Flirts

Henrique de Vasconcellos · Capítulo 13 de 26

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Flirts

Chiara Liliam

Virgens, guardae para o desconhecido Amado, o vosso corpo e a vossa alma, como, se é verdade a lenda arabe, para Salomão, filho de David, guardou Balkis, Rainha de Sabá!{70} {71}

 

CHIARA LILIAM

A VICENTE D'ARNOSO.

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CHIARA LILIAM

 

Barcelona e o seu porto com incendiados espelhamentos de sol nas aguas que se agitam em pequenas ondas, aguas-fortes de mastros a distancia, toda a geometria do horizonte cinzento cortado pelos perfis dos vapores! Ha dorsos vermelhos de navios, nodoas negras das barcaças de carvão, até a florescencia d'um yacht que emerge entre a poeira negra da fumaraça, e os fardos, e as pipas, como uma delgada flôr de prata...

Para alem da cinta da docka, ao rez do mar, o ceu toma tons brancos que se esbatem e degradam na ascenção, accentuando-se na cupula um azul fino. E os vapores passam, pequeninos, carregados de vagas multidões para Barcelonete.

Para alem da formidavel estatua de Colombo, as Ramblas sacodem os ramos verdes dos platanos e o Tibidabo recorta-se, escalvado.{74}

—É ámanhã o vapor para Mallorca, informam-me.

Volto para traz, deixando o ruido dos guindastes e das sereias, a bulha dos catraeiros e descarregadores, para entrar n'outro bulicio tão grande, o zumbido dos milhares de boccas que cruzam a Rambla, as campainhadas dos tranvias, a buzina dos automoveis, com gritos diversos, pragas, pregões, injurias guturaes dos catalães furiosos.

Sentira desejos de vêr Palma de Mallorca em que me fallára Teixeira Gomes, as suas egrejas caladas, os seus palacios antigos. Por elle sabia que a cidade conservára-se immovel, tipica, como no principio do seculo XIX. E a sua conversa luminosa e pittoresca acirrara-me o desejo de visitar uma terra que, na convulsa marcha do seculo industrial, immobilisára-se nos seus antigos sonhos de pedra.

Aborrecera-me já Barcelona, commercial, trabalhadora, respirando pelas mil boccas das suas chaminés; parecia que a alma da cidade andava triturada pelos poderosos engenhos das suas fabricas. Vira os seus theatros, os seus museus, Santa Maria de la Mar perdida entre o casario; mas em toda a parte o commercio abria ruas, estendia fazendas, crusavam-se os camions.

Ah! Salamanca parada e quieta, a morrer n'uma agonia d'oiro! As saudades que tive da{75} paz das suas ruas bordadas de egrejas e de palacios, das cathedraes sumptuosas e desertas, das pequeninas parochias, onde se descobrem ainda, atravez dos vandalismos, curvas d'arcos romanicos, flores de capiteis graciosos; de Santo Esteban e o seu claustro que a hera invadiu, do balneario, antigo claustro de convento e do Monterrey maravilhoso, da Universidade quasi sem estudantes!

Aborrecia-me Barcelona, toda entre arvores, Barcelona e o soturno Monjuich com a lenda dos supplicios dos anarchistas.

Ainda um dia! Era preciso depois de jantar subir á Gran Via e ir ao tumultuoso café ouvir a gritaria ensurdecedora, passear pelas Ramblas entre uma multidão compacta que espairece, vêr as caras angustiosas dos operarios, sempre na vespera d'uma revolta, e os pobres que nos perseguem pela esmola, e as raparigas sujas, enrugadas, que se offerecem, n'um chale rôto.

Ao entrar no «Paseo de la Aduana» para esperar um tranvia que me levasse ao Parque, vi passar n'uma carruagem, fresca, toda vestida de branco, como um ramo de goivos brancos, Chiara Liliam, a cantora italiana que mezes antes conhecera em Genebra, no Kursaal, e com quem passeára no Leman, pelas tardes quietas de agosto e pelas noites de luar, ouvindo-a cantar, não as operas transcendentes com{76} que regalava os suissos e inglezes, mas ligeiras canções napolitanas, que tomavam na sua bocca uma voluptuosidade mais fina e adormeciam, envenenando-as, as nossas Almas.

Ah! Chiara Liliam! As tardes limpidas e serenas em que vimos a paisagem doce, fecunda, do cantão de Genebra, no vapor da carreira, alheiados das inglezas de Cook, de dentes monumentaes e canotiers ridiculos! E as noites frias, em que deixavamos o Kursaal e os petits chevaux e iamos, costeando o caes illuminado, n'um pequeno bote que o ruivo barqueiro conduzia serenamente, respirar a delicia do luar pastoso, que parecia ter em si um pouco da neve do Monte Branco!

Lord Carnehan, o seu amante, acompanhava-nos. A tristeza da sua face, de todo o seu corpo cançado! Parecia ter sentido, aquelle rapaz de trinta annos, todo o travo da vida, visto desfolhar-se, uma a uma, todas as illusões, as ambições murchar, como quem assistisse ao incendio de todos os seus haveres e dos proprios castellos no ar que a sua mente creára.

Nem alcoolico, nem etheromano, abominando a morfina e a cocaina, tomando uma leve taça de café, apenas, resignára-se na vida, «deixava-se morrer», dizia.

Andava com Chiara, porque era preciso ter uma amante, como uma ecurie, um palacio em{77} Londres, um castello na Escocia e uma villa na Riviera, decorada por Burne Jones.

Chiara Liliam era a sua vontade. Ia para onde ella quizesse, para fazer alguma coisa e não ficar, no hall do Metropole Hotel, de olhos pasmados para os decotes largos das ladies, que liam jornaes.

Mas nenhum amor, nem mesmo sabia, talvez, se era macia a pelle da cantora. E assim viviam, ella feliz pela liberdade, risonha como um galho d'eglantines, elle, com uma razão de viver: acompanhar Chiara.

Chiara, que viu o meu cumprimento, mandou-me subir para o trem.

—Venha comigo ao parque... se não tem melhor...

—Ia justamente para lá aborrecer-me...

—Então venho a proposito...

Perguntei-lhe por lord Carnehan.

—Ó meu Deus! Lord Carnehan tornou-se para mim uma obsessão. Era como um vidro negro que me punham nos olhos para eu vêr a vida. Nada me parecia claro, luminoso, florido. Julgava olhar sempre para dentro d'um poço secco. Essa creatura estragou-me alguns mezes de existencia. A principio ainda eu ria, pelo movimento adquirido. Mais tarde, porém, o riso desappareceu. Sempre aquelle somnolento homem que só abria a bocca para perguntar pelas horas, como se tivesse pressa{78} d'alguma coisa, elle que não fazia nada, ou para dizer alguma sentença, um aphorismo de Schopenhauer ou d'alguns dos fulminantes catholicos, á maneira hespanhola, sombrios, repulsivos. Comecei a olhar para o espelho, a vêr se sabia rir. Não sabia. Vinha uma careta ao contrahir a bocca; parecia-me de pedra os labios, ao querer abril-os n'um sorriso. Quiz mortifical-o, fazer com que, atraz de mim, os amorosos corressem; empreguei, ante os seus olhos pardos, o requinte do coquetismo; mostrei todo o artificio de mulher e de actriz. Nada. Sempre lord Carnehan indifferente, a cabeça sobre o peito, as mãos pendidas, a perguntar-me periodicamente:—Que horas são? De quando em quando, sem lhe dizer aonde ia, deixava-o todo o dia; ás vezes, aborrecida, nem ia á rua. Ficava no meu quarto, as lagrimas nos olhos, a vêr o movimento dos bateaux-mouches a atravessar o Leman; os raros automoveis que passavam pela rua e alguns ranchos de forasteiros arregimentados pelas agencias. Arrastava-se o tempo; defronte de mim, o lago que á esquerda se curva, limpido, transparente. Na outra margem, o parque Jean Jacques, alinhado e limpo, como um desenho do concurso. E era alli, á direita, a arvore que dera sombra, na tarde criminosa, em que o anarchista matára a Imperatriz Isabel. Pensava no fim tragico que ali procurara, sob um pequeno platano viçoso,{79} a alma aventureira e poetica, a dama de todas as viagens, que vira tantos ceus ensolados e tantos mares em procella... Quando voltava, de proposito despenteada, com muito rouge na face, a fingir córada, lord Carnehan levantava com esforço os olhos para mim e perguntava-me, na voz pausada, sem um estremecimento:

—Que horas são?

Eu era o relogio, para elle! N'essa terra fria, geometrica, regular no andamento como uma machina—a alma de Genebra é um relogio—eu não era nada mais do que um chronometro em que se tem confiança. Um dia, furiosa, comprei um relogio e offereci-lh'o. Imagina que acabou a historia? Não. Comecei a fazer-lhe scenas, a dizer-lhe improperios em calão dos bairros infimos de Londres— uma artista conhece tudo e o resto—phrases de marujo; elle ouvia, ouvia, e depois tirava o relogio da algibeira e dizia-me:

—Por força que este relogio atraza! Que horas são?

Quiz matal-o. Uma noite entrei no seu quarto. A lamparina envolvia tudo em penumbra. Até a dormir tinha o ar cançado. Levava uma mascara de cloroformio... Conhece o conto de Lorrain sobre as mascaras de Londres? foi n'elle que me inspirei... Ia para lh'a pôr na cara e acabar com elle. Tropecei n'uma cadeira.{80} Carnehan acordou sem sobresalto. Olhou para mim:

—O quê? já manhã? Que horas são?

Não! Não era possivel! Pensei em atirar-me da janella abaixo. Não podia mais com a vida. O diabo é que estragava o penteado! Resolvi fugir. Fiz as malas, guardei joias e dinheiro, rompi a escriptura com o emprezario, perguntei por minha vez que horas eram a Carnehan—a cara que elle fez!—e metti-me n'um comboio e vim para a Hespanha, onde ha sol, ha muito sol e não quero nunca saber que horas são!»