embora sua influência tenha diminuído no seu país de origem.
Na análise do funcionamento discursivo das nomeações e das ementas de oito componentes curriculares de Língua Portuguesa que constituem o ementário do Curso de Graduação em Letras – Português e Espanhol da Universidade Federal da Fronteira Sul, o texto “Os saberes sobre a língua na formação inicial de professores de Língua Portuguesa”, Fabiane Aparecida Pereira e Mary Neiva Surdi da Luz investigam a articulação entre os conceitos de língua-estrutura e língua-acontecimento, neste relevante trabalho sobre o discurso documental-institucional. Ao indagar os saberes sobre a língua que circulam na formação de professores de Língua Portuguesa, lançam mão de conceitos baseados na Análise do Discurso, chamado apropriadamente de “linha franco-brasileira”, influenciada por Pêcheux e implementada pelas análises de Eni Orlandi.
E que não nos deixemos enganar pelo discurso do “novo”! Com uma análise meticulosa dos documentos, Irene Cristina Kohler e Ângela Derlise Stübe abordam Foucault e seu conceito de exterioridade, vendo o sujeito-aluno como um sujeito histórico, contestando assim o sujeito-aluno cartesiano (cognoscente), salientando as formações discursivas/ideológicas no embricamento entre saber e poder no texto “Educação integral: discurso do novo na constituição do sujeito-aluno”. Mostram as autoras como os discursos, os pequenos acontecimentos e as pequenas rupturas possibilitam a emergência sobre o discurso do “novo” nos documentos que norteiam algumas escolas de educação básica em tempo integral. As marcas linguísticas no funcionamento discursivo do “novo” revelam que, ao manipular expressões linguísticas, o imaginário constituído em torno dessas escolas origina-se na formação discursiva neoliberal e mercadológica, o que não é necessariamente o “novo”.
As formações ideológicas em jogo na intervenção midiática do chamado “escândalo do mensalão” estão igualmente presentes no texto de Eric Duarte Ferreira, “Discurso, mídia e política: inquirição e exame no contexto do escândalo político do mensalão, na era Lula”. São elas instanciadas por duas entrevistas do presidente Lula concedidas ao canal dominante de televisão em 2005 e 2006, respectivamente, e as colocações de Foucault sobre as práticas de inquérito e o exame. Colocam-se em destaque as relações discursivas desiguais de poder, às avessas, entre a mídia, que “sabe a verdade” (esta última pressuposta de antemão) e o inquirido, “que esconde a verdade”, que ocupa, segundo o autor, o “lugar do sujeito do erro que precisa ser confessado”.
O equilíbrio entre abordagens se faz ver nesta coleção de textos instigantes, inventivos, sérios e originais. Esses textos atestam a qualidade, o amadurecimento e a consolidação da pesquisa em Estudos Linguísticos da Universidade Federal da Fronteira Sul.
Boa leitura!