Felizmente, o Leite
Parte 4
– E u estava parado no solo, segurando a escada de corda, quando o chão tremeu e
o vulcão minúsculo começou a cuspir fumaça e lava.
– Esplod está bravo! – gritou o homenzinho magro. – Ele quer o olho de volta.
Uma ventania súbita fez o balão me puxar para cima, bem alto, acima da lava borbulhante.
Infelizmente, deixei o leite cair. Não estava segurando forte o bastante. Caiu no topo da cabeça de Esplod.
O cientista Esteg puxou a escada de corda para cima com o rabo.
– E U PE RDI O L E ITE ! – contei a ele.
– Isso não é bom – admitiu ele.
– Mas eu sei onde está. No alto da cabeça de Esplod, na lateral do vulcão.
– Por Esplod! – exclamou o cientista. – O que raios é aquilo?
Diante dos nossos olhos surgiu outro balão, exatamente igual ao nosso, sobre o
vulcão. Um homem desceu a escada de corda apressado. Ele colocou uma imensa esmeralda no olho de Esplod, pegou o leite da cabeça de Esplod, correu escada
acima, e o balão desapareceu.
O vulcão minúsculo teve sua erupção interrompida subitamente, como se
tivesse sido desligado.
– Isso foi um tanto peculiar, não foi? – comentou o cientista.
– De fato – concordei, dominado pelo desalento, pela desesperança e pelo desespero. – Aquele homem no balão roubou meu leite. Estamos perdidos no
passado, com selvas, piratas e vulcões. Agora nunca mais vou voltar para casa. Meus filhos nunca vão tomar o café da manhã. Estamos condenados a flutuar para
sempre pelo ar poeirento do passado num balão de ar quente.
– Não é um balão – corrigiu Esteg. – É um Transportador-Pessoal-Redondo-
Flutuante. Quanta bobagem você fala. Agora, eu acho que isso deve resolver tudo.
O cientista terminou de instalar a esmeralda na caixa, usando muito barbante e
um pouco de fita adesiva, e apertou o botão vermelho.
– Aonde vamos? – perguntei. Parecia que o sol estava zunindo pelo céu, como
se as noites seguissem os dias num tremeluzir estroboscópico.
– Ao futuro muito, muito distante! – afirmou Esteg.
A máquina parou.
Estávamos flutuando no ar sobre uma planície gramada, com uma montanha
cinzenta muito pequena abaixo.
– Aí está – disse Esteg. – Agora é um vulcão extinto. MAS VE JA SÓ!
Na lateral do vulcão extinto estava esculpido o rosto de Esplod, ainda
reconhecível, mesmo que muito erodido pelo tempo e o clima, e no olho único havia uma enorme esmeralda verde, uma gêmea perfeita daquela que tínhamos
instalado na Máquina do Tempo.
– Certo – disse o cientista. – Pegue aquela pedra-especial-brilhante-verdinha.
Desci pela escada de corda e tirei a esmeralda da órbita ocular.
Abaixo de mim, na planície, vários pôneis coloridos tinham se reunido e,
quando peguei a esmeralda, um deles gritou para mim:
– Você deve ser o homem sem leite. Ouvimos falar de você nas nossas lendas.
– Por que você é um pônei rosa com uma estrela azul-bebê no flanco? – perguntei.
– Pois é – respondeu o pônei, com um suspiro. – É o que todo mundo está usando hoje em dia. Estrelas azul-bebê são tão coisa do ano passado.
Esteg se inclinou sobre a beira da cesta do balão.
– Ande logo! – gritou ele. – O vulcão vai entrar em erupção a qualquer
momento!
O vulcão fez um barulho como um enorme arroto, e o meio dele desabou em si
mesmo.
– A gente achava que ele fosse fazer isso – afirmou um pônei verde com uma
crina cintilante.
– Havia uma profecia, imagino – comentei.
– Não. Só que nós somos muito inteligentes. – Todos os pôneis concordaram
com a cabeça. Eram pôneis muito inteligentes.
– Fiquei tão feliz com esses pôneis – declarou minha irmã.