Folhas Caídas, Apanhadas na Lama

Camilo Castelo Branco · Capítulo 16 de 20

Páginas do PDF

Folhas Caídas, Apanhadas na Lama

Elogio Funebre

 

A uma dama, prodigio de fecundidade, que dá á luz tres romances, por semana, nos jornaes do Porto.

Atafona de romances,

 

És um carril a vapor!

 

Romantisas quanto achas,

 

E nos folhetins encaixas

 

Com satanico furor.

 

Cornocopia da toleima!

 

Nós fizemos-te algum mal?

Tu não sabes, escriptora,

 

Como zombam lá por fóra

 

Das lettras de Portugal?

 

Não lucrara mais a patria,

 

E lucráras tu tambem,

 

Se fiasses n'uma roca.

 

Com primor, a massaroca,

 

Que desprezas, com desdem?

 

Não te fôra mais airoso

Bispontar bem uns fundilhos

 

 

Para em tempo competente

 

Um remendo pôr decente

 

Nas cuecas de teus filhos?

 

Mal tu sabes que sciencia

 

Tem da meia o calcanhar!

 

Talvez penses que o romance

 

É mister de mais alcance

 

Que nas meias pontos dar!..

Eu por mim antes quizera

 

Nunca ter lido Camoens,

 

Nem romances d'uma tola,

 

Que vestir rôta a ciroula,

 

Ou camisa sem botoens.

 

Accredito seja um dia

 

A mulher emancipada;

 

Ha-de então ser regedora,

 

Escrivan, e contadora, Eleitora, e deputada.

 

Nesse tempo, se existisses,

 

Tendo em vista essa pericia

 

Com que ostentas teu saber,

 

Que logar podias ter?

 

Eras cabo de policia.

 

Tenho pena, quando penso

 

Que serás formosa e meiga,

 

E encontro os teus escriptos Nos embrulhos dos palitos

 

Do toucinho, e da manteiga!

 

Faz-me dó, pois tu bem podes

 

Bordar lenços de cambraia

 

Com bonito

petit-point

;

 

E, não sendo aqui ninguem,

 

Podes, ser tudo na Maia.