Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa · Capítulo 3 de 8 · parte 4/4

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Grande Sertão: Veredas

conforme aquela vermelha boca banguela toda abriu…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Vou reduzir o contar: o vão que os outros dias para mim foram, enquanto. Desde que da rede levantei, com aquele peso anoitecido, amanhecido nos olhos. Tempo de minha vazante. A ver como veja: tem sofrimento legal padecido, e mordido e remordido sofrimento; assim do mesmo que tem roubo sucedido e roubo roubado. Me entende? Dias que marquei: foram onze. Certo que a guerra ia indo. Demos um tiroteio mediano, uma escaramucinha e um meio-combate. Que isso merece que se conte? Miúdo e miúdo, caso o senhor quiser, dou descrição. Mas não anuncio valor. Vida, e guerra, é o que é: esses tontos movimentos, só o contrário do que assim não seja.

Mas, para mim, o que vale é o que está por baixo ou por cima –

o que parece longe e está perto, ou o que está perto e parece longe. Conto ao senhor é o que eu sei e o senhor não sabe; mas principal quero contar é o que eu não sei se sei, e que pode ser que o senhor saiba. Agora, o senhor exigindo querendo, está aqui que eu sirvo forte narração – dou o tampante, e o que for-de trinta combates. Tenho lembrança. Pelo tempo durado de cada fogo, se é capaz até do cálculo da quantidade de balas.

Contar? Do que se agüentou, de arvoados tiros, e a gente atirando a truz, no meio de pobre roça alheia, canavial cortante, eito de verde feliz ou palhada de milho morto, que se pisava e

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas quebrava. De vez em que rifle trauteava tanto, e eram os estalos passando, repassando, que, vai, se aconchava mão em orelha, sem saber por que, feita uma esperança de se conseguir milagre de algum barulhinho diverso outro, qualquer, que aquele não fosse, na ensurdescência. E quando toró de chuva deu bomba, desmanchando a função de briga e empapando todos, ensolvando as armas. De se olhar em frente o morro, sem desconfiança, e, de repente, do nu do morro, despejarem descarga. De um entrar em poço, atravessando, e mesmo com água quase até pelos peitos, ter de se virar em direção, e desfechar. De como, no prazo duma hora só, careci de ir me vendo escorando rifle e alvejando, em quentes, em beira de mato e campo, em virada de espigão, descendo e subindo ramal de ladeirinhas pequenas, e atrás de cerca, debaixo de cocho, trepado em jatobá e pequizeiro, deitado no azul duma laje grande, e rolando no bagaço doce de cana, e rebentando por dentro de uma casa. E de companheiro em sopas de sangue mais sujeira de suas tripas, lá dele, se abraçando com a gente, de mandado da dor, para morrer só mesmo, seja que amaldiçoando, em lei, toda mãe e todo pai. E como quando, no refervo, combatendo no dano da mormaceira, a raiva de fúria de repente igualava todos, nos mesmos urros e urros, uns e uns, contras e

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas contrários – chega se queria combinar de botar fora as armas-de-fogo, para o aproximaço de se avir em mãos às duras brancas, para se oferecer fim, oferecer faca. Isso é isto. Sobejidão. O

senhor mais queria saber? Não? Eu sabia que não. Menos mortandades. Aprecio uns assim feito o senhor-homem sagaz solerte.

Vir voltemos. Aqueles dias eu empurrei, mudando em raiva falsa a falta que Diadorim me fazia. Aí, curti amargos. Por me ver casca em chão, que é o figurado de desprezo, e mais tudo o que em ocasiões dessas se sente, conforme o senhor decerto conhece e sabe. Mas o pior era o que eu mesmo mais sentia: feito se do íntimo meu tivessem tirado o esteio-mor, pé-decasa. E, conforme sempre se dá, segundo se está assim em calibre de cão, e malquerente, repuxei idéias. Me alembrei do que tinha soprado em intriga o Antenor, e dei razão à cisma dele: quem sabe, mesmo, Joca Ramiro estava no propósito de deixar a gente se acabar ali, na má guerra, em sertão plano? E então Diadorim disso sabia, estava no enredo, agora tinha ido para junto de loca Ramiro – que era a única pessoa que ele bastantemente prezava?

Fiquei em mim desiludido, caí numa lazeira. Mas cuspi três vezes forte no chão, e risquei de mim Diadorim. Homem como eu não é todo capaz de guardar a parte de amor, em desde que recebe

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas muitas ofensas de desdém. Só que, depois, o que há, é a alma assim meio adoecida. Digo, fiquei lazo. Me veio de pensar em falar com o Antenor. Não fiz. Dúvidas dessas, eu não ia repartir com estranhas pessoas. E não gostei nunca de homem intrujão, com esses não começo conversa: não hio e não chio. Tanto que mesmo foi o Hermógenes que um dia me chamou, veio caçoando: – “Eh, valente tu é, Tatarana! Gosto dessa sua bizarria...”

– “S’as ordens, s’or...” – eu só falei. Porque, ele, pelo jeito, logo entendi que ia me fazer algum espontâneo obséquio, ou me dar alguma boa notícia; todo que um, assim, nessas horinhas, logo muda de modo: antes, aproveita um tico para falar de cima, jeitoso de dono bom ou de pai que cede. E foi que não errei. O

que o Hermógenes queria me prometer era que em breve iam estar acabados aqueles riscos de trabalho e combate, com liquidados os bebelos, e então a gente ficava livre para lidar melhormente, atacando bons lugares, em serviço para chefes políticos. E que, nessa ocasião, ele queria me escolher para comandar uma parte dos seus, por ser isso de minha rija competência – cabo-de-turma.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Tanto gabado elogio que não me mudou, não me fez.

Descarei. Experimentando o homem, só aproveitei foi para uma deixa: – “Joca Ramiro...” – eu disse, com uma risadazinha minha velhaca, que entre dois podia pegar qualquer incerto significado.

E me esperei. Mas o Hermógenes se saiu em só dizer, sério, confioso: que Joca Ramiro era maludo capitão, vero, no real.

Sonsice de Hermógenes? Não, senhor. Sei e vi, que o sincero.

Por que era que todos davam assim tantas honras a Joca Ramiro, esse louvo sereno, com doado? Isso meio me turvava. Mas, do Hermógenes, então, me atormentou sempre aquele meu receio, que eu carecia de pôr em raiva. Assim, por isso, falei em mim comigo: – “A ele nego água, na boca do pote!” Esconjurar desse jeito leve me trouxe sossego. Ao que eu carecia. Tanto mesmo que eu não queria ter de pensar naquele Hermógenes, e o pensamento nele sempre me vinha, ele figurando, eu cativo. Ser que pensava, amiúde, em ele ser carrasco, como tanto se dizia, senhor de todas as crueldades. No começo, aquilo me corria só os calafrios de horror, a idéia minha refugava. Mas, a pouco, peguei às vezes uma ponta de querer saber como tudo podia ser, eu imaginava. Digo ao senhor: se o demônio existisse, e o senhor visse, ah, o senhor não devia de, não convém espiar para esse,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas nem mi de minuto! – não pode, não deve-de! São se só as coisas se sendo por pretas – e a gente de olhos fechados.

Ao tanto com o esforço meu, em esquecer Diadorim, digo que me dava entrante uma tristeza no geral, um prazo de cansado. Mas eu não meditava para trás, não esbarrava. Aquilo era a tristonha travessia, pois então era preciso. Água de rio que arrasta. Dias que durasse, durasse; até meses. Agora, eu não me importava. Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor – quanta saudade... ; aí, outra esperança já vem... Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha, que tiro por tino. Ah, o que eu prezava de ter era essa instrução do senhor, que dá rumo para se estudar dessas matérias...

Daí, eu caçava o jeito de me espairecer, junto com todos.

Conversas com o Catocho, com Jõe Bexiguento, com o Vove, com o Feijó – de mais sisudez – ou com Umbelino – o de cara de gato. Se ria, fora de aperreio de combate muito se vadiava.

Assim-assei, naquela influição. Vinha ordem, então a gente se

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas reunia em bando grande, depois tornava a em grupozinhos se apartar. A guerra era a igual. E ali dava de se sentir o faltoso e o imperfeito, como no mais acontece, em quantidade maior. O

São Francisco não é turvo sempre? E o que se falava mais era em mulher? Isso fazia muito boa falta. Cada um queria delas, no que só pensava. As mocinhas próprias de se provar, ou rua alegre cheia de alegria – o bom sempre melhor, o bom. Amigo meu, o Umbelino – esse que dizia: que, por não ter mulher ali, se tinha de muito lembrar. Ele era do Rio Sirubim, de um lugar para trás das cachoeiras. Valia como companheiro, capaz d’armas. Que que pequeno, era bom. Relembrava: – “Já tive uma mulher amigável só minha, na Rua-do-Alecrim, em São Romão, e outra, mais, na Rua-do-Fogo...” Essas conversas, com o calor. Calor em que cão pendura a língua, o senhor sabe. Já viu, por aí? Em Januária ou São Francisco, tinha estação de tempo em que não se podia deixar um ovo guardado: com umas duas ou três horas, já se estragava. Todos contavam estórias de raparigas que tinham sido simples somente; essas senvergonhagens. Mas, de noite – é de crer? – a gente sabia dos que queriam qualquer reles suficiente consolo. E eram brabos sarados guerreiros, que nunca noutro ar. Coisas. Canta que cantavam, de dia, nenhum sabia pé-de-verso direito, ou não queriam ensinar, era só aquela

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas invenção, e cantando fanhoso no nariz. Ou ficavam dizendo graças e ditérios. Nem feito meninos não sendo. Por esse sem-quefazer, a gente ainda mais comia, quase que por divertimento.

Os uns iam torar palmito, colher mandioca em mandiocalzinho sem dono, dono tinha fugido longe. Gostei de favas do mato, muito murici, quixaba e jaca. O Fonfredo tinha um blilbloquê, a gente brincava de jogar. Tudo jogado a dinheiro baixo. Os espertos, teve quem pôs a jogo até bentinho de pescoço, sem dizer desrespeito. E faziam negócio desses breves, contado que alguns arrumavam até escapulários falsos. Deus perdoa? O

senhor podia perguntar: Deus, para qualquer um jagunço, sendo um inconstante patrão, que às vezes regia ajuda, mas, outras horas, sem espécie nenhuma, desandava de lá – proteção se acabou, e – pronto: marretava! Que rezavam. Jõe Bexiguento, mesmo, quis que diversos tomassem parte em novena, numa mal rezada novena, a santo de sua redobrada tenção, e a qual ele nem teve persistência para nos dias medidos completar.

E – mas – o Hermógenes? Sobreveja o senhor o meu descrever: ele vinha por ali, à refalsa, socapa de se rir e se divertir no meio dos outros, sem a soberba, sendo em sendo o raposo meco. Naqueles dias ele andava de pé-no-chão, mais com uma calça apertada nas canelas e encurtada, e mesmo muito

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas esmolambado na camisa. Até que de barba grande, parecia um pedidor. E caminhava com os largos passos, mais o muito nas pontas, vinha e ia com um sorrizinho besteante, rodeava por toda a parte. Nem eu no achar mais que ele era o ferrabrás? O que parecia, era que assim estivesse o tempo todo produzindo alguma tramóia.

Estudei uma dúvida. Ao que será que seria o ser daquele homem, tudo? Algum tinha referido que ele era casado, com mulher e filhos. Como podia? Ai-de vai, meu pensamento constante querendo entender a natureza dele, virada diferente de todas, a inocência daquela maldade. A qual que me aluava. O

Hermógenes, numa casa, em certo lugar, com sua mulher, ele fazia festas em suas crianças pequenas, dava conselho, dava ensino. Daí, saía. Feito lobisomem? Adiante de quem, atrás do quê? A cruz o senhor faça, meu senhor! Aí eu acreditei que tivesse de haver mesmo o inferno, um inferno; precisava. E o demônio seria: o inteiro, louco, o doido completo – assim irremediável.

Ah, me aluei? O Hermógenes, esquipático, diverso.

Comigo eu começava numa espécie, o ror, vontade de ir para perto, reparar em tudo que fazia, dele escutar suas causas. Aos

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas poucos, o incutido do incerto me acostumando, eu não tirava isso da cabeça. O Hermógenes – ele dava a pena, dava medo.

Mas, ora vez, eu pressentia: que do demônio não se pode ter pena, nenhuma, e a razão está aí. O demônio esbarra manso mansinho, se fazendo de apeado, tanto tristonho, e, o senhor pára próximo – aí então ele desanda em pulos e prezares de dança, falando grosso, querendo abraçar e grossas caretas –

boca alargada. Porque ele é – é doido sem cura. Todo perigo. E, naqueles dias, eu estava também muito confuso.

– “Será, o Hermógenes também gosta de mulheres?” – eu careci de saber, perguntei. – “Eh. Apreceia não. Só se não gosta...” – um disse. – “Quá. Acho que ele gosta demais é só nem dele mesmo, demais, demais...” – algum outro atalhou. Que ele era assim – eu fiquei em pausas –: e os companheiros todos sabiam do ser; e achavam então que ato assim era possível natural?! Como que não achavam? Até, por eu ter o assunto, já um vinha: – “Daqui a seis léguas, é a baixada do Brejinho – lá tem logradouro. Tem fêmeas...” Esse que disse era o Dute, me parece; ou foi outro. Mas o Catocho desafirmou: que tinha estado lá, não viu ar de mulher-davida nenhuma, só uma vendinha de roça e uma velha pitando cachimbo, no batente duma porta, pitando cachimbo e trançando peneiras. Que que-

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas riam mulheres principalmente a fim, estava certo; eu também. Eu queria, com as faces do corpo, mas também com entender um carinho e melhorrespeito – sempre a essas do mel eu dei louvor de meu agradecimento. Renego não, o que me é de doces usos: graças a Deus toda a vida tive estima a toda meretriz, mulheres que são as mais nossas irmãs, a gente precisa melhor delas, dessas belas bondades. Mas o Lindorífico lembrava um pagode, em algum ao lugarejo, para baixo de lá: do que batucavam, o pro-puxado das sanfonas, cachaça muita, as mulheres vinham dar umbigadas, tiravam a roupa, cavalheiros levavam damas nas moitas, no escuro do sebo; outros desafiavam outros para brigar.

Para quê? Por que não gozar o geral, mas com educação, sem as desordens? Saber aquilo me entristecia. Tem coisas que não são de ruindade em si, mas danam, porque é ao caso de virarem, feito o que não é feito. Feito a garapa que se azeda. Viver é muito perigoso, já disse ao senhor. No mais, mal me lembro, mas sei que, naqueles dias, eu estive muito maltrapilho. Em que era que eu podia achar graça? De manhã, quando eu acordava, sempre supria raiva. Um me disse que eu estava estando verde, má cara de doença – e que devia de ser de figado. Pode que seja, tenha sido. O Paspe, que cozinhava, cozinhou para mim os chás: o de

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas macela, o de erva-doce, o de losna. Oi. Dor, mesmo, nenhuma eu não tinha. Somente perrengueava.

Do que de uma feita, por me valer, eu entendi o casco de uma coisa. Que, quando eu estava assim, cada de-manhã, com raiva de uma pessoa, bastava eu mudar querendo pensar em outra, para passar a ter raiva dessa outra, também, igualzinho, soflagrante. E todas as pessoas, seguidas, que meu pensamento ia pegando, eu ia sentindo ódio delas, uma por uma, do mesmo jeito, ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras horas delas nunca tivesse tido quizília nem queixa. Mas o sarro do pensamento alterava as lembranças, e eu ficava achando que, o que um dia tivessem falado, seria por me ofender, e punha significado de culpa em todas as conversas e ações. O senhor me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava em mim, produzida, era minha sem outro dono, como coisa solta e cega. As pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar nelas. Hoje, que enfim eu medito mais nessa agenciação encoberta da vida, fico me indagando: será que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. O

senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto –

inteligência só. Entendi. Cumpri. Digo: reniti, fazendo finca-pé, em força para não esparramar raivas. Lembro que naquela manhã também o calor era menos, e o ar era bondoso. Aí eu à paz –

com vontade de alegria – como se estimasse recebendo um aviso.

Demorei bom estado, sozinho, em beira d’água, escutei o fife dum pássaro: sabiá ou saci. De repente, dei fé, e avistei: era Diadorim que chegando, ele já parava perto de mim.

Ele mesmo me disse, com o sorriso sentido:

– “Como passou, Riobaldo? Não está contente por me ver?”

A boa surpresa, Diadorim vindo feito um milagre alvo. Ao que, pela pancada do meu coração. Aí, mas um resto de dúvida: a inteira dúvida, que me embaraçava real, em a minha satisfação.

Eu era o que tinha, ele o que devia. Retente, então, permaneci; não fiz mostra nenhuma. Esperei as primeiras palavras dele. Mais falasse; retardei, limpei a goela.

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– “A pois. Por onde andou, se mal pergunto?” – aí falei.

Aquela amizade pontual, escolhida para toda a vida, dita a minha nos grandes olhos, ele pronunciando:

– “Você também não está bom de saúde, Riobaldo, estou vendo. Você derradeiramente não tem passado bem?”

– “Vivendo minha sorte, com lutas e guerras!”

Ao que Diadorim me deu a mão, que malamal aceitei. E ele disse de contar. Segundo tinha procurado aqueles dias sozinho, recolhido nas brenhas, para se tratar dum ferimento, tiro que pegara na perna dele, perto do joelho, sido só de raspão. Menos entendi. A real que estando ofendido, por que era que não havia de vir para o meio da gente, para receber ajuda e ter melhor cura?

Doente não foge para um recanto, ou mato, solitário consigo, feito bicho faz. Aquilo podia não ser verdade? Afiguro, aí bem que criei suspeitas: aonde Diadorim não teria andado ido, e que feia ação para aprontar, com parte na fingida estória? As incertezas que tive, que não tive. Assaz ele falava assim afetuoso, tão sem outras asas; e os olhos, de ver e de mostrar, de querer bem, não consentiam de quadrar nenhum disfarce. Magro ele estava, quasso, empalidecido muito, até ainda um pouco man-

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas cava. Que vida penosa não era capaz de ter levado, tantos dias, sem o auxílio de ninguém, tratando o machucado com emplastros de raízes e folhas, comendo o quê? Assunto de fome e toda sorte de míngua devia de ter penado. E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei – daí então acreditei. A pois, o que sempre não é assim?

Além do que era sazão de sentimento sereno: arte que a vida mais regateia. A vida não dá demora em nada. Nos seguintes, logo tornamos para tornar em guerra, com assanhamentos. De formas que perdi o semelhar de tantos manejos e movimentos e a certa razão das ordens que a gente cumpria. Mas fui me endurecendo às pressas, no fazer meu particípio de jagunço, fiquei caminhadiço. Agora eu tinha Diadorim assim perto de afeto, o que ainda valia mais no meio desses perigos de fato. Sendo que a sorte também prevalecia do nosso lado, aí vi: a morte é para os que morrem. Será?

Ao que, com João Goanhá de testa-chefe, saímos, uns cinqüenta, pegar uma tropa de cargueiros dos bebelos, que vinham ao descuidado, de noite, no Bento-Pedro – lugar num

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas braço de brejo, arrozal. Surpreender custou barato, bobearam as sentinelas, sem se haver um grito-de-armas, foi só pôr em fugida.

Aquela carga era enorme, maior em dobro, uma riqueza – tinha de tudo, até cachaça de pago imposto: as caixas de quarenta-e-oito garrafas cada. Ao tanto levamos os lotes de burros para esconder no Capão dos Ossos, onde tem carrascais e caminhos de caatinga pobre, com lagoas secando: as ipueiras verdolengas.

Daí, tivemos mando, no Poço-Triste, de tornar a amontar nos animais. Aquilo era uma alegria. Minha alma estava: o troteio, a poeirada que levantavam, os cavalos que rinchavam bem. Acinte bebi água de de-dentro dum gravatá em flor. Aquelas aranhas grandes armavam de árvore para árvore velhices de teia. Parecia que a guerra já tinha se terminado bem. – “Berimbau!” – um disse – “Agora é gozar gozo...” Mas. – “Ah, e Zé Bebelo?” –

perguntei. Um Federico Xexéu, que vinha de recado, botava o fácil desânimo: – “Ih! Zé Bebel’? Evém ele, com gentes de nuvens gentes...” A desléguas, se guerreava. A gente recebia a noticia. Aí – cavalaria chusma, arruá que chegando, aos estropes, terras arribavam: – “Eta, é?!” Sendo que era não. Só era Só Candèlário, de repente. Apareceu, com aqueles muitos homens.

Sus, esbarrou o cavalo tão de repente, que o corpo dele se encurtou pela metade. Só Candelário. Esse era alto, trigueiro azul,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas quase preto, com bigode amarelecido. Homem forçoso, homem de fúria. Mandou que mandava. Em hora de fogo, pulava à frente de todos, bramava o burro. Tomou a chefia geral, debaixo dele o Hermógenes parecia um diabo coitado. Só Candelário era o para enfrentar Zé Bebelo. Salvante que seria para tudo. Se apeou, ficou um demorado tempo de costas para a gente.

Saudei o Fafafa, que era homem também dele: com os de Só Candelário, o Alaripe e o Fafafa tinham outra vez aparecido.

O Fafafa, o que ele pois então me falou, numa ocasião terrível...

Ah, mas o que eu antes não contei: o do preso. Antes, como foi que se passou, como estávamos em bons escondidos, em volta da casa dum sitiante, no Timba-Tuvaca, casa caiada, casa-de-telhas. Uns em grota, uns em altos de árvores, tinha gente até dentro de chiqueiro, na lama dos porcos. Aí chegaram os bebelos

– uns trinta? Tiroteamos na suspensão deles, os quantos que matamos, matamos, os mais fugiram sem após. Um ficou preso.

Nem tinha nenhum ferimento. – “Que é que vão fazer com ele?”

– eu perguntei. Será que iam matar? – “É verdade, acho que sim.

Pois, amigo, a gente tem lá meios para guardar prisioneiro vivo?

Se degola é da banda da direita para a esquerda...” – o que o Fafafa me respondendo. No que dizia, ele tinha razão. Mas, quem seria que ia cumprir de dar o fim n’aquele pobre moço? O

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Hermógenes? Decerto era ele. Cocei os olhos, eu queria saber e não saber. Sabia nem o nome, como se chamava o rapaz, que ia morrer, assim no meio de toda boa ordem, por necessidade nossa

– porque, se solto, ele tornava a se juntar com os outros, dar relatórios. Vim para a beira do córrego. Vendo como levavam o rapaz, como ele caminhava normal, seguindo para aquilo com seus dois pés. Essa injustiça não podia ser! Assim, os que passavam, depois, que decerto iam para matar, eram outros, não vi o Hermógenes. Um, um Adílcio, com vaidade de ser capaz da maldade qualquer, pavão de penas. O outro, Luís Pajeú.

Imaginado, a que iam matar o homem, lá nas primeiras árvores da capoeira, assim. Ânsia de dó, apalpei o nó na goela, ardi.

Aquilo fosse sonho mero, então só sonho; ou, não fosse, então eu carecia de uma realidade no real, sem divago! Ajoelhei na beirada, debrucei, bebi água com encostando a boca, com a cara, feito um cachorro, um cavalo. A sede não passava, minha barriga devia de estar inchada, igual a de um sapo, igual um saco de todo tamanho. A umas cem braças para cima, onde o córrego atravessava a capoeira, estavam esfaqueando o rapaz, e eu espiava para a água, esperando ver vir misturado o sangue vermelho dele – e que eu não era capaz de deixar de beber. Acho que eu estava com uma febre.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Aquele grande gritar, de se estremecer. Diadorim me puxou. Só Candelário subido em sela, aforçurado regendo: a pronto ele queria o punhadão de homens, se ia para o É-Já, p’ra lá do Bró, em todo o seguir. – “Vamos, Riobaldo! É para se esperar Joca Ramiro...” Assim Diadorim me empurrou. Montei.

Sem tento, pisei um estribo, o outro o meu pé não achava. –

“Tocar ligeiro, Riobaldo!” – Diadorim me atanazando. Aquilo que lavorava em minha cabeça – ah, mas, aí, quem é que eu vi?

O rapaz, aquele, o preso, vivo e exato. Também montado num cavalo. Assim o que me contaram: que não ia morrer, não, iam matar não, Só Candelário tinha favorecido perdão a ele, por causa de sua mocidade. – “Ele é baiano, para a Bahia volta, vamos levar mais adiante, para se soltar, para lá...” Me alegrei de estrelas. Conforme mais me deram explicação, aquele não oferecia perigo mais de tornar a se juntar com os outros bebelos e vir outra vez de armas contra a gente: porque se tinha providenciado de rezar nele uma reza de tirar a coragem de guerra, feito ato, mandraca de se abobar! Tudo tinha graça. Mas, e o Luís Pajeú e o Adílcio, então, do modo que vi? Pois, esses passaram com as facas-de-arrasto, mas porque iam ajudar a retalhar o porco, porção que se levava, dali, em carne e toucinhos. Ah, eu tinha bebido àtoa gorgol d’água. Se deu

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas galope. Me pareceu que daí adiante, a partir disso, o tudo era para só ser a desatinada doidice. Só Candelário galopava em frente de todos. Se ia – feito o rei dos ventos.

O lugar onde esbarramos, no É-Já, era logo depois da ponte de pau, que estando esburacada: atravessamos mais embaixo, mau vau, por espirro de águas e escorrego em lisas pedras soltadas, no ribeirão lajeal. Ter, lá, ainda não tinha ninguém; até me deu desengano. Mas tudo, no redor, era verde capim em beira fresca, aguada e pastos bons. Atrevi que quis: –

“E Joca Ramiro?” Mas Diadorim se compôs: – “Agora, aqui, Riobaldo, é o ponto: inimigo vindo, morremos; mas nem um bebelo não tem licença quieta de passar!” Diadorim a tanto impante, eu debiquei: – “Ah, me importa! Não é o que é se ver Joca Ramiro? Pois eu estou vendo.” – “Rezinga não, Riobaldo. A horas destas, Joca Ramiro deve de estar investindo aqueles, e tudo destralhado vencendo...” – foi o que ele perfez. Atrás disso, eu em ojeriza: – “Você sabe, hem, sabe. Os grandes segredos...”

– fui falei. Mas, em passos desses, Diadorim sempre me apeava.

Como o que reprovou: – “Sei de nada. Sei o que você pode saber também, Riobaldo. Mas conheço Joca Ramiro, sozinho que pensa as partes. Conheço Só Candelário – que só comparece é em fecho de forte decisão...”

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Ao que era. Nos dias em que tivemos de montar guarda nos lajeiros e lajeados, aprendi os rasgos daquele homem. Só Candelário – como vou explicar ao senhor? Ele era um. Acho que nem dormia, comia o nada, nada, às pressas, pitava o tempo todo. E olhava para os horizontes, sem paciência neles, parecia querer mesmo: guerra, a guerra, muita guerra. Donde ele era, donde vindo? Me disseram: desses desertos da Bahia. Passava, não me olhava. Ocasião, então, Diadorim a ele me mostrou: –

“Este é o meu amigo Riobaldo, chefe...” Aí, Só Candelário me divisou, sempre me viu. Rir sorrir ele não sabia – mas sossegava um modo nos olhos, que tomavam um sério bom, por um seu instante, apagando de serem aqueles olhos encarniçados: e isso figurava de ser um riso. Que conhecia Diadorim, e prezando muito, desde vi. – “Riobaldo, Tatarana, eu sei...” – ele falou –

“Tu atira bem, tem o adestro d’armas...” E foi andando; acho que dele ainda ouvi: ...”amizade nas festas...”? Conseguia nem ficar parado. E, por um ponto ou outro, que eu não divulguei bem, ele tinha algum estilo de ar de parecença com o próprio Zé Bebelo.

Mas o Alaripe foi que me contou, uma coisa que todos sabiam e nela falavam. Que Só Candelário caçava era a morte. E

bebia, quase constantemente, sua forte cachaça. Por quê? Digo ao senhor: ele tinha medo de estar com o mal-de-lázaro. Pai dele

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas tinha adoecido disso, e os irmãos dele também, depois e depois, os que eram mais velhos. Lepra – mais não se diz: ai é que o homem lambe a maldição de castigo. Castigo, de quê? Disso é que decerto sucedia um ódio em Só Candelário. Vivia em fogo de idéia. Lepra demora tempos, retardada no corpo, de repente é que se brota; em qualquer hora, aquilo podia variar de aparecer.

Só Candelário tinha um sestro: não esbarrava de arregaçar a camisa, espiar seus braços, a ponta do cotovelo, coçava a pele, de em sangue se arranhar. E carregava espelhinho na algibeira, nele furtava sempre uma olhada. Danado de tudo. A gente sabia que ele tomava certos remédios – acordava com o propor da aurora, o primeiro, bebia a triaga e saía para lavar o corpo, em poço, para a beira do córrego ia indo, nu, nu, feito perna de jaburu. Aos dava. Hoje, que penso, de todas as pessoas Só Candelário é o que mais entendo. As favas fora, ele perseguia o morrer, por conta futura da lepra; e, no mesmo do tempo, do mesmo jeito, forcejava por se sarar. Sendo que queria morrer, só dava resultado que mandava mortes, e matava. Doido, era? Quem não é, mesmo eu ou o senhor? Mas, aquele homem, eu estimava.

Porque, ao menos, ele, possuía o sabido motivo.

Tanto que o inimigo não dava de vir, pois bem, a gente ficava em nervosias. Alguns, não. Feito aquele Luzié, que cantava

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas sem mágoas, cigarra de entre-chuvas. Às vezes, pedi que ele cantasse para mim os versos, os que eu não esqueci nunca, formal, a canção de Siruiz. Adiantes versos. E, quando ouvindo, eu tinha vontade de brincar com eles. Minha mãe, ela era que podia ter cantado para mim aquilo. A brandura de botar para se esquecer uma porção de coisas – as bestas coisas em que a gente no fazer e no nem pensar vive preso, só por precisão, mas sem fidalguia. Diadorim, quando cuidava que sozinho estivesse, cantarolava, fio que com boa voz. Mas, próximo da gente, nunca que ele queria. A ver que também fiquei sabendo que os outros não consideravam naqueles versos de Siruiz a beleza que eu achava. Nem Diadorim, mesmo. – “Você tem saudade de seu tempo de menino, Riobaldo?” – ele me perguntou, quando eu estava explicando o que era o meu sentir. Nem não. Tinha saudade nenhuma. O que eu queria era ser menino, mas agora, naquela hora, se eu pudesse possível. Por certo que eu já estava crespo da confusão de todos. Em desde aquele tempo, eu já achava que a vida da gente vai em erros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. Vida devia de ser como na sala do teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Ao do jeito de Só Candelário? Esse variava raja. – “Arre, que vê, estamos sem noticias, não sei... A notícia, a gente tem de ir por ela, mesmo entrar no mundo para se buscar!” – isso Só Candelário quase exclamava. Mandou três homens que saíssem a cavalo, estrada avante, até a uma légua, colher do que houvesse, espiar os espias. Me mandou, também. Mas, a bem dizer, fui eu quem quis: na hora, à frente dei o passo, olhei muito para ele, encarado. – “Tu Tatarana, vai...” Quando ele falava Tatarana, eu assumia que ele estava sério prezando minha valia de atirador.

Montei, fui trotando travado. Diadorim e o Caçanje iam já mais longe, regulado umas duzentas braças. Arte que perceberam que eu vinha, se viraram nas selas. Diadorim levantou o braço, bateu mão. Eu ia estugar, esporeei, queria um meio-galope, para logo alcançar os dois. Mas, aí, meu cavalo filosofou: refugou baixo e refugou alto, se puxando para a beira da mão esquerda da estrada, por pouco não deu comigo no chão. E o que era, que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orelhas dele. Do vento. Do vento que vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos. O quando um esbarra com outro, e se enrolam, o doido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramaredo quebrado, no

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas estalar de pios assovios, se torcendo turvo, esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o ró-ró. A gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante, por me esperar chegar. – “Redemonho!” – o Caçanje falou, esconjurando. – “Vento que enviesa, que vinga da banda do mar...” – Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d’Ele – do diabo. O demônio se vertia ali, dentro viajava. Estive dando risada. O demo! Digo ao senhor. Na hora, não ri? Pensei. O que pensei: o diabo, na rua, rio meio do redemunho... Acho o mais terrível da minha vida, ditado nessas palavras, que o senhor nunca deve de renovar. Mas, me escute. A gente vamos chegar lá. E até o Caçanje e Diadorim se riram também. Aí, tocamos.

Até à barra dos dois riachos, onde tem a cachoeira de escadinhas. Nem pensei mais no redemoinho de vento, nem no dono dele – que se diz – morador dentro, que viaja, o Sujo: o que aceita as más palavras e pensamentos da gente, e que completa tudo em obra; o que a gente pode ver em folha dum espelho preto; o Ocultador. Ao então, chegamos na barra dos riachinhos, na cachoeira; ficamos lá até o sol entrar. Como é que se podia trazer notícias, para Só Candelário? Notícia é coisa que se tira, a desejo, do fim do sol? Lá tinha um capão-de-mato. Ou

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas era mata, muito velha. Os coatis desciam espirrando, de sua sesta deles, nas árvores, e os jacus voavam para outras árvores, se empoleirando para o sono da noite, com um escarcéu de galinheiro. Tristeza é notícia? Tanto eu tinha um aperto de desânimo de sina, vontade de morar em cidade grande. Mas que cidade mesma grande nenhuma eu não conhecia, digo. Assim eu aproveitei para olhar para a banda de donde ainda se praz qualquer luz da tarde. Me lembro do espaço, pensamentos em minha cabeça. O riacho cão, lambendo o que viesse. O coqueiro se mesmando. A fantasia, minha agora, nesta conversa – o senhor me atalhe. Se não, o senhor me diga: preto é preto?

branco é . branco? Ou: quando é que a velhice começa, surgindo de dentro da mocidade. Noitezinha, viemos. Primeira coruja que a ãoar, eu era capaz de acertar nela um tiro.

Mas Só Candelário não era tolo nas meças. No outro dia, notícias tivemos. E que! Dali a lá, as notícias todas andaram de vir, em lote e réstia. Um Sucivre, que fino chegou, esgalopado.

Disse: – “Nhô Ricardão deu fogo, no Ribeirão do Veado. Titão Passos pegou trinta e tantos deles, num bom combate, no esporão da serra...” Os bebelos se desabelhavam zuretas, debaixo de fatos machos e zuo de balas. A tanto, a gente em festa se alegrava Só Candelário subiu no jirau de varas-que tinha

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mandado fazer, nele era que dormia sem repousar – e assim espiou esquecido tempo, espiava as paradas distâncias, feito um gavião querendo partir em vôo. Agora, era a guerra, mesmo, estariam rompendo as aleluias, lá por lá. Donde, daí, veio o Adalgizo: – “Seô Hermógenes passou, obra de seis léguas, vai dar combate...” Nossa hora de fogo estava perto. Assim os bebelos tinham de passar de fugida por ali no É-Já, resvés. Só Candelário chega exclamava, chorava: dizia que nunca tinha chefiado pessoal tão valente feito nós, com tantas capacidades.

E queria, logo, logo, o inimigo vindo. Todas as horas tocaiadas; e de noite com um olho só se ia dormir, que das armas não se largava. A redobrar as sentinelas, em ave-marias e alvorada.

Combate vem é feito raio cai. Tudo era alarme dado, cuquiada: um pontapé em tição, o punhado de terra jogado para apagar as fogueiras, de repente, e se assobiava cruzado. Vez, deram até tiros: mas nada não era, só um boi loango, com muita fome e pouco sono, que veio sozinho pastando e deu a cara comprida, ali foras d’hora, no capinzal bom. – “Tudo que é estúrdio comparece em tempo de guerra... Vote, vais!” – algum disse. E

teve gente que se riu disso, até à beira da madrugada. Daquilo tudo eu gostei, gostava cada dia mais. Fui aprendendo a achar graça no dessossego. Aprendi a medir a noite em meus dedos.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Achei que em qualquer hora eu podia ter coragem. Isso que vem, de mansinho, com uma risada boa, cachaça aos goles, dormida com a gente encostado em coronha de sua arma. O que carece é acompanheiragem de todos no simples, assim irmãos.

Diadorim e eu, a sombra da gente uma só uma formava.

Amizade, na lei dela. Como a gente estava, estava bem. Só Candelário era o chefe ao meu gosto, como eu imaginava. Ah, e Joca Ramiro?

Antes foi uma coisa acontecida repentina: aquele alvoroço, na cavalhada geral. Aí o mundo de homens anunciando de si e sobre o vasto chegando, da banda do Norte. Joca Ramiro! –

“Doca Ramiro!” – se gritava. Só Candelário pulou em sela, assim como ele sempre era: mola de aço. Deu um galope, em encontro. Nós todos, de começo, ficamos atarantados. Vi um sol de alegria tanta, nos olhos de Diadorim, até me apoquentou.

Eu tinha ciúme? – “Riobaldo, tu vai ver como ele é!” –

Diadorim exclamou, se abraçou comigo. Parecia uma criança pequena, naquela bela resumida satisfação. Como era que eu ia poder raivar com aquilo? E, no abre-vento, a toda cavaleirama chegando, empiquetados, com ferragem de cascos no pedregulho. Eram de ser uns duzentos, quase tudo manos-velhos baianos, gente nova trazida. Gritavam vivas para a gente,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas saudavam. E Joca Ramiro. A figura dele. Era ele, num cavalo branco – cavalo que me olha de todos os altos. Numa sela bordada, de Jequié, em lavores de preto-e-branco. As rédeas bonitas, grossas, não sei de que trançado. E ele era um homem de largos ombros, a cara grande, corada muito, aqueles olhos.

Como é que vou dizer ao senhor? Os cabelos pretos, anelados?

O chapéu bonito? Ele era um homem. Liso bonito. Nem tinha mais outra coisa em que se reparar. A gente olhava, sem pousar os olhos. A gente tinha até medo de que, com tanta aspereza da vida, do serão, machucasse aquele homem maior, ferisse, cortasse. E, quando ele saía, o que ficava mais, na gente, como agrado em lembrança, era a voz. Uma voz sem pingo de dúvida, nem tristeza. Uma voz que continuava.

Sobre o no meio daquele rebuliço, menos colhi de ver e de escutar. Os chefes tinham apeado dos cavalos, e os homens, todos, em balbúrdia com sensatez. Só Candelário não arredava pé de Joca Ramiro, e explicava as diversas coisas, com grandes gestos, quase ele não dava conta de se falar. A demora era pouca. Aí o forte bando tinha de se aluir para adiante, em redobro de marcha – iam para ferrar fogo, em lugar e hora determinados – semelhante se soube. Tempo de beberem um café. Mas Joca Ramiro veio de lá, em alargados vagarosos

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas passos, queria correr o acampamento, saudar um e outro, a palavrinha que fosse, um dito de apreço e apraz. O andar dele-vi certo: alteado e imponente, como o de ninguém. Diadorim olhava; e também tinha lágrimas vindo por caso. Decidido, deu um à-frente, pegou a mão de Joca Ramiro, beijou. Joca Ramiro, que firme contemplando, só um instante, seja, mas o docemente achável, com um calor diferente de amizade. A quantia que ele gostava de Diadorim! – e pousou nas costas dele um abraço. Ao que, se virou para nós, que estávamos. E eu fiz como Diadorim