Felizmente, o Leite
Parte 6
– V ocê gostaria de apertar o botão? – perguntou o cientista Esteg.
Apertei o botão vermelho. Meu ouvido estalou com o barulho que se seguiu e o
piscar das eras, e eu me vi flutuando, numa gôndola de balão, sobre a intercessão da rua Marshall com a alameda Fletcher. Dava para ver nossa casa lá de cima. As
bicicletas no quintal. A cabaninha do coelho.
– Chegamos! – exclamei e dei tapinhas amistosos nas placas dorsais de Esteg.
– Foi muito bom ter você como companheiro de viag... Argh! – disse o cientista, porque soou aquele barulho familiar de tumm-tumm e, antes que eu tivesse a
chance de apertar o botão vermelho, fomos depositados, com balão e tudo, no enorme convés de metal de um disco voador, com vários seres verdes gosmentos
e muito ranzinzas nos encarando com olhos demais. Eles não pareciam felizes.
– RáRÁ! – exclamaram vários deles ao mesmo tempo. – Você achou que tinha
escapado da gente! E estava enganado! Agora, precisa nos ceder a posse do planeta, para que a gente possa reformá-lo. Vamos remover todas as árvores, para
começar, e colocar flamingos de plástico.
– Por quê?
– A gente curte flamingos de plástico. Consideramos que são a mais elevada e refinada forma de arte que a Terra alcançou. E são mais elegantes que as árvores.
– A gente também vai trocar as nuvens por velas perfumadas.
– Também curtimos velas perfumadas – explicou um enorme ser verde gosmento, que parecia feito basicamente de meleca.
– Também adoramos pratos decorativos! – anunciou outra. – Vamos colocar um prato decorativo no lugar da lua.
– Um prato decorativo GRAN DE pra valer, mostrando os monumentos do mundo.
– E depois vamos trocar todos os monumentos do mundo por pratos decorativos com fotos dos monumentos neles também, então a Torre Eiffel vai ser trocada por
um pratão com uma foto da Torre Eiffel nele. E a Austrália vai ser substituída por um prato ridiculamente gigante, ilustrado com a Austrália.
– E aí vamos trocar todas as suas montanhas por almofadas – afirmou o menor e mais gosmento de todos, com a vozinha glutinosa carregada de triunfo.
– Aprendemos muito com nosso encontro anterior – comentaram alguns
gosmentos colados numa parede. – Se você olhar ali, verá que a porta para o contínuo espaço-temporal que você usou para escapar da última vez está
seguramente trancada.
Estava definitivamente trancada. Havia um cadeado enorme nela e uma placa
dizendo
MANTENHA DISTÂNCIA
em letras vermelhas hostis. Também havia correntes em volta dela e uma fita que dizia
NÃO PASSE DAQUI
e uma placa escrita à mão que afirmava
Para Sua Conveniência,
Por Favor, Use Outra Porta.
A F UGA E RA IMPOS SÍVE L .
– Ah, a gente também desativou sua Máquina do Tempo.
Olhei para o cientista. As placas dorsais dele estavam caídas, e sua cauda estava... bem, não exatamente entre as pernas dele, porque estegossauros não são
feitos assim, mas, se fossem, ela estaria entre as pernas.
– Nós rastreamos seus movimentos pelo tempo e o espaço – explicou um
grande alien gosmento diante de um console com uma tela.
– Agora, veja o que acontece quando eu aperto este grundledorfer – anunciou
um alien particularmente gotejante. Ele estava meio pregado na parede, ao lado de um enorme e reluzente botão preto.
– O nome disso é botão – falei.
– Bobagem. Batizamos isso em homenagem à nossa tia de ninhada, Nessie
Grundledorfer – contaram os aliens gosmentos. O alien particularmente gotejante apertou o botão preto na parede de metal com algo que poderia ter sido um dedo,
ou poderia ter sido um longo filete de meleca.
Houve um CRAK.
Houve um ShsSSss.
À nossa volta, com atitudes de raiva e irritação, havia vários piratas, algumas das pessoas de cabelos pretos da selva, um deus vulcânico muito infeliz, um
aquário cheio de piranhas e alguns wumpiros.
– Não sei se entendo o que as piranhas estão fazendo – comentou minha irmã.
– Elas participaram de uma escapada difícil que aconteceu mais cedo, e eu me esqueci de mencionar – explicou nosso
pai. – Felizmente, o leite flutuou num momento crucial e tudo acabou bem.
– Como eu imaginava – respondi.