Estudos Linguísticos da/na Fronteira Sul

Cláudia Andrea Rost Snichelotto e Mary Neiva Surdi da Luz (orgs.) · Capítulo 8 de 11

Páginas do PDF

Estudos Linguísticos da/na Fronteira Sul

Complexidade linguística: o que é e como medir?

Complexidade linguística: o

 

que é e como medir?

 

Ednei de Souza Leal, Renato Miguel Basso

 

Introdução

 

Para qualquer estudante de Linguística dos dias de hoje, a ideia de complexidade gramatical é ainda um tanto estranha e pouco usual, e a ela está relacionado um truísmo importante e muitas vezes repetido: “todas as línguas são iguais em complexidade”. Contudo, nem sempre foi assim: por muitos séculos, a ideia de que as línguas tinham diferentes graus de complexidade era o truísmo em voga, muitas vezes associado também a um julgamento proporcional da “capacidade intelectual” dos falantes dessas línguas – quanto mais complexa a língua, mais “inteligente” ou “capazes” seus falantes. Nessa concepção, via de regra, a complexidade estava diretamente ligada à morfologia, à riqueza de formas das línguas em análise; assim, uma língua com uma morfologia complexa/rica terá falantes que produziriam obras impressionantes – os casos do latim e do grego clássicos eram tomados como evidências disso.

Por outro lado, línguas com pouca morfologia, ou línguas crioulas que, comparadas às suas línguas de base (em geral, europeias), têm uma morfologia pobre eram faladas por indivíduos que, ao menos com aquela língua, não produziriam obras à altura do que a antiguidade clássica nos legou. Obviamente, tal visão é extremamente preconceituosa e equivocada – sabemos que a complexidade linguística (seja ela o que for) – certamente não está relacionada nem à capacidade nem à produção intelectual dos falantes. Assim, o truísmo de que as línguas são igualmente complexas dá conta desse fato e nos permite ter visão menos preconceituosa das línguas do mundo e, principalmente, de seus falantes.

No entanto, como nota Deutscher (2010, p. 109-110), tal truísmo, apesar de indubitavelmente ser menos preconceituoso e fazer mais justiça ao nosso atual conhecimento linguístico, ainda é muito problemático – afinal, como realmente sabemos que as línguas são igualmente complexas? Como provar que esse é o caso? É certo que não queremos (e não devemos) voltar a ter a visão preconceituosa dos séculos passados, mas ainda não possuímos uma conceituação precisa sobre complexidade linguística que nos permite ancorar o truísmo de que as línguas são igualmente complexas em bases empírica e cientificamente aceitáveis.

Neste capítulo, nosso intuito é investigar um pouco sobre a complexidade linguística, sua história, seus desdobramentos e as estratégias para medi-la. Trata-se de um estudo com caráter expositivo, cujo objetivo é levar o leitor a refletir sobre esse fascinante e antiquíssimo tópico que vem recebendo cada vez mais atenção. Para tanto, organizamos o presente capítulo do seguinte modo: na seção 1, fazemos uma breve história da ideia de complexidade gramatical, para então, na seção 2, apresentarmos algumas das ideias e noções contemporâneas a seu respeito; a seção 3 traz as possíveis estratégias de medição de complexidade gramatical, e a conclusão faz um balanço das ideias apresentadas.

 

Breve percurso historiográfico

 

Durante a história da linguística ocidental, a complexidade linguística estava diversas vezes e por diferentes motivos na ordem do dia, e nesta seção nosso objetivo é apresentar um pouco da trajetória desse conceito e das ideias e ideologias que o acompanharam.

A questão da complexidade linguística tomou um rumo interessante durante o período estruturalista, principalmente no contexto norte-americano, pois, ao descreverem línguas não europeias, os linguistas se surpreenderam com a riqueza e complexidade das línguas de povos tachados de “primitivos”. Isso possivelmente os fez postular a equidade de complexidade entre todas as línguas, como se fosse um traço comum da linguagem humana. Veremos que tal ideia é muito diferente daquela do período que podemos chamar de “romântico”, no qual era mais ou menos claro que a complexidade cultural de um povo estava intrinsecamente atrelada à de sua língua.

Veremos também que a ideia de universalismo linguístico, que é bastante cara ao paradigma Gerativista, e por isso o seu inatismo biológico, fator comum e universal de todas as línguas, empurra novamente a questão da complexidade gramatical para a periferia dos estudos linguísticos.

Em fins do século XX, a questão da complexidade linguística é suscitada através de observações sistemáticas, sobretudo em línguas jovens e de contato. Todo um aparato epistemológico é retomado, agora com novas ferramentas adquiridas pela linguística em suas diversas subáreas, principalmente a crioulística e a sociolinguística. Posteriormente, outros ramos se interessam pela questão da complexidade, num movimento de necessidade explicativa diante dos fatos observados.

Para podermos compreender melhor a historiografia em que está inserido o problema da complexidade linguística, passamos a expor os estudos de maneira cronológica, para assim procurarmos enxergar melhor de que forma a complexidade linguística viria a se tornar um dogma entre os estudos linguísticos.

 

Século XIX

 

Possivelmente, desde a Antiguidade, várias diferenças percebidas entre línguas em contato foram tratadas como diferentes graus de complexidade entre elas por diversos pensadores, estudiosos ou não das línguas. No Renascimento, havia ainda a noção de que as línguas modernas europeias jamais teriam a riqueza das chamadas línguas clássicas, ou seja, o Grego e o Latim. Essa “riqueza linguística”, para os pensadores humanistas, dizia respeito claramente ao grande paradigma morfológico que o grego e o latim apresentavam. Essa noção pode novamente ser vista de modo claro no século XIX, quando os linguistas começaram a comparar sistematicamente o sânscrito a outras línguas europeias (ROBINS, 1979), baseando-se em larga medida na abundância morfológica dessa língua, tida também como um atestado de sua “origem nobre” indo-europeia.

August Schleicher (1821-1868), por exemplo, foi um dos grandes defensores dessa noção (JOSEPH; NEWMEYER, 2012). No mesmo século XIX, sob a influência da filosofia romântico-nacionalista, questões sobre complexidade linguística foram fortemente delineadas, no entanto, sem muito apreço teórico e sistematização, sobretudo no que dizia respeito a fatores linguísticos propriamente ditos. A preocupação, num primeiro momento, era a de comparar as línguas para que se pudesse afirmar a posição supostamente superior de um país/nação ante outro a partir da língua de seu povo.

Nessa época, algumas das questões que intrigavam os pesquisadores eram saber como as línguas atingiram um alto grau de complexidade e como agora, acreditavam eles, essas mesmas línguas estariam paulatinamente se degradando através das mais frequentes irregularidades nos mais variados paradigmas gramaticais atestados. A segunda questão se colocava quando eram comparados, por exemplo, o latim e as línguas neolatinas que invariavelmente tinham menos morfologia que sua língua mãe, e o mesmo se dava, mutatis mutandis, com o protogermânico e suas línguas filhas, bem como com as demais subfamílias indo-europeias – por algum motivo, a morfologia, com o tempo, diminuía e, assim, conforme o pensamento da época, também a complexidade das línguas.

O grande linguista alemão August Schleicher, para resolver tal impasse, elaborou uma tese cômoda na época, embora hoje, para os nossos padrões, ela já não nos soe como científica. Para ele, as “nações”, antes do advento da História (ou seja, da escrita), se preocuparam em elaborar e sustentar fortemente suas línguas, para depois começarem efetivamente a construir suas histórias, deixando o “fazer linguístico” de lado. O resultado dessa mudança foi uma perda da complexidade linguística (leia-se, perda de sua

morfologia)1.

Com o avanço do paradigma histórico-comparativo, a questão da complexidade se dissipa. Lembremos que ocorreram no século XIX avanços consideráveis nos estudos linguísticos, tais como a comparação “genética” entre as línguas, bem como o entendimento de como as línguas “mudam” com o tempo. É essa uma razão para que a noção histórica das línguas ganhe importância neste período. Para além da filosofia romântica, segundo a qual cada nação tinha seu valor intelectual e cultural particular e mensurável, incluída aqui a língua dessas nações, havia a ilusão de que, com o passar dos séculos, as línguas iam se “degradando”.

Embora tenha postulado noções basilares na época, tais como a ideia de que as línguas não são entidades estáticas e de que há níveis linguísticos observáveis, Humboldt também se utilizou da filosofia romântica para enaltecer a língua alemã, ainda que ele tenha admitido que línguas ameríndias eram tão complexas quanto as europeias. Por outro lado, uma das questões deixadas em aberto na época era a seguinte: como as línguas podem estar se degradando durante os séculos, mas ao mesmo tempo continuarem tão complexas? Hoje em dia, no entanto, estamos em melhores condições de tentar resolver essa questão, que parece ter a tensão entre complexidade aparente, custo e eficiência comunicativa como a mais provável resposta satisfatória.

 

Estruturalismo – primeira metade do

século xx

 

Na entrada do século XX, sobretudo depois de estabelecida a chamada Linguística Estruturalista, principalmente aquela praticada nos Estados Unidos, a questão da complexidade linguística toma outras proporções, talvez a principal delas seja a ética. Ora, ao associar língua e cultura, havia também o perigo de associar menor complexidade linguística a menor desempenho cultural ou mesmo cognitivo.

Há duas razões para tanto: (i) a influência positivista, que coloca como tarefa agora algo muito mais descritivo e objetivo, e muito menos especulativo; e (ii) a forte influência das ideias linguísticas do antropólogo Franz Boas. Sendo assim, o chamado Estruturalismo norte-americano, tanto por questões éticas quanto por questões científico-metodológicas, propõe que todas as línguas do mundo sejam equivalentes com relação à sua complexidade. Desse modo, a relação entre a estrutura de uma língua e a estrutura da sociedade que usa essa língua devem ser vistas como coisas separadas, diferentemente da concepção anterior.

O capítulo final entre Estruturalismo e complexidade linguística talvez se dê com o linguista descritivista norte-americano Charles Hockett (1916-2000). Em 1958, Hockett discorre explicitamente sobre a questão de complexidade linguística, reafirmando noções inspiradas na antropologia de que todas as línguas naturais seriam equivalentes com relação à sua complexidade, e suas diferenças estruturais seriam explicadas através de uma espécie de “lei das compensações”. Por exemplo, se tomarmos o inglês e a maior parte das línguas românicas com relação à morfologia verbal, a pouca complexidade do inglês nesse aspecto, se comparado às línguas românicas, seria compensada com complexidade em outras “áreas” dessa língua:

Uma medida seria difícil, mas o impressionante é que parece que a

complexidade gramatical de qualquer língua, tanto a morfologia quanto a

sintaxe, é aproximadamente a mesma. Isso não é surpreendente, uma vez

que todas as línguas têm trabalhos igualmente complexos a fazer, e o que

não é feito morfologicamente, tem que ser feito sintaticamente. O Fox, por

exemplo, com uma morfologia mais complexa do que o inglês, deve ter uma

sintaxe uma pouco mais simples. E este é o caso (HOCKETT, 1958, p. 180-

181). 2

 

Apresentados os argumentos estruturalistas, da primeira metade do século XX, na seção seguinte procuraremos mostrar de que forma as discussões sobre complexidade linguística foram tratadas no programa gerativista.

Pós-estruturalismo – segunda metade

do século xx

 

Na segunda metade do século XX, com o advento e a predominância da Gramática Gerativa Transformacional como paradigma nos estudos linguísticos, o ponto de vista e os objetos da linguística passam a ter um teor biológico mais do que social, e a tarefa final da Linguística passou a ser a de encontrar “princípios” comuns em todas as línguas. Assim, o que se vê é uma equiparação das línguas do mundo, levando em conta e valorizando tudo aquilo que elas possuem em comum, i.e., os universais linguísticos. Num tal paradigma, não há espaço para uma discussão profunda e profícua sobre os diferentes graus de complexidade que as línguas do mundo supostamente apresentariam, dado que elas são estudadas e entendidas por meio de suas características

universais; qualquer coisa de diferente é um problema menor3.

Embora se suponha que tratar de complexidade seja equivalente a observar a estrutura formal da língua (seu aparato gramatical), foi no âmbito da Sociolinguística que o problema da diferença de complexidade entre as línguas do mundo ressurgiu nos moldes científicos de hoje. Segundo Newmeyer e Preston (2014), foi Peter Trudgill, em 1983, com sua obra On Dialect: Social and Geographical Perspectives, quem, pela primeira vez, levantou a hipótese de que pode haver diferentes graus de complexidade entre as línguas do mundo, e que essa diferença pode explicar fenômenos linguístico-sociais. Precisamente num estudo de caso que o autor fez junto aos dialetos gregos nas regiões de Ática e Biotia, em que falantes albaneses majoritariamente usavam o grego moderno como língua de contato, Trudgill constatou aí reduções vocabulares, bem como simplificações no sistema morfofonêmico e redução de traços redundantes no sistema morfossintático. Logo, Trudgill relacionou simplificação à redução, percebendo que, ainda que esses dialetos viessem ganhando um sistema de casos bastante simples, isso não justificaria uma “compensação” linguística, tal como previram os estruturalistas (NEWMEYER; PRESTON 2014).

Nessa nova perspectiva, que é depois seguida por vários outros linguistas, a complexidade gramatical já é vista de modo desvinculado de complexidade social ou mesmo capacidade cognitiva dos falantes, como era o caso nos séculos XVIII e XIX. Trata-se, pura e simplesmente, de opções formais do sistema linguístico, que nada revelariam, em princípio, sobre a sociedade ou sobre a cognição humana, salvo o fato de que todas as línguas humanas são extremamente complexas e que todos os humanos têm capacidade para lidar com essa complexidade.

De fato, atualmente, as questões sobre complexidade linguística têm sido tratadas por vários autores, que têm como foco diferentes níveis de análise linguística. No entendimento de McWhorter (2005), por exemplo, somente as línguas emergentes, relativamente mais jovens, teriam um grau de complexidade qualitativa e quantitativamente inferiores às outras línguas naturais. Tal intuição é encontrada, ainda que com outras roupagens, nos trabalhos de diversos autores que lidam com pidgins como sistemas de comunicação, e não como línguas naturais plenamente desenvolvidas. A proposta de McWhorter, que se dá no âmbito da crioulística, é uma das mais articuladas ao definir complexidade gramatical e utilizá-la em uma “heurística positiva”.

 

Desafios para os estudos sobre

complexidade linguística

 

Conforme observamos nas últimas seções, as discussões sobre complexidade linguística ora foram relegadas a deduções imprecisas, sem maiores descrições linguísticas, como no caso do século XIX, ora foram limitadas a discursos que poderiam levar a eventuais leituras preconceituosas ou mesmo racistas, caso da primeira metade do século XX. De uma forma ou de outra, a imprecisão na observação dos fatos linguísticos levou a resultados muitas vezes equivocados, que misturam questões sobre raça, preconceito, poder etc. com questões linguístico-descritivas. Há quem diga que a base do moderno preconceito linguístico teria surgido justamente das discussões mal formuladas e nas justificativas advindas do pensamento dos séculos XIX e XX, conforme acredita Kilarski (2014). Isso se confirma em partes, porque, de um modo ou de outro, a estrutura das línguas nunca tinha sido observada com o propósito de medir complexidade. Com as boas intenções advindas da antropologia do início do século XX, ao associar a língua de uma dada sociedade a sua cultura, adotou-se na linguística um truísmo (i.e., as línguas têm todas a mesma complexidade) repetido ao longo das décadas, em nome de uma ética, que, sabemos hoje, apesar de sua boa intenção (evitar o preconceito e o desmerecimento linguístico com base na estrutura da língua), não faz tanto sentido, ou seja, só podemos de fato afirmar que todas as línguas são igualmente complexas se conseguirmos analisar as línguas e ter algum tipo de métrica de complexidade linguística – e ainda não temos isso.

Se, no século XIX, “[…] as fontes da hipótese foram espalhadas pelo espectro intelectual, abrangendo a noção de que a linguagem encarna uma cosmovisão nacional e serve como uma ‘chave mágica’ para a cultura, que pode ser atribuída a Johann Gottfried Herder (1744 -1803) e Wilhelm von Humboldt (1767-1835) […]”

(KILARSKI, 2014, p. 163)4, os atuais estudos sobre a complexidade linguística, ao contrário, não estão centrados no binômio língua-mundo, mas nas estruturas linguísticas, no uso ou no falante. Mesmo com um olhar crítico, podemos notar que outrora as especulações filosóficas foram um tanto infelizes ao associar rápida e deliberadamente a língua à cultura de seus falantes.

Por mais atraente que seja a noção de equidade de complexidade entre as línguas, corroboradas pelas ideias de Charles Darwin (1809-1882) em sua Origem das Espécies (1859) e, mais recentemente, atestadas pelo mapeamento do DNA humano, que dá conta de que todos os seres humanos são muito iguais e, portanto, teriam as mesmas capacidades, a diferença de complexidade entre as línguas não estaria atrelada propriamente a fatores biológicos, ou não somente a eles. E é por essa razão que devemos estudar a diferença de complexidade entre as línguas.

Tanto McWhorter (2005) quanto Dahl (2004) afirmam claramente que qualquer língua natural, pelo que se evidencia, tem todo o maquinário necessário para desenvolver o mais complexo dos sistemas para ser expresso em seus mais diversos níveis, seja fonológico, semântico, expressivo etc. Todo esse entendimento, no entanto, não era evidente nos séculos anteriores:

A dissociação explícita da complexidade linguística da complexidade cultural

removeu um obstáculo à ideia de que todos os seres humanos eram

inerentemente iguais. Uma vez que a dissociação foi aceita, seria inútil

buscar a justificação da desigualdade humana com base na suposta

desigualdade linguística, removendo assim um obstáculo à conclusão de que

as línguas não podem nem devem ser classificadas em termos de sua

complexidade (JOSEPH; NEWMEYER, 2012, p. 351) 5.

 

Depois desse breve percurso histórico, na seção seguinte procuraremos conceituar o que é complexidade linguística segundo os parâmetros postos nas duas últimas décadas. Atualmente, a complexidade linguística é considerada como uma propriedade inerente às línguas e não como critério de valoração entre elas – o que é uma grande mudança conceitual com relação ao que havia até então. Devidamente separada de julgamentos, preconceitos e de uma relação equivocada com a cultura e a sociedade, a complexidade linguística, como veremos, é por si um tema de pesquisa importante, que tem vários desdobramentos em diversas áreas da linguística.

 

A complexidade linguística e suas

definições de hoje

 

Apesar de ser uma noção quase intuitiva que todas as línguas naturais são, em algum sentido, complexas, não há consenso, tanto na linguística quanto na filosofia, do que seja “complexidade linguística”.

Edmonds (1999) argumenta, por exemplo, que o tipo de complexidade linguística é diferente da complexidade de outros fenômenos naturais, primeiramente porque possui em sua estrutura interna uma provável disposição biológica inata, como já apontado por Chomsky (1965), mas também porque a língua possui uma dada relação externa, ou seja, sua complexidade (ou ausência dela) depende em larga medida de fatores sociais, visto que a função comunicativa da língua é primordial e uma de suas características inerentes, e também, possivelmente, o que lhe garante, em parte, a noção de complexidade. Além disso, o mesmo Edmonds (1999) lembra que o tipo de complexidade linguística é estrutural e biologicamente aleatório, e cultural e socialmente regrado. Isso quer dizer que as prováveis mudanças que levaram à complexidade linguística se deram inicialmente na estrutura de forma aleatória, mas sua disseminação se deu de modo regrado em âmbito social.

Nos próximos parágrafos desta seção, apresentaremos algumas opiniões diferentes do que vem a ser “complexidade linguística”, tendo como foco as ideias de Kusters (2003), Dahl (2004), Culicover

(2013) e Newmeyer e Preston (2014) 6.

Para Dahl (2004), uma boa definição de complexidade se aproxima de noção de custo, que, por sua vez, se refere ao esforço dispensado para a execução de uma dada tarefa. Por exemplo, uma língua que possui marcação redundante de plural no SN, teria mais “custo” do que uma língua que não possui tal redundância para executar uma tarefa semelhante. Por outro lado, Dahl também está preocupado com o nível de “informatividade” transmitido pelas línguas. Nesse sentido, para ele, complexidade diz respeito à relação entre os processos gastos pela língua para realizar suas tarefas gramaticais e o que isso gera de custo de processamento para que as informações sejam transmitidas por essa língua. Dessa forma, o contrário de “custo” – a “economia” – pode significar ineficiência comunicacional na língua. Ilustrativamente, se usarmos o mesmo exemplo, poderíamos dizer que a marca redundante de marcação de plural no SN, como faz o português padrão, garantiria mais clareza de informação a toda cadeia sentencial, apesar de ser

menos econômica do que uma marcação não redundante7.

O autor deixa claro, ainda, que complexidade não deve ser vista como sinônimo de dificuldade, mas como uma espécie de “medida de quantidade de informação”:

As línguas humanas são sistemas complexos não porque precisam

expressar pensamentos complexos. A complexidade que estou interessando

aqui, no entanto, não tem preocupações com o que se pode dizer com uma

língua – o poder expressivo da língua – como costumo dizer. Complexidade

é vista aqui não como sinônimo de “dificuldade”, mas como uma propriedade

objetiva do sistema – uma medida de quantidade de informação necessária

para descrevê-lo ou reconstruí-lo (DAHL, 2004, p. 12) 8.

Para Kusters (2003), complexidade diz respeito à maneira como determinados falantes julgam dadas línguas, e, segundo esse autor, uma boa forma de medir complexidade é a aquisição (ou aprendizado), sobretudo de segunda língua, com foco nas estruturas linguísticas. Desse modo, as estruturas mais complexas de uma língua residem justamente nas áreas da gramática em que são observadas as maiores dificuldades dos falantes aloglotas.

Para Culicover (2013) e para Newmeyer e Preston (2014), por sua vez, complexidade diz respeito ao número de regras pelas quais a gramática de uma dada língua pode ser descrita. Um pouco diferente da visão de Dahl ou de Kusters, essa abordagem parece tender para uma linguística mais formalista, ou seja, Culicover e Newmeyer e Preston não relacionam complexidade à língua em uso (ou seu aprendizado) ou à transmissão de informação ou conteúdo linguístico.

Independente da definição de complexidade linguística a ser empregada, é ponto pacífico entre todos os estudiosos que não há uma relação entre uma menor complexidade linguística e baixa capacidade cognitiva ou cultural de seus falantes.

Por outro lado, sabe-se também que não foram constatadas línguas surgidas de processos naturais que possuíssem um nível muito elementar de complexidade, ou seja, uma língua de complexidade zero. Há um consenso, ainda que não atestado empiricamente, de que a cognição humana responsável pelo processamento da língua possui um “maquinário” suficiente para dar conta de toda e qualquer língua natural, independentemente de quão complexo seja qualquer um dos seus sistemas. Dito de outra forma, mesmo que atestado que uma dada língua é, em termos absolutos, menos complexa que outra – sem ainda termos total clareza do que isso significa –, o processamento cognitivo de seus falantes é tão eficiente quanto o de outro falante que se utiliza de uma língua eventualmente mais complexa, em termos relativos ou absolutos.

Passemos, na sequência, a investigar melhor a ideia de tipos diferentes de complexidade linguística, com o objetivo de chegar a uma definição mais razoável dessa noção, ou, pelo menos, entendermos as dificuldades envolvidas nessa tarefa. Investigaremos também, posteriormente, a ideia de maturação da complexidade linguística, que relaciona de maneira diretamente proporcional a idade de uma língua à sua complexidade.

 

Complexidade absoluta e

complexidade relativa

 

Para lidar com a difícil tarefa de definir complexidade linguística, vários autores (cf., Dahl 2004, Kusters 2008, Miestamo 2008 e Culicover 2013) propõem distinguir entre complexidade absoluta e complexidade relativa. De modo geral, tais conceitos são entendidos da seguinte maneira: a complexidade absoluta seria definida como uma propriedade objetiva do sistema linguístico (seja ele qual for), e a complexidade relativa seria vista como uma espécie de “custo”, ou mesmo dificuldade vista pelos falantes de uma dada língua para “operá-la”.

Tanto para Kusters (2008) quanto para Miestamo (2008), complexidade absoluta diz respeito ao modo de ver ou mesmo de medir a complexidade de uma língua em todo seu sistema. Assim, para medir ou enxergar a complexidade de uma língua, deve-se observar seu sistema por inteiro, e o que definiria sua complexidade então seria a quantidade de subsistemas atrelada a esse sistema “geral” que, de maneira abstrata, descreve a língua. Desse modo, seria mais complexa uma língua que apresenta maior grau de complexidade nos seus subsistemas. Para os mesmos autores, complexidade relativa seria dada pela medida de cada um desses subsistemas em separado (obviamente definindo, então, quais e quantos são eles), para daí se obter alguma resposta pertinente a respeito da complexidade de uma dada língua.

Uma solução possível para este problema é medir apenas a complexidade relativa, que seria, num certo sentido, mais acessível, pois corresponderia em parte aos conhecidos níveis de análise linguística. De fato, para vários autores, medir a complexidade absoluta de uma língua seria uma tarefa impossível de fato. Além disso, pragmaticamente, dado o nível de descrição disponível hoje sobre diversas línguas pelo mundo, a análise dos mais diferentes

níveis das línguas é mais produtiva 9.

 

Maturação de complexidade

linguística e a idade das línguas

 

Para além das definições de complexidade absoluta e relativa, para Dahl (2004), o que torna uma língua complexa é seu tempo de “maturação”. Nesse sentido, Dahl se alinha a McWhorter (2005), para quem línguas jovens (pidgins e crioulos, por exemplo) não têm

o mesmo nível de ornamento 10 e, portanto, de complexidade, do que línguas mais antigas. Nesse sentido, nas línguas “velhas” haveria uma espécie de “manutenção” de aparatos complexos, como redundâncias. A redundância marcada em alguns sistemas linguísticos, por exemplo, ao passo que torna dada língua computacionalmente menos eficiente a faz também mais complexa perante línguas que não possuem tal traço em alguns de seus sistemas. Por outro lado, segundo Dahl (2004), mesmo a redundância, vista sob a perspectiva da Teoria de Comunicação, é um traço necessário para garantir “informatividade”. Nesse sentido, a complexidade parece ser não somente um aspecto inerente, mas necessário às línguas.

Em suma, o que parece tornar uma língua mais complexa é seu tempo de “vida”. Segundo Dahl (2004), a língua só ganha seus ornamentos (que a tornam mais complexa) com o tempo. Tais ornamentos podem ser vistos tanto no nível discursivo (retórico), como no nível gramatical; mais especificamente, são nuances que podem ser vistas como traços linguísticos sem utilidade comunicativa aparente: seja a marcação redundante de plural, sejam pronomes neutros, partículas expressivas de realce ou mesmo marcações de caso que podem se tornar “fósseis”, ou “expressões cristalizadas”, mais do que, de fato, recursos da língua propriamente. Esse autor, na verdade, propõe noções significativas para que se possa enxergar o fenômeno da complexidade, tais como “manutenção de redundâncias” e “ornamentação retórica”, características que a princípio parecem ser apenas secundárias da língua, mas que com o tempo vão se tornando indispensáveis para seu bom funcionamento. Junto a isso, as línguas parecem possuir sua própria organização, ou seja, uma língua tende para uma dada ordem interna, para que lhe seja garantida informatividade. Por exemplo, uma língua SVO tende a possuir “preposição”, enquanto línguas SOV, “posposição”, assim, embora exerçam funções análogas, a ordem interna em que se organizam essas línguas, pode apresentar diferentes estratégias comunicativas. Na medida em que as ordens vão se assentando a novos paradigmas (a perda de redundância nos SN plurais, a perda de paradigmas verbais, por exemplo), a informatividade linguística precisa ser garantida por, possivelmente, novos e talvez mais complexos ornamentos linguísticos. Por exemplo, se eventualmente uma língua perde marcação morfológica de tempo no verbo, ela precisa se reorganizar para marcar essa propriedade por outros meios, possivelmente por adjuntos verbais, para que a informação que tal língua tem que vincular, seja garantida. Talvez por essa razão muitos desses traços ornamentais não sejam vistos em pidgins e mesmo em crioulos, como atesta McWhorter (2005).

Ainda é importante que se diga que noção de complexidade não é antônima de simplicidade, mas, como já observamos, complexidade é um traço inerente à língua, portanto, noções como “simplicidade”, “quantidade”, “qualidade” não são pertinentes para tais estudos. Para Dahl (2004), por exemplo, complexidade significa “custo”. Dessa forma, para eficiência comunicacional, “custo” não significa vantagem, conforme já vimos. Já para Deutscher (2009, 2010), há, durante anos, acúmulo de significado no léxico, o que pode diminuir o vocabulário de uma língua e, ao mesmo tempo, sobrecarregar semanticamente suas unidades lexicais. Talvez um grande exemplo de simplificação aparente seja a perda de paradigma verbal em línguas como o inglês. Dizemos simplificação aparente porque o sistema pronominal do inglês tornou-se mais claro com a perda de paradigma verbal e a língua definitivamente não perdeu sua força expressiva ao se tornar, ao menos em seu sistema verbal, mais simplificada (i.e., com menos distinções morfológicas). O mesmo podemos notar com relação à perda de caso versus posição sintática mais rígida na passagem do latim para as línguas românicas.

A relevância da idade de uma língua para seu grau de complexidade depende da transmissão linguística regular dessa língua, pois com essa transmissão a passagem dos ornamentos de uma geração a outra é garantida, bem como seu acúmulo. Assim, pidgins e crioulos são língua jovens e resultam de transmissão linguística interrompida (grande massa de adultos aloglotas aprendem uma ou mais línguas), fazendo com que a complexidade linguística das línguas de base se perca e que não haja ainda tempo suficiente para que pidgins e crioulos, sendo línguas jovens, desenvolvam seus próprios ornamentos à época de uma dada

análise 11.

Como afirmamos anteriormente, as definições mais contemporâneas de complexidade linguística têm a forma de sua época: são livres de preconceitos raciais, “paixões idealistas” e políticas explicitamente colonizadoras. Não obstante, ainda falta consenso sobre a melhor forma de entender esse fenômeno, e talvez uma maneira de chegar a esse consenso, esclarecendo ao mesmo tempo a natureza da complexidade linguística, seja buscar maneiras de medi-la – se tivermos métricas precisas e objetivas de complexidade linguística, tal conceito certamente seria mais claro e poderíamos debatê-lo nos termos dessas métricas. Passemos, então, na próxima seção, a apresentar algumas das estratégias já propostas de medir a complexidade linguística.

Propostas para medir complexidade

linguística

 

Circunscrita a complexidade, via sua história e principais conceitualizações atuais, é necessário dar o próximo passo e procurar critérios empíricos para continuar o debate sobre esse tema, e a estratégia mais interessante para tanto parece ser propor medidas de complexidade linguística. Embora a questão tenha sido levantada primeiramente por sociolinguistas e tipologistas, não são somente eles que se ocupam desse debate, e parece haver, entre as propostas de medidas de complexidade, três pontos de vista principais, que culminam em mediar complexidade linguística (i) pelo viés do uso da língua, (ii) pelo viés do falante ou (iii) pelo viés da estrutura da língua. Ainda que se use como critério de medida mais de um desses traços, um deles sempre receberá mais destaque em uma dada proposta. Por esse motivo, fazemos nossa apresentação a respeito das propostas hoje vigentes sobre as métricas de complexidade linguística baseados nessa distinção.

 

Pelo viés da estrutura

 

Para Culicover (2013), a observação atenta à gramática das línguas dará a resposta adequada sobre a complexidade linguística e sua medida. Para esse linguista, a tensão entre Competência e Desempenho pressupõe duas forças que o autor acredita estarem agindo na gramática: (i) a pressão para reduzir a complexidade formal (morfológica) da gramática, e (ii) a pressão para evitar a complexidade na aplicação da gramática para expressões linguísticas reais (complexidade de processamento). Para que isso aconteça, segundo o autor, é necessário responder a duas questões: o que é gramática e como medir a complexidade de uma gramática. A dificuldade reside no fato de que nenhuma das duas respostas é conclusiva, em grande parte porque há uma série de propostas em voga sobre o que constitui uma gramática e sobre o que constitui a complexidade (tanto a complexidade formal quanto a de processamento), que são, via de regra, incompatíveis entre si. Desse modo, um primeiro caminho para medir complexidade seria determinar o que é a complexidade formal numa gramática e, posteriormente, a complexidade de processamento dessa mesma gramática.

Assim como para Culicover (2013), para Nichols (2009), a complexidade deve ser medida através da gramática das línguas. Por conta disso, ela estabelece alguns postulados que devem ser considerados: (i) o número de subsistemas de uma gramática, por exemplo, o número de fonemas consonantais, tons, gêneros, casos, tempos, alinhamentos, vozes, ordens de palavras, estratégias de relativização, meios derivativos para formar verbos denominais, maneiras de formar cláusulas de tempo subordinadas, estratégias de complementação com verbos de cognição, bem como o número de processos derivativos que se aplicam em domínios semânticos particulares; (ii) o número de variantes paradigmáticas ou graus de liberdade de cada um desses elementos ou conjunto de elementos do sistema: alofones, alomorfes, classes de declinação ou conjugação; (iii) fenômenos sintagmáticos: dependências sintagmáticas entre elementos, como concordância, seleção de alomorfes não adjacentes, morfemas não adjacentes ou seleção de categorias e valências; e (iv) restrições dos elementos, aloformas e dependências sintagmáticas, incluindo restrições em sua combinação.

Para Nichols (2009), a questão da aquisição não deve ser levada em consideração para se medir complexidade. Além disso, a linguista frisa que: “[…] para as línguas, o que provavelmente é relevante não é apenas o número de elementos, etc., mas a quantidade de informação necessária para descrevê-los […]” (NICHOLS, 2009, p. 111, apud SAMPSON; GIL; TRUDGILL, 2009,

p. 110-125) 12”. Dessa forma, Nichols toma como relevantes os seguintes traços das línguas para sua métrica: estrutura silábica e sistemas tonais na fonologia; número de diferentes categorias flexionais marcadas ou não, marcas de plural e marcas de dual na morfologia; classificação de números ou numerais; diferentes estratégias de concordância entre argumento e predicado e argumentos pronominais na sintaxe, entre outros traços. Através desses parâmetros, a autora consegue computar dados que podem mostrar de que forma diferentes línguas ou diferentes variedades de línguas têm diferentes níveis de complexidade. É interessante observar que os resultados alcançados por esse método, organizados em gráficos pela autora, são muito próximos, ainda que a sintaxe tenha sido o subsistema que apresentou menor variação.

Newmeyer e Preston (2014) apresentam propostas de medir complexidade na gramática de maneira um pouco diferente dos estudos propostos no âmbito da Gramática Gerativa. Segundo esses autores, se assumirmos que as línguas são biologicamente determinadas, teremos que assumir que são todas igualmente complexas ou que são igualmente simples, o que implicaria dizer que não há nenhuma diferença substancial entre elas no que tange à complexidade. Nesse sentido, todos os esforços sobre complexidade estariam fadados ao fracasso. A proposta para medir complexidade a partir de um modelo gerativo só é possível quando se assume que os princípios, apresentados na Teoria dos Princípios e Parâmetros, podem se manifestar de maneira mais ou menos complexa nas línguas. A própria noção de Universais Linguísticos, aliás, tem sido também revisada pelos estudos sobre complexidade linguística.

Ao estudar três diferentes variedades do quechua em sua tese de doutoramento, Kusters (2003) observou aspectos sobre a natureza verbal dessas variantes: um dos sistemas (o mais antigo) com o paradigma verbal pleno e duas das variantes com o paradigma verbal mais simplificado. Entre essas variantes, está o quechua usado como língua franca, que tem o paradigma verbal ainda mais simplificado. Diante desses fatos, Kusters conclui que há três critérios conjugados que poderiam determinar diferentes graus de complexidade das variantes dessa língua: 1) Critério de Economia, ou seja, o número de categorias expressas pelo verbo (quanto menos paradigma um verbo apresentar, mais econômico ele é); 2) Critério de Transparência: ao expressar, por exemplo, a noção de pessoa num morfema, o verbo é mais transparente do que aquele que não faz isso; e 3) Critério de Isomorfia: diz respeito à cristalização de certas palavras e expressões que a língua possui.

McWhorter (2005, 2007) apresenta pelo menos dois trabalhos importantes sobre crioulos, pidgins e línguas de contato que envolvem estudos sobre complexidade linguística. McWhorter tem mostrado convincentemente como os estudos sobre complexidade linguística podem ser aplicados de maneira bastante produtiva aos estudos sobre línguas de contatos e línguas novas. Dessa forma, suas propostas para medir complexidade entre as línguas têm obtido êxito e notoriedade, e a razão para tanto é que seus apontamentos nesse sentido vêm mostrando não apenas que línguas jovens e línguas de contato são mais simples (ou relativamente menos complexas), mas também de que forma as línguas antigas provavelmente ganharam complexidade e até mesmo como elas se constituíram.

Seus critérios pautam-se em: (i) superespecificação (a marcação aberta e obrigatória das distinções semânticas); (ii) elaboração estrutural (o número de regras (em morfologia, fonologia, sintaxe etc.) ou o tamanho dos inventários (categorias funcionais, fonemas etc.); (iii) irregularidade.

Assim, tais parâmetros não servem apenas para “medir” a complexidade em línguas emergentes, mas também a complexidade de toda e qualquer língua. Embora tenha causado furor nas pesquisas sobre crioulos, o método de McWhorter tem sido largamente comentado e mesmo utilizado há cerca de dez anos, obviamente não sem críticas. De todo modo, McWhorter (2005) tem o mérito de tentar explicar a emergência de línguas jovens em termos estritamente linguísticos e sincrônicos, e seu modelo foi um dos primeiros e até agora uma das principais contribuições para os estudos da complexidade linguística.

 

Pelo viés do uso

 

Dahl apresenta uma proposta bastante debatida e criticada, tanto para medir complexidade quanto para a aplicação das noções advindas desses estudos. Como vimos, ele aposta na idade da língua e em sua consequente maturação para explicar certos aspectos da complexidade. Dahl (2004) procura apontar indícios de que à medida que as línguas envelhecem e são regular e ininterruptamente transmitidas de geração a geração, elas adquirem certos ornamentos que, ao olhar menos acurado, podem parecer meros caprichos obsoletos produzidos pelo tempo. No entanto, é justamente a partir desses ornamentos que Dahl aponta saídas para medir os níveis de complexidade entre os sistemas de diferentes línguas. Por sua vez, línguas mais jovens não teriam tais (ou tantos) ornamentos.

Talvez um dos problemas constatados pelo modelo oferecido por Dahl seja a questão da expressividade. Para o autor, um desses ornamentos, a redundância das marcações de plural em línguas românicas, por exemplo, não seria um mero detalhe adquirido pelo capricho histórico das línguas, mas sim um traço que ajudaria a fortalecer o potencial semiótico, expressivo ou mesmo comunicativo da língua. Nesse sentido, afirmar que línguas que apresentam esse traço são mais expressivas do que línguas que não o apresentam seria uma afirmação talvez perigosa. Não se observa perda de expressividade, justamente, em línguas românicas que vêm perdendo marcas redundantes de plural nos seus sintagmas nominais, caso já muito bem sabido do francês, por exemplo. Por outro lado, línguas que não apresentam tais ornamentos possuiriam menos complexidade nesses sistemas, mas também diminuiriam seus “custos” de processamento computacional. Dito de outra forma: os ornamentos tornam as línguas mais complexas, mas lhe geram mais “custos” no processamento computacional. Em muitos casos, afirma Dahl, tais ornamentos garantem a veiculação da informatividade entre os falantes desta língua – a redundância oferece mais garantia de que uma determinada informação seja veiculada, porém exige, ao mesmo tempo, mais processamento, e as línguas encontrariam sempre um equilíbrio entre a redundância e a economia.

Vulanović propõe uma medida de complexidade que também leva em conta a relação entre estrutura linguística e a informação por ela transmitida. Segundo o autor, sua “fórmula permite uma comparação da complexidade das estruturas em relação à informação linguística por elas transmitidas” (VULANOVIĆ, 2007, p. 1). Desse modo, pode-se vislumbrar tanto a estrutura gramatical das línguas estudadas, bem como seus traços semânticos e mesmo pragmáticos, para os quais estão previstas as devidas variáveis no seu modelo.

 

Pelo viés da aquisição

 

A questão da aquisição da linguagem, sobretudo a aquisição de segunda língua, revela muito do que há de complexidade entre as línguas, tanto que, para vários autores, o papel da aquisição de L2 é um parâmetro importante para medir complexidade. Já em 1997, Rod Ellis (apud KUSTERS, 2003) nota que falantes de L2 tendem a “importar” as dificuldades de línguas estrangeiras a aspectos de sua própria língua, como tempos verbais, marcações pessoais nos pronomes, etc. Esses “erros” cometidos por estrangeiros ao tentar se comunicar em uma L2 são dados importantes que podem ser usados para medir o nível de complexidade entre as diferentes línguas. O que esses estrangeiros fazem, de fato, é tentar “traduzir” as dificuldades apresentadas em suas próprias línguas ante as dificuldades encontradas na L2. Dessa forma, para os estudos da complexidade, um “falante ideal” de L2 que almeja apenas uma boa comunicação numa língua estrangeira seria um bom avaliador de complexidade entre duas ou mais línguas. Além disso, sabemos que as transmissões linguísticas – tanto na aquisição de L2, como mesmo na aquisição de L1 – são fatores importantes para mudanças linguísticas e, em consequência disso, para a complexidade, seja em ganho ou perda.

Aliás, nos estudos de aquisição, desde pelo menos os anos 90, há parâmetros e ferramentas para se medir complexidade. Nieminem (2009), por exemplo, propõe uma métrica de complexidade justamente se valendo de duas ferramentas advindas dos estudos de aquisição de língua. São elas o MLU, Comprimento Médio do Enunciado (sigla inglesa de Mean Length of Utterance) e IPSyn, Índice de Produtividade Sintática (sigla inglesa de Index of Productive Syntaxis).

A premissa básica da MLU é muito simples: o número de morfemas produtivos produzidos em 100 enunciados inteligíveis consecutivos é calculado e dividido pelo número de enunciados para determinar o número médio de morfemas por enunciado (NIEMINEM, 2009, p. 176). Nesse sentido, segundo a autora, aumentando o número de morfemas, aumenta-se também a quantidade de informação semântica do enunciado. De qualquer forma, o MLU só descreveria a semântica, e, por esse motivo, tal ferramenta deve ser usada associada à IPSyn, que é justamente a ferramenta para descrição sintática dos enunciados das línguas naturais. Aplicados os testes a falantes tanto de L1 quanto de L2, a autora argumenta que os testes revelam que crianças aprendem tardiamente estruturas mais complexas. No entanto, testes para medir o tempo que cada criança demora para adquirir tais e tais estruturas complexas de cada língua ainda não foram sistematicamente realizados. Além disso, devemos ter em mente que falantes de L2 podem ser agentes de simplificação das línguas, bem como crianças em período de aquisição podem ser fatores de complexificação das línguas.

Segundo Szmrecsanyi e Kortmann (2009), o trabalho comparativo mais recente sobre a complexidade da linguagem assume uma perspectiva funcional-tipológica, ou sociolinguística, da linguística de contato, e adota metodologias empíricas. Ainda, segundo esses autores, as perguntas mais relevantes hoje em dia para o campo da complexidade linguística são: de onde vem a complexidade linguística? Como os falantes a adquirem? O que a complexidade linguística pode nos dizer sobre a natureza do conhecimento linguístico? Os autores defendem que boa parte da medida de complexidade linguística se deve também a fatores sociais, principalmente quando levamos em conta a aquisição de L2. Para comprovar sua hipótese, os autores desenvolveram experimentos que mostram que, de fato, aprendizes de L2 tendem a simplificar a língua alvo, regularizando formas e eliminando outras. Essa dinâmica, contudo, é balanceada pelas motivações dos aprendizes de L2 e também por fatores sociais mais amplos que podem levar a uma maior ou menor simplificação do sistema linguístico sendo aprendido.

Considerações finais

 

Como vimos neste capítulo, a noção de complexidade linguística acompanha os estudos linguísticos há muito tempo, e sua contraparte mais intuitiva, a ideia de que há línguas mais fácies e mais difíceis do que outras, deve ser uma ideia tão antiga quanto a própria reflexão metalinguística pré-teórica. Vimos que a complexidade linguística pode ser usada para embasar preconceitos e ideais preestabelecidas que, via de regra, se revelaram equivocados e foram usados por ideologias de dominação. Talvez como uma maneira de reparar esse papel nefasto que a reflexão linguística pode ter, os estudos linguísticos posteriores fiaram-se no truísmo de que todas as línguas são igualmente complexas.

Se é fato que tudo pode ser dito em qualquer língua e que, nesse sentido, como diria Jakobson, as línguas se diferem não no que permitem dizer (porque todas permitem dizer tudo) mas sim no que obrigam seus falantes a dizer, também é fato que a defesa de que todas as línguas são igualmente complexas com base em argumentos científicos e evidências verificáveis ainda está para ser feito. Um primeiro passo nesse sentido é certamente nos livrarmos dos preconceitos históricos que sempre estiveram associados a essa ideia e investigá-la de modo objetivo. Esse é o saldo positivo das pesquisas feitas no final do século passado e começo deste século – vemos crescer rapidamente uma discussão rica, que vem das mais diversas áreas dos estudos linguísticos, na direção de uma definição razoável e explícita de complexidade gramatical.

O próximo passo, segundo argumentamos, é o estabelecimento de uma métrica de complexidade gramatical, que, como já mencionamos, também pode vir de diversas áreas de investigação e mesmo combinar insights de algumas delas. Com uma métrica estabelecida, teremos condições que permitem afirmar, segundo os critérios de cientificidade do nosso tempo, se, de fato, todas as línguas têm ou não a mesma complexidade linguística, sem atrelar preconceitos injustificáveis a essa reflexão. Seja como for, o caminho que nos levará a alguma conclusão é, por si só, um ganho inestimável aos estudos linguísticos.

Referências

 

CHOMSKY, Noam. Aspects of the Theory of Syntax. Cambridge, Mass.: M.I.T. Press, 1965.

CULICOVER, Peter W. (org.). Grammar & Complexity – Language at Intersection of Competence and Performance. New York: Oxford, 2013.

DAHL, Östen. The growth and maintenance of linguistic complexity. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins, 2004.

DARWIN, Charles. A origem das espécies. São Paulo: Hemus, 1979 [1859].

DEUTSCHER, Guy. “Overall complexity”: a wild goose chase? In: SAMPSON et al. (ed.). Language Complexity as an Evolving Variable. Oxford: Oxford University Press, 2009. p. 243-251.

DEUTSCHER, Guy. Through the Language Glass. New York: Metropolitan Book, 2010.

EDMONDS, Bruce. Syntactic Measures of Complexity. Doctoral Thesis, University of Manchester. Manchester, UK, 1999.

ELLIS, Rod The study of second language acquisition. London: Oxford University Press, 1997.

HOCKET, Charles. A Course in Modern Linguistics. Oxford: IBH Publishing & Co, 1958.

JOSEPH, John; NEWMEYER, Frederick. All Language are Equally Complex’ The Rise and Fall of a Consensus. Historiographia Linguistica, Washington, XXXIX: 2/3, p. 341-368, 2012.

KILARSKI, Marcin. Complexity in the history of language study. Poznań Studies in Contemporary Linguistics. Poznań, Poland, v. 50, n. 2, p. 157-168, 2014.

KUSTERS, Christiaan W. Complexity in linguistic theory, language learning and language change. In: MIESTAMO, Matti; SINNEMÄKI, Kaius; KARLSSON, Fred (org.). Language Complexity: Typology, contact, change. Amsterdan: John Benjamins, 2008. p. 3-22.

KUSTERS, Christiaan W. Linguistic Complexity: The Influence of Social Change on Verbal Inflection. PhD Thesis. Leiden: LOT, 2003.

McWHORTER, John. Defining Creoles. New York: Oxford, 2005.

McWHORTER, John. Language Interrupted. New York: Oxford, 2007.

MIESTAMO, Matti; SINNEMÄKI, Kaius; KARLSSON, Fred (orgs.). Language Complexity: Typology, contact, change. Amsterdan: John Benjamins, 2008.

NEWMEYER, Frederick; PRESTON, Laurel (orgs.). Measuring Grammatical Complexity. London: Oxford, 2014.

NICHOLS, Johanne. Linguistic complexity: a comprehensive definition and survey. In: SAMPSON et al. (ed.). Language Complexity as an Evolving Variable. Oxford: Oxford University Press, 2009. p. 110-125.

NIEMINEN, Lea. MLU and IPSyn measuring absolute complexity. Eesti rakenduslingvistika ühingu aastaraamat. Estonian Papers in Applied Linguistics, 5, p. 173-185, 2009.

ROBINS, Robert H. Pequena História da Linguística. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1979.

SAMPSON, Geoffrey; GIL, David; TRUDGILL, Peter (orgs.). Language Complexity as an Evolving Variable. New York: Oxford, 2009.

SZMRECSANYI, Benedikt; KORTMANN, Bernd. Between simplification and complexification: non-standard varieties of English around the world. In: SAMPSON, Geoffrey; GIL, David; TRUDGILL, Peter (org.). Language Complexity as an Evolving Variable. New York: Oxford, 2009. p. 64-79.

VULANOVIĆ, Relja. On Measuring Language Complexity as Relative to the Conveyed Linguistic Information. SKY Journal of Linguistics, 20, p. 399-427, 2007.