Estudos Linguísticos da/na Fronteira Sul
Atlas das línguas em contato na fronteira
Atlas das línguas em contato
na fronteira
Cristiane Horst, Marcelo Jacó Krug
No presente texto, descrevemos um pouco dos rumos e perspectivas da nossa pesquisa realizada desde 2012 na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Ainda no primeiro ano de existência da UFFS, foi criado o projeto de pesquisa guarda-chuva: o “Atlas das Línguas em Contato na Fronteira” (doravante ALCF), que pudesse abarcar pesquisas que se propõem a estudar línguas alóctones e/ou autóctones em contato na região de fronteira do Brasil com a Argentina e com o Paraguai. Esse projeto de pesquisa insere-se no âmbito dos estudos de macroanálise da variação linguística em situações de contato multilíngue, assim como a relação e as influências dessas situações com fatores extralinguísticos diversos.
Objetivos e fixação de critérios para a
constituição de uma base de dados
O que seria então um Atlas Linguístico? Segundo Altenhofen (2004, p. 141),
[…] pode-se definir o atlas linguístico como sendo um instrumento de análise
que apresenta em um mapa geográfico variantes e comportamentos relativos
ao uso variável da língua, com o objetivo de fornecer uma visão macro-areal
que permita observar relações e tendências dessa variação no espaço.
No caso de um atlas que visa a abarcar as línguas alóctones e autóctones em contato com a língua oficial do país, temos, além da língua e suas variantes, o fator sociocultural, que permite apresentar as mais diversas variedades ainda faladas na região de fronteira, muitas vezes, esquecidas. O ALCF também destaca o verdadeiro papel dos imigrantes e indígenas na formação do povo e da língua brasileira, contrariando estudiosos como Ribeiro (1995, p. 242), que afirma que o imigrante “[…] não teve maior relevância na fixação das características da população brasileira e da sua cultura”.
Constitui objetivo central do ALCF desenvolver uma base de dados adequada para um atlas linguístico-contatual das línguas minoritárias (alóctones e/ou autóctones) com o português e o espanhol na região Sul do Brasil, especificamente, na região de fronteira dos três estados do Sul do Brasil com a Argentina e o Paraguai. Tal propósito segue os pressupostos de uma ciência ampla da variação linguística que reúne, em um mesmo modelo, as categorias sociolinguísticas e o espaço pluridimensional de análise geolinguística, segundo a perspectiva de Thun (2010), levada a efeito nos atlas linguísticos do Uruguai (ADDU) e do contato Guarani-Espanhol no Paraguai (ALGR), e de Altenhofen (2004), no Atlas Linguístico-Contatual das Minorias Alemãs na Bacia do Prata (ALMA), envolvendo o Brasil, a Argentina e o Paraguai.
Tendo em vista o alcance do objetivo geral, organizamos alguns objetivos mais específicos do projeto. Como objetivo de origem mais epistemológica, pretende-se, em primeiro lugar, fixar critérios claros e consequentes para a definição de uma base de dados representativa, com a qual se possa solucionar problemas apontados em um projeto pluridimensional. Voltado à determinação do tema de pesquisa, pretende-se fixar as questões mais relevantes em relação tanto com as variedades e suas variáveis linguísticas, quanto com os aspectos interdisciplinares predominantes, de interesse de outras áreas do conhecimento. Com isso, acredita-se revitalizar, ao mesmo tempo, uma área bastante negligenciada pela pesquisa linguística, a etnografia, que pode contribuir para uma visão mais conjunta da integração entre língua, cultura e sociedade. Como objetivo empírico, pretende-se avaliar ao mesmo tempo as exigências para que cada questão selecionada para a pesquisa seja adequadamente levantada, desenvolvendo a técnica de coleta dos respectivos dados mais apropriada a essas exigências. E, finalmente, voltado mais para a cartografia, pretende-se, no mesmo sentido, desenvolver procedimentos cartográficos adequados, além de prever mapas que ofereçam respostas mais concretas e convincentes a cada questão de pesquisa.
Estudos como os de Altenhofen (1996), Koch (1974), Thun (2010) e os dados do ALiB e do ALERS apontam para a existência de línguas de imigração que são faladas na região Sul do Brasil, como as variedades do alemão, do italiano, do polonês, do ucraniano, do russo, dentre outras. Porém, todos os estudos e levantamentos mencionados abrangem uma visão macro de apenas uma variedade, seja esta de imigração em contato com o português ou do português em comunidade de falantes bilíngues. Com o ALCF, ainda teremos uma visão macro, mas com um “zoom” para cada comunidade de falantes de variedades de imigração ou de variedades indígenas. Estudos já realizados pelo ALCF, no Oeste Catarinense, conforme Horst, Krug e Fornara (2017), apontam para a coexistência de pelo menos doze (12) variedades de línguas de imigração e duas (2) línguas indígenas com a língua oficial.
Para padronizarmos o levantamento dos dados do ALCF com outros atlas existentes, definimos estabelecer a base teórico-metodológica para a elaboração de um banco de dados e a definição do objeto de estudo para a confecção de um atlas pluridimensional (THUN, 2010), com base na teoria e metodologia da Dialetologia Pluridimensional. Procuramos analisar e comparar adicionalmente, entre um ponto e outro (dimensão diatópica), a fala de homens e mulheres (dimensão diassexual), de diferentes faixas etárias (dimensão diageracional), pertencentes a estratos sociais distintos (dimensão diastrática), e falantes de uma ou mais línguas (dimensão dialingual), com competência metalinguística para perceber e “julgar” variantes distintas da língua (dimensão diarreferencial), segundo sua posição social, e com competência para empregar mais de um estilo de fala, conforme a situação (dimensão diafásica). Dessa forma, obtemos um poder explanatório e garantia de resultados mais sólidos para o estudo do contato. Questionário linguístico e
extralinguístico
Com base no Atlas Linguístico-Contatual das Minorias Alemãs na Bacia do Prata (ALMA), Atlas Linguístico Diatópico y Diastrático del Uruguay (ADDU), Atlas Linguístico Guaraní-Románico (ALGR), Mittelrheinischer Sprachatlas (Atlas da Renânia Central) (MRhSA), Atlas Linguístico do Brasil (ALiB), Atlas Linguístico-Etnográfico da Região Sul (ALERS) e nas obras de Schmidt (1997), Steffen (2006), Krug (2004, 2011), Horst (2011), Horst, Krug e Fornara (2017), além de questões novas que surgiram para cobrir temas específicos de cada variedade, elaboramos e adaptamos um questionário que pudesse abarcar, a partir da língua portuguesa, questões que são facilmente encontradas nas variedades minorizadas e, portanto, de fácil tradução para as distintas variedades linguísticas.
Para fins de comparação com dados já existentes, procuramos seguir a mesma metodologia e ordem das questões dos atlas mencionados anteriormente, o que facilita a análise macrolinguística entre os dados dos diferentes atlas. A interdisciplinaridade ganhou forma com questões que envolvem os mais variados eixos da ciência abordados no questionário: antropologia; história; educação; religião; etnografia; agricultura; pecuária; economia; geografia; fauna e flora; corpo humano; alimentação; meios de transporte; trabalho e comércio; aspectos metalinguísticos; questões de identidade; crenças e atitudes; relações sociais; jogos e diversões. O questionário conta com 492 perguntas diretas e 1411 perguntas indiretas, ou seja, para cada pergunta direta pode ter, em alguns casos, até dez perguntas indiretas. Essa divisão se faz útil na dialetologia pluridimensional para, por exemplo, coletar dados tanto do conhecimento ativo da língua do informante, quanto do conhecimento passivo, vital para “medir” a lusitanização, o tipo e o grau de bilinguismo do informante. As questões linguísticas, como a semântica, o léxico, a gramática, a fonética e a fonologia, a partir dessa subdivisão das perguntas, também ganham destaque especial.
O questionário é um roteiro de perguntas que pode ser aplicado em forma de diálogo, pois, na medida em que os informantes são questionados, eles atribuem comentários, contam pequenas histórias, até mesmo anedotas sobre o tema, enriquecendo assim a qualidade do material coletado. Tais comentários auxiliam na espontaneidade da conversa e, consequentemente, na qualidade dos dados a serem coletados. Quanto à espontaneidade, montamos um roteiro de perguntas que permite ao entrevistado se sentir mais à vontade. O roteiro tem como base as questões levantadas por Labov (1972) e conta inicialmente com a apresentação do informante, sua origem, questões de imigração e migração, a localização geográfica do ponto de coleta, para então entrar em questões linguísticas.
Além do questionário, elaboramos um roteiro de conversa semidirigida que norteará a coleta de dados do estilo livre (fala espontânea). Esse roteiro terá como base 14 campos temáticos, adaptados do Projeto ALMA, que servem de base para as nossas entrevistas:
a. formas simples (piadas linguísticas, receitas etc.);
b. histórias típicas da região;
c. memória e lembranças (individual e familiar; história regional e
étnicas);
d. narrativas (contagem e recontagem de histórias da parábola do
filho pródigo, contos de fada, histórias da imigração, dos índios, dos afrodescendentes, das guerras);
e. relações com as outras etnias (dentre outras a descrição de
fotos antigas, o casamento inter étnico, a relação com o gaúcho etc.);
f. produção agrária (por ex.: a cana de açúcar, o milho, a soja, o
fumo, a mandioca, o arroz, o trigo, da trilhadeira à ceifadeira ou automotriz etc.);
g. comércio, meios de transporte, a produção têxtil e a
industrialização de produtos de consumo doméstico e agrário (dentre outros os legendários caixeiros viajantes, transporte antigamente e atual);
h. língua e escola (a posição do informante ante o ensino da
língua minoritária e do bilinguismo, a proibição das línguas estrangeiras, o ensino na língua minoritária);
i. convivência social (por ex.: vizinhança, tomar mate, comer
bolinhos e pipocas, visitar e receber visita de parentes, tempo de plantio e de colheita, as máquinas de costura, os fornos e fogões de cozinha e as rodas de conversa);
j. festas e confraternizações (“Kerb”, festas de imigrantes, São
João, festas de padroeiros, filó etc.);
k. religião (língua usada nos sermões, casamentos inter-
religiosos, enterros, os padres e pastores, a organização das comunidades etc.);
l. medicina popular e saúde (benzedeiras, curandeiros, simpatias
e técnicas de cura dos afrodescendentes, saravás, cartomantes, médicos e hospitais de antigamente e hoje);
m. tempo e temporais (mudanças climáticas, perigos da
monocultura, a influência da lua nas plantações, problemas do meio ambiente, produtos transgênicos, as pragas nas lavouras, a derrubada das matas, as secas, as cheias, o uso de veneno);
n. inovações, invenções e perspectivas (possibilidades de
trabalho, estudo, futuro da língua minoritária).
Paralelamente ao questionário e à conversa livre, é prevista a coleta de textos antigos (etnotextos). Entendemos por textos antigos cartas escritas pelos antepassados aos parentes e amigos, receituários e documentos oficiais como passaportes, registros cíveis, atas de reuniões de associações, de igreja ou comunidades, escritas na língua minoritária, livros didáticos dentre outros. Esses textos podem servir de base documental para estudos diacrônicos e sincrônicos da evolução ou situação, respectivamente, tanto da língua portuguesa quanto da língua minoritária em contato com a língua portuguesa. A coleta dos textos ocorre por meio digital, ou seja, os textos são fotografados e arquivados num banco de dados específico, devidamente identificado, sem que os originais saiam das mãos de seus proprietários.
Para o levantamento de dados, é de fundamental importância que o questionário seja seguido à risca e que cada questão seja levantada de acordo com a sequência em que é encontrada no questionário. Essa sequência implica não somente levantar a questão principal, como também as questões secundárias. As questões principais, por exemplo, foram pensadas para a obtenção dos dados com respostas espontâneas. Dentro de cada língua, é possível termos uma ou várias variáveis ou até mesmo variantes do mesmo vocábulo ou fonema oriundas do contato entre línguas, nesse sentido, foram incluídas perguntas secundárias que nos auxiliarão a coletar inclusive casos de variação dentro da(s) variedade(s) minoritária(s).
O questionário está dividido em cinco capítulos. Com base no capítulo um, visa-se a levantar dados topográficos e da topodinâmica dos informantes, assim como questões que dizem respeito à identificação de cada informante com a sua variedade minoritária, também com a variedade do outro. Foram elaboradas 44 perguntas diretas, divididas em três subcapítulos, abordando os seguintes temas: I) Identificação do informante; II) Identificação dos pais e cidade de origem deles; e III) Aspectos metalinguísticos. Este subtítulo divide-se em quatro subcapítulos: I) Questões de identidade; II) Identificação dos padrões identitários; III) Papel da língua na constituição da identidade; e IV) Grau de bilinguismo dos informantes, da comunidade e o reconhecimento da identidade. São perguntas ideais para deixar o informante bem à vontade perante a situação que se encontra exposto, por exemplo, a presença do estranho com um gravador. Como não são questões de cunho fonético, o estranhamento não afetará a aquisição dos dados.
O capítulo dois do questionário é composto por 279 perguntas que servirão de base para o levantamento do léxico. Grande parte desse questionário foi adaptado de outros atlas linguísticos, como o ALMA, o ADDU, o ALGR, o ALERS, o ALiB e o MRhSA. Todos esses atlas tinham como objetivo coletar dados de uma língua ou de, no máximo, três línguas em contato; nesse sentido, foi preciso adaptar e traduzir o questionário, ajustando-o ao objetivo do projeto de que trata este capítulo. Em alguns casos, optamos por deixar as sugestões/sugerências na variedade minoritária do alemão (no hunsriqueano) ou até mesmo no alemão padrão, visto que quatro das variedades encontradas na nossa área de pesquisa são de origem alemã. Das demais variedades minoritárias, em partes, já foram traduzidas para o talian, italiano padrão, polonês local, kaingang e guarani, mas ainda precisam se estender a outras partes do questionário, que é aplicado, sempre que possível, com a colaboração de um docente ou discente proficiente na variedade minoritária em questão. O capítulo dois está dividido em quinze subcapítulos que darão subsídios para o levantamento de dados lexicais nas seguintes temáticas: I) Corpo humano: saúde e higiene; II) Vestuário; III) Alimentação; IV) Habitação; V) Fenômenos naturais; VI) Atividades agrícolas; VII) Flora; VIII) Fauna; IX) Parentesco e família; X) Relações sociais: amizade, vizinhança e local de trabalho; XI) Jogos e diversões; XII) Quantidades, números e relações; XIII) Transporte e comunicação; XIV) Trabalho e comércio; e XV) Religião. Com esse repertório, consegue-se coletar uma boa amostragem lexical. O que nos fez optar pelo questionário foi a possibilidade de encontrarmos empréstimos, tanto da língua portuguesa quanto da língua espanhola e das variedades minorizadas. Também pelo fato de que, na época em que essas variedades (i)migraram para o/no Brasil, boa parte desse léxico não existia e passou a existir com a evolução tecnológica, obrigando os falantes de variedades de imigração a aderirem aos neologismos tecnológicos. Há, também, o encontro com o novo, ou seja, novas espécies de aves, animais, plantas e árvores, que receberam denominação semelhante ao que já era do seu conhecimento ou recebiam a tradução literal, como o João de Barro (Dreckbauer). Nesse sentido, o léxico ou era emprestado ou adaptado das línguas majoritárias. Outra questão diz respeito aos nomes de parentesco e de família, os quais, segundo Horst (2011), Horst e Krug (2012), Bortolotto (2015), Wepik (2017), por um lado, deixaram de ser usados ativamente pela maioria dos informantes na língua de imigração, mas, por outro, o seu uso ainda é bastante representativo considerando as variedades do alemão. Em outros casos, foi assumida a nomenclatura da língua majoritária, porém com a terminologia da(s) variedade(s) de imigração.
O que, na maioria das vezes, restou foi o conhecimento passivo (que o informante ouvia falar ou falava na infância) dos nomes, como genro (Schwiegersohn) ou prima (Cousine), que é coletado no projeto através das perguntas secundárias. Outro ponto em que a língua majoritária oficial passa a ser a de domínio é na questão numérica e de datas. Inferimos que, pelo uso diário de números e datas e também pelo ensino exclusivo na língua majoritária, a variedade de imigração ou indígena cede lugar à língua oficial do país.
No capítulo três, tem-se o questionário fonológico, também adaptado do ALMA, ADDU, ALGR, ALiB e MRhSA, além de questões traduzidas e adaptadas de Steffen (2006) e Krug (2011). Nesse capítulo foram selecionadas 100 questões que deverão ser traduzidas do português para a variedade minoritária. Objetivamos, com isso, averiguar questões fonético-fonológicas específicas de cada variedade linguística.
No capítulo quatro, a parte da gramática, selecionamos algumas das 40 frases do professor alemão Georg Wenker, escritas em 1887 e que, até hoje, são usadas para levantamento de dados relacionados à gramática nos diversos atlas linguísticos na Alemanha, Suíça e Áustria e também no ALMA-H. Esse questionário está dividido em três partes. Na primeira delas, os informantes deverão traduzir as frases do padrão da língua minoritária ou do português para a variedade minoritária, para fins de comparação da variedade minoritária com as variedades de origem. Na segunda parte, fizemos um levantamento morfossintático a partir da tradução das frases do português para a variedade minoritária. Como última tarefa deste capítulo, os informantes são solicitados a traduzirem as frases da terceira parte para a língua de imigração padrão, com o intuito de medir as habilidades dos informantes na variedade de imigração padrão.
No capítulo cinco, também já utilizado no ALMA, ADDU e ALGR, os informantes ainda são solicitados a ler textos, por exemplo, a parábola do filho pródigo, na língua minoritária padrão e na língua portuguesa; um texto na língua portuguesa, procurando coletar dados sobre a metafonia, a fim de compará-los com os dados com a pesquisa de Krug (2011). Também foram incluídos textos de Bortolotto (2015) e Wehrmann (2016), para coletar dados especificamente do parentesco italiano e alemão, respectivamente. Implicações metodológicas para a
coleta de dados
Cartografar dados linguísticos sob a metodologia da pluridimensionalidade exige que se pense essa pluridimensionalidade desde o início do projeto. Não é possível fazer análise de dados pluridimensionais se eles não seguiram uma metodologia de coleta com um questionário adequado, com perguntas que deem acesso e que a sustentem. Além do questionário, também devemos pensar nos mais variados estilos de coleta desses dados, assim como na pluralidade dos informantes e das suas diferentes localizações geográficas, gêneros e classes sociais.
Para a formação da nossa base de dados, optamos por três estilos de coleta: 1) questionário com perguntas e respostas, representando o estilo “pouco formal”; 2) conversa livre sobre assuntos do cotidiano, representando o “estilo livre”; e 3) leitura de textos representando o “estilo controlado, formal”. Segundo Thun (2010), os estilos nos auxiliam na questão da formalidade, ou seja, quanto mais livre o estilo, menos próximos da fala da escola, da forma padrão da língua, serão nossos dados. Já no estilo pouco controlado, no questionário, os informantes não chegam ao extremo do controle de sua fala, como é o caso do estilo controlado da leitura, que, por sua vez, remete diretamente à forma padrão da língua aprendida na escola.
Até o momento, foram selecionados 42 municípios para compor a rede de pontos do presente projeto de Atlas das Línguas em Contato na Fronteira. Essa escolha vem atrelada a uma pesquisa prévia de levantamento de dados sobre a possível existência de grupos minoritários de etnias diversas que entram em contato com a variedade majoritária e oficial do país no seu dia a dia (HORST; KRUG; FORNARA, 2017). Na maioria dos pontos, a pesquisa foi feita, primeiramente, via consultas no site do IBGE ou no próprio site dos municípios; em seguida, via telefone e e-mail com representantes das prefeituras e, em alguns pontos com visitas in loco, com conversas com representantes do município, de sindicatos e pessoas influentes na comunidade. A partir desse levantamento, foi possível encontrar mais de 12 variedades minorizadas, cuja maioria tem um número bastante restrito de falantes, o que comprova a urgência desse levantamento de dados. As variedades encontradas foram: polonês, italiano, russo, variedades do alemão, como o hunsriqueano, o pomerano, o westfaliano e o Wolgadeutsch (Alemão Russo), o guarani, o kaingang, e uma comunidade quilombola fluente na variedade linguística alemã hunsriqueano, uma comunidade de árabes, uma de chineses, uma de taiwaneses e uma de turcos. Mais recentemente, temos registrado a criação de pequenas comunidades de haitianos e senegaleses, principalmente nas cidades do oeste catarinense.
Após a escolha dos pontos para os inquéritos, chegou a vez de definirmos os informantes, que estão divididos em quatro células, de acordo com o modelo em cruz de Thun (2010), aplicada nos atlas ALMA, ADDU, ALGR e ALiB.
Figura 1. Modelo em Cruz
Fonte: Thun, 2010, p. 709.
Cada cruz representa um ponto de coleta no mapa e,
geralmente1, é composto por oito informantes, quatro homens e quatro mulheres, para garantir a pluridimensionalidade. Por exemplo, a célula da classe alta – geração II (CaGII) é composta por um homem e uma mulher, nascidos e residentes no município, com idade acima de 55 anos e nível superior em curso ou completo. A classe alta – geração I (CaGI) é formada por dois jovens (um homem e uma mulher) entre 18 e 36 anos, nascidos e residentes no município, cursando ou com o curso superior completo. A classe baixa – geração II (CbGII) será formada por um homem e uma mulher, nascidos e residentes no município, com idade acima de 55 anos e com, no máximo, o ensino fundamental completo. A última célula, a classe baixa – geração I (CbGI) será composta por um jovem e uma jovem, nascidos e residentes no município, com idade entre 18 e 36 anos, com, no máximo, o ensino fundamental completo.
No que diz respeito à classe social, é importante salientar que preferimos adotar o mesmo conceito de classe social adotado nos projetos do ALMA, ADDU e ALGR, ou seja, são considerados integrantes da classe alta todos os informantes que estejam cursando ou já tenham concluído o nível superior de ensino (faculdade ou universidade), e os informantes que não se enquadram nesse perfil serão considerados classe baixa. Preferimos esse recorte, pois o critério de definição de Ca e Cb se pauta exclusivamente na escolaridade e ocupação de trabalho (com ou sem uso da escrita), porque são os únicos critérios concretamente mensuráveis e controláveis em uma pesquisa que agrega a variação diatópica (com levantamentos em uma rede de pontos de pesquisa) e que envolve a fala de indivíduos bilingues (dimensão dialingual). Para essa população falante de uma língua minoritária de imigração essencialmente falada, portanto, na maioria das vezes, ágrafa, a análise da variação linguística na dimensão diastrática tem como foco central a influência da escolaridade, por ser indicador do grau de acesso à linguagem escrita e às práticas de letramento.
Demais critérios possíveis na definição dos estratos sociais (por exemplo, renda) ficam subentendidos ou associados à medição do grau de acesso à escolaridade e à cultura escrita. Isso é comprovado pela análise etnográfica da estrutura social das localidades em que se realiza a pesquisa e que acompanha os levantamentos de dados, mesmo que de forma amena e suplementar, mas o suficiente para controlar a eficácia de aplicação dos critérios de escolaridade e ocupação de trabalho, os quais definem os dois grupos (Ca e Cb). Nesse contexto das áreas de imigração, interessa-nos antes de tudo como as práticas de letramento e o acesso aos bens escritos atuam no habitus linguístico e no “modo de falar” (gr. dialéktos) local.
O critério da renda não distinguiria com a mesma clareza, por exemplo, entre um colono que lê (em alemão e/ou em português) de um que não lê. Essa é a razão por que os atlas contatuais, que são recentes e existem em minoria – se restringem praticamente à trilogia rioplatense de H. Thun (ADDU, ALGR e ALMA-H) –, seguem essa leitura da estrutura social dos contextos pesquisados e priorizam esse recorte de estrato sociocultural como sendo o mais adequado e exequível para o estudo macrolinguístico que se está propondo. Como tudo em pesquisa, para ganhar em um ponto de vista, às vezes, é preciso amenizar e adequar os critérios em outro.
Seguindo essa estrutura metodológica, conseguimos gerar uma base de dados que possa dar suporte a um número maior de estudos dentro da perspectiva da macroanálise de dados da geolinguística pluridimensional, que já vem sendo experienciada nas pesquisas de campo, descrições e análises já realizadas até o presente momento.
Consequências para a cartografia,
como instrumento de visualização,
relações e resultados
A cartografia pluridimensional Thun (2010) consiste em dominar a grande quantidade de dados que é produto de nossa metodologia. Contrariamente à metodologia monodimensional, que levanta um fenômeno linguístico com vários informantes previamente definidos por lugar/ponto, nós temos normalmente oito informantes, e isso quer dizer: informantes de quatro grupos que se dividem por idade e por categoria sociocultural e, em cada grupo, estão duas pessoas, normalmente um homem e uma mulher distribuídos na cruz, como mencionado anteriormente. Então, em resultado, temos entre quatro até oito vezes mais informações. Por exemplo, é possível que, em cada um dos grupos, os informantes digam coisas diferentes, nesse sentido, temos oito vezes o mesmo fenômeno em variação. E isso se torna um grande desafio para a cartografia, pois teoricamente seria necessário inscrever em cada ponto oito resultados e, se for feito de maneira mecânica, ou seja, descrever todas as variantes que surgiram em todos os pontos coletados, falado por cada informante, seria motivo de grande confusão, sem contar que não haveria espaço para tal descrição em um único mapa. Por isso, a solução é, por um lado, uma simplificação dos mapas. Nesse sentido, optamos por três “tipos” de mapas: o fenotípico, o em série e o mapa síntese.
Num primeiro momento, optamos por mapas que só darão uma primeira aproximação do fenômeno, representando-o por um único símbolo, são os mapas que chamamos de fenotípicos. Por exemplo, para saber se existe num lugar dado à palatalização do português brasileiro (palavras como [dia] ou [dȝia] e [tia] ou [tʃia], basta que um único falante realize o fenômeno para que ele passe a constar no mapa. Nessa primeira aproximação ao fenômeno será simbolizada no primeiro mapa somente a existência ou a inexistência do fenômeno. O princípio é separar em passos sucessivos a informação coletada. Disso resulta um tipo de cartografia que pode ser chamada de “mapas em série”. Assim, para um mesmo fenômeno complexo, serão elaborados vários mapas que se seguem logicamente. Primeiro uma aproximação com o mapa fenotípico, depois entramos em todos os detalhes com mapas em série e, ao final, uma síntese. Um exemplo poderia ser uma síntese sobre o avanço do fenômeno da palatalização realizada por um grupo determinado, neste caso, mulheres jovens, que já realizam numa porcentagem avançada o fenômeno, em contraponto com os homens veteranos da classe socioculturalmente baixa, que ficam com a forma tradicional. Em outras palavras, as mulheres jovens da classe alta dizem, praticamente todas, bom [dȝia] e [tʃia], e os homens velhos ficam com bom [dia] e [tia]. Então isso poderia ser uma síntese ao final.
Com o atual meio digital, a sucessividade de mapas pode facilmente ser sobreposta e analisada tanto isoladamente quanto em comparação com outros fenômenos, sejam estes linguísticos ou extralinguísticos. Nesse sentido, é possível ter em um mapa determinado fenômeno linguístico visto a partir da classe social dos informantes; no outro, o gênero; no seguinte, a geração, a localização geográfica; outro, com os diferentes estilos de coleta; outro, com apenas as respostas espontâneas; e outro, com as
respostas sugeridas e aceitas2 ou ainda um mapa só com termos de que os informantes apenas ouviram falar. É dessa maneira que acreditamos minimizar os problemas apontados na cartografia pluridimensional.
Na linguística usam-se basicamente dois “tipos” de mapas. Um “tipo” é o que será utilizado para cartografar o ALCF, que se chama ponto-símbolo. O outro “tipo” é um mapa que utiliza formas fonéticas ou formas ortográficas por ponto, denominado ponto fonético. Nesse tipo de mapa descreve-se forma [dia] ou [dȝia] no ponto respectivo e não se utiliza o símbolo para designar o dado. Essa cartografia é útil se os fenômenos são simples, mas é complicada se as formas são longas, pois o espaço disponível numa folha bidimensional não será suficiente. É o caso do atlas linguístico da França, que é ponto fonético e dá uma impressão não clara. Esse tipo de mapa é praticamente como um dicionário que se encontra numa página só, difícil de ler e não aproveita as vantagens de um mapa, por exemplo, na representação de áreas linguísticas. Com o tipo de cartografia ponto-símbolo, seguimos o princípio que vai do ponto à área linguística, assim que, a partir de símbolos semelhantes ou iguais (sempre o círculo Q U S T R F) que se inscrevem em cada ponto, podemos ter uma ideia da existência de áreas linguísticas, como no exemplo de caçula: no norte do Uruguai tem símbolos em preto, que formam uma área, no sul dessa área da fronteira do Uruguai tem símbolos em branco, que formam outra área, e assim podemos falar em área em preto e área em branco. Então, a área se forma através da existência de pontos vizinhos que tem o mesmo símbolo.
Em outras palavras, podemos comparar os mapas em série com a técnica de cronofotografia, mapas que correspondem a fotos instantâneas, mas que estão vinculadas tematicamente na série. Por exemplo, analisamos a palatalização primeiramente numa perspectiva geral, qual a situação do fenômeno numa localidade dada, existe ou não existe. Se existe, como falam os velhos, como falam os jovens, como falam os homens, como falam as mulheres; depois, como pronunciam em atos linguísticos muito controlados, por exemplo, na leitura de um texto; como pronunciam em atos linguísticos menos controlados, por exemplo, respondendo a perguntas; cada uma dessas formas seria uma foto. Como atuam linguisticamente numa atividade de controle mínimo, na conversa livre observamos, por exemplo, que as pessoas dizem na leitura de um texto “eu vou cantar”, depois na conversa dizem “eu vou cantá”. Então, numa atuação linguística menos controlada pode surgir uma forma mais espontânea, assim como isso também dá a possibilidade de separar em fotos instantâneas sucessivas a evolução linguística.
O que pretendemos fazer é aumentar os dados da geolinguística tradicional no sentido da sociolinguística, mas não fazer tudo. Não é objetivo elaborar monografias sociolinguísticas em cada ponto, mas dar uma impressão aproximada da estruturação da sociedade no espaço. Assim como a sociolinguística reduz o espaço a pontos, às vezes, a um só ponto, ou, no melhor dos casos, a uma série de pontos, mas não inter-relacionados, com o projeto ALCF reduzimos as possibilidades da sociolinguística a algumas categorias, como o sexo, a idade e a formação cultural. Vale ressaltar que um atlas linguístico é sempre uma síntese e não pode ser confundido com uma monografia local.
Resultados já alcançados
Além da elaboração e adaptação do questionário realizado em 2013 e 2016, da delimitação do espaço a ser cartografado e da definição da metodologia, baseada na teoria e metodologia da dialetologia pluridimensional, foram escritos até 2017 nove trabalhos de conclusão de curso, outros quatro estão em fase de escrita, e também temos oito dissertações de mestrado defendidas e outras três em fase de conclusão. O projeto contou com o apoio de cinco bolsistas (PIBIC-UFFS, CNPq e FAPESC) e com uma pós-doutoranda (CAPES-PNPD-UFFS), colaborando diretamente com o levantamento de dados e com a divulgação das pesquisas do projeto ALCF. Também vale ressaltar que, no período de 2012 a 2017, foram produzidos nove artigos científicos, publicados em revistas qualificadas, e um capítulo de livro. Desde 2010, o projeto ALCF está inscrito e certificado como Grupo de Pesquisa no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq.
A partir dos trabalhos de conclusão de curso, os estudantes tiveram a oportunidade de coletar e analisar, com base no ALCF, questões bem pontuais de sua comunidade de fala e, com isso, aproximar e abrir caminho para a realização das entrevistas previstas no projeto maior. Com esses trabalhos, foi possível coletar dados de informantes haitianos e de descendência italiana e alemã.
Com as dissertações, foi possível ampliar o leque de variedades e aprofundar as discussões para além das variedades do italiano Bortolotto (2015), Curioletti (2014), do alemão Ruscheinsky (2014), Wolschick (2016), Wehrmann (2016). Tivemos trabalhos envolvendo descendentes de poloneses e ucranianos Scholtz (2014), Wepik (2017) e outros escritos nas línguas indígenas guarani e kaingang Frizzo (2017). Todos esses trabalhos estão ancorados no ALCF, complementam-se e apresentam um panorama da real situação do contato linguístico na região.
Ainda temos muito a explorar, pesquisar e descobrir com as línguas em contato na fronteira. Encontramo-nos num verdadeiro laboratório linguístico pouco explorado, terreno fértil para pesquisas nas mais diversas esferas do conhecimento e esperamos, com a criação do atlas, poder propiciar que cada vez mais pesquisas e pesquisadores se interessem e contribuam com novos conhecimentos na área da dialetologia.
Referências
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