Felizmente, o Leite

Neil Gaiman · Capítulo 5 de 10

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Felizmente, o Leite

Parte 5

Voltei à cesta do balão. O cientista Esteg tirou a primeira esmeralda da Máquina do Tempo e a substituiu com aquela que eu tinha acabado de tirar do rosto desgastado de Esplod-do-Futuro.

– Sob nenhuma circunstância, não importa o que você faça – começou o cientista –, deixe que essas duas pedras se toquem.

– Por que não?

– Porque, de acordo com os meus cálculos, se o mesmo objeto de dois tempos diferentes se tocar, uma de duas coisas acontecerá. O universo vai cessar de

existir. Ou três anões espantosos dançarão pelas ruas com vasos de plantas na cabeça.

– Isso soa incrivelmente específico – comentei.

– Eu sei. Mas é ciência. E é muito mais provável que o universo acabe.

– Imaginei que fosse.

– Você parece tão triste – apontou Esteg.

– E estou! É por causa do leite. Meus filhos estão sem café da manhã...

– O leite! – exclamou o cientista Esteg. – É claro! – E, com isso, ele apertou o

botão vermelho com a cauda blindada.

Houve um ZUUUM, um TUORP e um THANG enquanto disparávamos pelo

vazio cósmico.

E então ficou escuro.

Muito escuro.

– Epa – disse Esteg. – Passei um pouco do ponto. Só uma semana, porém. Peraí...

Esteg se inclinou sobre a beirada da cesta.

– Com licença – disse ele. – Tem alguém por aí?

– Só eu – respondeu uma voz que soava muito surpresa, abaixo de nós. – O sacerdote de Esplod. Quem está aí no céu? É um pássaro? Você não tem voz de

pássaro.

– Não sou um pássaro – explicou o cientista Esteg. – Sou uma maravilhosa,

porém misteriosa voz profética, transmitindo a você uma poderosa profecia. Tão poderosa que... hum... Muito poderosa mesmo. Escute. Quando um enorme e

garboso indivíduo de costas espinhentas...

– Monstro – corrigi. – A profecia disse enorme monstro.

– Acompanhado de um ser humano mirrado de aparência revoltante... – continuou Esteg.

– Isso foi desnecessário.

– ... Aterrissarem num Transportador Pessoal Redondo Flutuante, vocês não devem sacrificá-los. Em vez disso, levem a dupla ao vulcão e lhes entreguem o

Olho de Esplod. E será assim que vocês os conhecerão: o humano levantará o leite.

– Essa é a profecia? – perguntou a voz.

– É.

– Tem alguma coisa sobre safras nela?

– Temo que não.

– Ah, paciência. Obrigado de qualquer maneira, vozes misteriosas e proféticas do ar.

Eu apertei o botão vermelho.

Luz do dia. Estávamos no meio de uma erupção vulcânica bem familiar.

– Rápido! – exclamei. – Me dê a esmeralda!

 

Um pouco mais adiante, eu vi um balão sendo soprado pelo ar, e chamas e

cinzas rodopiavam ao vento. Eu vi a mim mesmo no balão, parado ao lado de Esteg, boquiaberto. Eu parecia muito infeliz.

O cientista Esteg – o ME U cientista Esteg – me deu a esmeralda.

Desci rapidamente pela escada de corda e coloquei a esmeralda de volta no

olho. Então, enquanto a erupção do vulcão morria, eu olhei em volta, procurando o leite. Sabia que tinha aterrissado na lateral da cabeça de Esplod.

F elizmente, o leite tinha caído num montinho de cinza vulcânica e estava ileso. Eu o peguei, limpei e voltei a subir a escada de corda. Esteg apertou o botão.

O céu ficou escuro.

E stávamos F L UTUAN DO sobre uma paisagem de torres sombrias e castelos

inquietantes. N ão era um lugar amistoso. Morcegos voavam pelo céu em enormes grupos,

ocultando a lua minguante.

– N ão gosto deste lugar – falei para o cientista.

– N ão vejo por quê – respondeu ele. – Parece que será muito bonito quando o sol nascer.

Houve um FLUT! alto e, onde os morcegos tinham voejado, várias pessoas pálidas

agora estavam paradas. O homem na frente tinha uma cabeça muito careca.

TODOS E L E S TIN HAM

DENTES AF IADOS.

– Nós somos wumpiros – anunciaram eles. – O que é isto? Quem são wocês?

Respondam, ou wamos estripar wocês.

– Meu nome é Esteg, cientista Esteg – ribombou o estegossauro. – Este é o meu

assistente. Estamos numa missão importante. Eu estou tentando voltar ao presente. Meu assistente está tentando voltar para casa, no futuro, para o café da manhã.

Ao ouvir as palavras CAFÉ DA MANHÃ, todos os wumpiros ficaram muito animados.

– Não tomamos nosso café da manhã – explicaram. – Normalmente comemos

wermes apetitosos, misturados com suco de laranja. Aí os wermes ficam ainda mais apetitosos. Que nem espaguete molhadinho. Mas, se não tiwermos wermes,

podemos comer assistente, ou mesmo cientista assado.

Um dos wumpiros pegou um garfo e me olhou de cima a baixo de um jeito meio

faminto.

O mais careca, mais esbugalhado e mais cara-de-rato deles perguntou:

– O que é essa caixa?

– É a minha invenção mais incrível – anunciou o cientista Esteg com orgulho,

mas eu o interrompi.

– É para guardar sanduíches – expliquei.

– Sanduíches? – repetiu o wumpiro.

– Sanduíches – assegurei, com toda a certeza que pude.

 

– Achamos que fosse uma Máquina do Tempo – afirmou o wumpiro chefe, com

um sorriso afiado e maroto. – E nós poderíamos usá-la para inwadir o mundo!

– Definitivamente sanduíches – falei para ele.

– O que acontece se eu apertar esse botão, então? – indagou uma dama wumpira. Ela tinha longos cabelos negros que lhe cobriam quase todo o rosto e

espiava o mundo com um único olho desconfiado.

Ela apertou o botão. Avançamos seis horas no tempo.

– Viu? – comentou o cientista, alegre. – Tudo o que este lugar precisava para

ficar mais simpático era um pouco de luz do sol.

– O quê?! – exclamou o wumpiro chefe, que logo depois se dissolveu numa

nuvem de fumaça preta oleosa. Assim como todos os amigos dele.

– É verdade – concordei. – É uma bonita cidade, afinal. À luz do dia.

O cientista futucou as pedras preciosas e o barbante e os botões. Então anunciou:

– Acho que está perfeitamente ajustada agora. O próximo apertão deve nos levar de volta ao seu tempo, lugar e café da manhã.

Porém, antes que a ponta da cauda dele pudesse tocar o botão, uma voz disse:

– Explico mais tarde. Destino do mundo em perigo.

A mão agarrou, e o leite, que eu tinha carregado com segurança por tanto tempo, se foi. Eu me virei a tempo de ver um cavalheiro muito distinto de costas

para mim, segurando meu leite, e então o buraco no espaço pelo qual ele tinha pegado o leite se fechou.

– MEU LEITE!

– Ele disse que ia explicar mais tarde – defendeu o cientista. – Eu acreditaria nele.

O buraco no espaço se abriu de novo. Uma voz gritou:

– Pega!

E o leite veio que nem um foguete.

F elizmente, o leite bateu na minha barriga e, ao agarrar a barriga por causa da

dor, eu peguei o leite.

 

– Pronto – disse o cientista. – Tudo voltou ao normal.

– Ele disse mesmo que explicaria mais tarde – apontei. – Mas isso não foi lá uma grande explicação.

– Mas agora ainda não é mais tarde – explicou Esteg. – Ainda é agora. Não vai ser mais tarde até mais tarde.

Ele estava organizando pedrinhas e pedras e barbante no topo da Máquina do Tempo.

– Coordenadas finais registradas – anunciou ele. – E agora lá vamos nós à sua casa para o café da manhã.

– Isso quer dizer que tem um estegossauro num balão lá fora? – perguntei ao meu pai.

– Não tem não – respondeu ele. – Por motivos que logo ficarão claros.

– Acho que deveria ter alguns wumpiros bonitos lá fora – comentou minha irmã, sonhadora. – Wumpiros bonitões e incompreendidos.

– Não tem não – assegurou meu pai.