Felizmente, o Leite

Neil Gaiman · Capítulo 7 de 10

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Felizmente, o Leite

Parte 7

– O h-oh – falei então.

– Preparem-se para serem afogados, seus cães sarnentos – gritaram os piratas.

– Deixem a gente sacrificar os dois para o grande Esplod! – rugiram os homens

com cabelos negros brilhantes.

– Eles roubaram meu olho! Duas vezes! – grunhiu o poderoso Esplod.

– Nós queremos esses wilões e wermes wiolentamente feridos! – proclamou uma wumpira alta com longas unhas.

As piranhas não disseram nada, mas se remexeram no aquário, com cara de malvadas.

– Estamos perdidos – resmungou o cientista Esteg. – Não podemos escapar.

Eles nos congelaram no tempo e tiraram nosso poder. Nem mesmo minha poderosa Máquina do Tempo pode fazer mais do que abrir uma janelinha no tempo

e espaço, menor do que uma abertura que nos permitisse passar.

– Mas você consegue fazer isso? – perguntei. – Abrir uma janela no tempo para

nossa última localização?

– É claro, mas para quê?

– Rápido! – exclamei. – Abra!

O cientista Esteg apertou o botão na caixa com a ponta do focinho.

Houve um zum! e um plip! e uma janela se abriu no tempo e no espaço, grande o suficiente para um braço passar.

Eu enfiei a mão nela.

– Explico mais tarde. Destino do mundo em perigo. – Agarrei o leite de mim

mesmo, quinze minutos mais cedo, pelo pequeno portal espaço-temporal.

– Você deve gostar mesmo de leite – comentaram os aliens gosmentos. – Mas

essa sede por líquidos lácticos não provocará pena na gente nem nos fará soltar vocês e poupar seu planeta cafona.

– Pois deveria – retruquei. – O que eu estou segurando na minha mão esquerda?

– O leite – responderam eles.

– E o que estou segurando na minha mão direita?

Eles fizeram uma pausa. Então um alien, tão verde e tão pequeno, tão gosmento e tão cheio de crostas que mais parecia uma enorme bolha de meleca

assoada por um elefante muito gripado, disse:

– ... o mesmo leite de quinze minutos mais cedo.

– Exatamente – confirmei. – Agora, pensem com muito cuidado. O que

aconteceria se eu encostasse essas duas garrafas de leite uma na outra?

Os aliens gosmentos ficaram de um verde muito pálido. Os piratas, homens de

cabelos negros brilhantes e piranhas olharam para eles, confusos, procurando alguma explicação, assim como os wumpiros.

– Se duas coisas que são a mesma coisa se tocarem – proclamou o deus vulcão –, então o universo inteiro vai acabar. Assim diz o grande e indizível Esplod.

– Como um vulcão sabe tanto sobre metaciência transtemporal? – indagou um

dos aliens verde-pálido.

– Ser uma formação geológica dá muito tempo para pensar – explicou Esplod.

– Além disso, eu assino uma variedade de publicações científicas.

Tossi de uma forma que eu esperava ser tenebrosa.

– Então... – eu disse.

– O que ele falou – admitiram os aliens verdes gosmentos. – A parte sobre o fim

do universo.

– Então – insisti. – A não ser que vocês queiram passar o restante das suas vidas num universo que não existe mais, é melhor deixarem tudo do jeito que

estava e irem embora.

Os aliens se entreolharam e sorriram uns para os outros.

Um deles pressionou o grundledorfer.

Wumpiros, piratas, piranhas, deus vulcão e adoradores do deus vulcão se foram.

– E se – sugeriu um dos aliens verdes gosmentos, esperançoso – nós só redecorássemos o hemisfério sul?

– Sem chance! – respondi. – Agora soltem a gente, ou o leite toca o leite! E, depois, vocês podem ir embora. Abandonem este planeta para sempre.

Os aliens olharam para mim, depois se entreolharam, e então suspiraram, e o barulho foi como o de cem bolhas de meleca elefantinas murchando ao mesmo

tempo.

– Tudo bem – concordaram eles.

Foi nesse momento que uma voz mais alta do que qualquer coisa que eu jamais ouvi – e olha que eu ouvi um vulcão entrar em erupção bem de pertinho –

exclamou:

– POLÍCIA GALÁCTICA.

NINGUÉM SE MEXE!

Minhas mãos tremeram, mas o leite não tocou o leite, e o universo não acabou.

Havia luzes vermelhas e azuis piscando e, em seguida, uns doze dinossauros uniformizados saltaram de suas bicicletas espaciais, segurando armas

indubitavelmente grandes e sérias. Armas que eles apontaram para os aliens verdes gosmentos.

– Vocês foram acusados de invadir os planetas dos outros e redecorá-los –

anunciou um nobre e imponente tiranossauro rex. – E depois fugir e fazer a mesma coisa em algum outro lugar, e de novo e de novo. Vocês cometeram crimes contra

os habitantes de dezoito planetas, e crimes contra o bom gosto.

– O que nós fizemos em Rigel Quatro foi arte! – retrucou um alien gosmento.

– Arte? Tem gente em Rigel Quatro – afirmou um anquilossauro. – Gente que tem que olhar para cima, todas as noites, e ver uma lua com três enormes patos de

gesso voando.

Uma coisa muito longa com uma cabeça na ponta veio até nós. Estava

conectada a um enorme corpo do outro lado da sala.

– Quem é você? – perguntou a coisa ao cientista Esteg. – E por que o seu

gorila está segurando um recipiente de leite transtemporalmente deslocado?

– Eu não sou um gorila – falei. – Sou um pai humano.

– Este humano está segurando o leite para obrigar essas bolhas de meleca

decoradoras malvadas a irem embora e pararem de ameaçar a gente e o planeta – explicou o cientista Esteg.

O diplódoco com chapéu de polícia abriu a boca, mas não disse nada.

O tiranossauro – que tinha algemado todas as pessoas verdes gosmentas juntas,

com algo que parecia mais um barbante cor-de-rosa do que algemas de verdade, o que era uma boa coisa, pois as criaturas provavelmente não tinham mãos e

definitivamente não tinham pulsos – olhou para nós e arregalou os olhos.

– Que dia incrível esta manhã! – exclamou ele. – Um bípede. Um estegossauro.

Um Transportador-Pessoal-Redondo-Flutuante... – E ele parou, como se não conseguisse continuar.

Um pteranodonte voou até nós e aterrissou aos pés de Esteg. Ele olhou para o

cientista e perguntou, hesitante:

– Você não seria...? Não poderia ser...? A inventora da Máquina-Pontuda-de-

Disparar-ao-E spaço-Sideral de Esteg? Ou da Máquina Superboa N essa C oisa de Tempo de Esteg? Você não é a autora de Minhas viagens ao futuro extremo e o que eu encontrei lá?

Cientista Esteg, a mais sábia de todos os dinossauros? MADAME , É ME SMO VOC Ê ?

– Eu mesma, e este é o meu assistente – respondeu a cientista.

Madame?, pensei, envergonhado.

O pteranodonte estendeu a ponta da asa para que eu apertasse e, sem pensar,

eu passei o segundo leite da minha mão direita para a esquerda...

Onde o primeiro leite estava.

TODO MUN DO

F IC OU SE M AR.

Infelizmente, o leite que tinha estado na minha mão direita, que era o mesmo

leite que já estava na minha mão esquerda, o mesmo leite com quinze minutos de diferença, tocou o outro.

Eu prendi a respiração.

Houve um barulho de gás e uma miação, como se cem gatinhos estivessem

sendo agitados numa enorme cesta.

A cientista Esteg fechou os olhos.

– Não posso olhar.

Três anões roxos com vasos de plantas na cabeça apareceram de lugar

nenhum e começaram uma dancinha.

– O universo acabou? – indagou o tiranossauro, com os olhinhos bem

apertados.

– OL HE M! – E XC L AME I.

Todos nós observamos os anões dançando. Eles não eram humanos e não eram

dinossauros. Tinham pele roxa e, nos vasos de plantas em suas cabeças, crescia um monte de flores. Os três fizeram uma dança complicada, com muitos chutes e

gritos de “OI!” e “OLÉ!” e “PERTUNG!”. E, então, de forma tão estranha como

quando eles chegaram, eles desapareceram.

– Ah – comentou a cientista Esteg. – Sempre houve uma possibilidade de isso

acontecer. E, felizmente, o universo não acabou.

Ela apertou o botão de novo com a cauda. Uma janela se abriu no espaço e no tempo. Eu estava parado lá do outro lado com uma expressão confusa no rosto.

– Pega! – gritei e joguei o leite pelo buraco. Quando o portal se fechou, eu vi a mim mesmo pegando o leite com a minha barriga.

Depois que os aliens verdes gosmentos tinham sido arrebanhados e levados embora, todos os dinossauros se reuniram.

– Não posso acreditar – comentou o diplódoco. – A cientista Esteg. Que nem nos quadrinhos. A dinossaura que nos ensinou que, no futuro distante, pequenos

mamíferos comerão cereal matinal com leite. A inventora do botão. Ela está aqui, bem na nossa frente, com o gorila dela.

– Não é um gorila, é um pai humano – corrigiu a cientista Esteg, e todos os

dinossauros se espantaram e disseram coisas do tipo: “Como ela é sábia!” e “Mas que cérebro!” e “Como é que você pode diferenciar aquele bicho de um gorila?

Seriam os sapatos?”

– Este pai humano foi meu companheiro na minha estranha jornada ao futuro –

continuou a cientista Esteg. – Agora, antes que eu me despeça dele e vá com vocês, Dinossauros Espaciais, precisamos cantar para ele uma das mais fantásticas

e velhas canções de dinossauro.

Cantaram uma música com uma harmonia em seis partes chamada: “C omo você se

sente esta manhã quando sabe o que fez noite passada?” Em seguida, eles cantaram uma canção chamada: “N ão vá aos poços de piche, querida, porque eu estou coladinho na tua.” Os

dinossauros da Polícia Espacial cantaram uma música sobre fazer parte da Polícia Espacial, salvar pessoas de todo o universo e pilotar bicicletas espaciais super-

rápidas. E então todos juntos cantaram uma canção chamada: “E u tenho uma porção de cascudos-cabeludos-de-polpa-branca”, que era uma música dinossauriana muito

antiga, aparentemente composta pela tia Botão.

Não há nada tão belo em nenhum universo quanto dinossauros cantando em

harmonia.

– Agora – anunciou a cientista Esteg. – Vou embora no meu Transportador-

Pessoal-Redondo-Flutuante, com meus novos amigos da Polícia Espacial de Dinossauros, e vou explorar o universo, e então voltarei ao meu próprio tempo e

escreverei um livro sobre isso.

– Na verdade você escreverá vários livros – contou o diplódoco. – O guia de

E steg sobre tudo no futuro inteiro era o meu favorito. Muito inspirador.

Eu me despedi de todos os dinossauros. Agradeci à cientista Esteg por ter

salvado minha vida.

– Não há de quê – respondeu ela. – Nós dois tivemos sorte porque você tinha o

leite. Não é qualquer garrafa de leite que salva o mundo, afinal.

– Fui eu que salvei o mundo – argumentei. – Não o leite.

Os dinossauros espaciais todos tiraram fotos segurando o leite e sorrindo para a câmera.

– O que você vai fazer com o leite? – perguntaram eles. – Vai colocar num

museu?

– Não, não vou, não – respondi. – Vou dar o leite para meus filhos tomarem o

cereal matinal deles. E provavelmente vou botar um pouco no meu chá.

A cientista Esteg saltou de novo escada de corda acima e subiu na gôndola do

balão. Na última vez que eu a vi, que eu vi qualquer um deles, o interior de todo o disco voador estava desaparecendo numa luz tão forte que eu tive que fechar

meus olhos e me virar para outro lado.

E então eu estava parado diante da porta dos fundos da nossa casa, em perfeito

estado. Felizmente, os dinossauros me devolveram o leite depois de tirarem as fotos com ele.

Finalmente, eu entrei.

E aqui estou.

Olhei para a minha irmã, e ela olhou para mim.

Então nós dois olhamos em volta pela cozinha. Olhamos para o calendário na parede com fotos de balões. Para os meus dinossauros de brinquedo e os pôneis da

minha irmã, para o livro de vampiro dela, para o desenho de um vulcão que eu fiz quando era pequeno, ano passado, e que ainda está pregado na parede ao lado da

geladeira.

Olhamos para todas essas coisas e olhamos para o meu pai.

– Sabe, a gente não acredita em nada disso – anunciou minha irmã.

– Não acreditamos – acrescentei. – Em nada disso.

– Especialmente a parte em que você salva o mundo de ser redecorado. Ou dos piratas.

– Em. Nenhuma. Parte – frisei.

Meu pai encolheu os ombros.

– Vocês que sabem – respondeu ele. – Mas foi tudo verdade. E eu posso provar.

– Como?

– É, como? – perguntou minha irmãzinha.

– Bem – começou o meu pai, colocando o leite na mesa da cozinha. – Aqui está o L E ITE.