Folhas Caídas, Apanhadas na Lama

Camilo Castelo Branco · Capítulo 17 de 20

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Folhas Caídas, Apanhadas na Lama

Epistola

 

AO VISCONDE DE QUEBRANTOENS.

Instrumento do ceo, desceste ao Porto,

 

Corajoso mancebo, que desandas

 

Nos borlistas fataes sopapo ingente!

 

Oppresso longo tempo, ahi gemera

 

Nas entalas crueis d'um camarote

 

O misero assignante! Amargo calix

 

Em silencio tragava, ouvindo os passos

Do acerbo massador, impio borlista!

 

 

As notas de Rossini eram-lhe espinhos,

 

As fusas de Bellini eram-lhe fusos

 

Que o intimo das visceras lhe espetam!

 

E os duetos em

fá

do Machbet

 

Eram-lhe cantos de raivosas górgonas!

 

O ferro fez-lhe vêr visoens do inferno!

 

A propria Jeny-Lind se cantasse, Nesse palco, talvez, aos olhos d'elle

 

Não fosse mais gentil, que a

Cholera-morbus

[3]

 

É que a larva immortal do pesadello,

 

A sombra do borlista ergue-se impavida,

 

Synistra, nos umbraes do camarote!

 

Derreado e servil no corpo e alma,

 

Arrasta-se o borlista em cortesias,

 

Gagueja cumprimentos requentados,

 

Recebe em cada noute affrontas novas,

E, cynico, sorri, graceja sempre!

 

 

Mas cerram-se ao borlista os horisontes,

 

Apenas surges tu, Pedro-Eremita,

 

E aos povos um pregão de guerra envias!

 

De toda a parte bellicosa ferve

 

Raivosa indignação contra os

Bernardos

.

[4]

 

Aqui batata pôdre o povo ajunta,

 

Além prendem-se em páos bexigas tumidas,

E cebola grelada em grande escala

 

 

De Freixo de Numão o Porto importa.

 

Se no livro fatal d'altos destinos

 

Proscripta a extincção foi do borlista

 

Da borla a abolição a ti se deve,

 

De ti, visconde emana o nobre impulso!

 

Em nome dos sensiveis assignantes,

 

Recebe o galardão que o Porto envia

 

Ao caro filho seu que a patria salva

Do typho mais cruel--

 

typho-borlista!

[3] É uma cegonha, cousa duvidosa entre a forôa, e a giboia, que canta entre

as coristas.

[4] Quem não conhece o sr. Bernardo, digno Achiles do Barriense?