Felizmente, o Leite

Neil Gaiman · Capítulo 3 de 10

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Felizmente, o Leite

Parte 3

Eu estava na beirada da prancha, encarando a morte certa, quando uma escada de corda bateu no meu ombro e uma voz grave e trovejante gritou:

Não precisei de nenhum encorajamento além desse e agarrei a escada de

corda com as mãos. F elizmente, o leite estava enfiado bem no fundo do bolso do meu casaco. Os piratas me lançaram insultos e até deram tiros com as pistolas, mas nem os

insultos nem os tiros atingiram os alvos, e logo eu alcancei o topo da escada de corda.

Nunca tinha andado na cesta de um balão de ar quente. Era bem pacífico lá em

cima.

A pessoa na cesta do balão falou:

– Espero que não tenha se incomodado com a minha ajuda, mas parecia que você estava em apuros lá embaixo.

– Você é um estegossauro! – observei.

– Eu sou cientista – declarou ele. – Eu inventei esta coisa em que estamos

viajando, que eu chamo de ‘Transportador Pessoal Redondo Flutuante de Esteg’.

– Eu chamo de balão – comentei.

– Transportador Pessoal Redondo Flutuante de Esteg é o nome original – insistiu ele. – E neste momento estamos cento e cinquenta milhões de anos no

futuro.

– Na verdade – retruquei –, estamos mais ou menos trezentos anos no passado.

– Você gosta de cascudos-cabeludos-de-polpa-branca? – indagou ele.

– Cocos? – adivinhei.

– Eu os batizei primeiro – contestou Esteg, e em seguida pegou um coco numa cesta e comeu, com casca e tudo, justamente como eu ou vocês mastigaríamos

uma torrada.

 

O cientista me mostrou a Máquina do Tempo. Ele estava muito orgulhoso. Era

uma grande caixa de papelão com alguns pedregulhos e umas pedras coladas do lado. Também tinha um enorme botão vermelho. Eu olhei as pedras.

– Epa! – exclamei. – São diamantes. E safiras. E rubis.

– Na verdade – disse ele –, eu as chamo de pedras-especiais-brilhantes-transparentes, pedras-especiais-brilhantes-azulzinhas e, hum...

– Pedras-especiais-brilhantes-vermelhas? – sugeri.

– De fato – concordou ele. – Batizei-as disso quando estava inventando minha

Máquina Superboa Nessa Coisa de Tempo, há cento e cinquenta milhões de anos.

 

– Bem – comentei –, foi muita sorte minha que você tenha aparecido naquele momento e me resgatado. Estou um tanto perdido no tempo e no espaço neste

exato instante e preciso voltar para casa e garantir que meus filhos tenham leite para o café da manhã – eu disse, mostrando o leite a ele. – E is aqui o leite. Se bem

que há cento e cinquenta milhões de anos, eu imagino, você chamava isso de ‘coisa branca molhada de beber’.

– Dinossauros são répteis, senhor – disse Esteg. – Não apreciamos leite.

– Vocês gostam de cereal no café da manhã? – perguntei.

– É claro! – exclamou ele. – Dinossauros AMAM cereal. Especialmente do tipo com nozes e castanhas.

– O que vocês botam no cereal? – indaguei.

– Suco de laranja, quase sempre. Ou comemos o cereal puro mesmo. Mas vou registrar isto no meu livro: No futuro distante, pequenos mamíferos botam leite no

cereal. Escreverei um livro maravilhoso quando voltar ao presente.

– Na verdade – comentei –, acho que isto é definitivamente o passado. Há

piratas aqui.

– Isto é o futuro – insistiu ele. – Todos os dinossauros foram embora para as

estrelas, deixando o mundo para os mamíferos.

– Eu sempre quis saber aonde todos vocês foram – confessei.

– Às estrelas – revelou o cientista Esteg. – E é para lá que nós teremos ido.

– Então – continuei –, você pode me levar para casa?

– Bem – respondeu ele. – Sim e não.

– O que isso quer dizer?

– Sim, eu adoraria levar você para casa. Nada me faria mais feliz. Não, eu não posso levar você para casa. Honestamente, não acredito que eu possa me levar

para casa. Minha Máquina do Tempo está um tanto temperamental. Preciso de uma pedra-especial-brilhante-verdinha. Apertei aquele botão várias vezes, mas nada

aconteceu.

– Botão? Você não quer dizer ‘coisa-grande-e-vermelha-de-apertar’? –

perguntei.

– Certamente que não. É um botão. Dei esse nome em homenagem à minha tia Botão.

– Posso apertar?

– Se você quiser.

Eu apertei o botão. O sol disparou pelo céu, que começou a piscar entre noites e dias, e o balão começou a balançar, solavancar e esvoaçar de um lado para

outro como uma mosca furiosa.

Eu me agarrei às cordas com toda a minha força. F elizmente, eu ainda estava segurando muito bem o leite na minha mão direita.

Quando nós paramos de ser soprados por todo o céu, era noite e, de acordo

com o cientista Esteg, nós só tínhamos voltado mais ou menos uns mil anos. A lua estava quase cheia.

– Eu ainda estou longe dos meus filhos e do nosso café da manhã – apontei.

– Você tem o seu leite – afirmou ele. – Onde há leite, há esperança. Ah, bem

ali. Parece a perfeita plataforma de pouso para cientistas viajantes do tempo num Transportador-Pessoal-Redondo-Flutuante.

Aterrissamos na plataforma e saímos do balão. A plataforma se erguia da selva e tinha tochas flamejantes de cada lado. Havia pessoas nela, com cabelo bem

negro e facas de pedra bem afiadas.

– Isto é uma plataforma de pouso de balões? – perguntei às pessoas.

– Não é, não – respondeu um homem gordo. – É o nosso templo. Tivemos uma safra bem ruim no ano passado e tínhamos acabado de pedir aos deuses um

sacrifício, para garantir que a safra deste ano seja melhor. Aí você desceu flutuando naquela coisa, com seu monstro.

– Muito obrigado, por sinal – disse um homenzinho magro. – Eu seria o sacrifício se ninguém aparecesse. Agradecido mesmo.

– Então agora vamos sacrificar você e seu monstro.

– Mas os meus filhos estão esperando pelo café da manhã! – exclamei. – Olhem

só! – Ergui o leite.

– Por que eles todos se ajoelharam de repente? – perguntou Esteg. – É um

comportamento normal dos mamíferos pelados? Talvez eu devesse levantar um dos cascudos-cabeludos-de-polpa-branca e ver o que acontece.

– Coco! – falei. – O nome disso é coco!

– O que você está segurando? – perguntou o homem gordo.

– Leite – respondi.

– LEITE! – exclamaram eles, se prostrando no chão.

– Temos uma profecia – explicou o homem gordo. – Quando um homem e um monstro com costas espinhentas descerem dos céus numa coisa flutuante

redonda...

– Transportador-Pessoal-Redondo-Flutuante – corrigiu o homenzinho magro.

– Isso, um desses. A profecia diz que, quando isso acontecer, se o homem

erguer o leite, então não podemos sacrificá-los, mas teremos que levar os dois até o vulcão e lhes dar, como presente, a joia verde, que é o Olho de Esplod.

– Esplod?

– Ele é o deus das pessoas com nomes curtos e engraçados.

– Essa é uma profecia particularmente específica – comentei. – Quando vocês a receberam?

– Quarta-feira passada – contou o homem gordo, orgulhoso. – O sacerdote de Esplod foi acordado no meio da noite por uma voz sussurrando dos céus. E,

quando foi ver quem era, não havia ninguém. Além disso, ele estava dormindo no topo do templo, e ninguém mais poderia estar lá com ele. Então só pode ter sido o

próprio Esplod falando ou um de seus mensageiros angelicais.

Nós caminhamos juntos por uma trilha na selva. O cientista Esteg carregava na

boca uma corda longa presa ao balão, e assim ele arrastava o balão pelo caminho. Depois de meia hora, alcançamos o vulcão.

Não era um vulcão muito grande. Fiapos de fumaça subiam do topo.

Na lateral do vulcão havia um enorme rosto assustador esculpido com um olho

no meio da testa. O olho era a maior esmeralda que eu jamais vi.

– Uma pedra-especial-brilhante-verdinha! – exclamou Esteg, com a boca

cheia de corda.

O homem gordo subiu pela lateral do vulcão.

– Ainda bem que o próprio Esplod falou pra gente dar a vocês o Olho de Esplod – comentou o homenzinho magro que escapara por pouco de ser sacrificado. –

Porque há outra profecia que diz que, se o Olho de Esplod for removido, o Grande Esplod acordará e espalhará destruição flamejante por toda a terra.

– Aqui está – disse o homem gordo.

Ele nos entregou a esmeralda. Esteg subiu agilmente pela escada de corda até

a gôndola do balão e começou a instalar a pedra na Máquina do Tempo.

– Peraí. Ele não era um estegossauro?

– Sim.

– Então como ele subiu tão agilmente por uma escada de corda?

– Ele era – explicou meu pai – um grande estegossauro, mas era muito atlético. Tem pessoas gordinhas que dançam

muito bem.

– Tem algum pônei nessa história? – perguntou minha irmã. – Achei que eles já teriam aparecido a esta

altura.