Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa · Capítulo 3 de 8 · parte 3/4

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Grande Sertão: Veredas

conforme aquela vermelha boca banguela toda abriu…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Eu ia matar gente humana. Dali a pouco, o madrugar clareava, eu tinha de ver o dia vindo. Como era o Hermógenes?

Como vou dizer ao senhor..? Bem, em bró de fantasia: ele grosso misturado – dum cavalo e duma jibóia... Ou um cachorro grande. Eu tinha de obedecer a ele, fazer o que mandasse.

Mandava matar. Meu querer não correspondia ali, por conta nenhuma. Eu nem conhecia aqueles inimigos, tinha raiva nenhuma deles. Pessoal de Zé Bebelo, povo reunido na beira do Jequitaí, por ganhar seu dinheirinho fiel, feito tropa de soldo.

Quantos não iam morrer por minha mão? Andante que perpassou um vento, entre ele o crico de grilos e tantos bichinhos divagados. Assaz, a noite, com sombras vermelhas. O

exemplar da morte, dessa, é que é num átimo, tão ligeira, tão direitinha. As coisas que eu nem queria pensar, mas pensava mais, elas vinham. Vezo de falar do Geraldo Pedro, que disse: –

“Aquele? Hoje ele não existe mais, virou sombração... Matei...”

E o Catocho, contando doutro: – “... Lá tem uns órfãos meus, lá

... Tive de matar o pai deles...” Por que era que falavam essas perversidades... Por que é que falavam... Por que era que eu

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas tinha de obedecer ao Hermógenes? Ainda estava em tempo: se eu quisesse, sacanhava meu revólver, gastava nele um breve tiro, bem certo, e corria, ladeira abaixo, às voltas, caçava de meu sumir nesse vai-te-mundo. Ah, nada: então, aí mesmo era que o fogo feio começava, por todas as partes, de todo jeito morresse muita gente, primeiro de todos morria eu. Mesmo estava sem remédio. O Hermógenes mandava em mim. Que que quer, ele era mais forte! Pensei em Diadorim. O que eu tinha de querer era que nós dois saissemos sobrados com vida, desses todos combates, acabasse a guerra, nós dois largávamos a jagunçada, íamos embora, para os altos Gerais tão ditos, viver em grande persistência. Agora, aqueles outros, os contrários, não estavam também com poder de me matar? À asneira. E eu ia, numa madrugadinha, a cavalo, por uma estrada de areia branca, no Buriti-do-Á, beira de vereda, emparelhado com um capiauzinho bondoso, companheiro qualquer, a gente ria, conversava de tantas miúdas coisas, sem maldade, se pitava, eu ia levando meio saco de milho na garupa, ia para um moinho, para uma fazenda, para berganhar o milho por fubá... – sonhos que pensava. À fé: aqueles zebebelos também não tinham varado o Norte para destruir gente? E pois?! O que tivesse de ser, somente sendo. Não era nem o Hermógenes, era um estado de lei, nem dele não era,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas eu cumpria, todos cumpriam. “Vou para os Gerais! Vou para os Gerais!” – eu dizia, me dizia. Numa minha perna, então torci o de dar cãibra. Depois, tirei a dureza dos dedos. A ver, Diadorim, a gente ia indo, nós dois, a cavalo, o campo cheirava, dez metros de chão de flor. Por que que eu ia ter pena dos outros? Algum tinha pena de mim...? Cabeça de homem é fraca, repensava. O

que se carecia justo de fazer era acabar logo com a guerra, acabar com aqueles zebebelos. Pensar em Diadorim, era o que me dava cordura de paz. Ah, digo ao senhor: dessa noite não me esqueço. Posso? Aos poucos, fui ficando soporado, nem bom nem ruim. Matar, matar, que que me importava? Dessa noite esquecer não posso. Garoou, para a aurora.

Como clareia: é aos golpes, no céu, a escuridão puxada aos movimentos. A gente estava de costas para as barras do dia. Me lembro do que me lembro: o Hermógenes cruzou, adiante, chato no chão, relando barriga em macio. Aquele homem era danado de tigre, estava cochichando na cabeça do Garanço, depois com o Montesclarense – mostrava a eles os lugares em que deviam-de. Arre, voltou para perto de mim, agora veio da outra banda. Disse: – “Tento, Riobaldo...” Eu vi quando o Garanço rojou, indo, indo, pegou postura na proteção dum cupim grande; obra de cinco metros para a minha frente,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas pouquinho para esta banda da esquerda. No não longe, rumo a rumo, divulguei o Montesclarense. Eu ainda mudei distância de uns passos: aproveitei tapação duma árvore de boa grossura –

um araçáde-pomba, fechado. De sovigia, o Hermógenes não me largava. Doesse na gente, mesmo aquele principiozinho de madrugada. Apertava a necessidade. Por que não se avançava de uma vez, para tudo, vir às brabas? Ah, não se podia. Só logo no primeiro entremear com os bebelos, nós quatro havíamos de restar mortos, cosidos nas parnaíbas. E, dos companheiros, outros, não se sabia. Sendo somente que o acampamento dos bebelos devia de estar a uma hora dessas cercado exato, em boa distância, à roda toda. Tudo era paciência. Vinha um ventozinho, folheando. Tantos homens amoitados, que só espiavam: na obrigação – refleti. Até achei bonito, agora. Aí passarinhos que já vão voando, com o menorzinho ralo de luz eles se contentam, para seu só isso de caçar o de comer. Triste, triste, um tiriri cantou. Alegre, para mim, a peitica. Olhei adiante, curto, lá era que eles estavam: por entre umas árvores pequenas, dava réstia de claridade, e um formato de homem, contravisto. Ele ia acender fogo. E apareceram vultos de outros, levantantes. Com pouco, alguns podiam vir descendo, buscar mais água no corguinho, se carecessem. Asneiras que pensei:

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas será que eles gastaram muita água? Será que um esmorece, por medo ter? Eu não campeava a morte. Seguro nasci, sou feito.

D’o Hermógenes ali junto estar, naquela hora, digo ao senhor, gostei. – “Riobaldo, Tatarana! É o é...” – ele me governou, de repente. Aceitei. Desamarrei mão, de vez pronta: eu já tinha resumido pontaria: eu tive consolo duma coisa, que era que aquele homem alto não podia ser Zé Bebelo... Não tremi, e escutei meu tiro, e o do Hermógenes; e o homem alto caiu certo morto, rolou na má poeira. Me deu uma raiva, dele, deles todos.

E em toda a parte, a sobre, o tiroteio tinha começado.

Estrondou. Falavam os rifles e outros: manlixa, granadeira e comblém. Festa de guerra.

Mais digo ao senhor? Atirei, minhas vezes. Aí, tomei ar. O

senhor já viu guerra? A mesmo sem pensar, a gente esbarra e espera: espera o que vão responder. A gente quer porções.

Demais é que se está: muito no meio de nada. A morte? A coisa que o que era xô e bala. Que qual, agora não se podia mais ter outros lados. Agora era só gritar ódio, caso quisesse, e o ar se estragou, trançado de assovios de ferro metal. O senhor ali não tem mãe, não vê que a vida é só brabeza. Revém ramo cortado de árvore, aí e o comum que cavacam poeiras e terras. Digo ao

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas senhor, dou conversa. Aquilo era. Artes que carreguei o rifle, escorei, repetente. Aquele povo inimigo nosso esperdiçava muita munição, atiravam com nervosia. Não queriam morrer por nossa mão, não queriam. Ri me ri, e o Hermógenes me chamou com assombro. Em isso ele me crendo endoidado. Mas eu estava era de repente pensando em meu padrinho Selorico Mendes.

“Agora, tu mesmo vai lá, vai! Tu não quer?!” – foi o que arranjei vontade de gritar com o Hermógenes. Cão, que ele. Ri mais. Homem sozinho, com sua carabina em mãos, o Hermógenes era um como eu, igual, igual, até pior atirava. E

aqueles bebelos tinham feito madrugada para levar fogo. Fiquei meu. “... Se todos passam mão em arma e fecham volta de tiroteio, uns contra os outros, então o mundo se acaba...” – acho que pensei. Eram só tolicezinhas, que por minha mente marinhavam. Os tiros peguei a querer contar. Aquilo como durou, demorava um oco. O dia tinha clareado saído: eu todo podendo descrever o Montesclarense, atrás dum toro de pau e moitas de anduzinho. Para que conto isto ao senhor? Vou longe.

Se o senhor já viu disso, sabe; se não sabe, como vai saber? São coisas que não cabem em fazer idéia.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Combate quanto, combate grande. Ser menos, que a gente não rastejava alterando de lugar, que não era o caso. Quase que só quando se pega no defendimento é que isso é de se fazer: para pensarem que se vai em número maior que a verdade. Como não, mais valia garantir o bom do posto, sem desguar. Tiro de lá chama tiro de cá, e vira em vira. Disparo que eu dava, era catando mover alheio, cujo descuido, como malandro malandreia. Nem cento – e-cinqüenta braças era o eito, jaculação minha. Aquilo servia até para carga de bocamorte. E mais de um, eu etcétera, aí, pelo que sei, pelo que vejo. Mas só aqueles que para morrer estavam com dia marcado. Minto? O senhor releve idéias. Era assim.

Deu vez de, os muitos tiros se assanhavam, de prão, em riba dum trecho só. Queriam costurar. Aí, e as horas não acabavam. O sol encostava na nuca da gente. Sol, solão, debaixo eu suava, transpirava dos cabelos, e pelo dentro das roupas, de sentir as cócegas grossas no meio do lombo; e essas dormências numas partes do corpo. Então, eu atirava. Não se ia avançar?

Não, nem. Os outros picavam forte, o fogo deles não desmerecia. Cachorrada! Xingar, mesmo, ia servir só para mostrar mais alvo. Ao que, eu descansava meus olhos nas costas do Garanço, ali quase em minha frente. O Garanço tinha

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas arrumado no chão o bissaco e o cobertor, estava sem jaleco, só com a camisa de xadrezim. Eu vi o suor minar em mancha, na camisa, no meio das costas dele, Garanço, aquela nódoa escura ia crescendo, arredondada, alargada. O Garanço disparava, sacudia o corpo, ele era amigo meu, com minúcia de valentia.

Rapaz de como se querer, homem de leal qualidade. Então, eu atirava, também. “Bala e chumbo...” – eu peguei a dizer. “Bala e chumbo... Bala e chumbo...” O lugar do coração me apertando

– eu era carne muita e calor bravo – “O que foi? Que é?” – o Hermógenes me perguntou. – “Nada não!” – respondi. “Bala e chumbo... Chumbo e bala...” Estrumes! Pelo que foi, de repente: bem apartado, da banda esquerda de nós, uns homens dos nossos deram figura, se pulando para diante, aos gritos, investiram – contra o contra!

Ao que, eram dois... Três... – “Diá!” – o Hermógenes rosnou: – “Deu a fúria nesses, bute!” Raspa que eles por lá entraram, iam de coronhada e faca... Não se atirou, suspendemos fôlego. E, vai, o Hermógenes me segurou tente: que o Montesclarense – coitado! – também tinha crescido para avante, no igual, e, de lá, nele balearam. Caiu, catando cacos. Pobre. Deu doidice? Antes aí, os outros nossos, que se danando no vespeiro dos bebelos, roncavam em poeira deles, decerto se acabavam

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas estraçalhados que nem coelho com a cainça. Tomara tivessem aprontado seus alguns! Assim aquilo sossegou, povo nosso demos raiva de fogo – aí é que foi atirar. O Hermógenes me resignou os ímpetos: – “Tatarana, te trava, não dá de esquentar arma, gasta munição não. Só os tiros bons poucos. Só cobrar o dizmo.” Aquele homem fazia frio, feito caramujo de sombra. A ver que tive sede, mas minha cabaça não dava gota mais. Guardei meu cuspe.

Aquilo não ia ter pique de ponto, guerra que não se sabe terminar? Assunto que apostaram os mil tiros para cima de nossa redondez de lugar, esses assoviaços. Triplavam. No ferrenho, tive um tempo de coisa, espécie de mais medo, o que um não confessa: vara verde, ver. Mas, morresse, eu descansava.

Descansava de todo desânimo. Andando que aquele ataque nosso não servia para resultado nenhum, e eu carecia de avistar os outros, saber de qualquer contagem de balanço, de quantos tinham morrido ou estavam mal. Eu queria saber, dos deles e dos nossos. Combate sem cabimento! Só o tiroteio, repetido reproduzido. Meio peguei um pensamento: se o Hermógenes sungasse raiva, se o Ele desse nele, por um vir? Que mandasse avançasse, a fino de faca, nós todos tínhamos de avançar? Então, eu estava ali era feito um escravo de morte, sem querer meu, no

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas puto de homem, no danadório! E eu não podia virar só o corpo um pouco, abocar minha arma nele Hermógenes, desfechar?

Podia não, logo senti. Tem um ponto de marca, que dele não se pode mais voltar para trás. Tudo tinha me torcido para um rumo só, minha coragem regulada somente para diante, somente para diante; e o Hermógenes estava deitado ali, em mim encostado –

era feito fosse eu mesmo. Ah, e toda hora ele estavas sempre estava. Que me disse: – “Tatarana, toma, come, e agradece ao corpo um poucado...” Há-de que estava me oferecendo a capanga, paçoca de carnes.

Tanto que os tiros tinham esbarrado quase em completo, em partes. Eu, tendo comida minha, de matula, no bornal. Aí, e munição minha de balas, no surrão. Eu carecia lá do Hermógenes? Mas, por que foi então que aceitei, que mastiguei daquela carne, nem fome acho que não tinha direito, engoli daquela farinha? E pedi água. – “Mano velho, bebe, que esta é competente...” – ele riu. O que estava me dando, na cabacinha, era água com cachaça. Bebi. Limpei os beiços. Escorei o cano do rifle, num duro de moita. Eu olhava aquele bom suor, nas costas do Garanço. Ele atirava. Eu atirava. A vida era assim mesmo, coração quejando. Até me caceteou uma lombeira.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas E, daí, deu-se. Da banda de longe – lá pelo tombador de pedra, onde nossa gente com Titão Passos estavam escondidos para a esparrela – foi um tirotear forte, fogo por salvas. Ah, então era outra partida de zé-bebelos que deviam de estar chegando, drongo deles, cavaleiros. O Hermógenes esticou o pescoço, rijo ouvindo. Soante que atiravam, sucedidos, o tiroteio foi mudando de feição. – “Tou gostando não...” – o que o Hermógenes disse. Mais disse: – “O diabo deu em erro...”

Homem atilado, cachorral. – “Seja que sabidos vieram, eh, pressentiram! Sei se, por ora, o trabalho está desandado...” Aí, eu estava escutando. Eu olhei. Olhava para as costas do Garanço, ela, a mancha, estava ficando de outra cor... O suor vermelho... Era sangue! Sangue que empapava as costas do Garanço – e eu entendi demais aquilo. O Garanço parado quieto, sempre empinado com a frente do corpo, semelhando que o cupim ele tivesse abraçado. A morte é corisco que sempre já veio. Ânsias, ao em que bola me vinha goela arriba, do arrocho grosso, imposto, que às vezes em lágrimas nos olhos se transforma. A bobagem...

– “Tu, Tatarana, Riobaldo: agora é a má hora!” – era o Hermógenes prevenindo. – “Demo!” – eu repontei. Mas ele não entendeu minha soltura. Soprou: – “A muita cautela. Temos,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas que se foge em boa ordem: os que estão chegando vêm rodear a gente, vão dar retaguarda.” E era. Como que esse maldito tudo sabia, adivinhava o seguinte vivo das coisas, esse Hermógenes, trapaças! Mas ainda me prezei: quem é que me segurava de ir?! –

rastejei de esquinado, os metros, em afogo, carecia de ver se o Garanço podia ter ajuda. – “A p’a trás, mano. Te cuida!” – ouvi o rispe do Hermógenes – que eu não me desgraçasse. Mas não se deixa um cristão amigo deitar seu sangue no capim das moitas, feito um traste roto, caititu caçado. Peguei, com meus braços: não adiantava – era corpo. Ele estava defunto de não fechar boca – aí, defunto airado. Todo vejo, o sangue dele a mofos cheirasse. Anda que vinham vôo os mosquitos chupadores, e mosca-verde que se ousou, sem o zumbo frisso, perto no ar. Porque os tiros. E nem um momento de vela acesa o Garanço não ia poder ter. – “Vem, tu vem, que estamos no amém estreitos!” – que, enfezado, o Hermógenes chamou. Dei para trás. O perigo saca toda tristeza. E a vez era esta: que o Hermógenes encheu os peitos, e soltou um rinchado zurro, dos de jumento velho em beira de campo. Três tantos. Ele estava dando a retirada. Por outros lados, mais longe, outros o mesmo onco-e-rincho copiavam. – “Arre, fogo, agora, forte fogo!” – o Hermógenes me mandou. Atirei. Atiramos, teúdo. Ao que os

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas companheiros todos atiravam. Assaz à retirada se estava rinchando, mas os inimigos não sabiam: carecia que eles pensassem que a gente ia dar um ataque final. Acharam? E sei.

A bala com bala ripostavam. Mas, nós, nesse entrequanto, rompemos o arvoredo, aqui e ali, rojamos para baixo, embora, mesmo. Desunir, assim, verga pior do que avançar. A lanço a lanço, fui, pulei, nos abertos entre árvores, acompanhei o Hermógenes. Aí, eu já estava para lá dele; mas virei e esperei.

Porque, na desordem de mente do alvoroço, aquela hora era só no Hermógenes que eu via salvamento, para meu cão de corpo.

Quem que diz que na vida tudo se escolhe? O que castiga, cumpre também. Vim. Ainda divulguei, nas sofraldas descentes, homens que corriam, meus iguais, às vezes se subiam do bamburral baixo, feito acãoada codorniz. Viemos. Repassamos o corguinho do Dinho, beiramos uma ipueira. Entramos no cerrado. – “Tu tem tudo, Tatarana? Munição, as armas?” – o Hermógenes me indagou. – “Tenho, se tenho!” – eu respondi, bem. E ele para mim: – “Então, está certo...” Agora ele falasse grosseado, com modo de chefe e mando, era assim. E fomos para cinco léguas, entre o norte e o poente, no Cansanção, lugar aonde um punhado dos da gente devia de se engrupar. Para lá fomos, de rastros apagados. Caminhamos prazo dentro de

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas riacho, depois escolhemos para pisar pedras, de nosso pisado com ramos as marcas desmanchamos, e o mais do caminho se seguiu por muitos diversos rodeios.

De tudo não falo. Não tenciono relatar ao senhor minha vida em dobrados passos; servia para quê? Quero é armar o ponto dum fato, para depois lhe pedir um conselho. Por daí, então, careço de que o senhor escute bem essas passagens: da vida de Riobaldo, o jagunço. Narrei miúdo, desse dia, dessa noite, que dela nunca posso achar o esquecimento. O jagunço Riobaldo. Fui eu? Fui e não fui. Não fui! – porque não sou, não quero ser. Deus esteja!

E dizendo vou. No mais, que quando se alcançou o nosso bom esconder, num boqueirãozinho, já achamos companheiros outros, diversos, vindos de armas, e que chegavam separadamente, naquela satisfação de vida salva. Um era o Feijó.

Será, se tinha avistado o Reinaldo sem perigo? A meio perguntei. Por causa que só em Diadorim era que eu pensava. O

Feijó em tanto tinha notado: Diadorim, na retirada, bem conseguido; depois se retrasou, por uma cacimba de grota. – “...

Estava com sangue numa perna de calça. Para mim, foi nada, arranho à-toa...” O que me ensombreceu – então Diadorim

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas estava ferido. Aí, eu mesmo esbarrei, beirávamos o riachinho do Jio, eu quis lavar os pés, que muito me doíam. Acho que, de cansado, estava também com dores redondas de cabeça, molhei minhas fontes. Cansaço faz tristeza, em quem dela carece.

Diadorim estivesse ali, somentemente, espaço disso me alegrava, eu não havia de querer conversar reportório de tiros e combates, eu queria calado a conseqüência dele. Ao modo que eu nem conhecia bem o estorvo que eu sentia. Pena. Dos homens que incerto matei, ou do sujeito altão e madrugador – quem sabe era o pobre do cozinheiro deles – na primeira mão de hora varado retombado? Em tenho que não. Dó que me dava era do Garanço, e o Montesclarense. Quase com um peso, por minha culpa dos dois – eles eu era quem tinha escolhido, para conduzir, e depois tudo. Logo esses – o senhor sabe, o senhor segue comigo. Remorso? Por mim, digo e nego. Olhe: légua e outra, daqui, vereda abaixo, tigre canguçu estragou e arruinou a perna do Sizino Ló, um que foi desse rio de São Francisco, foguista de vapor; depois cá herdou uns alqueires. Comprou-se para ele, então, uma boa perna-de-pau. Mas, assim, talvez por se ter sacolejado um pouco do juizo, ele nunca mais quer sair de casa, nem se levanta quase do catre, vive repetindo e dizendo: – “Ai, quem tem dois tem um, quem tem um não tem nenhum...” Todo

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas o mundo ri. E isso é remorso? Desgraça a mando era que eu cumpria, azo de que tivesse perdido alguma coisa. Porque dó de amizade é num sofrerzinho simples, e o meu não era. E cheguei no CansançãoVelho, chamado também o Jio, dito.

Lá, com pouco, a gente era doze. Os alguns faltavam, dos que eram para se reunir ali, mas decerto ainda vinham vir. Num ponto me agradei: então, em guerra, quase não se morre? E, mesmo, nas más horas é que vem bom consolo: para o Jio tinha tocado, de antevéspera, o Braz, nessa antecedência em dois jumentos ele tinha trazido mantimento de feijão e arroz, e toucinho para torresmos, e pratos e panela, se cozinhou um jantar.

Tanto que comi, deitei. Dormi impado. Que caso que eu carecia de pensar, que não fosse que na morte do Garanço e do Montesclarense eu não devia nenhum dolo; e que Diadorim ia chegar a vir também, aonde estávamos, mais tardar no romper da aurora? Dormi. Mas daí a logo acordei, mão no rifle, como se vez fosse. E não havia a coisa nenhuma, nem vulto nem barulho. Os outros no estar, pesados no sono, cada um em seu recanto, estufando suas redes penduradas de árvore em árvore.

Só vi um, o Jõe Bexiguento, sobrechamado o Alpercatas esse era homem de estranhez em muitos seus costumes,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas conforme se dizia e era notado. Jõe Bexiguento parecia não estar querendo ir dormir, tinha ficado na beira do fogo, remexendo as brasas; num fusco em vermelho, dava para a cara dele se divulgar.

E ele pitava. Meigo repus o rifle, virei para o outro lado.

Adormecer, pude; mas, com outros minutos, tornei naquele mau susto de acordar. Isso aconteceu três vezes, reformadas. Jõe Bexiguento reparou em meu dessossego, veio para o pé de minha rede, sentou no chão. – “Horas destas, tem galo já cantando, noutros lugares...” – ele falou. Não sei se dei alguma resposta.

Agora eu estava cismado.

Ou se fosse que algum perigo se produzia por ali, e eu colhia o aviso? Não é que, com muitos, dose disso sucedesse? Eu sabia, tinha ouvido falar: jagunços que pegam esse condão, adivinham o invento de qualquer sobrevir, por isso em boa hora escapam. O Hermógenes. João Goanhá, mais do que todos, era atreito a esses palpites de fino ar, coraçãoados. Atual isso comigo? Que os bebelos rodeavam para ali, quem sabe perto já rastejavam. Zé Bebelo mandava neles. Em todos o momentos, em Zé Bebelo sempre pensei, e em como a vida é cheia de passagens emendadas. Eu, na Nhanva, ensinando lição a ele, ditado e leitura, as contas de juros; depois, de noite, na sala grande, na mesa grande, se comia canjica temperada com leite,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas queijo, coco-da-baía, amendoim, açúcar, canela e manteiga-de-vaca. – “Fofo faço, e em prazo, siô Baldo: acabar para uma vez com essa cambada canalha de jagunços!” – ele referia, com rompante e festa no dizer, bebendo seu coité de chá-de-congonha, que de tão quente pelava. Então, agora, era eu também – Zé Bebelo vinha de lá, comandando armas de esqua-drões, e o que ele tinha jurado, naquela ocasião, ficava sendo também de acabar comigo, com minha vida. Mas eu prezava Zé Bebelo, minha simpatia é uma só, dada definitiva às altas, sempre fui assim. Sendo que não fosse ele em sua pessoa, se ele no meio não estivesse, tudo tinha outra ordem: eu podia pôr meu afinco o

– farto destravado, no querer combater. Mas, brigar, cruzando morte, com Zé Bebelo, eu vi que era isso que me dava uma re-pugnância, em minha inteligência. Levantei da rede, e convidei Jõe Bexiguento para se botar mais lenha no fogo. Ele disse: –

“Convém não. Ocasiões assim, convém acender nem vela de cera preta...” Enrolei um cigarro.

Contei ao Jõe o que eu estava sentindo estúrdio; se não era agouramento? E ele me apaziguou: que anjo aviso não vinha desse jeito, antes era uma certeza que minava fininha, de dentro da idéia da gente, sem razoado nem discussão. O que eu purgava era ranço nervoso, sobra da esquentação curtida nas horas de

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas tiroteio. – “Comigo, assim, depois de cada forte fogo, me dá esse porém. É uma coceira na mente, comparando mal. Faz regular uns seis anos, que estou na jagunçagem, medo de guerra não conheço; mas, na noite, passado cada fogo, não me livro disso, essa desinquietação me vem...”

Pela causa, me disse, era que ele não vencia dormir nem um pisco, naquela comprida noite, e nem experimentava. Jõe Bexiguento achava que não tinha mais sustância para ser jagunço; duns meses, disse, andava padecendo da saúde, erisipelava e asmava. – “Cedo aprendi a viver sozinho. P’ra o Riachão vou, derrubo lá um bom mato...” Era o projeto em tal, que ele formava vez em quando. – “Trabalhar de amassar as mãos... Que isso é que sertanejo pode, mesmo na barra da velhice...”

– “Você era amigo do Garanço, Jõe?” – em manso perguntei. – “Assim, o dito, pela rama. Que foi com ele? Deu o fim, mesmo, legal? Acho que esse sempre se esteve meio caipora... Ele mesmo sabia que era...” Ainda ouvindo as palavras, conheci que tinha perguntado pelo Garanço só para depois perguntar por Diadorim, digo: o Reinaldo. Mas outra coragem não tive. Faltou razão para mim. Que desconversei: – “Caipora se cura, Jõe? Você sabe rezas fortes?” – por aí devo que indaguei;

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas bobéia minha, assunto. – “A que cujo, se caipora não curasse?

Todo o mundo dela tem, nos tempos...” – ele me repositou. – “...

Mas desses ensalmos quis aprender não. Memória que Deus me deu não foi para palavrear avesso nele, com feitas ofensas...”

Pecados, vagância de pecados. Mas, a gente estava com Deus? Jagunço podia? Jagunço – criatura paga para crimes, impondo o sofrer no quieto arruado dos outros, matando e roupilhando. Que podia? Esmo disso, disso, queri, por pura toleima; que sensata resposta podia me assentar o Jõe, broeiro peludo do Riachão do Jequitinhonha? Que podia? A gente, nós, assim jagunços, se estava em permissão de fé para esperar de Deus perdão de proteção? Perguntei, quente.

– “Uai?! Nós vive...” – foi o respondido que ele me deu.

Mas eu não quis aquilo. Não aceitei. Questionei com ele, duvidando, rejeitando. Porque eu estava sem sono, sem sede, sem fome, sem querer nenhum, sem paciência de estimar um bom companheiro. Nem o ouro do corpo eu não quisesse, aquela hora não merecia: brancura rosada de uma moça, depois do antes da lua-de-mel. Discuti alto. Um, que estava com sua rede ali a próximo, de certo acordou com meu vozeio, e xingou xiu. Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado...

Mas Jõe Bexiguento não se importava. Duro homem jagunço, como ele no cerne era, a idéia dele era curta, não variava. – “Nasci aqui. Meu pai me deu minha sina. Vivo, jagunceio...” – ele falasse. Tudo poitava simples. Então – eu pensei – por que era que eu também não podia ser assim, como o Jõe? Porque, veja o senhor o que eu vi: para o Jõe Bexiguento, no sentir da natureza dele, não reinava mistura nenhuma neste mundo – as coisas eram bem divididas, separadas. – “De Deus?

Do demo?” – foi o respondido por ele – “Deus a gente respeita, do demônio se esconjura e aparta... Quem é que pode ir divulgar o corisco de raio do borro da chuva, no grosso das nuvens altas?” E por aí eu mesmo mais acalmado ri, me ri, ele era engraçado. Naquele tempo, também, eu não tinha tanto o estrito e precisão, nestes assuntos. E o Jõe contava casos. Contou. Caso que se passou no sertão jequitinhão, no arraial de São João Leão,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas perto da terra dele, Jõe. Caso de Maria Mutema e do Padre Ponte.

Naquele lugar existia uma mulher, por nome Maria Mutema, pessoa igual às outras, sem nenhuma diversidade. Uma noite, o marido dela morreu, amanheceu morto de madrugada.

Maria Mutema chamou por socorro, reuniu todos os mais vizinhos. O arraial era pequeno, todos vieram certificar. Sinal nenhum não se viu, e ele tinha estado nos dias antes em saúde apreciável, por isso se disse que só de acesso do coração era que podia ter querido morrer. E naquela tarde mesma do dia dessa manhã, o marido foi bem enterrado.

Maria Mutema era senhora vivida, mulher em preceito sertanejo. Se sentiu, foi em si, se sofreu muito não disse, guardou a dor sem demonstração. Mas isso lá é regra, entre gente que se diga, pelo visto a ninguém chamou atenção. O que deu em nota foi outra coisa: foi a religião da Mutema, que daí pegou a ir à igreja todo santo dia, afora que de três em três agora se confessava. Dera em carola – se dizia – só constante na salvação de sua alma. Ela sempre de preto, conforme os costumes, mulher que não ria – esse lenho seco. E, estando na igreja, não tirava os olhos do padre.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas O padre, Padre Ponte, era um sacerdote bom-homem, de meia-idade, meio gordo, muito descansado nos modos e de todos bem estimado. Sem desrespeito, só por verdade no dizer, uma pecha ele tinha: ele relaxava. Gerara três filhos, com uma mulher, simplória e sacudida, que governava a casa e cozinhava para ele, e também acudia pelo nome de Maria, dita por aceita alcunha a Maria do Padre. Mas não vá maldar o senhor maior escândalo nessa situação – com a ignorância dos tempos, antigamente, essas coisas podiam, todo o mundo achava trivial. Os filhos, bem-criados e bonitinhos, eram “os meninos da Maria do Padre”. E

em tudo mais o Padre Ponte era um vigário de mão-cheia, cumpridor e caridoso, pregando cora muita virtude seu sermão e atendendo em qualquer hora do dia ou da noite, para levar aos roceiros o conforto da santa hóstia do Senhor ou dos santos-óleos.

Mas o que logo se soube, e disso se falou, era em duas partes: que a Maria Mutema tivesse tantos pecados para de três em três dias necessitar de penitência de coração e boca; e que o Padre Ponte visível tirasse desgosto de prestar a ela pai-ouvido naquele sacramento, que entre dois só dois se passa e tem de ser por ferro de tanto segredo resguardado. Contavam, mesmo, que, das primeiras vezes, povo percebia que o padre ralhava com ela,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas terrível, no confessionário. Mas a Maria Mutema se desajoelhava de lá, de olhos baixos, com tanta humildade serena, que uma santa padecedora mais parecia. Daí, aos três dias, retornava. E se viu, bem, que Padre Ponte todas as vezes fazia uma cara de verdadeiro sofrimento e temor, no ter de ir, a junjo, escutar a Mutema. Ia, porque confissão clamada não se nega. Mas ia a poder de ser padre, e não de ser só homem, como nós.

E daí mais, que, passando o tempo, como se diz: no decorrido, Padre Ponte foi adoecido ficando, de doença para morrer, se viu logo. De dia em dia, ele emagrecia, amofinava o modo, tinha dores, e em fim encaveirou, duma cor amarela de palha de milho velho; dava pena. Morreu triste. E desde por diante, mesmo quando veio outro padre para o São João Leão, aquela mulher Maria Mutema nunca mais voltou na igreja, nem por rezar nem por entrar. Coisas que são. E ela, dado que viúva soturna assim, que não se cedia em conversas, ninguém não alcançou de saber por que lei ela procedia e pensava.

Por fim, no porém, passados anos, foi tempo de missão, e chegaram no arraial os missionários. Esses eram dois padres estrangeiros, p’ra fortes e de caras coradas, bradando sermão forte, com forte voz, com fé braba. De manhã à noite, durado

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas de três dias, eles estavam sempre na igreja, pregando, confessando, tirando rezas e aconselhando, com entusiasmados exemplos que enfileiravam o povo no bom rumo. A religião deles era alimpada e enérgica, com tanta saúde como virtude; e com eles não se brincava, pois tinham de Deus algum encoberto poder, conforme o senhor vai ver, por minha continuação. Só que no arraial foi grassando aquela boa bem-aventurança.

Aconteceu foi no derradeiro dia, isto é, véspera, pois no seguinte, que dava em domingo, ia ser festa de comunhão geral e glória santa. E foi de noite, acabada a benção, quando um dos missionários subiu no púlpito, para a prédica, e tascava de começar de joelhos, rezando a salve-rainha. E foi nessa hora que a Maria Mutema entrou. Fazia tanto tempo que não comparecia em igreja; por que foi, então, que deu de vir?

Mas aquele missionário governava com luzes outras. Maria Mutema veio entrando, e ele esbarrou. Todo o mundo levou um susto: porque a salve-rainha é oração que não se pode partir em meio – em desde que de joelhos começada, tem de ter suas palavras seguidas até ao tresfim. Mas o missionário retomou a fraseação, só que com a voz demudada, isso se viu. E, mal no amém, ele se levantou, cresceu na beira do púlpito, em brasa

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas vermelho, debruçado, deu um soco no pau do peitoril, parecia um touro tigre. E foi de grito:

– “A pessoa que por derradeiro entrou, tem de sair! A p’ra fora, já, já, essa mulher!”

Todos, no estarrecente, caçavam de ver a Maria Mutema.

– “Que saia, com seus maus segredos, em nome de Jesus e da Cruz! Se ainda for capaz de um arrependimento, então pode ir me esperar, agora mesmo, que vou ouvir sua confissão...

Mas confissão esta ela tem de fazer é na porta do cemitério! Que vá me esperar lá, na porta do cemitério, onde estão dois defuntos enterrados!...”

Isso o missionário comandou: e os que estavam dentro da igreja sentiram o rojo dos exércitos de Deus, que lavoram em fundura e sumidade. Horror deu. Mulheres soltaram gritos, e meninos, outras despencavam no chão, ninguém ficou sem se ajoelhar. Muitos, muitos, daquela gente, choravam.

E Maria Mutema, sozinha em pé, torta magra de preto, deu um gemido de lágrimas e exclamação, berro de corpo que faca estraçalha. Pediu perdão! Perdão forte, perdão de fogo, que da dura bondade de Deus baixasse nela, em dores de urgência, – 312 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas antes de qualquer hora de nossa morte. E rompeu fala, por entre prantos, ali mesmo, a fim de perdão de todos também, se confessava. Confissão edital, consoantemente, para tremer exemplo, raio em pesadelo de quem ouvia, público, que rasgava gastura, como porque avessava a ordem das coisas e o quieto comum do viver transtornava. Ao que ela, onça monstra, tinha matado o marido – e que ela era cobra, bicho imundo, sobrado do podre de todos os estercos. Que tinha matado o marido, aquela noite, sem motivo nenhum, sem malfeito dele nenhum, causa nenhuma ; por que, nem sabia. Matou – enquanto ele estava dormindo – assim despejou no buraquinho do ouvido dele, por um funil, um terrível escorrer de chumbo derretido. O

marido passou, lá o que diz – do oco para o ocão – do sono para a morte; e lesão no buraco do ouvido dele ninguém não foi ver, não se notou. E, depois, por enjoar do Padre Ponte, também sem ter queixa nem razão, amargável mentiu, no confessionário: disse, afirmou que tinha matado o marido por causa dele, Padre Ponte – porque dele gostava em fogo de amores, e queria ser concubina amásia... Tudo era mentira, ela não queria nem gostava. Mas, com ver o padre em justa zanga, ela disso tomou gosto, e era um prazer de cão, que aumentava de cada vez, pelo que ele não estava em poder de se defender de

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas modo nenhum, era um homem manso, pobre coitado, e padre.

Todo o tempo ela vinha em igreja, confirmava o falso, mais declarava – edificar o mal. E daí, até que o Padre Ponte de desgosto adoeceu, e morreu em desespero calado... Tudo crime, e ela tinha feito! E agora implorava o perdão de Deus, aos uivos, se esguedelhando, torcendo as mãos, depois as mãos no alto ela levantava.

Mas o missionário, no púlpito, entoou grande o Bendito, louvado seja! – e, enquanto cantando mesmo, fazia os gestos para as mulheres todas saírem da igreja, deixando lá só os homens, porque a derradeira pregação de cada noite era mesmo sempre para os ouvintes senhores homens, como conforme.

E no outro dia, domingo do Senhor, o arraial ilustrado com arcos e cordas de bandeirolas, e espoco de festa, foguetes muitos, missa cantada, procissão – mas todo o mundo só pensava naquilo. Maria Mutema, recolhida provisória presa na casa-de-escola, não comia, não sossegava, sempre de joelhos, clamando seu remorso, pedia perdão e castigo, e que todos viessem para cuspir em sua cara e dar bordoadas. Que ela –

exclamava – tudo isso merecia. No meio-tempo, desenterraram da cova os ossos do marido: se conta que a gente sacolejava a

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas caveira, e a bola de chumbo sacudia lá dentro, até tinia! Tanto por obra de Maria Mutema. Mas ela ficou no São João Leão ainda por mais de semana, os missionários tinham ido embora.

Veio autoridade, delegado e praças, levaram a Mutema para culpa e júri, na cadeia de Araçuaí. Só que, nos dias em que ainda esteve, o povo perdoou, vinham dar a ela palavras de consolo, e juntos rezarem. Trouxeram a Maria do Padre, e os meninos da Maria do Padre, para perdoarem também, tantos surtos produziam bem-estar e edificação. Mesmo, pela arrependida humildade que ela principiou, em tão pronunciado sofrer, alguns diziam que Maria Mutema estava ficando santa.

E foi isso que Jõe Bexiguento a mim contou, e que de certo modo me divagasse. Mas, foi ele acabar de contar, e escutamos o assovio combinado dos nossos, e demos resposta: era um que chegava – o Paspe – se aparecendo macio dos escuros, com alpercatas sem barulho e o rifle em bandoleira. Ele tinha formado, para a esparrela, com Titão Passos, agora vinha trazer notícia dos dele, seguidos para se ajuntarem ao covo do Capão; e pedir ordens. Rio de homem, esse Paspe: que não temia nem se cansava. Contou: que, aquilo que era para estratagemas, deu foi em por água-abaixo, porque os bebelos tinham botado espiação, ou tomado o faro. Assim, o inimigo contornando, em vez de vir

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas simples: e tochando resposta antes de pergunta, fogo feio – dois mortos, dos titão-passos, companheiros bons; mais três muito feridos. Guerra tinha disso também.

– “Ah, e Zé Bebelo mesmo estava lá, no comando daqueles, em sua dita pessoa?” – perguntei.

– “Decerto que estava. A cujo!” – o Paspe falou; e pediu logo quem tivesse um golinho de cachaça.

Devo, então, que perguntei por Diadorim. Puro por perguntar, sem esperanças de informação. E mesmo, más notícias eu ainda tinha o receio de ouvir. Serviço que me foi, o Paspe me respondeu:

– “Vi, esse por mim passou, até me deu um recado, uail: e para você mesmo: – Vai, diz por mim ao Riobaldo Tatarana: que eu tenho um quefazer, ao que vou, por dias poucos, com breve estou de volta... – foi o que falou. Assim passou, a cavalo – onde terá sido que arrumou montada? Decerto conseguiu algum animal dos bebelos mesmo, que restou no meio de tirotei’...”

Ouvi e não cri. Ele, Diadorim? Aonde ia, sem mim então, não podia ser ele, foras de norma. E ao Paspe reperguntei,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas pedindo o exato. Era. Mas não seria, então, que ele estivesse ferido, numa perna?

Ao que nem não nem sim – mais pelo não que pelo sim... –

o Paspe completou. Não tinha reparado, no relance de tempo. Só viu que o arreio era um socadinho, quase novo, e o cavalo alto, desbarrigado, mas pronto de si, riscando com todas as ferraduras, murzelo-andrino...

Aí, ai, oi, espécie de dor em meus cantos, o senhor sabe.

Agora eu pateteava. Que que era ser fiel; donde estava o amigo?

Diadorim, na pior hora, tinha desertado de minha companhia.

Às certas, fuga fugida, ele tinha ido para perto de Joca Ramiro.

Ah, ele, que de tudo sabia em tudo, agora assim de tenção me largava lá sem uma palavra própria da boca, sem um abraço, sabendo que eu tinha vindo para jagunço só mesmo por conta da amizade! Acho que me escabreei. De sorte que tantos pensamentos tive, duma viragem, que senti foi esfriar as pontas do corpo, e me vir o peso de um sono enorme, sono de doença, de malaventurança. Que dormi. Dormi tão morto, sem estatuto, que de manhã cedo, por me acordarem, tiveram de molhar com água meus pés e minha cabeça, pensando que eu tinha pegado febre de estupor. Foi assim.

Continuar: parte 4 de 4