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Henrique de Vasconcellos · Capítulo 15 de 26

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O Cego

Marcia levantou-se e estendeu-me a mão, supplicante:

—Dá-me um tostão para aguardente?!{94} {95}

 

O CEGO

A ALBERTO D'OLIVEIRA.

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O CEGO

 

O Pintor, que vivera intensamente na luminosa communhão das coisas bellas, no culto da Fórma e da Côr, sorvendo a Belleza religiosamente, como se aprecia um vinho velho, de repente cegára.

E no tumulo do seu atelier de que haviam fugido os modelos, errava angustiado, querendo com a mão sentir a linha das figuras que o seu divino pincel traçara, nas manhãs claras, entre tapetes que amorteciam os passos e ás vezes a queda dos corpos dos divans acolhedores.

Sentava-se no mesmo escabello veneziano, marchetado, tendo diante de si, no cavallete, uma tela. E vagarosamente ia traçando linhas, julgando ainda desenhar figuras, compôr peitos firmes, contornar curvas musicaes de quadris,{98} illuminar olhos abertos, cheios de sonho e de volupia.

Mas o pincel empastava tintas, inexperiente na mão do grande mestre, como na d'uma creança de peito.

Depois do inutil esforço, não podendo vêr, lançava ao chão, com raiva, a tela, e punha-se a passear, cambaleante, hesitante, como um ebrio, as mãos estendidas, como se da ponta dos dedos nascessem olhos, a guial-o.

E vivia apenas com um velho servo. O atelier morria ao abandono. Para quê a molleza dos tapetes persas, os brilhos dos espelhos de Veneza, os marmores das estatuas e a radiosa formosura dos seus proprios quadros divinisando a Vida? Para quê? Se tudo adormeceu sob a cinza que se acumulára nos seus olhos d'antes d'um tamanho brilho, esses olhos leaes, sem ironia, cheios d'amor por tudo o que tivesse uma particula de Belleza?

Fôra um grande pintor afamado. Retratára as mais elegantes senhoras da côrte, em vestidos sumptuosos que mostravam, n'um decóte largo, o cóllo nu, como uma enorme flôr. E nos seus quadros punha tanta voluptuosidade que a marqueza de Bouro, devota e pudica, recusára com horror o retrato; apesar do pequeno decóte, da garganta alva pareciam nascer rubras florescencias de desejos.

E nunca mais pintou retratos. Ideou quadros{99} em que a mulher e a vida eram divinisados. Fez bacchanaes, em que as sacerdotisas nuas agitam tirsos enramados, coroadas de flôres, numa loucura divina. Compôz uma scena das vindimas em que as mulheres comem as uvas, sob as latadas viçosas, das boccas dos amantes. Fez Leda e o cysne, em que, n'um lago transparente, as virgens descuidosas se banham. Um cysne apparece, airoso, vagaroso, o macio pescoço n'uma curva larga. E ellas querem apanhal-o á porfia.

E esses quadros d'uma athmosphera tão clara, d'um ceu tão luminoso, com carnaduras frescas, admiraveis seios que exhalavam, como uma flôr de tropico, um perfume estonteante, tinham-lhe dado a riqueza e a gloria.

A multidão apontava-o, nas ruas, com reverencia. As mulheres lançavam-lhe ternamente cobiçosos olhares. E o pintor gosava a vida, sem se prender, beijando as bôccas, aspirando o aroma das cabelleiras fartas, que caiam sobre as nucas, sobre as costas, como mantos finissimos.

Até que um dia cegou. Fechou a sua casa, como se tivesse partido para uma longa viagem, não querendo deixar vêr a ninguem o espectaculo turturante da sua angustia. E continuava a querer pintar, ainda o cerebro povoado pelas risonhas imagens, concupiscentes seios, rios translucidos, gemas coruscantes,{100} dobras sensuaes de sedas, sobre o ambar da pelle das morenas, sobre a magnolia das epidermes branquissimas.

Um dia, soube-se. Vagamente correu na cidade que o pintor magnifico cegára. A curiosidade durou tres dias. Os possuidores dos quadros viram com prazer a sua valorisação. Os collegas secretamente exultaram pelo desapparecimento do rival vencedor... E tudo caiu, tudo esqueceu.

Uma apenas se lembrou d'elle. Carinhosa, amorosa, forçou a porta teimosamente fechada. E entregou-se ao cego.

Dias passaram cruzados de angustias e de intensos prazeres. Até que um dia o pintor lhe disse:

—Eu tinha que coroar de rosas—a minha mão inutil nem para isso serve—a tua cabeça. Devia ajoelhar diante de ti e dar-te todo o meu sangue, pois que te dei já todas as minhas lagrimas. Vieste accender uma aurora no crepusculo eterno da minha cegueira. Permittiste que eu revisse a Belleza da Fórma. Com os meus dedos pude sentir como é pura a curva do teu seio, a linha das tuas espaduas e lindos os teus dedos. Trouxeste-me o aroma da carne moça, como uma brisa benefica leva a um prisioneiro o cheiro do feno. Senti outra vez a musica deliciosa das palavras de amor. E no teu corpo pequeno e flexivel, o teu rosto deve{101} ser como o luar d'um lirio sobre a sua haste...

Calou-se. Hesitou alguns momentos. Pareceu encher-se de coragem e continuou:

—Mas não posso vêr-te! Vivo comtigo, como n'uma somnolencia —um pouco de realidade e um pouco de sonho. Pode ser que os annos tenham feito brancos os teus cabellos compridos; que alguma doença má tenha esverdeado a tua pelle macia. Nas palavras que dizes, oiço ás vezes uma promessa, outras um retraimento. Não posso vêr nos teus olhos palpitar a tua alma. É como se todos os dias me apparecesses, ás escuras, com uma mascara na cara, um dominó a velar-te o corpo. Entrevistas em jardins frondosos, ás escuras. Tudo silencio, mesmo na minha alma. Chegaria até nós, lugubremente, o adormecimento da vida. E não serias inteiramente minha, apenas uma parte de ti me pertenceria, e a outra, uma promessa vaga. «Penso que nos encontraremos, dirias... Etheromana em busca de excitantes, romantica, caçando aventuras, feia sem remedio a esconder aleijões e a querer ouvir palavras que nunca ouviu, sou mais que tudo isso, acredita, e menos que uma illusão!» Que importariam as tuas palavras? No arroubamento dos beijos sentir-se-hia o travo do prazer incompleto. E beijo-te um pouco como se beija um phantasma. Se eu te podesse vêr, dir-te-ia que arrancasses a mascara,{102} ou que te fosses para sempre. Quereria ver-te, ou realidade inteira, deliciosa na pureza da atmosphera, ou sonho puro, como sei sonhar. Não posso com a tortura do meio mysterio que a nevoa dos meus olhos cegos cria... Podesses ser toda minha, conseguisse eu deitar abaixo a mascara, vêr-te na gloria da tua formosura, mesmo na miseria de alguma incuravel doença, fixaria na tela, com estrellas fulgentes, com sucos magicos de flôres desconhecidas, essa radiosa Belleza, ou essa deformidade, que se illuminaria, subiria aos ceus, como S. Julião quando beijou a bocca gangrenada do leproso. Apparecesses tu! Mas não. Ficas na meia luz como um phantasma!