Folhas Caídas, Apanhadas na Lama

Camilo Castelo Branco · Capítulo 5 de 20

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Folhas Caídas, Apanhadas na Lama

O Seu a Seu Dono.

 

A Cesar o que é de Cesar,

 

Aos velhos o que é dos velhos!

 

Quem da crytica se encarga,

 

Deve andar estrada larga

 

E não metter-se por quelhos.

 

Sou assim! E mais sou velho

 

Mas a verdade é tambem,

 

Custe embora a quem custar,

A verdade hei-de-a fallar

 

 

Seja em mal, ou seja em bem.

 

Epaminondas Tebano,

 

A

Concordia

e o

Nacional

,

 

Nem a rir disseram petas:

 

Eu tambem como as gazetas,

 

Sou da honra o pedestal.

Não consinto que se diga,

 

Que só lavra a corrupção

 

Nas entranhas dos mancebos.

 

Eu conheço muitos gebos

 

Corruptos de profissão

 

Quem quizer venha ao

Palheiro

 

Desta nossa Assemblea,

 

Ha-de vêr linguas farpadas

 

Em bocas já desdentadas

Maculando a honra alheia.

 

 

Ha-de vêr velhos devassos

 

Como em lubrica orgia,

 

Já vergados nas cernelhas,

 

Memorando infamias velhas

 

Com satanica alegria.

 

Ha-de vêr o extincto frade,

 

C'o a bochecha rubra e gorda,

 

Acerando o epygramma,

Nem se quer poupando a

 

ama

,

 

Que lhe faz em casa a sôrda.

 

Ha-de vêr o millionario

 

Brazileiro, com mil tretas,

 

A contar, com sujas cores,

 

As lendas dos seus amores

 

Com as

suas

trinta pretas.

Estes taes são os que infamam

 

A mocidade infeliz!

 

São estes em cuja tez

 

O oleo da estupidez

 

É da vergonha o verniz.

 

A mocidade não pode

 

Vencêl-os, não pode, não!

 

Dominam, são respeitados,

 

Representam vinculados Os tempos da corrucção.

 

Nascidos, quando por terra

 

Os homens lançaram Deus;

 

Tem só fé no sensualismo,

 

E escarnecem com cynismo,

 

As crenças filhas dos ceus.

 

Gangrenado o corpo e alma,

 

Sem saber, e sem piedade,

 

São authomatos de barro, Que resistem ao catharro

 

Pr'a vexar a humanidade.

 

Onde existe a virgem pobre,

 

Que de maguas vive cheia,

 

Lá vai ter uma mensagem

 

Da senil libertinagem,

 

Que o pudor lhe regateia.

 

Perguntai nesses alcouces

 

De miseria e compaixão, Quantas victimas da fome

 

A deshonra ahi consomme,

 

E de quem victimas são.

 

Heis d'ouvir factos nojentos

 

Destes velhos que se arrastam

 

Sobre a lama das torpezas,

 

Das luxurias e villezas

 

Em que, cynicos, repastam.

 

Velho sou, bem alto o disse;

Mas deshonro-me de ser

 

Desta geração de velhos,

 

Em que os moços tem espelhos

 

Onde infamias possam ver!

 

Mocidade generosa!

 

Os teus crimes, tem nobreza;

 

Quando falla a consciencia,

 

Nem negaes a Providencia,

 

Nem manchaes a natureza.

Elles não; sempre atufados

 

Em nojentos tremedaes,

 

Crêem só no seu dinheiro,

 

No cavaco do

palheiro

,

 

Na barriga, e nada mais.

 

A Cesar o que é de Cesar,

 

Aos velhos o que é dos velhos!

 

Quem da crytica se encarga,

 

Deve andar estrada larga,

E não metter-se por quelhos.