Felizmente, o Leite
Parte 2
– V iemos de um mundo muito distante do seu planeta – disseram as pessoas no
disco.
Eu os chamo de pessoas, mas eles eram meio verdes, bastante gosmentos e
pareciam bem ranzinzas mesmo.
– Agora, como um representante da sua espécie, nós exigimos que você nos
conceda a propriedade do planeta inteiro. Vamos reformar tudo – disse um deles.
– Nem pense nisso – respondi.
– Então – disse ele –, vamos trazer todos os seus inimigos para cá e deixaremos
que eles aborreçam você até que concorde em nos entregar o planeta.
Eu ia comentar com eles que eu não tinha nenhum inimigo quando percebi
uma grande porta de metal com os dizeres:
SAÍDA DE EMERGÊNCIA
NÃO ABRA POR MOTIVO ALGUM
ESTAMOS FALANDO COM VOCÊ!
Abri a porta.
– Não faça isso! – exclamou uma pessoa verde e gosmenta. – Você vai deixar o contínuo espaço-temporal entrar.
Mas era tarde demais; eu já tinha aberto a porta.
E U PUL E I.
F elizmente, eu tinha segurado o leite bem firme, então, quando eu me esparramei no
mar, não perdi a garrafa.
– O que foi isso? – indagou uma voz de mulher. – Um peixão? Uma sereia? Ou
seria um espião?
Eu queria dizer que não era nenhuma dessas coisas, mas estava com a boca
cheia de água do mar. Senti quando me içaram para o convés de um pequeno navio. Havia alguns homens e uma mulher no convés, e todos pareciam muito
chateados.
– Quem é você, estranho? – perguntou a mulher, que trazia um chapelão na
cabeça e um papagaio no ombro.
– Ele é um espião! Uma morsa de casaco! Um novo tipo de sereia com pernas!
– exclamaram os homens.
– O que você faz aqui? – inquiriu a mulher.
– Bem – respondi –, eu fui à loja da esquina comprar leite para o café da manhã dos meus filhos e para o meu chá e, quando dei por mim...
– Ele está mentindo, Vossa Majestade!
Ela baixou o alfanje.
– Como você ousa mentir para a Rainha dos Piratas?
Felizmente, eu ainda segurava bem firme o leite, então apontei para ele.
– Se eu não fui à loja da esquina buscar o leite – perguntei a eles –, de onde
veio este leite?
Diante do meu argumento, os piratas ficaram totalmente sem palavras.
– Agora – continuei –, se vocês puderem me deixar em algum lugar próximo ao meu destino, eu ficaria muito agradecido.
– E onde ficaria isso? – perguntou a Rainha dos Piratas.
– Na esquina da rua Marshall com a alameda Fletcher – expliquei. – Meus filhos estão esperando pelo café da manhã.
– Você está num navio pirata agora, meu caro gabão – respondeu a Rainha dos Piratas. – E nós não deixamos ninguém em lugar nenhum. Existem apenas duas
escolhas: juntar-se à minha tripulação pirata ou, caso se recuse, nós cortaremos a sua garganta covarde, e você irá direto para o fundo do oceano, onde será comida
de peixe.
– E quanto a andar na prancha? – perguntei.
– N UN C A ouvimos falar nisso! – responderam os piratas.
– Andar na prancha! – exclamei. – É isso que os piratas de verdade fazem!
Olhem, vou mostrar a vocês. Tem uma prancha em algum lugar por aqui?
Demorou um pouco, mas encontramos uma prancha, e eu mostrei aos piratas
onde colocá-la. Discutimos se seria o caso de prendê-la com pregos, mas a Rainha dos Piratas decidiu que era mais seguro colocar os dois piratas mais gordos
sentados na ponta.
– Por que exatamente você quer andar na prancha? – indagou a Rainha dos
Piratas.
Eu subi na prancha. A água azul do Caribe ondulava suavemente abaixo.
– Bem, eu conheço muitas histórias com piratas – expliquei –, e me parece que, quando alguém vai ser resgatado...
Ao ouvirem isso, os piratas riram tanto que suas barrigas balançaram, e o
papagaio até voou para longe, de tão espantado.
– Resgate? – zombaram eles. – Não tem resgate por aqui. Estamos no meio do
mar.
– Mesmo assim – insisti. – Quando alguém vai ser resgatado, é sempre
enquanto está andando na prancha.
– Que é algo que nós não vamos fazer – declarou a Rainha dos Piratas. – Aqui.
Tome um DOB RÃO E SPAN HOL e venha se juntar a nós em nossas aventuras piratas. Estamos no século XVIII – acrescentou ela – e temos sempre lugar para
um pirata entusiasmado e brilhante.
Eu peguei o dobrão.
– Quase tenho vontade de ficar – eu disse. – Mas tenho filhos. E eles precisam de café da manhã.
– Então, prepare-se para morrer!
Ande na prancha!
Fui até o fim da prancha. Tubarões circulavam. E piranhas também...
E foi aqui que eu interrompi meu pai pela
PRIME IRA VE Z.
– Peraí – falei. – Piranhas são peixes de água doce. O que elas estavam fazendo no mar?
– Você tem razão – admitiu meu pai. – As piranhas apareceram mais tarde. Certo. Então...