Folhas Caídas, Apanhadas na Lama

Camilo Castelo Branco · Capítulo 8 de 20

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Folhas Caídas, Apanhadas na Lama

O MINISTRO E O JORNALISTA. (Dealogo).

O MINISTRO E O JORNALISTA.

(Dealogo).

MINISTRO

Eu vim chamado ao leito desta patria

 

Matava-a a corrupção, e eu salvei-a!

 

Se prostrada jazia, ou talvez morta,

 

Qual Lazaro da campa, alevantei-a!

 

JORNALISTA

De certo levantou Vossa Excellencia!

 

Que brade embora a vil opposição...

 

Esquálidos vestigios de gangrena

Bem profundos deixou a corrupção.

 

MINISTRO

Se crê nessas doutrinas luminosas,

 

E quer ser prestadio a Portugal,

 

Acceite a empreza honrosa, augusta, e nobre,

 

D'expol-as, sustental-as n'um jornal.

JORNALISTA

Empreza honrosa é; della me ufano!

 

Irei apostolar o credo novo;

 

Direi ás multidoens verdades francas,

 

Será o meu jornal jornal do povo.

MINISTRO

Bem sei que da defeza é árdua a luta...

 

Odeia-me, sem causa, esta nação...

 

Embora! na grandeza dos serviços

 

Compete ao defensor môr galardão.

JORNALISTA

Bem sei quantas calumnias forja a intriga...

 

Já dellas foi manchado o grande Decio.

 

Quizeram macular Vossa Excellencia

 

Chamando-lhe espião, rival de

Mecio

!

MINISTRO

(Commovido, e esfregando os olhos com cebola). Bemdito seja Deus! só elle sabe

 

As nobres intençoens de tal acção!

 

Por honra, por nobreza, e por caracter,

 

De certo fui, meu caro, um espião!

JORNALISTA

Não é lá grande feito de virtude;

 

Mas cumpre que eu me saiba haver na luta.

 

Convém negar o facto, ou confirmal-o?

 

Bem sabe que é de crêr haja disputa.

MINISTRO

(Limpando os oculos).

Eu lhe digo, senhor, a patria exige Medidas uteis, providencias, factos.

 

Accusaçoens banaes, não lhes responda;

 

A pedra é livre em mãos desses

gaiatos

.

JORNALISTA

Pois bem! sou desse voto, ei-de julgal-as;

 

Accusaçoens banaes, pretr'idas, nullas;

 

Mas dado o caso infausto de citarem

 

Não sei que transacçoens com certas bullas?

MINISTRO

(Enternecido).

Responda-lhe que eu fui proscripto, errante... E quando ao ninho caro alfim tornei,

 

Não só não tinha um pinto pr'a despezas,

 

Mas nem a livraria, em casa achei.

JORNALISTA

Pois bem, triumphará Vossa Excellencia...

 

Agora, se lhe apraz... sim... cada qual

 

Emprega neste mundo, como pode,

 

O seu... ou pouco ou muito cabedal...

MINISTRO

Intendo... quer dizer que não dispensa

 

Além do beneficio, uma pensão...

 

É justa, a quem trabalha a recompensa...

Quer cincoenta mil reis? pagos, serão.

Cinco mezes depois.

JORNALISTA

(Escrevendo).

Senhor ministro, eu não posso

 

Este jornal sustentar

 

Tenho esp'rado, em vão tres mezes,

 

Não me acabam de pagar.

 

Vossa Excellencia me disse,

 

A vinte e tres de Janeiro,

 

Que no Governo Civil Recebesse o meu dinheiro,

 

Nem um chavo! e os assignantes

 

Abandonam-me o jornal,

 

Porque defendo um governo

 

Vergonha de Portugal.

 

Se não manda, quanto antes,

 

Senhor ministro, as mesadas,

 

Com pesar vou abraçar-me

 

Ás outras crenças passadas.

MINISTRO

(Só).

Á vista disto, não ha mais fugir-lhe...

 

Pouco me serve... mas é pobre moço!..

 

Fazem-me pena quando assim os vejo...

 

Não ha remedio senão dar-lhe um osso.