Flirts

Henrique de Vasconcellos · Capítulo 23 de 26

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Flirts

Idilio Triste

Não. Não queria vingar-se. Clara veiu a Lisbôa, soube-o mais tarde, atraz d'um comprimario de S. Carlos, seu amant de coeur. {207}

 

IDILIO TRISTE

A EDUARDO VALERIO VILLAÇA.

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{209}

IDILIO TRISTE

 

No jardim, a tarde de oiro era perfumada pelas rosas e pelos cravos. Nos canteiros, os cravos levantavam-se impertinentes, risonhos, em delgadas hastes. E, por toda a parte, entremeiando-se com os buxos, enroscando-se a uma macieira em flôr, serpenteando pelos muros, subindo pelas sebes, uma opulenta floração de rosas de toda a côr, rosas de oiro pallido, rosas roseas, rosas vermelhas a estremecer, como labios de que vão cair os beijos, rosas escuras, enormes, sensuaes e dolorosas, umas ainda em botão, misteriosas como as adolescentes, outras já totalmente abertas, sem enigma, como as amantes antigas—todas ellas misturavam o seu perfume no jardim quieto, em que as pombas arrulhavam, beijavam-se e depois partiam em vôos curvos, as azas brancas a brilhar ao sol.

Os dois amantes iam calados, elle a olhal-a intensamente, como a querer apreendel-a, como se os olhos fossem bocas e podessem beijar,{210} braços e conseguissem abraçar—ella um pouco aborrecida, a desfazer entre os dedos longos uma orchidea azul listrada de vergões esverdinhados.

—Pensei em ti sempre, dizia elle. No Prado, diante dos tapetes de Goya, disse o teu louvor. As raparigas esbeltas, que vão á fonte, as bilhas esguias á cabeça, como as princezas de Homero, não tinham a tua elegancia... Ás infantas de Velazquez, artificiaes, cadaveres de bonecas, em que apenas os olhos attonitos teem vida, faltava a tua belleza. As santas hirtas de Memling não tinham na bôca a primavera que ruboresce os teus labios... Só na curva do braço de Danae, de Ticiano, pude ver uma attitude como tens... Por todo o museu me perseguia a tua imagem, como um canon, para avaliar as obras. As gordurosas flamengas de Rubens, as cigarreiras sensuaes e extaticas de Murillo, as energicas mulheres de salteadores em que Ribera se compraz, eram muito diferentes de ti, d'ellas fugia o meu olhar. Em Raphael havia alguma coisa da tua doçura risonha, mas demasiado passiva; em Greco, a tua distincção, mas severa; apenas Leonardo te saberia pintar, quasi irreal por seres tão bella, indecifravel, como uma esfinge sem segredos... Como uma esfinge sem segredos... Que segredos teria a suave mulher do Jocondo? Que segredos terás, alheia a tudo, passando pela vida, ligeiramente,{211} como a agua que vae n'um ribeiro, correndo e cantando? Vi-te em toda a parte. Levei-te sempre commigo! Talvez o Moro te tivesse pintado...

—Viste bem o museu...

—Vi, porque te buscava... Um dia, ao aproximar-me da escadaria, vi fugir, n'um automovel ligeiro, uma mulher, que se parecia comtigo... Era um carro vermelho... Por toda a parte tive a hantise dos automoveis vermelhos. No Retiro e na Castellana, o meu olhar prescrutava, revolvia todos os automoveis, todas as carruagens, a ver se te encontrava. Todas as manhãs, pelo museu, andava á tua espera, embora te soubesse aqui, indiferente. Como te não encontrava, procurei vêr o teu retrato, n'algum quadro antigo. E puz, em muitos, o reflexo da tua belleza, porque n'uma atitude, n'um olhar, havia alguma coisa de ti...

—O governo hespanhol agradeceu-te a valorisação dos quadros?

—Ri-te. Ri-te de mim... A tua boca, ao abrir-se n'um riso, é uma flor de nácar e prata...—A principio, procurei-te... Depois, como a tortura fosse muita, quiz fugir da tua imagem. Fui para Sevilha onde tudo é Amor e resplandece. Deixáras de escrever-me... Só sabia que não pensavas em mim. Ali, tudo é alegre e luminoso. O sol é o sangue da cidade... Doira a planicie e as palmeiras de S. Fernando. Levanta{212} scintillações do calado Guadalquivir azul e da cupula inflamada da Torre del Oro. Enche de vida o jardim do Alcazar, com seus repuxos com enjoalhadas lagrimas. Tudo é luminoso e perfumado. O amor, ali, não aniquilla, escalda. Entre os cravos que guarnecem as grades das janellas, as mulheres olham os seus namorados com um olhar d'assalto. Ha uma voluptuosidade suspensa no ar. Tudo vive, tudo ama, parece que tudo é feliz. Ha uma embriaguez de côr. E nas varetas dos leques saltitam os beijos que caem das bocas. A Sierpes, á noite, palpita com todo o anceio de tumultuosa cidade... Nos pateos, sob as pequenas palmeiras e musas, os flirts sussurram palavras de entontecer... Como tudo brilha! Só o meu coração se apagava e murchava com saudades... Nos banhos silenciosos de Maria Padilla, pensei no afortunado amor de favorita, nos lentos passeios pelo jardim, nas casas de fresca sombra, onde luzem os estuques policromos e os azulejos... E não deixei de sentir-te ao meu lado...

—Acredita que não foi por minha culpa...

—Fugias-me. Deixavas-me a tua imagem, para torturar-me. Mandavas-m'a, a envenenar-me de longe... A belladona é doce e envenena... Muito mel embriaga... Tão real a sentia, que, á noite, olhos fechados, queria abraçar-te, e tinha a desillusão de Pan, quando perseguiu a ninfa Seringe... Como quem corre atraz do sol{213} e se encontra encerrado n'um bêco. Nunca mais me escreveste!

Deixaste cair o teu amor do peito, como as flores que levaste ao baile...

—Depois d'uma noite de baile, as flores já não perfumam. O amor precisa do viço. É necessario podar o coração...

—Bem sei. Não te recrimino. Lamento-me...

—Lamartiniano!... Julgava-te mais forte e mais moderno. Parecia-me que a cultura intensiva do Eu tornava impossivel um amor sem esperanças... Filosofos!...

—Amar-te, não é para mim uma função: é a propria essencia do meu ser. Julgo ás vezes que não existes, material e tangivel, que existes mais real: nasceste e vives no meu cerebro, tanto se casa a tua figura ao meu sonho de belleza. Pintor, se idealisasse uma mulher, o meu quadro pareceria o teu retrato, embora nunca te tivesse visto. Poeta, o teu misterio seduz-me, alma que se guarda, avidamente, sem que ninguem a adivinhe. Todos passam por ti, sem a possuir, como as quilhas dos navios que cortam as ondas não maculam a eterna virgindade do mar... Foi ao ver o mar, que mais pensei em ti. Pelo Mediterraneo socegado, estudei a onda, sem conseguir conhecel-a. As ondas são graciosas, as suas curvas teem ternos desenvolvimentos: dir-se-iam mulheres que brincam na relva fresca. E desfazem-se em flocos de espuma,{214} quebram-se umas contra as outras com fragilidade de cristaes, são leves como leques, e no emtanto matam, levantam-se em vagalhões que sacodem os couraçados, despedaçam os navios. Carinhosas, riem e fogem, como tu; a onda de esmeralda que saltita, enfeitada de rendas, subitamente é uma gigantesca aza d'abutre que se curva, para apreender... É um abismo que ri... As mutações rapidas do mar fizeram-me lembrar o teu amor que desapareceu sem se saber porquê...

Nem sequer recrimino. «Não me esqueço», prometeste. E as tuas palavras que guardei, como guardaria uma estrella, ainda cantam nos meus ouvidos. E ha tanto que te esqueceste! Vivo do passado. Vive o meu coração do passado, como as velhinhas, que foram actrizes, e no asilo se lembram das aclamações quando faziam papeis de rainhas sumptuosas com luzidas cortes a seguil-as e galãs esbeltos a segredar frases d'amor...

Mas o passado esgota-se, como as cisternas, quando durante muito tempo não chove...»

Ella cortara e desfolhára as margaridas de uma moita viridente. O sol ia a morrer, n'uma catástrofe... Um rebanho de nuvens encharcava-se em sangue. N'uma fita delgada, um repuxo subia, dobrava-se e estilhaçava-se na agua do tanque.

O amante chorava...{215}