Folhas Caídas, Apanhadas na Lama
Epistola
AO VISCONDE DE QUEBRANTOENS.
Instrumento do ceo, desceste ao Porto,
Corajoso mancebo, que desandas
Nos borlistas fataes sopapo ingente!
Oppresso longo tempo, ahi gemera
Nas entalas crueis d'um camarote
O misero assignante! Amargo calix
Em silencio tragava, ouvindo os passos
Do acerbo massador, impio borlista!
As notas de Rossini eram-lhe espinhos,
As fusas de Bellini eram-lhe fusos
Que o intimo das visceras lhe espetam!
E os duetos em
fá
do Machbet
Eram-lhe cantos de raivosas górgonas!
O ferro fez-lhe vêr visoens do inferno!
A propria Jeny-Lind se cantasse, Nesse palco, talvez, aos olhos d'elle
Não fosse mais gentil, que a
Cholera-morbus
[3]
É que a larva immortal do pesadello,
A sombra do borlista ergue-se impavida,
Synistra, nos umbraes do camarote!
Derreado e servil no corpo e alma,
Arrasta-se o borlista em cortesias,
Gagueja cumprimentos requentados,
Recebe em cada noute affrontas novas,
E, cynico, sorri, graceja sempre!
Mas cerram-se ao borlista os horisontes,
Apenas surges tu, Pedro-Eremita,
E aos povos um pregão de guerra envias!
De toda a parte bellicosa ferve
Raivosa indignação contra os
Bernardos
.
[4]
Aqui batata pôdre o povo ajunta,
Além prendem-se em páos bexigas tumidas,
E cebola grelada em grande escala
De Freixo de Numão o Porto importa.
Se no livro fatal d'altos destinos
Proscripta a extincção foi do borlista
Da borla a abolição a ti se deve,
De ti, visconde emana o nobre impulso!
Em nome dos sensiveis assignantes,
Recebe o galardão que o Porto envia
Ao caro filho seu que a patria salva
Do typho mais cruel--
typho-borlista!
[3] É uma cegonha, cousa duvidosa entre a forôa, e a giboia, que canta entre
as coristas.
[4] Quem não conhece o sr. Bernardo, digno Achiles do Barriense?