Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa · Capítulo 6 de 8 · parte 2/3

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Grande Sertão: Veredas

– “Ih, que’s, menino! Quem te vê…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas chirilil dos bichos. Arre, quem copia o riso da coruja, o gritado.

Arrepia os cabelos das carnes.

E não conheci arriação, nem cansaço.

Ele tinha que vir, se existisse. Naquela hora, existia. Tinha de vir, demorão ou jajão. Mas, em que formas? Chão de encruzilhada é posse dele, espojeiro de bestas na poeira rolarem.

De repente, com um catrapuz de sinal, ou momenteiro com o silêncio das astúcias, ele podia se surgir para mim. Feito o Bode-Preto? O Morcegão? O Xu? E de um lugar – tão longe e perto de mim, das reformas do Inferno – ele já devia de estar me vigiando, o cão que me fareja. Como é possível se estar, desarmado de si, entregue ao que outro queira fazer, no se desmedir de tapados buracos e tomar pessoa? Tudo era para sobrosso, para mais medo; ah, aí é que bate o ponto. E por isso eu não tinha licença de não me ser, não tinha os descansos do ar. A minha idéia não fraquejasse. Nem eu pensava em outras noções. Nem eu queria me lembrar de pertencências, e mesmo, de quase tudo quanto fosse diverso, eu já estava perdido provisório de lembrança; e da primeira razão, por qual era, que eu tinha comparecido ali. E, o que era que eu queria? Ah, acho que não queria mesmo nada, de

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa,° esta coisa: eu somente queria era – ficar sendo!

E foi assim que as horas reviraram. – A meia-noite vai correndo... – eu quis falar. O cote que o frio me apertava por baixo. Tossi, até. – “Estou rouco?” – “Pouco...” – eu mesmo sozinho conversei. Ser forte é parar quieto; permanecer. Decidi o tempo – espiando para cima, para esse céu: nem o setestrelo, nem as três-marias, – já tinham afundado; mas o cruzeiro ainda rebrilhava a dois palmos, até que descendo. A vulto, quase encostada em mim, uma árvore mal vestida; o surro dos ramos. E

qualquer coisa que não vinha. Não vendo estranha coisa de se ver.

Ao que não vinha – a lufa de um vendaval grande, com Ele em trono, contravisto, sentado de estadela bem no centro.

O que eu agora queria! Ah, acho que o que era meu, mas que o desconhecido era, duvidável. Eu queria ser mais do que eu. Ah, eu queria, eu podia. Carecia. “Deus ou o demo?” – sofri um velho pensar. Mas, como era que eu queria, de que jeito, que?

Feito o arfo de meu ar, feito tudo: que eu então havia de achar melhor morrer duma vez, caso que aquilo agora para mim não fosse constituído. E em troca eu cedia às arras, tudo meu, tudo

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas o mais – alma e palma, e desalma... Deus e o Demo! – “Acabar com o Hermógenes! Reduzir aquele homem!...” –; e isso figurei mais por precisar de firmar o espírito em formalidade de alguma razão. Do Hermógenes, mesmo, existido, eu mero me lembrava

– feito ele fosse para mim uma criancinha moliçosa e mijona, em seus despropósitos, a formiguinha passeando por diante da gente – entre o pé e o pisado. Eu muxoxava. Espremia, p’r’ ali, amassava. Mas, Ele – o Dado, o Danado – sim: para se entestar comigo – eu mais forte do que o Ele; do que o pavor d’Ele – e lamber o chão e aceitar minhas ordens. Somei sensatez. Cobra antes de picar tem ódio algum? Não sobra momento. Cobra desfecha desferido, dá bote, se deu. A já que eu estava ali, eu queria, eu podia, eu ali ficava. Feito Ele. Nós dois, e tornopio do pé-devento – o ró-ró girado mundo a fora, no dobar, funil de final, desses redemoinhos: ... o Diabo, na rua, no meio do redemunho... Ah, ri; ele não. Aheu, eu, eu! “Deus ou o Demo –

para o jagunço Riobaldo!” A pé firmado. Eu esperava, eh! De dentro do resumo, e do mundo em maior, aquela crista eu repuxei, toda, aquela firmeza me revestiu: fôlego de fôlego de fôlego – da mais-força, de maior-coragem. A que vem, tirada a mando, de setenta e setentas distâncias do profundo mesmo da gente. Como era que isso se passou? Naquela estação, eu nem

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas sabia maiores havenças; eu, assim, eu espantava qualquer pássaro.

Sapateei, então me assustando de que nem gota de nada sucedia, e a hora em vão passava. Então, ele não queria existir?

Existisse. Viesse! Chegasse, para o desenlace desse passo. Digo direi, de verdade: eu estava bêbado de meu. Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande.

Remordi o ar:

– “Lúcifer! Lúcifer!...” – aí eu bramei, desengolindo.

Não. Nada. O que a noite tem é o vozeio dum ser-só – que principia feito grilos e estalinhos, e o sapo-cachorro, tão arranhão. E que termina num queixume borbulhado tremido, de passarinho ninhante mal-acordado dum totalzinho sono.

– “Lúcifer! Satanás!...”

Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.

– “Ei, Lúcifer! Satanás, dos meus Infernos!”

Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras.

E foi aí. Foi. Ele não existe, e não apareceu nem respondeu – que

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido. Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. Como que adquirisse minhas palavras todas; fechou o arrocho do assunto. Ao que eu recebi de volta um adejo, um gozo de agarro, daí umas tranqüilidades-de pancada. Lembrei dum rio que viesse adentro a casa de meu pai. Vi as asas. Arquei o puxo do poder meu, naquele átimo. Aí podia ser mais? A peta, eu querer saldar: que isso não é falável. As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite.

Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!

Pois ainda tardei, esbarrado lá, no burro do lugar. Mas como que já estivesse rendido de avesso, de meus íntimos esvaziado. – “E a noite não descamba!...” Assim parava eu, por reles desânimo de me aluir dali, com efeito; nem firmava em nada minha tenção. As quantas horas? E aquele frio, me reduzindo. Porque a noite tinha de fazer para mim um corpo de mãe – que mais não fala, pronto de parir, ou, quando o que fala, a gente não entende? Despresenciei. Aquilo foi um buracão de tempo.

A mor, bem na descida, avante, branquejavam aqueles grossos de ar, que lubrinam, que corrubiam. Dos marimbus, das – 602 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Veredas-Mortas. Garoa da madrugada. E, a bem dizer por um caminho sem expedição, saí, fui vindo m’embora. Eu tinha tanto friúme, assim mesmo me requeimava forte sede. Desci, de retorno, para a beira dos buritis, aonde o pano d’água. A clarida-dezinha das estrelas indicava a raso a lisura daquilo. Ali era bebedouro de veados e onças. Curvei, bebi, bebi. E a água até nem não estava de frio geral: não apalpei nela a mornidão que devia-de, nos casos de frio real o tempo estar fazendo. Meu corpo era que sentia um frio, de si, frior de dentro e de fora, no me rigir. Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão duma friagem assim. E se aquele gelado inteiriço não me largasse mais.

Foi orvalhando. O ermo do lugar ia virando visível, com o esboço no céu, no mermar da d’alva. As barras quebrando. Eu encostei na boca o chão, tinha derreado as forças comuns do meu corpo. Ao perto d’água, piorava aquele desleixo de frio.

Abracei com uma árvore, um pé de breubranco. Anta por ali tinha rebentado galhos, e estrumado. – “Posso me esconder de mim?...” Soporado, fiquei permanecendo. O não sei quanto tempo foi que estive. Desentendi os cantos com que piam, os passarinhos na madrugança. Eu jazi mole no chato, no folhiço, feito se um morcegãocaiaria me tivesse chupado. Só levantei de lá

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas foi com fome. Ao alembrável, ainda avistei uma meleira de abelha aratim, no baixo do pau-de-vaca, o mel sumoso se escorria como uma mina d’água, pelo chão, no meio das folhas secas e verdes. Aquilo se arruinava, desperdiçado. Senhor, senhor

– o senhor não puxa o céu antes da hora! Ao que digo, não digo? Cheguei no meio dos outros, quando o jacaré estava terminando de coar café. – “Tu treme friúra, pegou da maleita?”

– algum me perguntou. – “Que os carregue!” – eu arrespondi. E

mesmo com o sol saindo bom, cacei um cobertor e uma rede.

Arte – o enfim que nada não tinha me acontecido, e eu queria aliviar da recordação, ligeiro, o desatino daquela noite. Assim eu estava desdormido, cisado. Aí mesmo, no momento, fui ecogitando: que a função do jagunço não tem seu que, nem p’ra que. Assaz a gente vive, assaz alguma vez raciocina. Sonhar, só, não. O demônio é o Dos-Fins, o Austero, o Severo-Mor.

Aporro!

Sabendo que, de lá em diante, jamais nunca eu não sonhei mais, nem pudesse; aquele jogo fácil de costume, que de primeiro antecipava meus dias e noites, perdi pago. Isso era um sinal? Porque os prazos principiavam... E, o que eu fazia, era que eu pensava sem querer, o pensar de novidades. Tudo agora

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas reluzia com clareza, ocupando minhas idéias, e de tantas coisas passadas diversas eu inventava lembrança, de fatos esquecidos em muito remoto, neles eu topava outra razão; sem nem que fosse por minha própria vontade. Até eu não puxava por isso, e pensava o qual, assim mesmo, quase sem esbarrar, o todo tempo.

Nos começos, aquilo bem que achei esquipático. Mas, com o seguinte, vim aceitando esse regime, por justo, normal, assim.

E fui vendo que aos poucos eu entrava numa alegria estrita, contente com o viver, mas apressadamente. A dizer, eu não me afoitei logo de crer nessa alegria direito, como que o trivial da tristeza pudesse retornar. Ah, voltou não; por oras, não voltava.

– “Uai, tão falante, Tatarana? Quem te veja...” – me perguntaram; o Alaripe perguntou. Será que de mim debicavam.

Eu estava, com efeito, relatando mediante certos floreados umas passagens de meus tempos, e depois descrevendo, por diversão, os benefícios que os grados do Governo podiam desempenhar, remediando o sertão do desdeixo. E, nesse falar, eu repetia os ditos vezeiros de Zé Bebelo em tantos discursos.

Mas, o que eu pelejava era para afetar, por imitação de troça, os sestros de Zé Bebelo. E eles, os companheiros, não me

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas entendiam. Tanto, que foi só entenderem, e logo pegaram a rir.

Aí riam, de miséria melhorada.

– “Os mestres, que está certo, amigo...” – o Àlaripe dissesse. -“Deveras, está certo, mano-velho...” – outro, o Rasgaem-Baixo, inteirou.

Aquilo não tolerei. Esse vesgueiro Rasga-em-Baixo, o qual entornava de lado a cabeça, gastando ar demais, o que respirava três vezes forte, e fuxicando o nariz, numa fungação. Desentendi e impliquei.

– “Certo de que, nesta vida? Pois eu nem costumo nunca xingar ninguém de filho daquela ou dessa, por receio de que seja mesmo verdade...” Assim a eles eu disse. Tanto enquanto riam, apreciando me ouvir, eu contei a estória de um rapaz enlouquecido devagar, nos Aiáis, não longezinho da Vereda-da-Aldeia: o qual não queria adormecer, por um súbito medo que nele deu, de que de alguma noite pudesse não saber mais como se acordar outra vez, e no inteiro de seu sono restasse preso.

Mais me acudiam dessas fantasias. E eu relanceei, de repente, e falei o que era que a gente precisava:

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– “Urgentemente é se mandar portador, a lugar de farmácia, comprar adquirido remédio forte, que há, para se terminar com a maleita, em definitividade!”

Disse, e daí todos aprovaram; mais Zé Bebelo com aquilo concordou, de imediato. Portador foi.

Eu tinha enjôo de toda pasmacez. Com Zé Bebelo, falei:

– “Chefe, o que se tem de obrar: enviar algum comparsa esperto, que cace de entrar para o bando dos Judas, para no meio deles observar o serviço que se passa, e remeter para a gente as notícias e deixar traço nos lugares. Ou que mesmo dê jeito de liquidar mãomente o Hermógenes – proporcionando venenos, por um exemplo...”

– “A maluqueira, Tatarana, isso que você está definindo...” – Zé Bebelo me contestou.

– “Maluqueiras – é o que não dá certo. Mas só é maluqueira depois que se sabe que não acertou!” – eu atalhei, curto; porque eu naquela hora achava Zé Bebelo inferior; e porque, que alguém falasse contra, por cima das minhas palavras, me dava raiva.

Zé Bebelo retardou em me rever. Do fim, o dizer:

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– “Um homem, para a façanha assim, só mesmo se...”

– “Sol procura é as pontas dos aços...” – eu cortei, sem meio medir o razoado. Ao tanto que Zé Bebelo completava:

–... Só eu... ou você mesmo, Tatarana. Mas a gente somos garrotes remarcados.”

Mas, daí, me entendendo bem, ele fechou assim: –

“Riobaldo, tu é um homem de estúrdia valia...”

A dado sincero; eu senti. Ao perante diante de minhas presenças, todos tinham mesmo de ser sinceros. Só nos olhos das pessoas é que eu procurava o macio interno delas; só nos onde os olhos.

O José Vereda cachimbava, sentado perto de seus pertences. O Balsamão estava ali junto. Esse era maneiras-grossas, homem de muito sobrecenho. Derradeiramente eles estavam muito amigos, mesmo porque os dois eram da mesma terra – geralistas das campinas. Má vontade me veio, de dizer, eu disse: – “Assunto aí não é capaz que haja? Torto, torto, nasceu morto... Olh’ lá, caso se um de vocês tem mulher bonita e nova, quando retornarem para casa...” Isso podia ser razão de desguisado. Eu queria rixar? Figuro de cientificar ao

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas senhor: o costume meu nunca tinha sido esse. Agora, era que eu me espiritava só para arrelias e inconveniências. E, aí, quando uns estavam querendo tirar oração, por ser dia de domingo, não estive que não falasse: – “Reza é começo de quaresma...” Os que riram, riram. Foram deixando de lado aquela mexida igrejeira. Apondo em balança, que é que isso me representava? Tudo eu palpava com os pés, nisso eu respingava um tardar.

Daqui veio que Diadorim mesmo estranhou aqueles meus modos. A entender me deu, e eu reminiquei, com soltura de palavras: como é que ia tolerar conselho ou contradição?

Agravei o branco em preto. Mas Diadorim perseverou com os olhos tão abertos sem resguardo, eu mesmo um instante no encantado daquilo – num vem-vem de amor. Amor é assim –

o rato que sai dum buraquinho: é um ratazão, é um tigre leão!

Conferindo que nem vergonha eu tive. Não ter vergonha como homem, é fácil; dificultoso e bom era poder não se ter vergonha feito os bichos animais. O que não digo, o senhor verá: como é que Diadorim podia ser assim em minha vida o maior segredo? De manhã, naquele mesmo dia, ele tinha conversado, de me dizer:

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– “Riobaldo, eu gostava que você pudesse ter nascido parente meu...” Isso dava para alegria, dava para tristeza. O

parente dele? Querer o certo, do incerto, coisa que significava.

Parente não é o escolhido – é o demarcado. Mas, por cativa em seu destinozinho de chão, é que árvore abre tantos braços.

Diadorim pertencia a sina diferente. Eu vim, eu tinha escolhido para o meu amor o amor de Otacília. Otacília – quando eu pensava nela, era mesmo como estivesse escrevendo uma carta. Diadorim, esse, o senhor sabe como um rio é bravo? É, toda a vida, de longe a longe, rolando essas braças águas, de outra parte, de outra parte, de fugida, no sertão. E uma vez ele mesmo tinha falado: – “Nós dois, Riobaldo, a gente, você e eu... Por que é que separação é dever tão forte?...” Aquilo de chumbo era. Mas Diadorim pensava em amor, mas Diadorim sentia ódio. Um nome rodeante: Joca Ramiro – José Otávio Ramiro Bettancourt Marins, o Chefe, o pai dele? Um mandado de ódio. No que eu sabia. Não venci as ácidas picuinhas, no relembrar:

– “Aquele, hora destas, deve de andar lá por entre o Urucuia e o Pardo... O Hermógenes...”

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Ele acinzentou a cara. Tremeu, aos pingos, no centrozinho dos olhos. Revi que era o Reinaldo, que guerreava delicado e terrível nas batalhas. Diadorim, semelhasse maninel, mas diabrável sempre assim, como eu agora eu estava contente de ver. Como era que era: o único homem que a coragem dele nunca piscava; e que, por isso, foi o único cuja toda coragem às vezes eu invejei. Aquilo era de chumbo e ferro.

E, em relance em mais, eu já estava carecendo de declarar aos companheiros todos os erros que vínhamos pagando, por motivo do ultimamente, conforme agora eu ladino deduzia. Disse, com modos, ao próprio Zé Bebelo, que isto de mim escutou:

– “... Sem tenção de descrédito ou ofensa, Chefe, mas duvido de que bem fizemos em restar todos aqui, comprando cura de doenças. Mais ajuizado certo não seria se ter remetido meia-dúzia de cabras, dos sãos, que tivessem ido buscar a munição nesse lugar, a Virgem-Mãe, e trazer? Munição já estava aqui, e a gente estava mais garantidos...”

Zé Bebelo em mal amargo – ele espinoteou com a cabeça, arejou os queijos. Desde, depressinha, me explicou a

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas maior razão, com palavras baixas. Porque ele de tudo já soubesse: foi então que me disse que o extravio nosso tinha sido mais completo; porque a gente tinha vindo em má rota, em vez da Virgem-Mãe para a Virgem-da-Laje. Eu escutei, tei.

Em outras ocasiões, uma notícia dessas era capaz de me perturbar. Mas, dessa viagem, eu achava até divertido. Figuro explicando ao senhor: desde por aí, tudo o que vinha a suceder era engraçado e novo, servia para maiores movimentos. Com essas levezas eu seguia a vida.

Quando, então, trouxeram reunidos todos os animais, estavam ajuntando a cavalhada. Regulava subida manhã, orçado o sol, e eles redondeavam no aprazível – tropilha grande, pondo poeira, dado o alvoroço de muitos cascos. Fiz um rebuliz? Dou confesso o que foi: era de mim que eles estavam espantados. Aí porque a cavalaria me viu chegar, e se estrepoliu. O que é que cavalo sabe? Uns deles rinchavam de medo; cavalo sempre relincha exagerado. Ardido aquele nitrinte riso fininho, e, como não podiam se escapulir para longe, que uns suavam, e já escumavam e retremiam, que com as orelhas apontavam. Assim ficaram, mas murchando e obedecendo, quando, com uma raiva tão repentina, eu pulei para o meio deles: - “Barzabu! Aquieta, cambada!” – que eu gritei. Me avaliaram. Mesmo pus a mão no

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas lombo dum, que emagreceu à vista, encurtando e baixando a cabeça, arrufava a crina, conforme terminou o bufo de bufor.

Notei que os companheiros reparavam a estranhez daquilo, dos cavalos e as minhas maneiras. Só que se riam, formados no costume de jagunços, que é de frouxas essas leviandades. -

“Barzabu!” – ô gente!, feito fosse minha certeza, o Das-Trevas. E

eu parava, rente, no meio de todos, que de volta aceitavam minha presença, esses cavalos.

-“Tu sendo peão amansador domador?!” – que o Ragásio caçoou comigo. Mas eu me virei, e já se ouvia outro tropel: era aquele seô Habão, que chegava. Vinha com três homens, estroteantes – gentinha trabalhosa. E o animal dele, o gateado formoso, deu que veio se esbarrar ante mim. Foi o seô Habão saltando em apeio, e ele se empinou: de dobrar os jarretes e o rabo no chão; o cabresto, solto da mão do dono, chicoteou alto no ar. - “Barzabu!” – xinguei. E o cavalão, lão, lão, pôs pernas para adiante e o corpo para trás, como onça fêmea no cio mor.

Me obedecia. Isto, juro ao senhor: é fato de verdade.

O seô Habão estava ali, me desentendeu nos olhos. Ele ficou a vermelho. Mas eu acho que, homem só vendido ao dinheiro e ao ganho, às vezes são os que percebem primeiro o

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas atiço real das coisas, com a ligeireza mais sutil. Ele não gaguejou.

Melhor me disse: - “Se este praz ao senhor... Se ele praz ao senhor... Lhe dou, amigavelmente, com bom agrado: assim como ele está, moço, ele é seu...”

Não acreditei? Reafirmo ao senhor: meu coração não pulsou dúvidas. Agradeci, com meu brio; peguei a ponta do cabresto. Agora, daquela hora, era meu o cavalo grande, com suas manchas e riscas – ah, como ele pisava peso no chão, e como ocupava tão grande lugar! Até passeei um carinho nas faces dele, e pela tábua-do-pescoço a fora. Meu o bicho era, por posse, e assim revestido, conforme estava – que era com um Bocadinho bom, com caçambas de pau. Mas sendo que, dividido o instante, eu já ali pensei: por que seria que o seô Habão se engraçava de me presentear de repente com uma prenda dum valor desse, eu que não era amigo nem parente dele, que não me devia obrigação, quase que nem me conhecia? Aos que projetos ele engenhava em sua mente, que possança minha ele adivinhava? A pois, fosse. Aquele homem me temia? Da admiração de meu povo todo, dei fé, borborinho com que me rodeavam. Certo, deviam de estar com invejas. Fosse! E a mãe!... A primeira coisa, que um para ser alto nesta vida tem de aprender, é topar firme as invejas dos outros restantes... Me rejo, me calejo! Só por causa

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas daquele cavalo, até, eu fui ficando mais e mais, enfrentava. Não me riram.

-“É deveras... Animal de riqueza: graúdo, farto e manteúdo...” -“Sorte é isto. Merecer e ter...”

- “Ainda bem que foi bem empregado...”

Só dissessem. Disfarcei meu regozijo. Disse logo foi a tenção de maiores idéias em desejos – segundo a como apeirado aquele eu já queria: que arreado à gaúcha, com peitoral com pratas em meia-lua, e as peças dos arreios chapeadas de belo metal.

- “Ara, que assim ouvi, Tatarana: o nome que ele vai se chamar é mesmo Barzabu?” – algum caçoou de me perguntar.

- “A não, meu compadre torto! Sossega a velha... Nome que dou a ele, d’ora em diante, conferido, é este – quem que aprender, aprende! – que é: o cavalo SiruizL..” – assim foi que eu respondi, sem tempo nenhum para pensamento. Montei.

Ah, as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente. Pois Zé Bebelo estava aparecendo ali, e eu atinei, ligeiro, com o que não tinha refletido. Ao que: oferecer e receber um presente daquele, naquelas condições, era a mesma coisa que

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas forte ofender Zé Bebelo. Um dom de tanto quilate tinha de ser para o Chefe. Reconheci, aí. Mas não tirei para trás. Não desapeei. É de ver que, conforme em mim, nesses enquantos, eu já devia de estar fitando Zé Bebelo com um certo desprezo. Ia haver o que ia haver, e eu não me importei. Um qualquer chefe de jagunço havia de ter ímpeto de resolver aquilo fatal. Aí, esperei. Teria sido uma tenção dessas, de arder a desordem no meio nosso, a razão do seô Habão? Pensei o dito, num ínterim. E

pensei pontudo em minhas armas.

Mas Zé Bebelo, acabando de saber o acontecido, mirou em mim, somente, poupado risonho: - “Tal te fica bem, Professor, amontado nesse estampo, queremos havemos de te ver garboso, guerreando as boas batalhas... Em hora!...” – foi o que ele disse, se me seja que gostou pouco. Choveu para o meu arrozal! Ah, mesmo só inteligência, só, era que que era aquele homem.

Desapeei.

Como por um rasgo, para solércias, dei o cabresto ao Fafafa. Disse: – “Tu desarreia, amilha e escova, tu trata dele...” ; e isso fiz, porque o Fafafa, que tanto gostava simples de cavalos, era o prestante para cuidar dum animal, em mesmo que dele não sendo. Mas eu tinha dado uma ordem. Assim me refiz. E o seô

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Habão tinha trazido também boa quantidade de remédio para se tomar pela maleita, das pastilhas mais amargosas. Todo o mundo recebia.

Saí, uns passos. Eu estava dando as costas a Zé Bebelo. Ele podia, num relance, me agredir de morte, me atirar por detrás... –

atentei. Esbarrei em meu caminhar, fiquei assim parado, assim mesmo. O medo nenhum: eu estava forro, glorial, assegurado; quem ia conseguir audácias para atirar em mim? As deles haviam de amolecer e retombar, com emortecidos braços; eu podia dar as costas para todos. O que o Drão – o demonião – me disse, disse: seria só? Olhei para cima: pegaram nas nuvens do céu com mãos de azul. Aquela firme possança; assim permaneci, outro tempo, acendido. Eu leve, leve, feito de poder correr o mundo ao redor. Ao senhor eu conto, direto, isto como foi, num dia tão natural. Será que, de cousas tão forçosas, eu ia poder me esquecer? Aquele dia era uma véspera.

Em tanto o seô Habão jantou com a gente. Raimundo Lê repartiu com os carecidos as pastilhas de remédio. Diadorim meu amigo estava. Zé Bebelo me chamou adeparte, me expondo especializado diversas coisas que pretendia reformar de fazer.

Alaripe conversou comigo. E dessa derradeira conversa quero

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas referir ao senhor. Foi que, eu puxando, eu desejando saber, se falou muito nessas orações de curar a gente contra bala de morte, e em breves que fecham o corpo. Alaripe então contou uma estória, caso sucedido, fazia tempos, no giro do sertão. O qual era o seguinte.

Um José Misuso uma vez estava ensinando a um Etelvininho, a troco de quarenta mil-réis, como é que se faz a arte de um inimigo ter de errar o tiro que é destinado na gente.

Do que deu o preceito: - “... Só o sangue-frio de fé é que se carece – pra, na horinha, se encarar o outro, e um grito pensar, somente: Tu erra esse tiro, tu erra, tu erra, a bala sai vindo de lado, não acerta em mim, tu erra, tu erra, filho de uma cã!...”

Assim ele ensinou ao Etelvininho, o Misuso. Mas, aí, o Etelvininho reclamou: - “Ara, pois, se é só isso, só issozinho, pois então eu já sabia, mesmo por mim, sem ninguém me ensinar

– já fiz, executei assim, umas muitas vezes...” - “E fez igualzinho, conforme o que eu defini?” – indagou o José Misuso, duvidando.

- “Igualzinho justo. Só que, no fim, eu pensava insultado era: ...

seu filho duma cuia!...” – o Etelvininho respondeu. - “Ah, pois então” – o José Misuso cortou a questão - “... pois então basta que tu me pague só uns vinte mil-réis...”

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas A gente muito rimos todos. A hora a ser de satisfa, alegrias sobejavam. Se caçoou, se bebeu, um cantou o sebastião.

Mansinho, mãe, chegaram as voltas da noite. Dormi com a cara na lua.

Acordei. A madrugada com luar, me lembro, acordei com o rumor de cavaleiros que vinham chegando, no esquipado, e que travavam repentino com áspero estremecimento os cavalos: br’r’r’uuu... Calculei: uns dez. Ao que eram. Levantei, pulando de minha rede, quem podiam esses ser? Todos os companheiros nos rifles, e eu não tinha escutado aviso de sentinelas.

Madrugada essa boa claridade. Luar que só o sertão viu.

Vim dele.

- “Aí é o nosso João Goanhá, com os cabras...” – disse Diadorim, que tinha a rede dele armada da minha a uns três passos. Assim era. João Goanhá, o Paspe, Drumõo, o compadre Ciril, o Bobadela, o Isidoro... Tornar a encontrar companheiros desses, aí é que se põe significado na vida, se encompridando se encurtando. O João Goanhá, gordo, forte, barbudo. Era a dele uma barba muito fechada, muito preta. Veio do luar, chegou bom. Todo o mundo falava, a gente se abraçava. Com pouco o fogo se acendia, para o café, para algum almoço. Enquanto isso,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Zé Bebelo, formado em pé, o mais rompante que pudesse, pedia notícias por interrogação.

Antes, as verdades, essas, as coisas comuns, conforme foi que se passaram. Mais não sei? Mesmo não tinha botado idéia na cabeça, acabando de despertar de meu sono. Diadorim era o que estava alegrinho especial: só se ele tinha bebido. Diadorim, de meu amor – põe o pezinho em cera branca, que eu rastreio a flor de tuas passadas. Me recordo de que as balas em meu revólver verifiquei. Eu queria a muita movimentação, horas novas. Como os rios não dormem. O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo. O Urucuia é um rio, o rio das montanhas. Rebebe o encharcar dos brejos, verde a verde, veredas, marimbus, a sombra separada dos buritizais, ele.

Recolhe e semeia areias. Fui cativo, para ser solto? Um buraquinho d’água mata minha sede, uma palmeira só me dá minha casa. Casinha que eu fiz, pequena – ô gente! – para o sereno remolhar. O Urucuia, o chapadão derredor dele. Estas árvores: essas árvores. Conversa, Zé Bebelo: conversa, com as marrecas chocas, no meio das varas do juncal. Mesmo na hora em que eu for morrer, eu sei que o Urucuia está sempre, ele corre. O que eu fui, o que eu fui. E esses velhos chapadões –

dele, dos Couros, de Antônio Pereira, dos Arrepiados, do Couto,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas do Arrenegado. Um homem é escuro, no meio do luar da lua –

lasca de breu. Dentro de mim eu tenho um sono, e mas fora de mim eu vejo um sonho – um sonho eu tive. O fim de fomes. Ei, boto machado em toda árvore. Eu caminhei para diante. Em, ô gente, eu dei mais um passo à frente: tudo agora era possível.

Não era de propósito, o senhor não julgue. Nem não fizeram espantos. Não exclamei, não pronunciei; só disse.

- “Ah, agora quem aqui é que é o Chefe?”

Só perguntei. Sei por quê? Só por saber, e quem-sabe por excessos daquela minha mania derradeira, de me comparecer com as doidivãs bestagens, parlapatal. De forma nenhuma eu não queria afrontar ninguém. Até com preguiça eu estava. A verdade, porém, que um tinha de ser o chefe. Zé Bebelo ou João Goanhá.

Um para o outro olharam.

- “Agora quem é que é o Chefe?”

Somente eu estava por cima da surpresa deles? Zé Bebelo –

o pensante, soberbo e opinioso. João Goanhá – duro homem tão simples, vindo por meio de dificuldades e distâncias, desde a outra banda do rio, caçar a lei da companhia da gente, como um

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas costume necessário, que sem isso ele não conseguia direito se pertencer. Com meus olhos, tomei conta.

- “Quem é que é o Chefe?!” – repeti.

Me olharam. Saber, não soubessem, não podiam como responder: porque nenhum deles não era. Zé Bebelo ainda fosse?

Esse pardejou. E, o João Goanhá, eu vi aquele mestre quieto se mexer, em quente e frio, diante das minhas vistas-nem não tinha ossos: tudo nele foi encurtando medidagesto, fala, olhar e estar.

Nenhum deles. E eu – ah – eu era quem menos sabia – porque o Chefe já era eu. O Chefe era eu mesmo! Olharam para mim.

- “Quem é qu’...”

E... Ao que o pessoal, os companheiros todos, convocados, fechavam roda. Eu felão. Não me entendessem? Foi que alguns dos homens rosnaram. E foi esse Rasga-em-Baixo, o principal deles, esse, pelo que era, pelo visto, oculto inimigo meu – que buliu em suas armas... Sanha aos crespos, luziu faca, no a-golpe...

Meu revólver falou, bala justa, o Rasga-em-Baixo se fartou no chão, semeado, já sem ação e sem alma nenhuma dentro. E aí o irmão dele, José Félix: ele tremeu muito lateral; livrou o ar de sua pessoa; outro tiro eu também tinha dado...

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

- “ ... é o Chefe?!...”

Ato de todos quietos permanecidos, esbarrados com tanta singelez de choques. Ah, eu, meu nome era Tatarana! E

Diadorim, jaguarado, mais em pé que um outro qualquer, se asava e abava, de repor o medo mor. Ele veio marechal. Se viram, se sentiram, decerto que acertaram: pelos altos de nós dois; e porque logo aí Alaripe, o Acauã, o Fafafa, o Nélson, Sidurino, Compadre Ciril, Pacamã-de-Presas – e outros e outros-já formavam do lado da gente. – Tenho de chefiar! – eu queria, eu pensava. Isso eu exigia. Assim. João Goanhá se riu para mim.

Zé Bebelo sacudiu uns ombros.

Ali, era a hora. E eu frentemente endireitei com Zé Bebelo, com ele de barba a barba. Zé Bebelo não conhecia medo. Ao então, era um sangue ou sangues, o etcétera que fosse. Eu não aceitava muita parlagem: - “Quem é que é o Chefe?” – eu quis.

Se quis, foi com muita serenidade. Zé Bebelo retardou. Eu social, encostado. Conheci que ele tardava e pensava, para ver o que fazer mais vagarosamente.

- “Quem é-que?” – eu brando apertei.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Eu sabia do respirar de todos. Durasse mais, aquilo eu já largava, por me cansar, por estar achando cacete. Minha vontade estroina de paliar: – Seu Zé Bebelo, velho, tu me desculpe... – eu calei. Zé Bebelo se encolheu um pouco, só. Aí ele não tremeu, no sucinto dos olhos.

- “A rente, Riobaldo! Tu o chefe, chefe, é: tu o Chefe fica sendo... Ao que vale!...” – ele dissezinho fortemente, mesmo mudado em festivo, glo riando um fervor. Mas eu temi que ele chorasse. Antes, em rosto de homem e de jagunço, eu nunca tinha avistado tantas tristezas.

- “Sendo vós, companheiros...” – eu falei para em volta.

Tantos, tantos homens, os nos rifles, e eles me aceitavam.

Assim aprovaram. O Chefe Riobaldo. Aos gritos, todos aprovavam. Rejuravam, a pois. A esses resultados. No que eram com solenidade, sinceridade. Tudo dado em paz. Só aqueles dois amaldiçoados irmãos, baldeados mortos, na ponta de unha. Ali, enterrar aqueles dois seria faltar a meu respeito. Amém. Tudo me dado. O senhor, mire e veja, o senhor: a verdade instantânea dum fato, a gente vai departir, e ninguém crê. Acham que é um falso narrar. Agora, eu, eu sei como tudo é: as coisas que acontecem, é porque já estavam ficadas prontas, noutro ar, no sabugo da unha;

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas e com efeito tudo é grátis quando sucede, no reles do momento.

Assim. Arte que virei chefe. Assim exato é que foi, juro ao senhor. Outros é que contam de outra maneira.

Ao fim, depois que João Goanhá me aprovou, revi os aspectos de Zé Bebelo. Acertar com ele.

- “O senhor, agora...” – eu quis dizer.

- “Não, Riobaldo...” – ele me atalhou. - “Tenho de tanger urubu, no m’embora. Sei não ser terceiro, nem segundo. Minha fama de jagunço deu o final...”

Daí, riu, e disse, mesmo cortês: - “Mas, você é o outro homem, você revira o sertão... Tu é terrível, que nem um urutu branco...”

O nome que ele me dava, era um nome, rebatismo desse nome, meu. Os todos ouviram, romperam em risos. Contanto que logo gritavam, entusiasmados: - “O Urutu-Branco! Ei, o Urutu-Branco!...”

Assim era que, na rudeza deles, eles tinham muita compreensão. Até porque mais não seria que, eu chefe, agora ainda me viessem e dissessem Riobaldo somente, ou aquele apelido apodo conome, que era de Tatarana. Achei, achava.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Vai, e eu, por um raio de momento, eu tinha concebido que carecesse de tirar a vida a Zé Bebelo, por maior sossego de meu reger, no futuramente; e agora eu estava quase triste, com pena de ver que ele ia-s’embora. O divertido havia de ser, sim isso, de levar Zé Bebelo comigo, de sotenente, através desse através. Ah, homem como aquele, não se matava. Homem como aquele, pouco obedecia. A ele mandei fornecer mais um cavalo, e um cargueiro – com mantimento, coisas, munição melhor. Dali a hora, mesmo, ele pegou caminho. Para o sul. Vi quando ele se despediu e tocou – com o bom respeito de todos ; e fiquei me alembrando daquela vez, de quando ele tinha seguido sozinho para Goiás, expulso, por julgamento, deste sertão. Tudo estava sendo repetido. Mas, da vez dessa, o julgamento era ele, ele mesmo, quem tinha dado e baixado. Zé Bebelo ia s’embora, conseguintemente. Agora, o tempo de todas as doideiras estava bicho livre para principiar.

De seguida, parado persisti, para um prazo de fôlego. Aí vendo que o pessoal meu já me obedecia, prático mesmo antes da hora. Como que corriam e mexiam, se aprontando para saída, sacudiam no ar os baixeiros, selavam os cavalos. Tantos e tantos, eu sabia o nome e o defeito maior de cada um daqueles homens, e tantos seus braços e tantos rifles e coragens. Aí eu mandava. Aí

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas eu estava livre, a limpo de meus tristes passados. Aí eu desfechava. Sinal como que me dessem essas terras todas dos Gerais, pertencentes. Por perigos, que por diante estivessem, eu aumentava os quilates de meu regozijo. À fé, quando eu mandasse uma coisa, ah, então tinha de se cumprir, de qualquer jeito. - “Tenho resoluto que!” – e montei, com a vontade muito confiada. Dali a gente tinha logo de sair, segundo ã regra exata.

Estradeei. Nem olhei para trás. Os outros me viessem? Cantava o trinca-ferro. Uma arara chiou cheio; levou bala, quase. Atrás de mim, os cabras deram vivas. Eles vinham, em vinham. Eu contava, prazido, o tôo dos cascos.

Dei galope. No Valado chegamos, conforme íamos retornar, por assim. De galope, como está dito. Gente, gentinha, nos rodeou, roceiros em seu serviço. Aquele seô Habão, incluso, muito estarrecido. Esbarramos parada. O que eu carecia era de uns instantes sempre meus, para estribar meu uso. Era primeira viagem saída, de nova jagunçagem; e as extraordinárias cousas, para que todos admirassem e vissem, eu estava em precisão de fazer. E vi um itambé de pedra muito lisa; subi lá. Mandei os homens ficassem embaixo, eles outros esperavam. Minha influência de afã, alegria em artes, não padecesse de se estorvar em monte de pessoas nenhumas. De despiço, olhei: eles nem

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas careciam de ter nomes – por um querer meu, para viver e para morrer, era que valiam. Tinham me dado em mão o brinquedo do mundo.

Fiquei lá em cima, um tempo. Quando desci, umas coisas eu resolvia. Aonde se ia; em cata do Hermógenes? Ah, não.

Antes, primeiro, para o Chapadão do Urucuia, onde tanto boi berra. Ao que me seguissem. Ah, mas, assim, não. O que foi o que eu pensei, mas que não disse: – Assim não...

E veio perante minha presença o seô Habão, mais antecipado que todos; macio, atarefadinho, ele já me sussurrava.

Homem, esse! Ele queria me oferecer dinheiro, com seus meios queria me facilitar. Ah, não! de mim ele é que tinha de receber, tinha de tomar. Agarrei o cordão de meu pescoço, rebentei, com todas aquelas verônicas. As medalhas, umas delas que eu tinha de em desde menino. Fiz gesto: entreguei, na mão dele. O senhor havia de gostar de ver o ar daquele seô Habão, forçado de aceitar pagamento do que nem eram correntias moedas de tesouro do rei, mas costumeiras prendas de louvor aos santos. Ele estava em todos tremores – conforme esses homens que não têm vergonha de mostrar medo, em desde que possam pedir à gente perdão com muita seriedade. Digo ao senhor: ele beijou minha mão! Ele

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas devia de estar imaginando que eu tinha perdido o siso. Assim mesmo, me agradeceu bem, e guardou com muito apreço as medalhas na algibeira; até porque, não podia obrar de outra forma. Matar aquele homem, não adiantava. Para o começo de concerto deste mundo, que é que adiantava? Só se a gente tomasse tudo o que era dele, e fosse largar o cujo bem longe de lá, em estranhas terras, adonde ele fosse preta-e-brancamente desconhecido de todos: então, ele havia de ter de pedir esmolas...

Isso, naquela hora, pensei. Ah, não. E nem não adiantava: mendigo mesmo, duro tristonho, ele havia ainda de obedecer de só ajuntar, ajuntar, até à data de morrer, de migas a migalhas...

As verônicas e os breves ele vendesse ou avarasse para os infernos. Comigo só o escapulário ainda ficou. Aquele escapulário, dito, que conservava pétalas de flor, em pedaço de toalha de altar recosturadas, e que consagrava um pedido de benção à minha Nossa Senhora da Abadia. Que, mesmo, mais tarde, tornei a pendurar, num fio oleado e retrançado. Esse eu fora não botava, ah, agora podia desdeixar não; inda que ele me reprovasse, em hora e hora, tantos meus malfeitos, indas que assim requeimasse a pele de minhas carnes, que debaixo dele meu peito todo torcesse que nem pedaço quebrado de má cobra.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas E, num reverter de mão, eu já estava pensando: o que eu ia fazer com ele, com o seô Habão, por alguma alvíssara de mercê.

Porque, em fato, ele merecia, e eu a ele devia. Porque ele tinha vesprado em reconhecer meu poder, antes de outro qualquer; e mesmo um barão de presente dele tinha sido, e era, aquele meu formoso cavalo Siruiz, em qual eu estava amontado.

Aí, me lembrei, de uma coisa, e isso era próprio encargo para ele, cabendo em sua marca de qualidade. Me lembrei da pedra: a pedra de valor, tão bonita, que do Araçuaí eu tinha trazido, fazia tanto tempo. Tirei o embrulhinho, da bolsa do cinto. Apresentei a ele. Eu falei: - “Seô Habão, o senhor escute, o senhor cumpra: pega este mimo, zelando com os dedos todos de suas mãos... já e já, o senhor viaje, num bom animal, siga rumo dos Buritis Altos, cabeceira de vereda, para a Fazenda Santa Catarina...”

E mais disse: que era para entregar, de minha parte, à moça da casa, que Otacília se chamava, a qual era minha sempre noiva.

Mas não dando razão de nomear minha pessoa pelos altos títulos, nem citando chefia de jagunços... Mas somente prezar que eu era Riobaldo, com meus homens, trazendo glória e justiça em território dos Gerais de todos esses grandes rios que do

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas poente para o nascente vão, desde que o mundo mundo é, enquanto Deus dura!

Ah, não: em Deus não falasse. Seô Habão pôs atenção; perturbado mas sisudo, ele cogitava. O que ele dizia, carecia de ser repetido, esfiando o as sunto nas pontas dos dedos, tostões.

Ser rico é um diverso dissabor? Que um pudesse se acautelar assim, me atanazava. Quem era? O que por primeira vez reparei: que ele tinha as orelhas muito grandes, tão grandonas; até, sem querer, eu tive de experimentar com a mão o tamanho medido das minhas. Melhor trazer esse sujeito comigo, perto mais perto, para poder vigiar, por todas as partes? Melhor, não; o melhor seria desmanchar a presença dele em definitivas distâncias. – Não vou comer teus peitos, teu nariz, teus duros olhos moles... – eu pensei. Mas ele também tinha alguma espécie de chefia. Eu virei a cara, andei três passos, dando com Diadorim. - “O que eu tolero e desentendo, esse homem: que é, porque, dele, não se consegue ter raiva nem ter pena...” – falei. Mas vi um adejo sombrio no meu amigo, condenado que era de tristeza que não quer ceder suas lágrimas. O quanto, por causa da pedra de topázio? – eu reconheci. Eu não tinha tido dó de Diadorim.

“Dei’stá’, tem tempo, Diadorim, tem tempo...” – pensei, a meio.

Da amizade de Diadorim eu possuía completa certeza. E mais

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas não me amofinei. De manhã cedo, o senhor esbarra para pensar que a noite já vem vindo? O amor de alguém, à gente, muito forte, espanta e rebate, como coisa sempre inesperada. E eu estava naquelas impaciências. Trasmente que, em Otacília, mesmo, verdadeiro eu quase nem cuidava de sentir, de ter saudade. Otacília estava sendo uma incerteza – assunto longe começado. Visse, o que desse, viesse. O seô Habão ia, levava a pedra de topázio, a vida do mundo ia vivendo, coração dá tantas mudanças; meus dízimos eu pagava. O pássaro que se separa de outro, vai voando adeus o tempo todo. Ah, não, eu não – rio, riachos! – não me amofinava. Aquela tristeza de Diadorim eu não aceitei, nem ceitil não recebi. Ingratidão, para o mais-tarde.

Mas o seô Habão não queria ter terminado: negócio que carecia ainda de algum ponto. Dei licença. Ele perguntou, sonseante: ... se eu não prazia de enviar por ele algum recado também para o senhor meu pai, Selorico Mendes, dono do São Gregório, e de outras boas e ricas fazendas?... Eu achei graça, acenei que sim: disse que fosse, reproduzisse a minha saudação...

E então foi que o seô Habão levantou a cara, aquietado – até mediante sorriso. De sorte que, para corrigir em siso a tranqüilidade daquilo, eu determinei: - “O senhor vá logo, logo, de rota abatida... E de lá não quero nenhuma resposta...” –

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas enquanto ri, de ver como ele me obedecia expresso, sem necessidade de caráter.

Onde que, mal dele livre me vi, gritei, despachado, pelos demais. Dand’ ordens: - “A rodar por aí, me trazerem os homens!”

Que’s homens? Os todos que fossem e houvesse. - “Quem tiver instrumento – a toque! Quem gostar de dançar, arre melhor!

P’r’ apreparo, trazer as mulheres também... Com que as músicas, de lá, lá lá...” Tudo tinha de semelhar um social. Ao pois, quem era que ordenava, se prazia e mandava? Eu, senhor, eu: por meu renome, o Urutu-Branco... Ah, não. Festa?

Eu já estava resolvendo o contrário. Mas reunir aquela porção de homens, e formar todos de guerreiros. A com a gente, a que viessem. Aquilo valia? Os outros não falaram, decerto não acharam ou acharam. Ou quanto mais que, eles, os meus, só mesmo o mover por me agradar, só, era o que de si desejavam; e aquela minha lei era divertida. Saíram, espalhados sendo, em caçar, em boa alarida.

Mas trouxeram. Me trouxeram, rebanhal, os todos possíveis. Do Sucruiú, uns pouquinhos – alguns com as caras

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas secando os brotes das bexigas, más marcas, feito mijo na areia; outros um ou outro de semblante liso fresco, esses escapos de não terem tido a doença. Os que fingiam não me temer, achavam mais favorável querer ter vindo por próprio conselho; mal-abriam boca em risos. Dei que pronto todos provassem gol d’alguma cachaça. Aquela gente depunha que tão aturada de todas as pobrezas e desgraças. Haviam de vir, junto, à mansa força. Isso era perversidades? Mais longe de mim-que eu pretendia era retirar aqueles, todos, destorcidos de suas misérias.

Até que fiz. Ah, mas, mire e veja: a quantidade maior eram aqueles catrumanos – os do Pubo. Eles, em vozes. Ou o senhor não pode refigurar que estúrdia confusão calada eles paravam, acho que, de ser chamados e reunidos, eles estavam alertando em si o sair de um pavor. Ao depois, quando dei brado, queriam se alinhalinhar, mesmo, solertes, como se por soldados reconhecidos. Seriam eles assim bons no ruim, para guerra serviam, para meter em formatura? Tanto todo o mundo achava graça, meus jagunços queriam pagode. Ah, os catrumanos iam de ser, de refrescos. Iam, que nem onças comedeiras! Não entendiam nada, assim atarantados, com temor ouviam minha decisão. - “Filhos-da-mãe!” – eu declarei. Tive de repente fé naqueles desgraçados, com suas desvalidas armas de toda

Continuar: parte 3 de 3