Felizmente, o Leite

Neil Gaiman · Capítulo 6 de 10

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Felizmente, o Leite

Parte 6

– V ocê gostaria de apertar o botão? – perguntou o cientista Esteg.

Apertei o botão vermelho. Meu ouvido estalou com o barulho que se seguiu e o

piscar das eras, e eu me vi flutuando, numa gôndola de balão, sobre a intercessão da rua Marshall com a alameda Fletcher. Dava para ver nossa casa lá de cima. As

bicicletas no quintal. A cabaninha do coelho.

– Chegamos! – exclamei e dei tapinhas amistosos nas placas dorsais de Esteg.

– Foi muito bom ter você como companheiro de viag... Argh! – disse o cientista, porque soou aquele barulho familiar de tumm-tumm e, antes que eu tivesse a

chance de apertar o botão vermelho, fomos depositados, com balão e tudo, no enorme convés de metal de um disco voador, com vários seres verdes gosmentos

e muito ranzinzas nos encarando com olhos demais. Eles não pareciam felizes.

– RáRÁ! – exclamaram vários deles ao mesmo tempo. – Você achou que tinha

escapado da gente! E estava enganado! Agora, precisa nos ceder a posse do planeta, para que a gente possa reformá-lo. Vamos remover todas as árvores, para

começar, e colocar flamingos de plástico.

– Por quê?

– A gente curte flamingos de plástico. Consideramos que são a mais elevada e refinada forma de arte que a Terra alcançou. E são mais elegantes que as árvores.

– A gente também vai trocar as nuvens por velas perfumadas.

– Também curtimos velas perfumadas – explicou um enorme ser verde gosmento, que parecia feito basicamente de meleca.

– Também adoramos pratos decorativos! – anunciou outra. – Vamos colocar um prato decorativo no lugar da lua.

– Um prato decorativo GRAN DE pra valer, mostrando os monumentos do mundo.

– E depois vamos trocar todos os monumentos do mundo por pratos decorativos com fotos dos monumentos neles também, então a Torre Eiffel vai ser trocada por

um pratão com uma foto da Torre Eiffel nele. E a Austrália vai ser substituída por um prato ridiculamente gigante, ilustrado com a Austrália.

– E aí vamos trocar todas as suas montanhas por almofadas – afirmou o menor e mais gosmento de todos, com a vozinha glutinosa carregada de triunfo.

– Aprendemos muito com nosso encontro anterior – comentaram alguns

gosmentos colados numa parede. – Se você olhar ali, verá que a porta para o contínuo espaço-temporal que você usou para escapar da última vez está

seguramente trancada.

Estava definitivamente trancada. Havia um cadeado enorme nela e uma placa

dizendo

MANTENHA DISTÂNCIA

em letras vermelhas hostis. Também havia correntes em volta dela e uma fita que dizia

NÃO PASSE DAQUI

e uma placa escrita à mão que afirmava

Para Sua Conveniência,

Por Favor, Use Outra Porta.

A F UGA E RA IMPOS SÍVE L .

– Ah, a gente também desativou sua Máquina do Tempo.

Olhei para o cientista. As placas dorsais dele estavam caídas, e sua cauda estava... bem, não exatamente entre as pernas dele, porque estegossauros não são

feitos assim, mas, se fossem, ela estaria entre as pernas.

– Nós rastreamos seus movimentos pelo tempo e o espaço – explicou um

grande alien gosmento diante de um console com uma tela.

– Agora, veja o que acontece quando eu aperto este grundledorfer – anunciou

um alien particularmente gotejante. Ele estava meio pregado na parede, ao lado de um enorme e reluzente botão preto.

– O nome disso é botão – falei.

– Bobagem. Batizamos isso em homenagem à nossa tia de ninhada, Nessie

Grundledorfer – contaram os aliens gosmentos. O alien particularmente gotejante apertou o botão preto na parede de metal com algo que poderia ter sido um dedo,

ou poderia ter sido um longo filete de meleca.

Houve um CRAK.

Houve um ShsSSss.

À nossa volta, com atitudes de raiva e irritação, havia vários piratas, algumas das pessoas de cabelos pretos da selva, um deus vulcânico muito infeliz, um

aquário cheio de piranhas e alguns wumpiros.

– Não sei se entendo o que as piranhas estão fazendo – comentou minha irmã.

– Elas participaram de uma escapada difícil que aconteceu mais cedo, e eu me esqueci de mencionar – explicou nosso

pai. – Felizmente, o leite flutuou num momento crucial e tudo acabou bem.

– Como eu imaginava – respondi.