Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa · Capítulo 6 de 8 · parte 3/3

Páginas do PDF

Grande Sertão: Veredas

– “Ih, que’s, menino! Quem te vê…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– 634 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas antiguidade, e cabaças na bandola, e panelas de pólvora escura e fedor de fumaça ceguenta. Adivinhei a valia de maldade deles; soube que eles me respeitavam, entendiam em mim uma visão gloriã. Não queriam ter cobiças? Homens sujos de suas peles e trabalhos. Eles não arcavam, feito criminosos? - “O mundo, meus filhos, é longe daqui!” – eu defini. – Se queriam também vir? – perguntei. Ao vavar: o que era um dizer desseguido, conjunto, em que mal se entendia nada. Ah, esses melhor se sabiam se mudos sendo. Dei brado. Indaguei dum. Tomou um esforço de beira de coragem, para me responder. Esse aquele era o do chapéu encartuchado, rapaz moço. Respondeu que Sinfrônio se chamava; e indicou outro – que era o pai. Aquele outro, o pai, era um homem sem pescoço. Respondeu que se chamava Assunciano. E indicou outro. Mais adiante não deixei.

Deixasse, iam de dedo em dedo me passando para o daquelas pernas de fora, que Osirino era, as pernas forradas de lama seca; ou para o que coçava suas costas em pau de árvore, feito um bezerro ou um porco. Visli a sorrateira malícia nos jeitos deles. E

mais o do jegue – no jegue amontado, permanecendo de perfil, aquele bronzeado jumento – que tinha, o ho mam por nome Teofrásio; e só não desamontava do jegue por ordem minha, que em antes eu tinha-dado. Ele me disse: - “Dou louvor. Em tudo,

– 635 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas chefe, vos obedecemos...” – ele disse; e de lá se virou o focinho branco do jumento. O homem Teofrásio limpou a goela; mas com respeito. -“Assim vós prazido, chefe. Pedimos vossa benção...” E eu concedi – que o Teofrásio, meio chefim deles, o do jegue: que o jegue pudesse trazer. Daí houve porém. Que um, o sem pescoço, baixinho descoroçoou, na desengraça, observou:

- “... Quem é que vai tomar conta das famílias da gente, nesse mundão de ausências? Quem cuida das rocinhas nossas, em trabalhar pra o sustento das pessoas de obrigação?...” O que falou, tinha falado por todos. - “... Pra os roçados? Pra os plantios...” E mesmo um outro, de mãos postas como que para rezar, choramingou: - “Dou de comer à mea mul’é e treis fi’o’, em debaixo de meu sapé...” – e era um homem alto, espingolado, com todos os remendos em todos os molambos. - “Como é a tua graça, seô?” – indaguei. Se chamava Pedro Comprido. Mas, aí, eu já tinha pensado. - “Pois vamos! As famílias capinam e colhem, completo, enquanto vocês estiverem em glórias, por fora, guerreando para impor paz inteira neste sertão e para obrar vingança pela morte atraiçoada de loca Ramiro!...” – eu determinei. – I j’ Maria, é ver, nós, de Cristo, jagunceando...” –

escutei, dum. Daí, declarei mais: - “Vamos sair pelo mundo, tomando dinheiro dos que têm, e objetos e as vantagens, de toda

– 636 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas valia... E só vamos sossegar quando cada um já estiver farto, e já tiver recebido umas duas ou três mulheres, moças sacudidas, p’ra o renovame de sua cama ou rede!...” Ah, ô gente, oh e eles: que todos, quase todos, geral, reluzindo aprovação. Mesmo os meus homens. Fiz gesto, com meu contentamento. Queria o que só me faltou – que foi que o jumento do homem zurrasse. Eu ia transformar os regimentos desses foros. Convoquei todos nas armas. - “E o Borromeu? E o Borromeu?” – ainda perguntavam.

Quem era que esse Borromeu? Mandei vir. Um cego; ele era muito amarelo, escreiento, transformado. - “Responde, tu velho, Borromeu: que é que tu faz?” - “Estou no meu canto, cá, meu senhor... Estou me acostumando com o momentozinho de minha morte...” Cego, por ser cego, ele tinha direito de não tremer. - “Tu é devoto?” - “Pecador pior. Pecador sem o que fazer, pede preto, pede padre...” Apontou com o dedo. Levei os olhos. Não vi nada. É assim, a esmo, que os cegos fazem. Aquele era o bom rumo do Norte. -“Ah, meu senhor, eu sei é pedir muitas esmolas...” Pois, então, que viesse também o Borromeu, viesse. Mandei que montassem o dito num cavalo manso, que da banda da minha mão direita devia sempre de se emparelhar.

Alguns riram. E, pelo que riram, de certo não sabiam – que um desses, viajando parceiro com a gente, adivinha a vinda das

– 637 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas pragas que outros rogam, e vão defastando o mau poder delas; conforme aprendi dos antigos. E, por nada, mais me lembrei, de repentinamente, do menino pretozinho, que na casa do Valado a gente tinha surpreendido, que furtando num saco o que achava fácil de carregar. E tiveram de campear esse menino. Ele estava amoitado, o tempo todo, com a boca no chão, no meio do mandiocal. Quando foi pego, xingava, mordia e perneava. Ele se chamava Guirigó; com olhares demais, muito espertos. -

“Guirigó, tu vem vestido, ou nu?” Como que não vinha?

Aprontaram um cavalo para ele só, que devia de se emparelhar com o meu, da banda de minha mão esquerda. Há-de há, meu povo! Todos tocamos. Cavalos que chegassem, bastados, tinha não; mas, por diante, animais alheios a gente topasse, para se assenhorear, a laço e mãos. Os muitos vinham a pé, aqueles catrumanos ainda meio vigiados. Ver o seguinte. Eu queria esses campos. Pernoitamos, com marcha de dez léguas, assim mesmo.

Terçando um total de projetos, com os entusiasmos, no topo da cabeça minha, poder não pude dormir, mesmo com o cansaço em que estava, na noite não preguei os olhos. Mas conversei surgidamente com os que paravam, espalhados, de sentinelas, e mandei acender foguinhos de assar mandioca e fogueiras de iluminar. Ah, a gente ia encher os espaços deste mundo adiante.

– 638 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Aonde é que jagunço ia? À vã, à vã. Tinha minha vontade, de estar em toda a parte. Mas, quadrando que primeiro, mais para o norte: para o Chapadão do Urucuia, aonde tanto boi berra.

Que eu recordava de ver o rio meu – beber em beira dele uma demão d’água... Ah, e essas estradas de chão branco, que dão mais assunto à luz das estrelas. Eu pensei, eu quis. E o Hermógenes, os Judas? Ara, inimigo, o senhor dê um passo, em que rumo qualquer, lá em sua frente o senhor encontra o mau...

Eu não tinha todo tempo? Safra em cima, eu em minha lordeza.

Mesmo deitado, eu sentia que estava caminhando, galopando.

Quando a madrugada bateu as asas, eu já estava abotoando a espora. Outra vez, eu digo: tem botim novo flote, e chinelo velho redomão. O dia ia ser lindo de leveza! – pelas beiradas do céu.

Forramos o estômago; e saímos, deslizando com a manhã, com o merujo do orvalho. O que eu via: altos de mata e além! As coisas todas eu pensava, e nada nenhuma não me sombreasse. Algum medo não palpitava frio por detrás de meus olhos; e, por via disso, eu de todos era o chefe, mesmo em silêncio singular.

Conforme assim, chegamos, no Pé-da-Pedra, fazenda da Barbaranha. Em perto de sete léguas. E o que aí foi, lhe conto.

Ao entrementes, eu achei graça: em que o Alaripe, João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, e mesmo Diadorim, e

– 639 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas outros mais velhos, não carecessem de formar conselho. As lérias. Meu direito era contrariar as regras todas do chefe que antes fora; para mim, só mesmo o que servia era à solta a lei da acostumando. Aí, não viessem me dizer que a gente estava só com três dias de farinha e carne-seca. Toleima. Todo boi, enquanto vivo, pasta. Razão e feijão, todo dia dão de renovar. A coragem que não faltasse; para engolir, a polpa de buriti e carnes de rês brava. Às léguas, eu indo, eles me seguindo. - “Tu está vendo o tamanho do mundo, Guirigó? Que é que tu acha de maior boniteza?” Assim eu perguntei, àquele sacizinho de duas pernas, que preto reluzente afora os graúdos olhos brancos, me remedando, da banda de minha mão canhota sempre viesse, encarapitado sobre seu alto cavalo. E ele, a cuja senvergonhice: -

“De todas as coisas, boniteza melhor é dessa faquinha enterçada, de metal, que o senhor travessa na cintura...” Segundo tinha botado desejo no meu punhal puxável de cabo de prata, o dioguim. - “A pois: no primeiro fogo que se der, se tu não abrir boca e choro bué, por medos, a dita faca tu ganha, presenteada...” eu prometi. A falta de mantimentos, por isso eu ia encurtar rédeas, travar o passo? A toleima. A outra receita que descumpri, era a de repartir o pessoal em turmas. Cautelas... Que não. Eu fosse ter cautela, pegava medo, mesmo só no começar.

– 640 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Coragem é matéria doutras praxes. Aí o crer nos impossíveis, só.

- “Seo Borromeu, está gostando destes Gerais, hem seo Borromeu?” – ao cego, da minha outra banda, perguntei, por desfrute. - “Ah, Chefe: é sempre amanhecendo manhã, e aqui a gente merece tudo – vento que não vareia de ser... Mas vento que vem dos amáveis...” – ele me respondeu. - “... O que não vejo, não devo; não consumo...” – continuou respondendo. Ele gostava de conversar, mas também preparava no silêncio. Ia sacolejando em cima da sela do animal, noutra quietação diversa.

Podia dar conselho? - “Arte de jagunço, meu Chefe? Isto é ofício bonito, para o vivo.” O ditado desses, só somente para rir eu aceitava. Mas, dividir minha gente, por oras, eu detestava de obrar. Por causa que o que me prazia mais era contemplar o volume profundo da ida deles, de esquadrão.

De a de lado. Todos eles passarem, tropeando, nós todos, o rumor constante dos cascos. Cavalo, cavalaria! Cortejo que fazia suas voltas, pelos ermos, pelos ocos, pelos altos, a forma duma mistura de gente amontada, uma continuação grande, solevando para adiante o aprumo de meus homens, os chapéus deles quase todos bem engraxados com sebo de boi e nata de leite, em ponta os canos dos rifles de guerra, a tiracol. Com qual seguimento? Só, o que esperava a gente, era o pouso para jantar; passeata para a

– 641 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas estrela-da-tarde. Mas, do que um falava, outro mal ouvia e ria; do que esses se riam, outros ainda falavam. Prosapeavam. Me prazia.

Me prazia o ranger o couro das jerebas, aquele chio de carne em asso. A poeira avermelhava e branqueava: poeiras que punham o vento mais áspero. Uns homens em cavalos e armas. Quem visse, fuga fugia, corria: tinham de temer, vigiando com seus olhos escondidos no mato em beiras de estrada. Até os bichos, do cerradão, que escutam o começo de tudo, de seu longe e de seu perto, e logo sabem esperar, ocultos no rareamento, assim não se viam, nenhuns, não se achavam; os pássaros sempre já tinham revoado. Ah, não, eu bem que tinha nascido para jagunço. Aquilo

– para mim – que se passou: e ainda hoje é forte, como por um futuro meu. Eu estou galhardo. Naquilo, eu tinha amanhecido.

Comi carne de onça? Esquipando, eu queria que a gente entrasse, daquele jeito, era em alguma grande verdadeira cidade.

Só às vezes, em repente de receio, eu ainda olhei em vão –

com as presenças de Zé Bebelo me cismava. Se o que sei. Com um arranco de freio, raciocinado. Mas, dando de rédeas sem descanso, derrubei dos ombros aquele meu costume, Zé Bebelo terminara. Só os meus homens. Escutava, olhava – e eram aqueles: que muitas estrepolias ainda iam decerto agir, e muita má gente matar. Aos dez e dezes, digo, afirmo que me lembro de

– 642 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas todos. Esses passam e transpassam na minha recordação, vou destacando a contagem. Nem é por me gabar de retentiva cabedora, nome por nome, mas para alimpar o seguimento de tudo o mais que vou narrar ao senhor, nesta minha conversa nossa de relato. O senhor me entende? A mesmice dos cabras jagunços – no contemplar a cavalhada – no passo, os animais dando dos quartos, comuns assim, que não fazem penachos, que não tiram arredondamentos da magreza. Os filhos nascidos de distritos de lugares diversos, mas agora debaixo da minha estima completa, dever de coração enérgico. Até os capiaus e os catrumanos copiavam o comportamento, uns amontados, outros restantes apressados mesmo a pé, e iam pegando o exato. Até o catrumano Teofrásio, em seu jegue, que, como prestável jumento, cumpria bem seu ir, desde que tinha companhia de outros animais. E o Guirigó e o Borromeu, eu meando os dois, ao alcance de qualquer minha mão. Sempre, mesmo como sempre. Mas, um, era Diadorim – montado à baiana, gineta, com estribos curtos e rédea muito ponderada, bridando bem, em seu argel travado, às upas: cavalo bulideiro, cavalo de olhos pretos conforme como a noite – Diadorim, que era o Menino, que era o Reinaldo. E eu. Eu? Nos estribos de ferro, freio de ferro, silha forte e silha mestra – e o par de coldres! Assaz, então, cantaram:

– 643 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Olererê, Baiana,

eu ia e não vou mais...

Eu faço

que vou

lá dentro, oh Baiana,

e volto do meio p’ra trás...

Ao demais eu ouvi, soturno sorridente.

Ora vez, que, desse jeito, fomos entortando, entre as duas chapadas, encalço da estrada do rio; e se chegou na fazenda cercã, que era por lá, a Barbaranha dita, em um lugar redondo e simples, no Pé-da-Pedra. O que eu já disse ao senhor, respeitante.

Mas acrescento que o dono, no atual, era um seo Ornelas –

Josafá Jumiro Ornelas, por nome todo.

- “De uns três dias foi o São João, então amanhã é o São Pedro...” – alguém disse, de voz.

Soubessem que esse seo Ornelas era homem bom descendente, posseiro de sesmaria. Antes, tinha valido, com muitos passados, por causa de políti ca, e ainda valesse, compadre que era do Coronel Rotílio Manduca em sua Fazenda Baluarte.

– 644 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

- “Ao que ele tem, mas tem, mesmo, muita coragem?!” – eu me fiz. -“Aí falam em sessenta ou oitenta mortes contáveis...” o Marcelino Pampa afiançou “... e ainda não esmoreceu os ânimos...”

Chegamos, com proceder seguro, e o céu por cima dali estava muito sereno. Na fazenda tinfiam levantado um mastro, na frente do pátio; vi movimentos de gente. As mulheres, na boca do forno fumaçando, mexiam com feixes verdes de mariana e vassourinha e carregavam as latas pretas de assar biscoitos. Só aqueles formosos cheiros das quitandas e do forno quente varrido, já confortavam meu estômago. No mastro, que era arvorado para honra de bandeira do santo, eu amarrei o cabresto do meu cavalo.

Mas não desordeei nem coagi, não dei em nenhuma desbraga. Eu não estava com gosto de aperrear ninguém. E o fazendeiro, senhor dali, de dentro saiu, veio saudar, convidar para a hospedagem, me deu grandes recebi, mentos. Apreciei a soberania dele, os cabelos brancos, os modos calmos. Bom homem, abalável. Para ele, por nobreza, tirei meu chapéu e conversei com pausas.

– 645 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

- “Amigo em paz? Meu chefe, entre, a valer: a casa velha é sua, vossa...” – ele pronunciou.

Eu disse que sim. Mas, para evitar algum acanhamento e desajeito, mais tarde, também falei: - “Dou todo respeito, meu senhor. Mas a gente vamos carecer de uns cavalos...” Assim logo eu disse, em antes de vir a amolecer as situações e estorvar o expediente negócio a boa conversação cordial. O homem não treteou. Sem se franzir nem sorrir, me respondeu: - “O senhor, meu chefe, requer e merece, e com gosto eu cedo... Acho que tenho para coisa de uns cinco ou sete, em estado regular.”

E eu entrei com ele na casa da fazenda, para ela pedindo em voz alta a proteção de Jesus. Onde tive os usuais agrados, com regalias de comida em mesa. Sendo que galinha e carnes de porco, farofas, bons quitutes ceamos, sentados, lá na sala.

Diadorim, eu, João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, Alaripe e uns outros, e o menino pretinho Guirigó mais o cego Borromeu – em cujas presenças todos achavam muita graça e recreação.

A dona fazendeira era mulher já em idade fora de galas; mas tinham três ou quatro filhas, e outras parentas, casadas ou moças, bem orvalhosas. Aquietei o susto delas, e nenhuma falta de – 646 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas consideração eu não proporcionei nem consenti, mesmo porque meu prazer era estar vendo senhoras e donzelas navegarem assim no meio nosso, garantidas em suas honras e prendas, e com toda cortesia social. A ceia indo principiando, somente falei também de sérios assuntos, que eram a política e os negócios da lavoura e cria. Só faltava lá uma boa cerveja e alguém com jornal na mão, para alto se ler e a respeito disso tudo se falar.

Seo Ornelas me intimou a sentar em posição na cabeceira, para principal. - “Aqui é que se abancava Medeiro Vaz, quando passou...” – essas palavras. Medeiro Vaz tinha regido nessas terras. Verdade era? Aquele velho fazendeiro possuía tudo.

Conforme jagunço de meio-oficio tinha sido, e amigo hospedador, abastado em suas propriedades. De ser de linhagem de família, ele conseguia as ponderadas maneiras, cidadão, que se representava; que, isso, ainda que eu pelejasse constante, tarde seria para bem aprender. Na verdade. Aquela hora, eu, pelo que disse, assumi incertezas. Espécie de medo? Como que o medo, então, era um sentido sorrateiro fino, que outros e outros caminhos logo tomava. Aos poucos, essas coisas tiravam minha vontade de comer farto.

– 647 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

- “O sertão é bom. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado...” – ele seo Ornelas dizia. - “O sertão é confusão em grande demasiado sossego...” Essa conversa até que me agradou.

Mas eu dei de ombros. Para encorpar minha vantagem, às vezes eu fazia de conta que não estava ouvindo. Ou, então, rompia fala de outras diversas coisas. E joguei os ossinhos de galinha para os cachorros, que ali nas margens esperavam, perto da mesa com toda atenção. Cada cachorro sungava a cabeça, que sacudia, chega estalavam as orelhas, e aparava certeiro seu osso, bem abocava. E todos, com a maior devoção por mim, e simpatias, iam passando os ossos para eu presentear aos cachorros. Assim eu mesmo ria, assim riam todos, consentidos. O menino Guirigó comeu demais, cochilava afundado em seu lugar, despertava com as risadas. Aquele menino já tinha pedido que um dia se mandasse costurar para ele uma roupa, e prover um chapéu-de-couro para o tamanho de sua cabeça dele, que até não era pequena, e umas cartucheiras apropositadas. - “Tu é existível, Guirigó... Vai pelos proveitos e preceitos...” – eu caçoava. Aí caçoei: - “Duvidar, é só dar um saco vastoso na mão dele, e janela para pular, para dentro e para fora: capaz de supilar os recheios e pertences todos duma casa-grande de fazenda, feito esta, salvo que seja...” E eu bem que já estava tomando afeição

– 648 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas àquele diabrim. Pois, com o Guirigó, as senhoras e moças conversavam e brejeiravam, como que só com ele, por criança, elas perdessem o acanhamento de falar. Mas o seo Ornelas permanecia sisudo, faço que ele afetava de propósito não reparar no menino. Pelo tudo, era como se ele reprovasse minha decisão de trazer para a mesa semelhantes companhias. O menino e o cego Borromeu – aqueles olhos perguntados. - “As colheitas...” –

seo Ornelas supracitava. Homem sistemático, sestronho. O

moderativo de ser, o apertado ensino em doutrinar os cachorros, ele obrava tudo por um estilo velhoso, de outras mais arredadas terras – sei se sei. E quase não comia. Só, vez outra, jogava na boca um punhado seco de farinha.

- “Oxalá, o senhor vai, o senhor venha... O sertão carece...

Isto é, um homem forte, ambulante, se carece dele. O senhor retorne, consoante que quiser, a esta casa Deus o traga...”

Solei um vexame, por não saber a resposta concernente, nuns casos como esse – resposta que eu achava que devia de ser uma só, e a justa, como em teatral em circo em pantomima bem levada. O que é igual quase um calar. À puridade, eu sentia assim: feito se estivesse pego numa ignorância – mas que não era de falta de estudo ou inteligência, mais uma minha falta de certos

– 649 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas estados. O que são bobéias: limpei goela, mudei de cara. - “...

Amigo meu Medeiro Vaz, a outra ocasião, travou combates, no ContaBoi, daqui a duas léguas... Contra os de um Tolomeu Guilherme. Defunto amigo Medeiro Vaz, que a alma dele Deus haja... Adiante comandava em frente, para o exemplo...

Enterramos os melhores mortos...” – o homem descrevia. - “Eu sei!” – eu disse, mesmo nada tencionando dizer. A ver: e que é que achava de mim aquele surdo velho? Ah, ele expunha os cabelos brancos, mas faltava em barba que cofiasse. - “Senhor saiba, ao que Medeiro Vaz mesmo foi que entre todos me escolheu, nos olhos da morte, me determinou para capitanear e dar governo... Tolomeu Guilherme, que conheço, é um que deve de estar presentemente embarcando cargas, no porto em Pirapora... Mas sou, de mim, o Urutu-Branco, Riobaldo que Tatarana já fui; o senhor terá ouvido? Aí o mais esse sertão tem de ver, quem mais abre e mais acha!” – assim eu disse, um pouco enfurecido. - “Pois maior honra é a minha, meu Chefe: que em posto de dono, na pobreza desta mesa, somente homens de alta valentia e valia de caráter se sentaram...” – ele glosou, sem sobrosso de perturbação. Dobrei, de costas, castanheteei para os cachorros. Assim ele havia de sentir o perigo de meu desprazer;

– 650 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas havia de recear, de mim, aquilo – como o outro diz: ... quando o burro dá as ancas!... Aí, no rever do instante, percebi os olhos de Diadorim, que me juntavam com uma das mocinhas de lá, das que estavam servindo, a mais vistosa de todas. A mocinha essa de saia preta e blusinha branca, um lenço vermelho na cabeça – que para mim é a forma mais assentante de uma mulher se trajar. Ela estava parada, em pé, no meio das outras, quase encostada na parede. O

olhar de Diadorim era que estava me indicando: que para aquela mocinha ia meu admirar. Administrado, chamei: - “A senhora meninazinha, chega aqui mais perto, me faça obséquio da bondade...” E ela avermelhou as faces; mas veio; reparei que tinha as mãos aperfeiçoadas bonitas, mãos para tecer minha rede.

A ela perguntei a graça.

- “É minha neta...” – foi seo Ornelas quem disse. E mal nem ouvi o nome com que ela me respondeu. Assussurrada, só gostei de ver como ela se mexia por ficar quieta – vergonhosa como uma coalhada no prato.

Mas, nos tons do velho Ornelas, eu tinha divulgado um extravago de susto, recuante, o leve medo de tremor. Isso foi o que me satisfez. Aquele homem, visconde e portoso em tudo, ah,

– 651 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas pelo mulheriozinho de sua casa ele não encobria o comprado, eh, sua família dele. A avaliar o de Diadorim, por igual, como mostrava – outros olhos – o arregalo de ciúmes. Aqui digo: que se teme por amor; mas que, por amor, também, é que a coragem se faz.

Deu silêncio. Aquilo tardou assim: feito o tamanduá a língua põe, feito quem quer comungar. A mocinha me tentando, com seu parado de águas; a boniteza dela esteve em minhas carnes. Ela perigou. Não perigou: no instante, achei em minha idéia, adiada, uma razão maior – que é o sutil estatuto do homem valente. Aquela formosura, aquela delicadezazinha, então podiam mesmo ser assim, em toda segurança, feito ela fosse, por um exemplo, filha minha. A mocinha, eu de repente queria, eu gostava de dar a ela muito forte proteção. Diadorim não imaginasse isso. Os olhos de Diadorim não me reprovavam – os olhos de Diadorim me pediam muito socorro. Seo Ornelas empalidecido. Certo que, num rebimbo de raio, eu – pronto! – o Ornelas estava caído muito a morto, com uma bala entrolheolho, antes de notar sequer que eu tinha pensado em arisco de mover nas armas. Diadorim, caso fosse, ele eu desarmava; e meus homens estariam ali, todos de pé, fechando praia de mar. A menina-mocinha, que eu agarrava nos braços, era uma quanta-

– 652 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas coisa primorosa que se esperneia... Mas eu não quis! Ah, há-de-o, quanto e qual não quis, digo ao senhor: e Deus mesmo baixa a cabeça que sim: ah, era um homem danado diverso, era, eu –

aquele jagunço Riobaldo... Donde o que eu quis foi oferecer garantia a ela, por sempre. Ao que debati, no ar, os altos da cabeça. Segurei meus cornos. Assim retido, sosseguei – e melhor.

Como que, depois do fogo de ferver, no azeite em corpo de meu sangue todo, agora sochupei aquele vapor fresco, fortíssimo, de vantagens de bondades.

- “Menina, tu há de ter noivo correto, bem apessoado e trabalhador, quando for hora, conforme tu merece e eu rendo praça, que votos faço... Não vou estar por aqui, no dia, para festejar. Mas, em todo tempo, vocês, carecendo, podem mandar chamar minha proteção, que está prometida – igual eu fosse padrinho legítimo em bodas!”

Alto estive, atrás do que falei. Ela se assustou, outra vez, sem capacidade nenhuma, ainda mais ao avermelhar. E eu também mercês colhi – da alegria veraz, nos meus olhos de Diadorim. Será que será, que por contentar profundo Diadorim eu tinha feito aquilo resoluto? Ou por outra, por aquele próprio velho homem, seo Ornelas, que nesse intervalo de instantes

– 653 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas dizendo estava:- “Agradece, minha filha, as todas palavras deste grande Chefe, que é declarado sagrado nosso amigo, perante as voltas todas que o mundo dá e der!”

Realmente, então eu virei para ele. E, daí, deveras foi afoito que eu quis com ele outras conversas, e prezei a amizade daquele homem dos sertões transatos. O quanto fiz perguntas. Aceitei o chá de laranjeira, com que sempre dei bem, numa tigela grande, com capricho desenhada. Minha gente junto comigo escutava.

- “O senhor tem noção de quem Zé Bebelo é?” – eu indaguei, uma hora, por me confirmar.

- “Zé Bebelo? Pode ser, não digo... Mas figuro que, esse nome, nunca ouvi, não, meu senhor...” – foi o que ele respondeu.

Ao que – isso era um fato possível? Ele não sabia. De Zé Bebelo, nem do Ricardão, nem do Hermógenes, ele não sabia nem a preposição. Mas, então, tudo naquela parte dos Gerais era ilusão de haver e não se saber. O mundo ali tinha de ser de se recomeçar... -“Sou de pouca política, me desfiz de ser...” – ele externou. O chefe próprio dele, ele não citou; feito se eu ignorasse o qual era. Célebre, esse, também – e que o senhor pode ter conhecido igualmente, pois era um que viajava amiúde

– 654 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas até no Rio de janeiro, se bem que famanado homem de cabras em armamentos, na política de jagunçagem. Aquele – sequinho, espigadinho, vestido cidadão, com mãozinhas pequenas, pezinhos – e do ar sempre assustado constantemente. Dele sozinho, o que se diz: umas duzentas mortes! Conheceu, o senhor? No barranco do São Francisco – o Coronel Rotílio Manduca – em sua Fazenda Baluarte! Agora, paz.

Mas aí eu perguntei a respeito daquele seô Habão, só mais para variação de conversa, mudando o propósito. Em resposta assim ouvi: - “Esse um, vem a ser até parente de minha mulher, e longe meu aparentado... Mas de desde mais de uns dez anos que cortamos conhecimento.”

E como eu atalhei o assunto, por convinhável nas boas normas, pois a lembrança dum inimigo deixa qualquer homem agastado, o seo Ornelas relatou à gente diversos casos. E o que em mente guardei, por esquipático mesmo no simples, foi o seguinte, conforme vou reproduzir para o senhor. O qual se deu da parte da banda de fora da cidade da Januária.

Seo Ornelas, nessa ocasião, tinha amizade com o delegado dr. Hilário, rapaz instruído social, de muita civilidade, mas variado em sabedoria de inventiva, e capaz duma conversação tão

– 655 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas singela, que era uma simpatia com ele se tratar. - “Me ensinou um meio-mil de coisas... A coragem dele era muito gentil e preguiçosa... Sempre só depois do final acontecido era que a gente reconhecia como ele tinha sido homem no acontecer...”

Ao que, numa tarde, seo Ornelas – segundo seu contar –

proseava nas entradas da cidade, em roda com o dr. Hilário mais outros dois ou três senhores, e o soldado ordenança, que à paisana estava. De repente, veio vindo um homem, viajor. Um capiau a pé, sem assinalamento nenhum, e que tinha um pau comprido num ombro: com um saco quase vazio pendurado da ponta do pau. - “... Semelhasse que esse homem devia de estar chegando da Queimada Grande, ou da Sambaíba. Nele não se via fama de crime nem vontade de proezas. Sendo que mesmo a miseriazinha dele era trivial no bem-composta...” Seo Ornelas departia pouco em descrições: - “... Aí, pois, apareceu aquele homenzém, com o saco mal-cheio estabeleci do na ponta do pau, do ombro, e se aproximou para os da roda, suplicou informação:

– O qual é que é, aqui, mó que pergunte, por osséquio, o senhor doutor delegado?-ele extorquiu. Mas, antes que um outro desse resposta, o dr. Hilário mesmo indicou um Aduarte Antoniano, que estava lá – o sujeito mau, agarrado na ganância e falado de ser muito traiçoeiro. – O doutor é este, amigo... – o dr. Hilário,

– 656 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas para se rir, falsificou. Apre, ei – e nisso já o homem, com insensata rapidez, desempecilhou o pau do saco, e desceu o dito na cabeça do Aduarte Antoniano – que nem fizesse questão de aleijar ou matar... A trapalhada: o homenzinho logo sojigado preso, e o Aduarte Antoniano socorrido, com o melor e sangue num quebrado na cabeça, mas sem a gravidade maior. Ante o que, o dr. Hilário, apreciador dos exemplos, só me disse: – Pouco se vive, e muito se vê... Reperguntei qual era o mote. – Um outro pode ser a gente; mas a gente não pode ser um outro, nem convém... – o dr. Hilário completou. Acho que esta foi uma das passagens mais instrutivas e divertidas que em até hoje eu presenciei...”

Tal, e outras, contou o seo Ornelas, senhor de prosa muito renovada. Pelo que, por todo o seroar, deixei com ele a mão; ainda que às vezes eu ficasse em dúvida: se competia, sendo eu um chefe, aturar que um outro fiasse e tecesse, guiando a fala. E

também, com o tardio da noite, veio a hora de se desapear da mesa, e eu teimei em rejeitar oferta de cama em catre em quarto ou sala, mas fui fora, caçar o meio da minha gente; por sinal que armei rede por entre cajueiro e jenipapeiro, perto dos currais, e, para o segundo sono, mudei de rearmar, de faveira para faveira, lá para dentro duma cerca. Mas, na mesa, aquele menino Guirigó,

– 657 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas na senvergonhice inocente de sua pouca geração, tinha adormecido completo antecipadamente, e eu consenti que as mulheres carregassem o coitadinho diabinho, pesado como um de maioridade, e levassem para dormir sei lá onde, por entre colchão e lençol. A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação –

porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada. Assim eu tinha trazido o pretinho Guirigó, do Sucruiú, e agora ele estava indo para se deitar no limpo e fofo, nos braços das jovens e donzelas carregado. Somente que, inteirado no sono, ele mesmo disso não soubesse, nem aproveitasse, do que em sua existência dele era que estava se sucedendo. - “A pois, boa noite o senhor tenha, Chefe, com um aprazível amanhecer...” – assim seo Ornelas me saudou. Ao que eu, regozijado e bem servido, retribuí a ele, quase com aquelas mesmas palavras.

As partes, que se deram ou não se deram, ali na Barbaranha, eu aplico, não por vezo meu de dar delongas e empalhar o tempo maior do senhor como meu ouvinte. Mas só porque o compadre meu Quelemém deduziu que os fatos daquela era faziam significado de muita importância em minha vida verdadeira, e entradamente o caso relatado pelo seo Ornelas,

– 658 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas que com a lição solerte do dr. Hilário se tinha formado. Aí, narro.

O senhor me releve e suponha.

No outro dia, acordei com a boca amarga e doce, e o través de baixar alguma ordem comandando; esse dia com essa noite não se pertencia. Achamos, de recrutagem, os cavalos que pudemos – o que foram os dez, os burros e mulas também contados. O seo Ornelas honrava os atos. Além do que quis que eu falhasse, para a festa, com o meu povo; mas achei mais sobressaído ir mesmo embora, exato. Semeei para trás de mim o bom ensejo, para poder ser de vir a colher, mais para diante, outros assim tão bons e melhores. Sincero o dito, a gente agradeceu, subindo todos em selas, e a limpo seguimos – a manhã ainda com diversas claridades. Seo Ornelas externou as despedidas, com o x’totó de foguetes, conforme se lembrou de mandar começar a soltação, cujos por bem uma meia-dúzia. O

pessoal deu vivas, gloriando o mastro com a bandeira do santo.

Ao que, pelo mais, puxei em frente, pondo meu cavalo: com espora, rédea e pernas. Deciso.

Rompemos umas duas léguas, em estradas de muita areia.

Mas eu já estava agastado. O que nesta vida muda com mais presteza: é lufo de noruega, caminhos de anta em setembro e

– 659 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas outubro, e negócios dos sentimentos da gente. Assim, de repente, eu achei: que a conversa com aquele seo Ornelas tinha me rebaixado. Aos poucos eu tivesse perdido a vigiação de minha alçada, no acaso da presença dele, debaixo daqueles telhados. A opinião das outras pessoas vai se escorrendo delas, sorrateira, e se mescla aos tantos, mesmo sem a gente saber, com a maneira da idéia da gente! Se sério, então, um tinha de apertar os dentes, drede em amouco, opor seus olhos. A cuspir para diante. Alguma instância, das outras pessoas, pegava na gente, assim feito doença, com retardo. Apartado de todos – era a norma que me servia – no sutil e no trivial. A culpa minha, maior, era meu costume de curiosidades de coração. Isso de estimar os outros, muito ligeiro, defeito esse que me entorpecia. O tanto que, daí depois, essas pessoas andavam em minha desilusão: de repente todos estavam endoidecendo... Do agravo, como ia em pensar, achei asperezas até na goela; e o cuspe não cabia em minha boca, salgado como um suadouro de cangalha. Aí então, estou lembrado, vendo como vi o Alaripe de mim a curta distância – e que, em tudo comedido, guardava o balanceio brando no coxim da sela, de vaqueiro de gado tangedor. Chamei para ele vir.

- “Ah, o velho entregou os cavalos, hem, Alaripe? Coração dele aguou...” – blasonei. - “... Deu por paz. Alaripe, ei, essa paz

– 660 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas não te enjoa?” -“Ah, é deveras... A uns, é o que sucede...” - “Mas a paz não é boa? Então, como é que ela enjoa, assim mesmo?” -

“Natureza da gente, mal completada...” - “Tudo tu vê, Alaripe: eu acho que o enjôo da paz será também algum outro medo da guerra...” - “Pode que seja.” - “E mas só o medo da guerra é que vira valentia...” - “Mal bem não entendo, meu chefe, mas deve de ser...” -“Pois não é? Só quando se tem rio fundo, ou cava de buraco, é que a gente por riba põe ponte...”

Assaz essas coisas, eu inventava em fala, para ter meus eixos, meus aços. A boca do boi quer sal – o sal do barro vermelho. Eu estava chamando umas bizarrias. Força dessa minha maneira: eu estava pelo calor de tudo. E a gente ia indo, aquela comprida cavalhada. Um ribeirão raso e estreito se passou

– nem bem seis braças. Riacho desses que os que vão morrer chamam de rio-Jordão. Todo o mundo passou, por tanto, diante de mim, eu esbarrado em pé – isto é, a cavalo.

A virar o ar, viemos; em caminho não se descansou um dia.

Agora eram os brejos da beira do Paracatu. Mas eu tinha conseguido encher em mim causas enormes. Dispor do ror daquilo eu não conciliava, conforme perseguia, custoso, vermelho meu. Somente quis, nem podia dizer aos outros o que

– 661 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas queria, somente então uns versos dei, que se puxaram, os meus, seguintes:

Hei-de às armas, fechei trato

nas Veredas com o Cão.

Hei-de amor em seus destinos

conforme o sim pelo não.

Em tempo de vaquejada

todo gado é barbatão:

deu doideira na boiada

soltaram o Rei do Sertão...

Travessia dos Gerais

tudo com armas na mão...

O Sertão é a sombra minha

e o rei dele é Capitão!...

Arte que cantei, e todas as cachaças. Depois os outros à fanfa entoaram – mesmo sem me entender, só por bazófias –

mas rogando no estatuto daquela letra e retornando meu rompante; cantavam melhor cantando. De todos, menos vi Diadorim: ele era o em silêncios. Ao de que triste; e como eu ia poder levar em altos aquela tristeza? Aí – eu quis: feito a correnteza. Daí, não quis, não, de repentemente. Desde que eu

– 662 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas era o chefe, assim eu via Diadorim de mim mais apartado.

Quieto; muito quieto é que a gente chama o amor: como em quieto as coisas chamam a gente. E já se estava antefrente do Paracatu – que também recovava o pouco e escasso. Esbarrei não, nem examinei o adiante. Demiti meu cavalo n’água. Os outros me acompanharam. Assim atravessamos.

Vai, viemos, viemos. Esses dias em ondas. Sei só as encostas que subi, a festo. O Chapadão: céu de ferro. E era a lua-nova. Aquelas pedras brancas, que de noite tanto esfriam. As caraíbas estavam dando flor. Por ponto de meu corpo, medi o enrolar dos longes ventos. Aí se viu, em seus couros, um vaqueiro pessoalmente. A esse, perfiz: - “Amigo o amigo, aqui é aqui?” Ao que ele confirmou: -“Aqui, o senhor, meu senhor, os senhores estão nos andares do rio Urucuia...” Aos campos. Sentei que estava. Estrela gosta de brilhar é por cima do Chapadão.

Tanta doideira fiz? A prazo. Como aquela vista reta vai longe, longe, nunca esbarra. Assim eu entrei dentro da minha liberdade.

Oi, grita, arara, araraúna, para a tua voz desenrouquecer! O

Chapadão é uma estada, estando. Somente eu sabia respirar.

Sumo bebi de mim, e do que eu não me tonteava. Só estive em meus dias. E ainda hoje, o suceder deste meu coração copia é o eco daquele tempo; e qualquer fio de meu cabelo branco que o

– 663 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas senhor arranque, declara o real daquilo, daquilo – sem traslado...

Ali eu diante de portas abertas, por livre ir, às larguras de claridade... Acho que foi assim.

Assim. Mas alguém me impediu. Ou era que mesmo desse jeito tinha de ser? Urubus perpassaram, extremamente, e para o poente vinham. Diadorim me chamou, pegando em meu braço.

Diadorim vigiou aquelas diferenças: ele temeu; temeu por minha salvação, a minha perdição. Ou foi que minha Nossa Senhora da Abadia mandou que assim tivesse de ser? Mas Diadorim tirou o açoite de minha ação, ele me puxou, eu segurado, o propósito para trás. Nas grimpas, naquelas, o significado duma coisa tive, que depois lhe relato. Ah, só no azul do anoitecer é que o Chapadão tem fim.

Foi na descida de algumas ladeiras, no se costear um barrocão. Diadorim disse: - “Estou aqui, te vejo mesmo, Riobaldo!”

Eu disse: - “Ah, não. Ah, paz!”

Ele disse: - “A uma coisa eu te digo, Riobaldo...” Eu disse: -

“Pois, fala.”

– 664 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Diadorim disse – a voz dele se paliava: - “Por querer bem é que eu falo, Riobaldo...” – feito o sussurro, nessas veredas, mão mansa, de tardinha, descabelando o buritizal.

Eu disse: - “Vai dizendo!” ; falei uma segunda palavra.

A testa dele merujava, coisas grossas gotas – mesmo me temesse? – aquele suor devia de se gelar. Aí era um aviso, que ele queria me fornecer? Aí eu não queria ouvir o que fosse, de repente eu não queria, eu não queria, fiz de ficar indignado. No eu no meu, não tivessem de me dar a toda aprovação? Ao redor de mim, assim obedecessem. A chefia sabe chefiar. Por certo, que, para a jagunçagem, os Gerais mal serviam. A pobreza daquelas terras, só pobreza, a sina tristezinha do pouco povo.

Aonde o povo no rareado, pelo que faltava de água naquelas chapadas; e a brabeza do gado, que caminhava em triste achar.

Desejar de minha gente, seria que se atravessasse o do-Chico – ir em cata de vilas e grandes arraiais, adonde se ajustar pagas e alugar muitos divertimentos. Conforme no renovável servisse: ir aonde houvesse política e eleição. Sabia disso. Eu não era pascácio.

Um chefe carece de saber é aquilo que ele não pergunta. E

mesmo eu sempre tive diversas saudades.

– 665 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Reprazia, para mim, um dia reverter para o rio das Velhas, cujos campais de gado, com coqueiral de macaúbas, meio do mato, sobre morro, e o grande revôo baixo da nhaúma, e o mimoso pássaro que ensina carinhos – o manuelzinho-da-troa...

Diadorim, eu gostava dele? Tem muitas épocas de amor. Amor em perto, às vezes sossega, em muitos adiamentos – ao homem da branca barba. - “Tempo de guerrear!” – eu disse, para Alaripe, o Pacamã-de-Presas, o Acauã e o Fafafa: meus contra-guias. Em qualquer parte eu não podia arvorar bem fincado meu mastro-de-guerra? Primeiro, então, por ali mesmo, na areia roxa, para tomar o instinto do ar, a gente recruzava. Mas, dirá o senhor: e o Hermógenes? A guerra não era para ser contra o Hermógenes, os Judas? Sim, sei. Mas, eles, no meu ir eles iam vir, haviam-de.

Sabia isso era eu no coxim da sela, suor nosso. Seguindo, no raso e no monte, das areias tirando brilhos. A mal o mundo serenava, de tardinha, quando os jaós cantavam. Ou silêncio tão devassado, completo, que nos extremos dele a gente pode esperar o lãolalão de um sino. Diadorim não me entendesse? Ele entendia?

Assim, eu tivesse muito ódio, Diadorim havia de me entender. Mas eu estava acontecido. Por exemplo, vinha uma boiada, que passou, no bombalanceio. Aqueles vaqueiros, esses com os laços enrodilhados nas garupas, e que, por prazer,

– 666 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas aboiavam. Apreciei de ver como todos souberam jeito de esconder o medo que de mim deviam de ter. Boiada com rumo na barra do Paracatu, salvante que mudassem de roteiro. Mas a gente ia por lados contrários. Deles até carneamos duas reses. Se assou carne na moda do povo dos Gerais – que era com espeto de vara de folha-miúda, tanto tempo se esbrazeando para estorricar, o naco de carne se torrava como um fumo, e o gosto daquele cheiro se supria forte, só por si punha a boca da gente aguando. Dada a mais cachaça ao menino Guirigó e ao cego Borromeu: para eles falarem coisas diferentes do que certas, por em si desencontradas, diversas de tudo. Conselhos me davam?

Mesmo só o igual ao que pudesse dar o cajueiro-anão e o araticum, que – consoante o senhor escrito apontará – sobejam nesses campos. Mas a minha sina formava o rebrilhar; em tudo, digo ao senhor. Conforme fatos houve.

Da mulher – que me chamaram: ela não estava conseguindo botar seu filho no mundo. E era noite de luar, essa mulher assistindo num pobre rancho. Nem rancho, só um papiri à-toa. Eu fui. Abri, destapei a porta – que era simples encostada, pois que tinha porta; só não alembro se era um couro de boi ou um tranço de buriti. Entrei no olho da casa, lua me esperou lá fora. Mulher tão precisada: pobre que não teria o com que para

– 667 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas uma caixa-de-fósforo. E ali era um povoado só de papudos e pernósticos. A mulher me viu, da esteira em que estava se jazendo, no pouco chão, olhos dela alumiaram de pavores. Eu tirei da algibeira uma cédula de dinheiro, e falei: - “Toma, filha de Cristo, senhora dona: compra um agasalho para esse que vai nascer defendido e são, e que deve de se chamar Riobaldo...”

Digo ao senhor: e foi menino nascendo. Com as lágrimas nos olhos, aquela mulher rebeijou minha mão... Alto eu disse, no me despedir:- “Minha Senhora Dona: um menino nasceu – o mundo tornou a começar!...” – e saí para as luas.

Aquelas obras, então, Diadorim não visse? Ah, conselho de amigo só merece por ser leve, feito aragem de tardinha palmeando em lume-d’água. O amor dá as costas a toda reprovação. E era o que Diadorim agora desfazia em mim, no amargoso.

- “Repuno: que você está diferente de toda pessoa, Riobaldo... Você quer dansação e desordem...”

Mexi meu cuspe dentro da boca.

– 668 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

- “ ... A bem é que falo, Riobaldo, não se agaste mais... E o que está demudando, em você, é o cômpito da alma – não é razão de autoridade de chefias...”

Diadorim disse, e a voz dele, ecosa, me rodeou; as certas sinceridades. Amizade de amor surpreende uns sinais da alma da gente, a qual é arraial escondido por detrás de sete serras? Aí, demorei. Eu ia aceitar essa repreensão? Ah, nunca. E, desaguardadamente, eu atinei com outro motivo, para opor: a extratada conversa, que Diadorim tinha tido, adeparte, com o arrieiro de uma tropa. Perguntei, contra: - “O segredo, com o velho arrieiro da tropa, Diadorim, que se falaram – era de minha pessoa?”