Felizmente, o Leite

Neil Gaiman · Capítulo 1 de 10

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Felizmente, o Leite

Parte 1

SUMÁRIO

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Créditos

O Autor

O Ilustrador

Só tinha suco de laranja na geladeira. E mais nada que desse para botar no cereal. A não ser que você ache que ketchup ou maionese ou molho de picles fiquem gostosos no seu cereal, o que eu não acho, e a minha irmãzinha também

não, apesar de ela já ter comido umas coisas muito estranhas, tipo cogumelo com

chocolate.[*]

 

– Nada de leite – disse minha irmã.

– É – concordei, olhando atrás do pote de geleia, na geladeira, para ter

certeza. – Nadica de leite.

 

A nossa mãe tinha ido a uma conferência. Estava apresentando um trabalho que escreveu sobre lagartos. Antes de sair, ela nos lembrou das coisas importantes que precisavam acontecer durante a sua ausência.

Meu pai estava lendo o jornal. Acho que ele não presta lá muita atenção ao resto do mundo enquanto lê o jornal.

– Você me escutou? – perguntou minha mãe, que é muito desconfiada. – O que foi que eu falei?

 

* Ela nã o chegou a gosta r de com er essa s coisa s estra nha s. E eu

nã o cheguei a conta r a ela que tinha cogum elos dentro do chocola te. Era um a experiência .

– Pra não me esquecer de levar as crianças no ensaio da orquestra no sábado;

na quarta à noite tem ensaio de violino; você etiquetou e congelou um jantar para cada noite; a chave reserva da casa está com os Nicolsons; o encanador vem na

segunda-feira de manhã e não é pra gente usar o banheiro do andar de cima antes disso; alimentar o peixinho dourado; você ama a gente e vai voltar na quinta –

respondeu o meu pai.

Acho que a minha mãe ficou surpresa.

– É, isso mesmo – admitiu e nos beijou em seguida. E aí ela avisou: – Ah, está quase acabando o leite. Você tem que comprar mais.

Depois que ela foi embora, meu pai tomou uma xícara de chá. Ainda tinha um

pouquinho de leite.

Descongelamos o jantar Número Um, mas acabamos estragando a comida,

então fomos a um restaurante indiano. Antes de irmos dormir, o papai ainda nos fez chocolate quente para compensar aquela

SaudadE da Mamãe.

Foi então que o papai chegou à cozinha.

– Comam o cereal – disse ele. – Lembrem-se, tem ensaio de orquestra esta tarde.

– A gente não pode comer cereal – respondeu minha irmã, chateada.

– Não sei por quê – contestou meu pai. – A gente tem um monte de cereal.

Temos cereal e granola. Temos tigelas. Temos colheres. Colheres são ótimas. Iguais a garfos, só que sem espetar.

– Não tem leite – comentei.

– Não tem leite – repetiu minha irmã.

Observei meu pai enquanto ele pensava no assunto. Estava quase sugerindo que a gente comesse algo que não precisasse de leite, tipo salsichas. Mas depois

pareceu se lembrar de que, sem leite, ele não poderia tomar chá. E fez a cara de “sem chá” dele.

– Coitadinhos – disse ele. – Vou dar um pulo no mercado da esquina. Vou comprar leite.

– Obrigada – disse minha irmã.

– Não traz o desnatado – pedi. – Aquele troço tem gosto de água.

– Pode deixar – concordou meu pai. – Nada de desnatado.

Ele saiu.

Botei um pouco de cereal na tigela. Fiquei olhando pra ela.

– Quanto tempo já passou? – indagou minha irmã.

– Mil horas – respondi.

– É, também acho – concordou ela.

A gente tomou suco de laranja. Minha irmã praticou violino. Sugeri que ela parasse de tocar violino. Ela parou.

Minha irmã fez caretas pra mim.

 

– E agora, quanto tempo já passou? – indagou.

– Um milhão de horas – falei.

– E o que vai acontecer se ele não voltar? – perguntou ela.

– Acho que a gente come os picles.

– Não se pode comer picles no café da manhã – argumentou minha irmã. – E

eu não gosto de picles em hora nenhuma. E se algo horrível tiver acontecido com ele? Mamãe vai botar a culpa na gente.

– Acho que ele deve ter encontrado algum amigo no mercadinho – eu disse. – Aí ficaram conversando, e ele perdeu a noção do tempo.

Comi um pouco do cereal seco, como experiência. Era mais ou menos legal, mas não tão bom quanto com leite.

Escutamos um tump e um bam na porta da frente, e meu pai entrou.

– Por onde você andou esse tempo todo? – perguntou minha irmã.

– Ah! – respondeu meu pai. – Hum... então... engraçado você perguntar isso.

– Esbarrou com alguém que você conhecia – arrisquei. – E perdeu a noção do tempo.

– Eu comprei o leite – disse meu pai. – E, realmente, dei um oi para o senhor Ronson, o vizinho da frente, que estava comprando jornal. Saí do mercadinho e

ouvi uma coisa estranha que parecia vir de cima. Era um barulho assim: tumm-

tumm. Olhei para cima e vi um disco prateado enorme flutuando sobre a rua

Marshall. Uau, disse a mim mesmo, não se vê um negócio assim todo dia. E então uma coisa esquisita aconteceu.

– Isso já não foi esquisito? – perguntei.

– Bem, ainda mais esquisito – respondeu meu pai. – Esquisito foi o facho de luz que desceu do disco, um facho de luz cintilante e reluzente, visível mesmo à luz do

dia. E aí, quando dei por mim, fui sugado para dentro do disco. F elizmente, eu tinha guardado o leite no bolso do casaco. O chão do disco era de metal. Era grande, do

tamanho de um campo de futebol ou MAIOR.