Grande Sertão: Veredas
Essa tropa, que passara por nós, dias…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Dum fato, na hora, me lembrei: do que tinham me contado, da vez em que Medeiro Vaz avistou um enfermo desses num goiabal. O homem tinha vindo lamber de língua as goiabas maduras, por uma e uma, no pé, com o fito de transpassar o mal para outras pessoas, que depois comessem delas. Uns assim fazem. Medeiro Vaz, que era justo e prestimoso, acabou com a vida dele. Isso contavam, já de dentro do meu ouvido. A quizília que em mim, ânsia forte: o lázaro devia de feder; onde estivesse, adonde fosse, lambuzava pior do que lesma grande, e tudo empestava da doença amaldita. Arte de que as goiabas de todo
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas goiabal viravam fruta peçonhenta... – e d’eu dar no gatilho: lei leal essa, de Medeiro Vaz...
- “Ô guaimoré!” – xinguei. E gritei pulhas. Acho que insultava era por de certo modo retardar meu dever? Ele não respondeu. Em ante mim, assim, ninguém não respondesse? Mas fincava de me olhar: ah, ele tinha dois olhos, no meio das folhas da folhagem. Muito coitado ele era – o senhor esteja de acordo.
Mas, aí, foi que vi e repeli o que que é ódio de leproso! Na cabeça daqueles olhos, eu armei minha pontaria.
E ouvi o vir dum cavaleiro. Esperei. Não dissessem que eu tinha baleado à traição o maldelazento, com escondidos de não ter testemunhas. Quem vinha? Em já madruga-manhã, tudo clareado, reconheci: Diadorim! Embolsei a arma, sem razão.
Diadorim me perseguia? “Vigia, Diadorim: tu pune por este?!” –
eu havia de indagar, apontando o esconso do leproso. “Estou aqui, te vejo é você mesmo, Riobaldo...” – ele ia dizer - “...
Riobaldo, tem tento!”... A imaginação dessa conversa, eu pensei de relance, como uma brasa chia em dentro de vasilha d’água.
Assim estremeci, eu ente. Porque, do bafo mesmo de minha idéia vã, eu estava catando tal anúncio de acusação: – Tu traz o Arrenegado... Eu e ele – o Dê?! Então, num sutil, podia mesmo
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas ser que ele quisesse estar tomando conta de mim? – Aí, nem nunca, nem! – eu rosnei, riso. Espinoteei na sela, feito acordado dum cochilo de cão. E Diadorim tropeava chegando. Mas eu virei rédea e roseteei, com brado, meu animal cumprindo: rompemos em galope que era um abismo...
-Eh, diogo! dianho!... Eh diogo, eh dião...
Retos, fomos, desabalando, que um quarto-de-légua quase, por doidejo. Nós três? Que eu pensei. E esbarrei, por tanto; meu cavalo sacudiu o pescoço todo. Espiei em roda, até com a mão.
Não vi o demo... Meu espírito era uma coceira enorme. Como eu ia poder contra esse vapor de mal, que parecia entrado dentro de mim, pesando em meu estômago e apertando minha largura de respirar? Aí eu carecia de negar pouso a ele. A nega. Eu quis! Eu quis?
Como olhei, Diadorim estava acolá, estacado parado no lugar, perto da árvore do homem. Por certo ele tinha enxergado a coisa viva, e estava desentendendo meu espaço, esses desatinos.
Contemplei Diadorim, daquela distância. Montado sempre, teso de consciência, ele me parecia mais alto de ser, e não bulia, por mim avistado. E o lázaro? Ah, esse, que se espertasse, que fugisse, para não falecer... Que é que adiantava que, àquela hora,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas os passarinhos cantassem, acabando de amanhecer o campo sertão? A enquanto sobejasse de viver um lázaro assim, mesmo muito longe, neste mundo, tudo restava em doente e perigoso, conforme homem tem nojo é do humano.
Condenado de maldito, por toda lei, aquele estrago de homem estava; remarcado: seu corpo, sua culpa! Se não, então por que era que ele não dava cabo do mal, ou não deixava o mal dar logo cabo dele? Homem, ele já estava era morto. Que o que Diadorim dissesse; que dissesse. Que aquele homem leproso era meu irmão, igual, criatura de si? Eu desmentia. Como era que, sabendo de um lázaro assim, eu ia poder prezar meu amor por Diadorim, por Otacília?! E eu não era o Urutu-Branco? Chefe não era para arrecadar vantagens, mas para emendar o defeituoso. Esporeei, voltando. “Não sou do demo e não sou de Deus!” – pensei bruto, que nem se exclamasse; mas exclamação que havia de ser em duas vozes, uma muito diferente da outra.
Vim feito. Tornei a empunhar o revólver. Mas completei, eu mesmo, aquilo que Diadorim decerto ia me responder:
“Riobaldo, tu mata o pobre, mas, ao menos, por não desprezar, mata com tua mão cravando faca-tu vê que, por trás do podre, o sangue do coração dele é são e quente...” Encostar nele a ponta de minha franqueira de cabo prateante? – Toma! Tu cai no – 707 –
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas chão... Agalopando assim, joguei fora meu revólver. Joguei – ou foi um ramo de rompe-gibão que relou arrancando a arma de meu pulso. Cheguei, esbarrei. Meu cavalo, tão airoso, batia mão, rapava; ele deu um bufo de burro. Vi Diadorim. Mas o leprento tinha ganhado para se ir, graças que não assisti à arriação dele: decerto descendo às pressas, se escapando de gatas nas moitas de feijão-bravo. Desse, tive um cansaço enorme; pode que seja por não saber se matava ou não matava, caso ele ainda estivesse lá.
Do leproso.
Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora de todo comum. Os olhos-vislumbre meu – que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto. E tudo meio se sombreava, mas só de boa doçura. Sobre o que juro ao senhor: Diadorim, nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia! A santa...
Reforço o dizer: que era belezas e amor, com inteiro respeito, e mais o realce de alguma coisa que o entender da gente por si não alcança.
Mas repeli aquilo. Visão arvoada. Como que eu estava separado dele por um fogueirão, por alta cerca de achas, por
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas profundo valo, por larguez enorme dum rio em enchente. De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe. O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa... Aquilo eu repeli?
Antes que Diadorim mesmo abrisse boca para me sorrir, me falar, eu tive de fazer uma coisa. A meio em ânsia, meio em astúcia; meio em raiva. Como foi que peguei o vivo de tal idéia, em gesto, como se deu de que me alembrei daquilo? Homem, não sei. Mas enfiei mão: por entre armas e cartucheiras, e correias de mochilas, abri à berra meu jaleco e a minha camisa. Aí peguei o cordão, o fio do escapulário da Virgem – que em tanto cortei, por não poder arrebentar – e joguei para Diadorim, que aparou na mão. Ia me fazer alguma pergunta, que eu não consenti, a voz dele era que mais significava. Isto é, porque eu primeiro falei, como resumo. -“Hei-á, voltar – que o povoão está de minha espera!” – eu enfim disse; eu ainda estava respirando muito ligeiro demais.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Assim eu dava era ordem, como convinha. Eu não estava de francamentes. Para mim, um palmo, àquela hora, podia medir três braças. Apertei. Nem meu cavalo carecia disso: era eu encolher um pé, e ele já via vôo. À paz! Mas Diadorim, vez de logo vir, tocou em contrário. Sustentei em esbarro meu Siruiz, a ver, querendo as curiosidades. Diadorim estava indo lá, modo de caçar e recolher o revólver, que de minha mão tinha caído. Num repousozinho de coração, calado eu agradeci à amizade dele essa fineza. Daí, vim. Sempre longe em frente, portanto que meu cavalo soberbo não dava alcance para ele se emparelhar. Daí, cantei. Mesmo mal, me canteipor causa que via que, medeando tão grandes silêncios, era que Diadorim tomava mais sorrateiro poder em meu afeto, que não era possível concernente. Entre isso, chegamos de volta no arranchamento. Mas cheguei lá foi para ter ocupação de uma estúrdia novidade. Com os urucuianos.
O senhor estando lembrado: aqueles cinco, soturnos homens, catrumanos também, dos Gerais, cabras do Alto-Urucuia. Os primeiros que com Zé Bebelo tinham vindo surgidos, e que com ele desceram o Rio Paracatu, numa balsa de talos de buriti. Esses sempre mereceram pouca história da gente, por quietos e certos, bem procedidos, sujeitos de furtadas palavras. Agora eles comigo queriam um entendimento. Um
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Diodato, esse era o cabo deles. Formou em frente dos outros, puxando a parlagem.
Queriam conversa comigo em só, apartada. Eu apreciasse aqueles homens. A valentia deles estava por dentro de muita seriedade. Urucuiano conversa com o peixe para vir no anzol – o povo diz. As lérias. Como contam também que nos Gerais goianos se salga o de-comer com suor de cavalo... Sei lá, sei? Um lugar conhece outro é por calúnias e falsos levantados; as pessoas também, nesta vida. Mas aqueles cinco me condiziam. Admirei de ver que eles todos ainda estavam a pé, mas com dobros e bissacos nas costas, feito prontos para pedestre viagem. Sisudez deles ainda semelhava maior. Então constituí meus ouvidos, para o cabecilho, Diodato.
- “Praz vosso respeito, Chefe, a gente decidiram... A gente vamos’embora. Praz vossas ordens...” – o homem me disse, assim mesmo, casmurro com serenidade. Tive de ver bem suas feições, uma cara assim se examinava aos poucos.
Entendi, mas reperguntei. O homem não coçou a cabeça.
Olhos de santo de madeira. O nariz dele era bem grande, nariz que não se empinava. Só tinha a barbazinha que tem um queixo de cavalo.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas O homem não coçou a cabeça. Firme disse. Queriam ir-s’embora, duma vez; careciam. Ah, eles bem que conheciam a regra: que um jagunço sai do bando quando quer – só tem que definir a ida e devolver o que ao chefe ou ao patrão pertence. As armas, eles não devolviam, porque eram deles; mas, como tinham de primeiro vindo a pé, largavam bem agora os cavalos. Pegavam era um tanto de matula – trivial de farinha e carne-seca, e rapadura, para uns três dias, mal. Mesmo assim, era doideira, achei. Doideira tencionarem vagar reto dali donde estávamos, alto ermo, distantes brenhas. Por que é que iam, nem esperando eu desse minha primeira ganhada?
- “A isso, meio acontecidos, Chefe... A conforme a gente carece, praz vosso respeito, senhor, sim...” – o homem meio respondeu, bastante sincero. Reparei no chapéu na cabeça dele, que era de couro de veado suaçuapara, com macias abas e formato muito composto. A cara dele mesmo dava um ar honrável, circunspecto, por mal que com manchas, sarro de alguma velha moléstia, semelhando nódoas de caldo de caju. -
“Sua graça, toda, é Diodato de quê?” – indaguei. - “Diodato Nariz, por alcunha...” – ele disse; disse, de brancura. Conheci como eu nunca tinha dado tento d’atenção naqueles homens, cuja valia. Assim que eles eram, de batismo: e o Pantaleão,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Salústio João, João Tatu e O-Bispo. Naquela hora, era que eu punha tino. Nunca mais tive notícia desses. Hoje, repenso.
Naquela hora, eu cogitava jeito de conservar todos em companhia. Remei minhas perguntas. Donde que eram?
- “Desses córregos...” Do Buriti-Comprido, Tamboril, Cambaúba, Virgens, Mata-Cachorro, das Cobras... Para cima da Bazra-da-Vaca, Ari nos... Em sertão são. Isso, que são lugares. E
que é que me adiantava saber que tinham suas ocas por lá? O que eu inventei de conhecer era donde tinham estado, quando Zé Bebelo deu com eles, que vinha voltando de Goiás. - “Ah, senhor sim, nas beiras... Roças do rio São Marcos, senhor sim, no Esparramado... Fazenda duma Dona Mogiana...” Cabras dessa Dona Mogiana? Eram. Tinham sido. Mas com sua labuta de plantações. Que qualidades de crimes eles tinham feito, para principiar, crimes de boa inerência? E por que era que tinham querido vir com Zé Bebelo? Isso eu quis perguntar. O que de repente perguntei: - “Por via de que é que vocês desespiritaram de seguir vinda com a gente?” Falei, e refuguei para não ter falado; que gabo e questão não são regra de se negociar. Mas o homem Diodato, distanciado duma minha pergunta dessas, esbarrou vez, demorão; mesmo, num desajeito, ele fungava. E ele comigo não tinha ajuste, mas não queria me ofender sem a razão.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Chega olhou para os companheiros, que acenavam devagar com as cabeças, mas numa maneira brandazinha de sonsa, fora de tudo o mais, para não se entender se é sestro ou anuído – que é do jeito comum como essa gente costuma.
- “Ara, senhor, sim...” – por fim ele falou resposta: - “... que a influência esmoreceu... A gente gastou o entendido...” ; e estava quase meio envergonhado.
Eu disse: - “A pois?”
- “Não vê, Chefe, praz vosso respeito: as coisas demudaram... Que viemos com siu Zé Bebel’... Vai, a gente gastou o entendido...” – ele disse. - “O que Zé Bebelo falou, quando chamou vocês?”
- “A foi. Quando chamou, senhor sim...” - “Ele prometeu vantagens?”
- “Não se diz... Chamou. Falou misturado... A gente viemos.” - “E o que é que falou?”
- “Agora, a gente não sabe mais. Falou muito razoável...
Falou muito razoável... Agora, com perdão vosso, a gente esquecemos, a gente gastou o entendido... Mas muito razoável falou...”
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas De irritado, de afleima, dei o discutir: - “Pois, por que é, então, que não foram logo, com Zé Bebelo, quando Zé Bebelo se foi?”
- “Deixamos o tempo dos outros passar... Não temos questão... Não temos questão...”
Mirei e vi: o que desde de antes me invocava. Aquele homem, por uns astutos indícios, se apartando, ele desconfiasse de mim. Aqueles outros homens, os do todo sertão, das brenhas, os com as ventas largas para baixo, cada-um um cão – o que era que eles achavam em meu ser? Repensei: ah! Ah, então, para avaliar em prova a dúvida deles, tive um recurso. A manha, como de inesperadamente de repente eu muito disse: – Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Senhor vendo como foi, o supetão de susto que ele teve, arregalado conforme me olhava e naquilo ouvido não acreditava, o tanto que retardou para responsar, todo baixo, o: ... Para sempre...
Ah. Despedidos estavam, podiam ir. Ah.
Ah, não. A bobéia. Se ele em fato estranhou, foi somente por causa do tom de minha voz. Se foi por minha voz, foi
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas porque, no afã de querer pronunciar sincero demais o santíssimo nome, eu mesmo tinha desarranjado fala – essas nervosias...
E eles iam s’embora, conforme desisti de sobreguardar esses homens. Do jeito, de que é que me valiam? O contrato de coragem de guerreiros não se faz com vara de meirinho, não é com dares e tomares. Fino que me abespinhei, por conta. Ao que aqueles homens não eram meus de lei, eram de Zé Bebelo. E Zé Bebelo era assim instruído e inteligente, em salão de fazenda?
Desisti, dado. Não baboseio. E o mais? Era como alguém dizendo: -“Vai declarar seca, por esse Norte, e homem e mulher vão vir...” A vida é um vago variado. O senhor escreva no caderno: sete páginas... Aqueles urucuianos não iam em cata de Zé Bebelo, conforme sem nem satisfação fiquei sabendo.
Voltavam de volta para os seus recantos. Quartel de mandioca, em qualquer parte se planta; e o senhor derruba um mato, faz um chão bom, roça também se semeia... Eles foram embora, deixei levarem os cavalos. Reparti com eles alguma quantia, e com alegria se arregalaram: dinheiro é sempre amigo-seja... Estúrdio é o que digo, nesta verdade – que, eu livre longe deles, desaluídos é que eles estavam comigo; mas, eu quisesse com gana o préstimo deles, então só me serviam era na falsidade... O senhor me entende? E digo que eles eram homens tão diversos de mim, tão
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas suportados nas coisas deles, que... por contar o que achei: que devia de ter pedido a eles a lembrança de muito rezarem por meu destino... Mas, de desertarem de mim, então, será que era um agouro? Não sei. Que sei? Tive fé em mim sozinho. O que juro, e que sei, é que tucano tem papo!...
Achava. Adiante, dias de caminho, achei de querer e não querer, em contrários instantes: que rezassem por mim, a rogo e paga. Reza boa, de outros, singela, que mais me valesse-essas avemariazinhas, novenas. Assim conforme Diadorim tinha expedido o recado, para minha Otacília, mediante o arrieiro de uma tropa. Pelejei por afirmar a idéia nisso, que próprio depois eu enxotava. Às vezes as melhores haviam de ser as rezas de mais longe, desconhecidamente. Me lembrei de um homem, de minha meninice. Um do outro lado do rio. O sujeito que escondia uma oração tão entremunhada, desguisada, que duvido mesmo um padre aquilo entendesse, e desse licença. Pois, ora, me servia. Ou a mulher que teve seu meninozinho parido no chão do rancho, no povoado dos papudos; ela me devia mercês, então não podia encaminhar a Deus, por miM, nem um louvamém? - “Só será que o arrieiro passa e vai, na Santa Catarina?...”
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Isso perguntei a Diadorim. O que perguntei era por uma opinião. Eu queria pensar nisso, de tarde, nos repontos. De assento. Mas logo esse sossego manso me largava – nuvenzinha dele. Vaqueiro pode laçar o lugar do ar? Às voltas e revoltas, eu pelejava contra o meu socorro. Hoje, eu sei; pois sei, porquê. Mas eu não falava sozinho. Figuro que estava em meu são juízo. Só que andava às tortas, num lavarinto. Tarde foi que entendi mais do que meus olhos, depois das horrorosas peripécias, que o senhor vai me ouvir. Só depois, quando tudo encurtou. Dei decreto de fim em essas esquisitices.
No que não perguntei, Diadorim me respondeu? - “... A muita coragem, Riobaldo... Se carece de ter muita coragem...”
Ah, eu sabia. A coragem, eu? Aí quem era que me vencesse, nesse dever, alirolé, quem podia afrontar minha presença, feito morro padastro? Tinha mãos e ações, que davam para lavar meus trajes. Mas, o que Diadorim disse, não me fez mossa. Dou exemplo. Do que houve e se passou, uma vez, no Carujo, um arraial triste, em antigos tempos. O povo dali fugiu, por alguma guerra ou pressa, fecharam a igrejinha com um morto lá dentro, entre as velas... Eu gostava de Diadorim corretamente; gostava aumentado, por demais, separado de meus sobejos. Aquilo, davandito, ele tinha falado solto e sem serviço, era só uma
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas recordação, assim um fraseado verdadeiro, ditado da vida. O que não fosse destinado para ele nem para mim, mas que era para todos. Ou, então, sendo para mim, mas em outros passados, de primeiro. Ali naquele lugar, o Carujo, no reabrirem, depois de uns meses, a igreja, o defunto tinha se secado sozinho... Ao por tanto, que se ia, conjuntamente, Diadorim e eu, nós dois, como já disse. Homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia deles for enorme. Aparecia que nós dois já estávamos cavalhando lado a lado, par a par, a vai-a-vida inteira. Que: coragem – é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia – do sertão – a toda travessia.
Só aquele sol, a assaz claridade – o mundo limpava que nem um tremer d’água. Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias! E fomos. Terras muito deserdadas, desdoadas de donos, avermelhadas campinas. Lá tinha um caminho novo. Caminho de gado.
Arte que eu achei o meu projeto.
Só digo como foi: do prazer mesmo sai a estonteação, como que um perde o bom tino. Porque, viver é muito perigoso... Diadorim, o rosto dele era fresco, a boca de amor; mas o orgulho dele condescendia uma tristeza. Matéria daquilo
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas que me desencontrava; motivo esse que me entristeceu? A nenhum. Eu já estava chefe de glórias. Nem Diadorim não duvidava do meu roteiro – que fosse para encontrar o Hermógenes. Desse jeito a gente ia descendo ladeiras. Ladeiras areentas e com pedras, com os abismos dos lados; e tão a pique, que podiam rebentar os rabichos dos arreios, no despenhado; no ali descer os cavalos muito se agachavam de ancas, feito se os pescoços deles se encompridassem; e montões de pedras para baixo rola vam. Até ri. Diadorim ainda cria mais no meu fervor em se ir perseguir o Hermógenes. Essas ladeiras era que me atrasavam. Depois dali, eu ia ter muita pressa demais.
Agora, o senhor saiba qual era esse o meu projeto: eu ia traspassar o Liso do Suçuarão!
Senhor crê, sem estar esperando? Tal que disse. Ainda hoje, eu mesmo, disso, para mim, eu peço espantos. Qu’ é que me acuava? Agora, eu velho, vejo: quando cogito, quando relembro, conheço que naquele tempo eu girava leve demais, e assoprado.
Deus deixou. Deus é urgente sem pressa. O sertão é dele. Eh! – o que o senhor quer indagar, eu sei. Porque o senhor está pensando alto, em quantidades. Eh. Do demo? Se é como corujão que se voa, de silêncio em silêncio, pegando rato-mestre,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas o qual carrega em mão curva... No nada disso não pensei; como é que pudesse? A invenção minha era uma, os minutos todos, tivesse um relógio. A atravessar o Liso do Suçuarão. Ia. Indo, fui ficando airoso.
Por forma como a gente rodeou outra volta, não se passando no Vespê e no Bambual-do-Boi, nenhum de meus homens não tirou palpite desse propósito. Pasmo deles ia ser.
Daí, uns desconfiavam, de se estar onde estávamos. Donde a perto dele umas poucas cinco léguas: o desmenso, o raso enorme
– por detrás dos morros. E a gente dava a banda da mão esquerda ao Vão-do-Oco e ao Vão-do-Cuio: esses buracões precipícios – grotão onde cabe o mar, e com tantos enormes degraus de florestas, o rio passa lá no mais meio, oculto no fundo do fundo, só sob o bolo de árvores pretas de tão velhas, que formam mato muito matagal. Isto é um vão. E num vão desses o senhor fuja de descer e ir ver, aindas que não faltem as boas trilhas de descida, no barranco matoso escalavrado, entre as moitarias de xaxim. Ao certo que lá embaixo dá onças – que elas vão parir e amamentar filhos nas sorocas; e anta velhusca moradora, livre de arma de caçador. Mas o que eu falo é por causa da maleita, da pior: febre, ali no oco, é coisa, é grossa,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mesma. Terçã maligna, pega o senhor; a terçã brava, que pode matar perfeito o senhor, antes do prazo de uma semana.
No que eu no meu destino não pensei. Diadorim, em sombra de amor, foi que me perguntou aquilo: - “Riobaldo, tu achasses que, uma coisa mal principiada, algum dia pode que terá bom fim feliz?”
Ao que eu, abirado, reagi: - “Mano meu mano, te desconheço?! Me chamo não é Urutu-Branco? Isto, que hei-de já, maximé!”
Diadorim persistiu calado, guardou o fino de sua pessoa. Se escondeu; e eu não soubesse. Não sabia que nós dois estávamos desencontrados, por meu castigo. Hoje, eu sei; isto é: padeci. O
que era uma estúrdia queixa, e que fosse sobrosso eu pensei.
Assim ele acudia por me avisar de tudo, e eu, em quentes me regendo, não dei tino. Homem, sei? A vida é muito discor dada.
Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem as caras todas do Cão, e as vertentes do viver.
O que na hora achei, foi que Diadorim estivesse me relembrando de Medeiro Vaz não ter conseguido cruzar a travessia do raso. Mas Diadorim, também, não adivinhou meu
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas espírito. Pois, por aquela conta, mesma, era que eu queria. Sobre o que eu era um homem, em sim, fantasia forra, tendo em nada aqueles perigos, capaz do caso. Para vencer vitória, aonde nenhum outro antes de mim tivesse! Respinguei dessas faíscas constantes. Eu, não: o cujo do orgulho, de mim, do impossível.
Descia e subia a fumaça da noite. Esbarramos. Era numa curta vereda, duns brejos, buritizalzinho. Acendemos fogo. Aí mal dormi, fortíssimo no meu segredo. Um meu primeiro sono, sim. O resto, foi ondas. Reprazer cru dessa espiritação – eu ardia em mim, e em satisfa contente, feito fosse véspera duma patusqueira.
As forças me amanheceram acordado.
Adiante da gente, o mangabeiral. Depois, o raso. Aí o Liso do Suçuarão – em fundo e largo, as cinqüenta léguas e as quase trinta léguas, das mais. Ninguém me fazia voltar a seco de lá.
Aquela hora, eu só não me desconheci, porque bebi de mim –
esses mares. Também eu não ia naquilo sem alguma razão, mas movido merecido. Por conta do Hermógenes? Nossos dois bandos viajavam em guerra e contraguerra, e desenrolando caminhos, por esses Gerais, cães, se caçando. Só que o sertão é grande ocultado demais. Então, eu ia, varava o Liso, ia atacar a
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Fazenda dele, com família. Ovo é coisa esmigalhável. E a bem.
Para vencer justo, o senhor não olhe e nem veja o inimigo, volte para a sua obrigação. Mas eu dava as costas à cobra e achava o ninho dela, para melhor acerto. Ao que, esse não tinha sido o arrojo de Medeiro Vaz?
O dia parava formoso, suando sol, mesmo o vento suspendido. Vi o chão mudar, com a cor de velho, e as lagartixas que percorriam de leve, por debaixo das moitas de caculucage. O
pessoal meu não devia de estar com inquietação? Vi uma coruja – mas corujinha entortadeira; e coruja só agoura mesmo é em centro de noite, quando dá para risã. E cuspi no branco leite duma maria-brava, que toda às sãs cheirosa florescia. Era a hora.
Repuxei os freios, bem esbarrando. Equei os meus homens.
- “Aqui, gente.”
Guerreiros em minha presença! Com certo rebuliço, como todos vieram, para saber daquela novidade. Declarei a eles.
Todos me entenderam? Em fila – as caras todas ficando iguais.
Me seguissem? Ah, nenhum não tinha ar do que ia ser, e que fazia tantos dias eu tencionava. Nem João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, nem o Alaripe. Nem Diadorim. Diadorim me olhou tremeluzentemente: de coragem, de disposto. Ele, sim.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Mas, os outros? Seria que medissem meu mor atrevimento? Era feito se eu estivesse aloucado extenso.
Porque, o que eu estava mandando, nem Medeiro Vaz mesmo não teria sido capaz de crer: eu queria tudo, sem nada!
Aprofundar naquele raso perverso – o chão esturricado, solidão, chão aventesma – mas sem preparativos nenhuns, nem cargueiros repletos de bom mantimento, nem bois tangidos para carneação, nem bogós de couro-cru derramando de cheios, nem tropa de jegues para carregar água. Para que eu carecia de tantos embaraços? Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá, quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama, e as enxadas saindo sozinhas para capinar roça, e as foices, para colherem por si, e o carro indo por sua lei buscar a colheita, e tudo, o que não é o homem, é sua, dele, obediência? Isso, não pensei – mas meu coração pensava. Eu não era o do certo: eu era era o da sina! E nem enviei adiante nenhuma patrulha de farejadores – nem Suzarte, Nélson ou o Quipes, que tapejassem; nem o Tipote para trilhar e entender, ver se divulgava os socorros: alguma grota duvidável d’água.
Se o cada um que se valesse, cada um que me seguisse. -
“Agora vamos entrar, para pernoitar lá dentro...” – eu determinei.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Só era se aviar. Mas o menino Guirigó, mal me ouvindo, falou: -
“A gente? A gente.”
Esse era um menino, eu não devia de mandar alguém conduzir o Guirigó de volta, para que em lugar seguro deixassem? No ar não fiz. Se não, por que era então que ele para tudo tinha vindo? Os outros, não me cumprissem, eu havia de voltar de lá, dar de mão de minha tenção? Nuncas. Só melhor sozinho eu ia. Ia, por meus brancos ossos. Transe, tempo, que esperei a resposta deles. Dei a palavra! Meus homens. Ah, jagunço não despreza quem dá ordens diabradas.
- “Se amanhã meu dia for, em depois-d’amanhã não me vejo.” -“Antes de menino nascer, hora de sua morte está marcada!”
- “Teu destino dando em data, da meia-noite tu vivente não passa...” Os que diziam assim eram todos eles, secundando os cabecilhas. Valentes que eram, e como foram se animando. Ao que me obedeciam, ao meu melhor em redor. A gente andou no comum, até ao fim do grameal. Aí, se estava, se esbarrava, frente a frente com o Liso. Rédeas às ordens. A gente se moveu.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Sol em glória. Eu pensei em Otacilia; pensei, como se um beijo mandasse. Soltando rédeas, entrei nos horizontes. Aonde entrei, na areia cinzenta, todos me acompanhando. E os cavalos, vagarosos; viajavam como dentro dum mar.
O senhor vê e vê? Alguém a alto me levou, alguém, salvo a um seguinte. Águas não desmanchavam meu torrão de sal. Ah, nem eu não tive incerteza em mente. Assim fomos. Aí eu em frente adiante.
A fortes braços de anjos sojigado. O digo? Os outros, a em passo em passo, usufruíam quinhão da minha andraja coragem.
Rasgamos sertão. Só o real. Se passou como se passou, nem refiro que fosse difícil-ah; essa vez não podia ser! Sobrelégios?
Tudo ajudou a gente, o caminho mesmo se economizava. As estrelas pareciam muito quentes. Nos nove dias, atravessamos.
Todos; bem, todos, tirante um. Que conto.
O que era – que o raso não era tão terrível? Ou foi por graças que achamos todo o carecido, nãostante no ir em rumos incertos, sem mesmo se percurar? De melhor em bom, sem os maiores notáveis sofrimentos, sem em-errar ponto. O que era, no cujo interior, o Liso do Suçuarão? – era um feio mundo, por si, exagerado. O chão sem se vestir, que quase sem seus tufos de
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas capim seco em apraz e apraz, e que se ia e ia, até nãoonde a vista não se achava e se perdia. Com tudo, que tinha de tudo. Os trechos de plano calçado rijo: casco que fere faíscas – cavalo repisa em pedra azul. Depois, o frouxo, palmo de areia de cinza em-sobre pedras. E até barrancos e morretes. A gente estava encostada no sol. Mas, com a sorte nos mandada, o céu enuveou, o que deu pronto mormaço, e refresco. Tudo de bom socorro, em az. A uns lugares estranhos. Ali tinha carrapato... Que é que chupavam, por seu miudinho viver? Eh, achamos reses bravas –
gado escorraçado fugido, que se acostumaram por lá, ou que de lá não sabiam sair; um gado que assiste por aqueles fins, e que como veados se matava. Mas também dois veados a gente caçou
– e tinham achado jeito de estarem gordos... Ali, então, tinha de tudo? Afiguro que tinha. Sempre ouvi zum de abelha. O dar de aranhas, formigas, abelhas do mato que indicavam flores.
Todo o tanto, que de sede não se penou demais. Porque, solerte subitamente, pra um mistério do ar, sobrechegamos assim, em paragens. No que nem o senhor nem ninguém não crê: em paragens, com plantas.
De justiça, digo, também: uma regra se teve, sem se saber de quem foi que veio a idéia dessa combinação. Qual foi que a
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas gente se apartou, em grupos de poucos, jornadeando com a maior distância aberta. Mas que, assim, quando um avistasse qualquer coisa diversa, podia dar sinal, chamando os outros para novidade boa.
Eu que digo. Mesmo, não era só capim áspero, ou planta peluda como um gambá morto, o cabeça-de-frade pintarroxa, um mandacaru que assustava. Ou o xiquexique espinharol, cobrejando com suas lagartonas, aquilo que, em chuvas, de flor dói em branco. Ou cacto preto, cacto azul, bicho luís-cacheiro.
Ah, não. Cavalos iam pisando no quipá, que até rebaixado, esgarço no chão, e começavam as folhagens – que eram urtigão e assa-peixe, e o neves, mas depois a tinta-dos-gentios de flor belazul, que é o anil-trepador, e até essas sertaneja-assim e a maria-zipe, amarelas, pespingue de orvalhosas, e a sinhazinha, muito melindrosa flor, que também guarda muito orvalho, orvalho pesa tanto: parece que as folhas vão murchar. E erva-curraleira... E a quixabeira que dava quixabas.
Digo – se achava água. O que não em-apenas água de touceira de gra vatá, conservada. Mas, em lugar onde foi córrego morto, cacimba d’água, viável, para os cavalos. Então, alegria. E
tinha até uns embrejados, onde só faltava o buriti: palmeira alalã
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– pelas veredas. E buraco-poço, água que dava prazer em se olhar. Devido que, nas beiras – o senhor crê? – se via a coragem de árvores, árvores de mata, indas que pouco altaneiras: simaruba, o anis, canela-do-brejo, pau-amarante, o pombo; e gameleira. A gameleira branca! Como outro-tempo se cantava: Sombra, só de gameleira,
na beira do riachão...
Assim achado, tudo, e o mais, sem sobranço nem desgosto, eu apalpei os cheios. O respeito que tinham por mim ia crescendo no bom entendido dos meus homens. Os jagunços meus, os riobaldos, raça de UrutuBranco. Além! Mas, daí, um pensamento – que raro já era que ainda me vinha, de fugida, esse pensamento – então tive. O senhor sabe. O que me mortifica, de tanto nele falar, o senhor sabe. O demo! Que tanto me ajudasse, que quanto de mim ia tirar cobro?- “Deixa, no fim me ajeito...”
– que eu disse comigo. Triste engano. Do que não lembrei ou não conhecesse, que a bula dele é esta: aos poucos o senhor vai, crescendo e se esquecendo...
Daí, mesmo, que, certa hora, Diadorim se chegou, com uma avença. Para meu sofrer, muito me lembro. Diadorim, todo formosura.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
- “Riobaldo, escuta: vamos na estreitez deste passo...” – ele disse; e de medo não tremia, que era de amor – hoje sei.
- “... Riobaldo, o cumprir de nossa vingança vem perto...
Daí, quando tudo estiver repago e refeito, um segredo, uma coisa, vou contar a você...” Ele disse, com o amor no fato das palavras. Eu ouvi. Ouvi, mas mentido. Eu estava longe de mim e dele. Do que Diadorim mais me disse, desentendi metade.
Só sei que, no meio reino do sol, era feito parássemos numa noite demais clareada. Assim figuro. Dentro de muito sol, eu estava reparando uma cena: que era um jumentinho, um jegue já selvagem caatingano, no limpo do campo caçando o que roer, assaz pelos cardos.
Eu não tinha de tomar tento em coisas mais graves? Mire veja o senhor. Picapau voa é duvidando do ar. Que tal Zé Bebelo
– na hora me lembrei – quando mal irado, ou quando conforme querendo impor medo a todos: - “Norte de Minas! Norte de Minas...!”-o que bramava. E ele estava com a razão. Mas Zé Bebelo era projetista. Eu, eu ia por meu constante palpite.
Usando de toda ajuda que me vinha, mas prevenido sempre contra o Maligno: que o que rança, o que azeda. As traças dele
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas são novas sempre, e povoadas tantas, são que nem os tins de areia grãoindo em areal. Então eu não sabia?!
Ah, quase que eu estava cogitando nisso, quando o homem rosnou. Quem ele era, digo, em qualidade: um, troncudo, pardaz, genista, filho não sei de que terra. Assim, casta de gente?
Ah, não. Por meu bem, eu estava em todo o meu siso. Até mais. “Não faço caso!” – eu disse, isto é: pensei dizendo. Eu não queria somar com aquilo nenhum; porque cheirava ao Cujo: esses estratagemas. Era do demo... – eu tirei um enredo. “Pois, então, paz...” – eu falei, me falei. “... Não faço conta...” – me prometi.
Eu estava em manhas. Estive que estive no embalançar, em equilibrável. Tico tanto pensei. Mas tudo era frisado ligeiro, ligeiro, feito cavalo que pressente fúria de boi.
Aí escutei a voz – a voz dele tremia nervosa, como de cabrito; da maneira que gritou – à briga. Um desfeliz. Levei os olhos.
Ah, quem o homem era, eu já sabia, ele se chamava Treciziano. O bruto; para falar com ele, só a cajado. Eu sabia.
Rebém que desconfiei do demo. Ali esse Treciziano era fraco de paciências; ou será que estivesse curtindo mais sede do que os
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas outros – segundo esse tremor das ventas – e pegou a malucar?
Diziam que ele criava dor-de-cabeça, e padecia de erupções e dartros. Estava falando contra comigo, reclamando, gritou uma ofensa. Homem zuretado, esbraseia os olhos. Eu, senhor de minhas inteligências, como fica dito. Eu estava podendo refletir, em passo de jumento. - “Siô, deixa o padre of recer missa...” –
falei para mim mesmo. Eu queria tolerar, primeiro: porque o demo não era homem para mandar em mim e me pôr em raiva.
Aí, era só eu forçar calma, tenteador; depois, com palavras de energia boa, eu acautelava evitando a jerimbamba, e daí repreendia esse Treciziano, revoltoso, próprio por autoridade minha, mas sem pau nem pedra. Que dessa – chefe eu – o O não me pilhava...
Mas – ah! – quem diga: um faz, mas não estipula. O que houve, que se deu. Que vi. Com a sede sofrida, um incha, padece nas vistas, chega fica cego. Mas vi. Foi num átimo. Como que por distraído: num dividido de minuto, a gente perde o tino por dez anos. Vi: ele – o chapéu que não quebrava bem, o punhal que sobressaía muito na cintura, o monho, o mudar das caras...
Ele era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez uma careta, que sei que brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio pessoa!
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas E ele endireitou pontudo para sobre mim, jogou o cavalo...
O demo? Em mim, danou-se! Como vinha, terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. - “E-hê!...”
Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada. Cerrei com ele... A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e trens que eu tinha na cintura e a tiracol: se prendeu ali, um mero. Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal –
pajeuzeira – em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o princípio da nuca – ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele. Cortei por cima do adão... Ele Outro caiu do cavalo, já veio antes do chão com os olhos duros apagados... Morreu maldito, morreu com a goela roncando na garganta!
E o que olhei? Sangue na minha faca – bonito brilho, feito um verniz veludo... E ele: estava rente aos espinhos dum mandacaru-quadrado. Conforme tinha sido. Ah-oh! Aoh, mas ninguém não vê o demônio morto... O defunto, que estava ali, era mesmo o do Treciziano!
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas A morte dele deu certo. E era, segundo tinha de ser? E
tinha de ser, por tanto que o demo não existe! As tramóias, armadilhas... Nem nunca mais, daí por diante, eu queria pensar nele. Nem no pobre do Treciziano, que estava ali, degolal, que eu tinha... Um frio profundíssimo me tremeu. Sofri os pavores disso
– da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo.
Somente todos me gabaram, com elogios e palavras prezáveis, porque a minha chefia era com presteza. Fosse de tiro, tanto não admiravam a tanto, porque a minha fama no gatilho já era a qual; à faca, eh, fiz! E do outro grupo, longe mas que era o mais perto, da banda da mão esquerda, um escutou ou viu, e veio. Era o Jiribibe, mocinho Jiribibe, num cavalo preto galopeiro. Diadorim tinha disparado tiro, só esmo; de nervosia.
Dentro de pouco, todos iam ficar cientes da proeza daquele homem tão morto: das beiras do corte – lá nele – a pele subia repuxada, a outra para baixo tinha descaído tamanhamente, quase nas maminhas até, deixavam formado o buraco medonho horrendo, se aparecendo a toda carnança. Aí Alaripe esclareceu: -
“Ao que sei, este era da Serra d’Umã...” O de tão longe, o sapo leiteiro! Uns estavam remexendo nele – não tinha um pêlo nos peitos. Assim queriam desaliviar aquele corpo, das coisas de valor
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas principais. Do que alguém disse que ele guardava: um dixe, joiazinha de prata; e as esporas eram as excelentes, de bom metal.
Não turveei. Morte daquele cabra era em ramo de suicídios-
“A modo que morreu? Ele foi para os infernos?”-indagou em verdade o menino Guirigó. Antes o que era que eu tinha com isso, como todos me louvaram? Sendo minha a culpa – a morte, isso sei; mas o senhor me diga, meussenhor: a horinha em que foi, a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso recitar, pelos terços e responsos. Medo de cego não é o medo real. Diadorim me olhava – eu estivesse para trás da lua. Só aí, revi o sangue. Aquele, em minha roupa, a plasta vermelha fétida.
Do sangue alheio que grosso me breava, mal me alimpei o queixo; eu, desgostoso de sangue, mas deixava, de sinal? Ah, não, pois ali me salteou o horror maior. Sangue... Sangue é a coisa para restar sempre em entranhas escondida, a espécie para nunca se ver. Será por isso também que imensa mais é a oculta glória de grandeza da hóstia de Deus no ouro do sacrário – toda alvíssima!
– e que mais venero, com meus joelhos no duro chão.
Por mais, o corpo ali ficava, para o ar do raso. Sumimos de lá, há-se que tocávamos, adiante. À viajadamente eu ia, desconversei meu espírito. Até às aleluias!
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Que, como conto. Aquele Treciziano tinha redobrado destino de tristefim de louco. Pois nem bem três léguas andadas, daí depois, a gente saía do Liso, como que a ponto: dávamos com uma varzeazinha e um esporão da serra; chapadas, digo.
Apeei na terra cristã. Se estava no para ver esses campos crondeubais da Bahia.
Adiante vim para pedir gole d’água, todo pacífico, no rancho de um solteiro; esse deu informação de que, dez léguas em volta, o povoal ia existindo sem questão. Somente seguimos.
Dali antes, a gente tinha passado o Alto-Carinhanha – lá é que o Rei-Diabo pinta a cara de preto. Onde chegados na aproximação do lugar que se cobiçava. Dado dia e meio – descrevendo no rumo que certo achamos logo – se havia de ter a casa da raça do Hermógenes! Lei de que íamos dar lá, madrugando madrugada, pegando todos desprevenidos, em movível supetão. Pois o Hermógenes parava longe, em hora recruzando meus antigos rastros, estes rasgos ele não adivinhava. Aí era o meu contrabalanço. Ah! – choca mal, quem sai do ninho...
Ao que, por isso, não tardamos; não tivessem a primeira notícia da gente. Não se tomou nem um dia de fôlego. A trote e a chouto, vencemos uma grande noite – e demos lá, no luzir d’alva.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Abarcamos as condições do lugar, em cerco, entendidos uns com uns, por meio de avisos: que eram canto de acauã e assovio de macaco. Porque sempre eles deviam de ter alguns curimbabas na defesa: capangas e carabinas. Daí, só se esperou o listrar da primeira barra e a ponta da manhã estremecente. Segundo nosso uso. Demos fogo.
Digo franco: feio o acontecido, feio o narrado. Sei. Por via disso mesmo resumo; não gloso. No fim, o senhor me completa.
Mas, fazia tempo que não se dava combate, e o propor da gente era tribuzana, essas ferocidades assim.
A casa da fazenda – aquele reto claro caiado; mas era um casarão acabando o tope do morrete; enganando, até parecia torta. Varejamos o total a tiro. Aí, e o que se gritava!: azurradamente...
Aqueles que estavam lá eram homens ordinários –
derreteram debaixo do pé de meus exércitos. O que foi um desbarate! Como que já estavam de asas quebradas, nem provaram resistências: deles mal ouvi uns tiros. E a gente, nós, estouramos para o centro, a surto, sugre, destrambelhando na polvorada, feito rodeio de vento. Assaz. Do que fiz, desisto.
Todos não fizeram? Volvido, receei que Diadorim não me
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas aprovasse; mas Diadorim concordou com os fatos, em armas, em frente. O que se matou e estragou – de gente humana e bichos, até boi manso que lambia orvalhos, até porco magro em beira de chiqueiro. O mal regeu. Deus que de mim tire, Deus que me negocie... À vez.
De seguida, tochamos fogo na casa, pelos quinze cantos mortos. Armou incendião: queimou, de uma vez, como um pau de umburana branca... E de lá saímos, quando o fogo rareou, tardezinha. E, na manhã que veio, acampou-se em beira-d’água de sossego. A gente traspassava de cansaços, e sobra de sono.
Mas, trazida presa, já em muito nosso poder, estava a merecida, que se queria tanto – a mulher legal do Hermógenes.
Aquela mulher sabia dureza; riscava. Ela discordava de todo destino. Assim estava com um vestido preto, surrado muito desbotado; caiu o pano preto, que tinha enlaçado na cabeça, e ela não se importou de ficar descabelada. Deixaram: ela sentar, sentou. Nunca encurtou a respiração. Devia de ter sido bonita, nos festejos da mocidade; ainda era. Deram a ela de comer, comeu. De beber, bebeu. A curto, respondeu a algumas duas ou três coisas; e, logo depois de falar, apertava demais a boca fechada, estreitos finos beiços. Mas falava quase assoviado.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Figuro que não mascava fumo nem cachimbava, mas mesmo assim cuspia em roda; mas não passava a sola do pé, por cima, para alimpar o chão, como é costume de se fazer, nessas condições. Adverti que estava descalça, e assim devia de ser fora do uso, decerto por causa da hora e confusão em que tinha sido pega. Se arranjou para ela par de alpercatas. Ela soubesse que não se pertencia com a gente. Aceitou meu olhar, seca, seca, com resignação em quieto ódio; pudesse, até com as unhas dos pés me matava. Enrolou a cara num xale verde; verde muito consolado. Mas eu já estava com ela – com os olhos dela, para a minha memória. Magreza, na cara fina de palidez, mas os olhos diferiam de tudo, eram pretos repentinos e duráveis, escuros secados de toda boa água. E a boca marcava velhos sofrimentos?