Flirts

Henrique de Vasconcellos · Capítulo 12 de 26

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A Rainha de Sabá

 

Balkis esperava. Entre as sumptuosidades do seu palacio de Mareb, a Rainha vivia, solitaria, escondida, só com a sua belleza.

Em vão os povos e os senhores, ouvindo fallar da immaculada formosura accorriam dos remotos reinos onde a sua lei governava, Sabá, Mareb e Yemen, e, defronte do palacio immenso e fechado, pediam para vêr a deslumbrante adolescente. Em vão os sacerdotes quizeram vêr os olhos puros. Ninguem o conseguiu.

Apenas uma velha ama a vira nua, quando menina. Era como um lirio o seu corpo.

Sete aposentos eram os da Rainha. E cada uma das sete portas uma chave d'oiro fechava. E no ultimo, a rainha vivia. Grandes espelhos de cobre mandavam-se uns aos outros, como écos, a imagem quasi divina. E Balkis, apenas vestida de joias, passava os dias na contemplação{66} dos intactos esplendores da sua adolescencia.

Entravam pela janella que abria sobre o jardim fechado e callado, os pavões brancos e os pavões polichromos. Aquelles formavam, estendendo as caudas, pequenas luas macias; estes faziam fulgir constellações, doçuras de velludos, coruscantes gemmas. E Balkis era mais branca do que os pavões brancos, mais brilhavam as suas cinturas e manilhas pesadas do que as caudas scintillantes.

Nas noites escuras sahia ao jardim. Deixava cair entre as moitas de flôres, a cintura, as manilhas, os anneis e o diadema. Soltavam-se-lhe os cabellos d'oiro, que eram, no ar azul escuro, como um cometa pallido; e nua, como uma flôr graciosa, dirigia-se para o tanque de marmore onde adormecera a agua perfumada. Os seus pés, ao entrar no tanque, eram como um raio de lua...

Deitada no tanque, os braços abertos, as mãos á tona d'agua, como dois lótos brancos, Balkis espreitava o ceu onde se movia o doirado formigueiro d'astros. As estrellas vinham reproduzir-se na agua, como molhadas flôres d'oiro, em indecisos contornos; uma lhe brincava no seio, quasi á flôr d'agua. Era como uma joia a correr, com o movimento do corpo. Ás vezes, n'um gesto mais largo, a gemma cahia, para outra vez voltar, n'uma festa, a percorrer{67} todo o corpo branco, que era, na agua escura, polvilhado de brilhos, como um nenuphar enorme, em que se agitassem grandes abelhas fulgentes.

Depois, quieta, ouvindo sómente, de quando em quando, o ruido ligeiro das flôres que tombavam, murchas, na areia discreta do jardim, os braços a appoiar a cabeça, como um diadema feito de duas hastes d'açucenas, a Rainha pensava.

E esperava...

Balkis esperava o noivo que havia de vir.

De todas as partes, chamados pela fama da sua belleza, dos seus thesouros ou dos seus exercitos, tinham acorrido os principes da Asia. Poetas uns, avaros outros, na maior parte guerreiros, todos vinham em cavalgadas surprehendentes, cobertos d'oiro e de joias. No seu throno altissimo d'oiro e prata, invisivel, mas a todos vendo, a Rainha ouvia as imagens aladas que fulgem e perfumam, a descripção dos poços profundos, abarrotados de barras d'oiro, de vasos de cobre, de moedas de todos os feitios, de pedrarias de todos os brilhos; diziam-lhe historias compridas de cruentas façanhas, batalhas mortiferas em que as flechas e as espadas, a bater contra os escudos, produziam chispas de incendio, contra os corpos, rios de sangue. Os guerreiros, com o desejo de augmentar os exercitos bellicosos, aprendiam{68} uma eloquencia calorosa. Eram os que mais fallavam, regosijando-se com a recordação das chacinas. Mas a um signal da Rainha iam-se, despedidos, os poetas com as lagrimas nos olhos, as cabeças curvadas, como sobre o peso das mithras, os avaros e os guerreiros batendo com força, nos ladrilhos polichromos, as sandalias ligeiras.

E Balkis voltava para o recuado aposento do seu palacio populoso. Alli, só, admirava nos espelhos a gracilidade do seu corpo esbelto e firme. Deixava cahir sobre o corpo branco, como uma flôr inundada de sol, o cabello loiro.

Depois de admirar toda a sua belleza, Balkis dizia-se:

—Aquelle que eu amar possuir-me-ha intacta, como uma flôr que vive no meio d'uma floresta guardada pelos Medos. Ninguem lhe aspirou o perfume, ninguem viu a côr deslumbrante, ninguem a maculou. N'esta terra cheia de sol, em que as côres não brilham, ardem, e as cassoletas não perfumam, estonteiam, eu sou branca, o sol nunca me viu. Entre os muros dourados dos meus sete aposentos, a vida é quieta e facil!

Balkis esperava.

Os mezes passavam ligeiros. No jardim fechado, as rosas desabrochavam, perfumavam e morriam. Outras vinham com egual brilho e egual frescura, enormes rosas escarlates, como{69} boccas em que os beijos deixam feridas, do desejo intenso. Balkis conservava, no seu corpo nubil, intactos, os esplendores d'uma adolescencia eterna. Untava-se com oleos, alisava com pentes d'oiro os seus cabellos d'oiro. Vestia-se apenas com joias, joia ella mesma. E nos seus olhos azues, largos e serenos, brilhava a mocidade.

Não a viam olhos humanos. Nenhum desejo maculou o seu corpo.

E quando Salomão, filho de David, que no seu palacio de Jerusalem tinha mais concubinas que de estrellas ha no ceu n'uma noite de lua, quando Salomão a veiu buscar, ella entregou-se-lhe, pura, radiosa e immaculada, como uma flôr crescida n'uma floresta insondavel, cujo perfume ninguem aspirou.