Flirts
A Rainha de Sabá
—Para fallar d'esse modo é preciso ter sido éconduit...
O conde córou, encolheu os hombros:
—Ás vezes não se levantava da cama em dias de chuva em que se tornava impossivel fazer a parada nas ruas, troteuse á cata d'olhares: vestia uma camisa de noite de que cahiam valenciennes e cobria a cabeça com pentes e travessas d'oiro com pedras finas, e as mãos floriam-se de toda a collecção d'anneis. Era oiro por toda a parte, sem fallar nos dentes em que se combinavam todos os metaes e todas as massas. Ouvi que se lhe podia dirigir o epigramma de Marcial: Não te rias porque só tens tres dentes e esses mesmos são de buxo.
—Conheces tão intimamente?
—Pela creada do quarto... Agora, saracoteia-se, esqueleto feito manequim, arrebanhando os rapasolas inexperientes para flirts— ó{62} só flirts! não por virtude ou amor conjugal, mas porque a pitiriasis não permitte o desnudamento—flirts que acabavam logo que um mais affoito fallasse em beijar a pelle perfumada.
—Schiu! Lá vem ella!
O conde olhou para a porta, por onde entrára, fina e flexivel como haste florida, a Gracinda Fortes. A bocca pequena, que o cosmetico fazia sangrar, abria-se n'um sorriso fresco, que mostrava os dentes brancos. E de todo esse corpo magro exhalava-se, como um perfume que entontece, um encanto perturbante.
E seguiu-a com os olhos, commovidamente, até que desappareceu, como um sonho... {63}
A RAINHA DE SABÁ
A EUGENIO DE CASTRO
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