Flirts
Tibidabo
AO SR. BARÃO DE S. PEDRO.
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TIBIDABO
Na tarde de agosto quente, fugira de Barcelona para a escalvada montanha que a fanfarronada hespanhola bátisou de Tibidabo, o sitio da Judeia onde Satan prometeu a Christo as grandezas do Mundo e os fulgores do Peccado.
O monte levanta-se, precipitadamente, do fundo da planicie em que Barcelona ondeia. E querem dizer talvez na sua os catalães, que Satanaz ergue as creaturas que quer tentar e, firmando-as nos cimos d'este monte, oferece-lhes a cidade, imagem brilhante dos esplendores mundanos.
Sob o toldo do restaurante deserto me acolhi, a sentir a brisa preguiçosa. Espalmava-se em baixo a cidade. Corriam as suas avenidas arborisadas, as «Ramblas» que se seguem como uma bicha, e a «Gran-Via», a infindavel «Cortes», que corta Barcelona em diagonal. Quedava-se o Parque enorme e, ao fundo, n'um vago de nevoeiro,{156} o mar azul, riscado pela linha cinzenta da doca, onde os navios acolhidos eram imoveis.
Vinha caindo a tarde sobre as raras torres das egrejas. Brilhavam um a um os bicos de gaz e as janellas em que o poente puzera uma luz de oiro.
Longo tempo ali estive. Sonhei? Foi real? Não sei.
Um mancebo pallido e triste abeirou-se de mim:
—Vês a noite a cair? D'aqui a pouco as ruas vão brilhar do fremito luminoso dos desejos das multidões. A cubiça e a luxuria porão brazas nas almas que incendiarão os olhos. As mulheres mostrarão nos bailes e nos theatros o maculado esplendor dos seios perfumados. Nos mostradores das lojas, á luz das lampadas electricas, as joias farão percorrer nas mãos desejos de roubo. A Besta ergue-se—olha como se ilumina a cidade! Vês um clarão que nasce, sobe e se perde no Ceu? Julgas que é dos candieiros? Não, é das almas! é toda debruada de vermelho como as chamas dos incendios. Como é bella a cidade quando é culpada!
Voltei-me para o mancebo, tranquilamente. Vi que era o Diabo. Não que tivesse chifres ou cheirasse a enxofre, mas pela belleza triste, de quem conhece tudo. Não lhe tive horror. O Diabo{157} é o gnomo subtil que trabalha na sombra as filagranas das tentações. É o Diabo que amontôa as cidades, inspira os artistas, empurra o homem para as civilisações que apodrecem e brilham.
Não lhe respondi... N'um fogacho violaceo, o sol apagára-se no mar. Era tudo cinzento. Pelos canaes das ruas, por entre as arvores, n'uma sombra mais densa, cintillavam os bicos e os mostradores das lojas.
O Diabo continuou:
—Quero a tua alma...
Olhei-o atonito. Para quê a minha Alma? O grande colecionador tinha um museu estranho em que brilhavam todas as taras possiveis. Assassinos vulgares, ladrões de taberna, mães que vendem as filhas, incestuosos, ganindo de luxuria, velhos abades macerados e corroidos pelas disciplinas, que as ilusões vãs de Satanaz venceram, bispos, cardeaes simoniacos, todos os pecados que se engastam como gemas e possuem um fulgor lugubre, como se as pedras dos diademas ardessem nas cabeças, as gargantilhas nos pescoços, as manilhas e pulseiras nos braços, os compridos cintos nas cinturas! Satan tudo possuia, tragicos homicidas, capitães que entregam os seus soldados, reis que mancham os altares, velhas dementes que ululam nas monstruosas orgias, rojando pelo chão os cabellos pintados, crispando as boccas maquilhadas{158} nos espasmos lancinantes, poetas que arrastam a lira pelos lameiros, virgens que se vendem sem amor e sem vicio, toda a constelação dos sete pecados, como sete soes nocturnos, envenenados pela treva, corroidos pela lepra, um museu formidavel, sombrio, apesar de todos os brilhos, frio e angustiante, como um corredor que leva a presentida cilada—era tudo de Satan e queria-me!
O pasmo pintou-se na minha cara.
—Quero a tua alma! Falta-me na coléção. É por isso que hoje abandonei as ruas das cidades e seus encobertos vicios para subir a esta montanha, que tem o nome de outra, onde prometi tudo e tudo me recusaram. É o nome da derrota. Não sou supersticioso. Tens uma alma de amoroso. Amas pelo Amor. Idealista e sensual, a Fórma bella comove-te como um poema e mais nada. Não tens as crispações dos lascivos. Amas uma mulher e uma estatua da mesma maneira profunda, serena e harmoniosa. O amor não rebenta em beijos violentos, como as folhas das arvores pelas primaveras risonhas—floresce em imagens. Eu, que não posso amar, que soluço angustiosamente pela minha impotencia, quero a tua alma!
Quando o Diabo fallou do amor, do negrume da noite que se apoiara já fortemente sobre a cidade e o monte, vi passar, no seu andar musical e casto, tal uma deusa, a Bem-Amada. Foi{159} como se uma via-lactea suave se accendesse e florissem as flôres da terra sobre as estrelas do Ceu...
—Não te dou a minha alma.
—Vão abrir-se, d'aqui a pouco, na cidade enigmatica, as portas escuras das casas de jogo. Dar-te-hei o segredo de sempre ganhar. Farei correr por ti os cubos amarelecidos dos dados. As pintas pretas far-se-hão olhos e verão onde apontas. As bolas das roletas saltarão por ti nas arestas de cobre... Conhecerás o prazer de ver amontoar na tua frente as notas e as moedas de oiro, de observar, ironico, os rostos, que a angustia encarquilha, dos jogadores que perdem. E os sobresaltos do banqueiro, imovel, mas de olhar esgazeado, far-te-hão rir...
—Que importa? Jogarei com os sorrisos que brincam nos beiços finos de Livia. Ganharei sempre porque, quer ella sorria ou não, vel-a-hei e, por vel-a, andarei contente...
—Ensinar-te-hei os segredos das cotas, dir-te-hei as confidencias que a si mesmos mal ousam segredar os financeiros internacionaes. E farás cair as grandes emprezas que vão dar ao mundo um aspéto novo. Arruinarás povos inteiros, farás baquear os tronos em que rainhas hirtas se assentam, no pavor das revoltas. Serás o ordenador magnifico dos cracks, e, de paiz em paiz, o teu nome correrá, nos fios dos telegrafos, espalhando o sobresalto e a ruina.{160}
—Não quero. Basta que o meu nome seja pronunciado n'uma voz suave pela Bem-Amada. Dito por ella, o meu nome vae, de flôr em flôr, espalhar o perfume da sua bocca.
—Amas a mulher? Dar-te-hei as cortezãs vestidas de joias, como idolos antigos. Virão, de rojo, abraçar-te os joelhos, como escravas. E dos corpos alvos e brilhantes subirão perfumes que entontecem... Dos seus braços frescos, como as grinaldas que se entretecem com jasmins, fugirão as caricias. Terão vozes magoadas a suplicar beijos. E, mais que as suas joias, brilharão os seus grandes olhos...
—As joias são flores mortas, retalhos de astros que sucumbiram... Essas mulheres são como as joias: os beijos puzeram nos seus corações a dureza, a frieza e a geometrica forma das pedras lapidadas. Prefiro, a todas ellas, o gesto lento e curvo da Bem-Amada quando compõe o seu cabello preto.
—A mulher carinhosa e pura é como uma flôr sem perfume. É preciso que o vicio lhes ponha um estremecimento. Dar-te-hei aquellas que envenenam a sorrir, que atraiçoam entre duas caricias, a amante que vae surpreender, n'um beijo, o segredo do amante, o segredo que leva á Forca, aquellas que descobriram ineditas lascivias, corrutas e artificiaes, que eu mesmo vestirei com tecidos fantasticos, que espalham um amavío!{161}
—Que amavío maior do que ver a Bem-Amada quando descança a face branca sobre as mãos cruzadas, n'um vagaroso gesto cheio de doçura?
—Dar-te-hei a alegria e a insaciedade, a embriaguez que exalta, o redomoinho dos desejos que estrangulam, as bocas avidas e perseguir-te com beijos e dentadas, toda a loucura incendiaria, a profanação de todos os cultos, o poder de corromper, os venenos subtis que matam lentamente e de longe, as misteriosas aguas e misteriosos pós, que fazem definhar, como flores que se fanam, as creaturas... Serás o senhor das almas e dos corpos.
—Basta-me vel-a guardar, a sorrir-se, a carta que lhe escrevo...
—Entregar-t'a-hei! Poderás tel-a entre os braços, morder a boca fina, sentir sobre o teu peito o arfar apressado do seu collo amoroso, ver os olhos cerrar-se como n'uma agonia doce... A sua figura fragil aconchegar-se-ha entre os teus braços, aquecerás a sua frieza, será tua, reconhecida, amorosa, fremente de paixão... Queres? Dá-me a tua alma!
Tive um sobresalto, como quem, passeando n'um jardim florido, pisa um sapo:
—Não. Basta-me sentir nas noites claras, quando lhe fallo á varanda, o seu olhar cair gotta a gotta sobre os meus olhos extacticos!{162}
O creado veiu dizer-me que ia fechar-se o restaurante. A treva escorregava pelo monte. Um clarão vinha da cidade estendida a meus pés. E vago, confuso, o ruido da cidade com os seus vicios, seus tumultos, o cio que começava.