Flirts

Henrique de Vasconcellos · Capítulo 16 de 26

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Flirts

A Gloria

E o cego, em passadas incertas, as mãos estendidas, saiu do atelier, onde a unica nota de vida era o soluçar da amante.{103}

 

A GLORIA

A CARLOS MALHEIRO DIAS.

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A GLORIA

 

Qu'est-ce que ça fait que je sois une grande

artiste, si je ne suis pas heureuse?

Anatole France—Histoire Comique.

Gonçalo Freire, o escriptor que um romance intenso tornára celebre, estava triste e desanimado no seu gabinete de trabalho.

Os candelabros Luiz XV brilhavam nas multiplas velas brancas, faziam saltar faiscas dos cobres doirados, das faianças onde corriam idilios em jardins frondosos. O seu studio era sempre luminoso, quer de manhã, com as largas janellas abertas sobre o rio, quer de noite com as resplandecencias das luzes. Dizia que assim a imagem surgia mais precisa, mais clara, mais latina.

Gonçalo não gostava do nevoeiro que os escriptores do Norte deixam entre os seus periodos. Amava o sol e os ceus macios, o mar{106} incendiado, as praias do Algarve d'areia doirada, os rios transparentes, onde, á tarde sómente, boia um fumo tenue.

Esse romance, «A Face do Homem» revelava esse amor da clareza e do equilibrio. Pondo de parte os intuitos sociaes que prevertiam a literatura moderna, ligára quadros d'uma emarcessivel belleza por um enredo forte, interessante e commovido.

Pessimista á feição de Nietzche, descrevera a miseria da face humana, depois de arrancada a mascara; puzera o homem diante de si, n'um espelho, e o homem sentira-se asqueroso. Mas, crendo no culto dionisico, esperava pela Arte cobrir a fealdade da vida. E, perto do homem, a mulher, florida pelo amor, representava o Sonho, a Illusão que cobre com um veo azul, a distancia, os montes escarpados.

O publico gostára. Seis edições successivas se tinham esgotado, entre aclamações, em dois mezes. Os jornaes tinham publicado o seu retrato com artigos encomiasticos, comparando-o a Camillo, pela riqueza e propriedade do vocabulario, a Eça pela ironia, a Fialho pelo vigor do descritivo, sendo superior a todos pelo interesse e pela suprema Belleza do seu ideal de latino.

Era um d'Annunzio com mais sinthese.

Todas as revistas e jornaes sollicitavam a preciosa colaboração; o Suisso chamára-lhe{107} plagiario e idiota, apontára-lhe seis erros de concordancia, descobrira que em Coimbra roubára versos a Anthero do Quental, n'um poemeto que correra impresso, Sunt lacrimae rerum, em que Gonçalo Freire acreditava no Inconsciente, segundo Hartman e na Vontade, segundo Schopenhauer.

Quasi todos os dias o editor lhe mandava molhos de cartas de admiradoras, umas apenas a dizer a palavra quente da sua admiração, outras pedindo autografos e uma ou outra marcando, misteriosa, uma entrevista, n'um coupé, em sitio escuso.

N'essa noite, ao entrar em casa depois d'uma bridge party, fora sentar-se, a querer trabalhar n'uma novella, de que esboçara já o plano. O creado levou-lhe a correspondencia que Gonçalo abriu, aborrecido. Uma carta d'um editor que lhe pedia um livro para lançar a sua livraria; uma actriz nova e elegante, que lhe lembrava a vaga promessa d'uma peça, duas amorosas a pedir-lhe entrevistas e um escriptor hespanhol que solicitava auctorisação para traduzir «A Face do Homem». A lapis azul, no summario do Mercure de France, chamavam-lhe a attenção para um longo artigo de Philéas Lebesgue, em que o critico entoava um hymno em seu louvôr, enaltecendo a harmoniosa belleza do romance, «mais subtil, como psychologia do que Bourget, mais moderno que Jean{108} Lorrain, e tão puro de estylo como Anatole France». Recommendava-o a Herelle, como sendo a obra d'um Annunzio mais intenso.

Era a gloria, vinda do anonymo, não a celebridade feita pelos amigos.

Moço ainda, trinta annos, rico, representante d'uma casa antiquissima com o brazão registado muito antes de D. João III, parecia um d'aquelles principes que as fadas assistem no baptismo, dando-lhes todas as venturas.

Mas, triste, Gonçalo foi á janella e rasgou cada uma d'aquellas cartas, lançando ao vento os pedaços de papel, que baixavam, pareciam hesitar e sumiam-se no escuro.

Na noite sem lua pareciam nascer no espaço as luzes dos navios, que punham na agua um reflexo de estrella. Encostado ao parapeito, Gonçalo muito tempo olhou para a escuridão que enchia o rio. Um ou outro ruido de carro chegava até elle, sem o despertar; de quando em quando na rua, ao longe, brilhava por um instante um electrico, como um meteóro.

E Gonçalo poz-se a pensar no amor que dentro de si trazia, sem esperanças, um amôr que tivera uma demorada cristalisação. Essa mulher surgia, luminosa e florida, deante d'elle, no escuro. Via o seu corpo magro e esbelto, a florescencia clara do rosto um pouco duro, o olhar indiferente. Era sempre assim. E, ensimesmando-se, a figura aparecia-lhe, como uma{109} obsessão, para acentuar o alheiamento, atormental-o mais.

Muitas vezes, quando compunha, largava a pena, porque a mulher vinha para defronte d'elle e não havia maneira de fechar-se no seu pensamento, continuar o periodo interrompido pela visita.

E punha-se a recordar de como nascera aquelle amôr. Vira-a muitas vezes nas festas, nas ruas, nos theatros, indiferentemente. Uma mulher elegante e nada mais, feita talvez pelas costureiras que dispõem de espartilhos, de faixas que apertam os quadris, de bouffants que disfarçam chatezas de peito, de tecidos leves, que dão a aparencia de ligeireza aos corpos.

Não a conhecia. Nunca fôra forçoso conhecel-a e como não o interessava, não se aproximou. Era a Maria do Amparo. Quando ella passava pelo Turf, alguem dizia, ou o proprio Gonçalo:

—A Ampáro vae hoje bem.

—É uma mulher interessante.

—Veste-se bem, principalmente.

E tanto tempo a vêl-a, outras o chamaram, trouxe o seu coração envolvido em outros amores risonhos, quasi sem se prender. E a Maria do Amparo continuava a aparecer em toda a parte, elegante, um pouco preciosa, viva, um sorriso na boca fina que mordia para avivar o traço roseo dos labios.{110}

Uma noite, em S. Carlos, n'uma visita a um camarote, Gonçalo encontrou-a. Amparo falou-lhe nos artigos que Gonçalo publicara n'um jornal, chronicas vivas sobre o Culto da Belleza, a belleza na cidade, nos monumentos, nos jardins e nas praças, belleza no lar cheio de flores, com moveis elegantes e comodos, belleza na mulher, artificialmente rectificada, por maquilhagens habeis e vestidos sabiamente confeccionados por mãos peritas. Attraiu-o a conversa. Amparo tocou com intelligencia e tacto nos pontos mais originaes, mostrou comprehender e sentir a Belleza, rodeou-o de frases amaveis, em que havia, ora no sentido, ora na entoação, alguma coisa de carinhoso, poz em campo toda a seducção de mulher elegante, chamando-o a si, lançando-lhe a perturbante luz dos seus olhos claros. A conversa, apesar de curta, um entreacto e o começo d'um acto, acabara n'um flirt.

Gonçalo procurou vêl-a. Esperou-a attento e ancioso no Chiado, frequentou as casas onde poderia encontral-a. E as tardes de recepções, os raouts, as sauteries, e mesmo as empertigadas recepções diplomaticas, eram leves flirtations, que o deixavam absorto, andando pelas ruas sem attender a nada, sorrindo-se ás vezes de alguma palavra dita por ella, de um gesto mais expontaneo.

Todos os elementos de seducção foram postos{111} em pratica por Amparo. E na alma de Gonçalo começara a cristalisação; a rede ia-o apertando, avassalava-o a mulher deliciosa, como os antigos retiarios os seus adversarios nos circos romanos.

Gonçalo já não pensava em mais nada. Logo depois do almoço, em vez de sentar-se á meza, a trabalhar, ia para a rua sem destino, com a vaga esperança de a encontrar, de a vêr na carruagem. E em todas as festas se aborrecia até chegar a Amparo. No Gremio pedia todos os jornaes, sem poder lêr nenhum, porque se alheava, recordava os momentos felizes, idealisava impossiveis sonhos, uma fuga para algum paiz onde ninguem o conhecesse, e Amparo vivesse só para elle, esquecida do hediondo marido, de todas as caricias, de toda a vida interior. Se por acaso lhe passava pela mente a ideia justa de que Amparo nunca deixaria a vida mundana, a «consideração», a «situação», logo Gonçalo a sacudia por importuna, e enlevava-se no sonho.

Era uma vida feliz, apesar do pouco que ella dava—olhares, commovidas palavras, promessas n'um futuro remoto e impreciso, e, um ou outro beijo nas mãos que tinha macias, palidas, mãos entre sensuaes e misticas da Gioconda, sem a aristocracia das mãos de Velasquez ou Van Dick, sem a luxuria que rosea os dedos das figuras do pintor de Verona.{112}

De repente, porém, começou a esquivar-se a Amparo. Houve palavras dubias, falou de consciencia e de dever; prometeu um amor eterno, mas ideal, sem pecado, um amor que lhes cubrisse a vida com uma gaze leve, como um zaimpho. E mais e mais se foi esquivando, emquanto em Gonçalo o amôr se tornava mais forte, enchia-lhe o peito de desespero, amachucava-lhe todas as energias e dava-lhe a sensação de ter, dentro de si a alma, como o chapeu alto d'um clown.

E diante da noite, rasgando as cartas d'amor das outras e as aclamações do publico, Gonçalo, a chorar, repetia a frase da heroina da Histoire Comique:

—Que importa que eu seja um grande artista, se não sou feliz? {113}