Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa · Capítulo 7 de 8 · parte 3/3

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Grande Sertão: Veredas

Essa tropa, que passara por nós, dias…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Para mim, ela nunca teve nome. Não me disse palavra nenhuma, e eu não disse a ela. Tive um receio de vir a gostar dela como fêmea. Meio receei ter um escrúpulo de pena; certo não temi abrir razão de praga. Muito melhor que ela não carecesse de vir.

Ser chefe, às vezes é isso: que se tem de carregar cobras na sacola, sem concessão de se matar... E ela ficava assim embiocada, sem semblantes, com as mãos abertas, de palmas para cima – como se para sempre demonstrar que não escondia arma de navalha, ou porque pedisse esmola a Deus. Lembro

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas dessa mulher, como me lembro de meus idos sofrimentos. Essa, que fomos buscar na Bahia.

É de ver que não esquentamos lugar na redondez, mas viemos contornando – só extorquindo vantagens de dinheiro, mas sem devastar nem matar – sistema jagunço. E duro capitaneei, animado de espírito. O Jalapão me viu, os todos Gerais me viram demais. Aqueles distritos que em outros tempos foram do valentão Volta-Grande. Depois, mesmo Goiás a baixo, a vago. A esses muito desertos, com gentinha pobrejando. Mas o sertão está movimentante todo-tempo – salvo que o senhor não vê; é que nem braços de balança, para enormes efeitos de leves pesos... Rodeando por terras tão longes; mas eu tinha raiva surda das grandes cidades que há, que eu desconhecia. Raiva-porque eu não era delas, produzido... E nave guei salaz. Tem as telhas e tem as nuvens... Eu podia lá torcer o azul do céu por minhas mãos?!

Virei os tigres; mas mesmo virei sendo o Urutu-Branco, por demais.

Somente que me valessem, indas que só em breves e poucos, na idéia do sentir, uns lembrares e sustâncias. Os que, por exemplo, os seguintes eram: a cantiga de Siruiz, a Bigri minha mãe me ralhando; os buritis dos buritis – assim aos cachos; o

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas existir de Diadorim, a bizarrice daquele pássaro galante: o manuelzinho-da-croa; a imagem de minha Nossa Senhora da Abadia, muito salvadora; os meninos pequenos, nuzinhos como os anjos não são, atrás das mulheres mães deles, que iam apanhar água na praia do Rio de São Francisco, com bilhas na rodilha, na cabeça, sem tempo para grandes tristezas; e a minha Otacília.

No sirgo fio dessas recordações, acho que eu bateava outra espécie de bondade. Devo que devia também de ter querido outra vez os carinhos daquela moça Nhorinhá, nessas ocasiões.

Por que será que, aí, eu não formei a clareza disso, de a-propósito? Por lá, adiante, na vastança, era rumo de onde ela agora morava. Isso, sim, andadamente. Mas não conheci; e demos volta. Tempos escurecidos. O que meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depoisd’amanhã.

Ao que inventei, enquanto assim se vinha, por pobres lugares, aos poucos eu estive amaestrando os catrumanos, o senhor está lembrado deles; ensinando aqueles catrumanos, para as coisas de armas, do que houvesse de pior. Eles já prometiam puxo; eh, burro só não gosta é de principiar viagens. Aprovei, de ver o Teofrásio, principal deles, apontando em homem malandro

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas inocente, com a velha garrucha que era a dele, com os dois canos encavalados. Mas, que atirasse, não consenti. Zé Bebelo havia de admitir assim, de se fazer excessos? Ali, quem se lembrava de Zé Bebelo eram minhas horas de muita inteligência. Assim, ele ainda vivesse, certo havia de ter algum dia notícia do que eu estava executando: que a gente trazia a Mulher; com ela agarrada em mãos, se ia necessitar o Hermógenes a dar combate.

Essa mulher, conforme vinha, num definitivo mau silêncio, a cara desaparecida pelo xale verde, escanchada em seu cavalo.

Tinham dado a ela um chapéu-de-palha de ouricuri, por se tapar do forte sol baiano. A mais, dela não se ouviu queixa ou reclamação; nem mesmo palavra. O que eu desentendia nela era aquela suave calma, tão feroz; que seria aferrada em esperar; essa capacidade. Se o ódio, só, era que dava a ela certeza de si, o ódio então era bom, na razão desse sentido: que às vezes é feito uma esperança já completada. Deus que dele me livrasse!

Mas, o homem em quem o catrumano Teofrásio com sua garrucha antiqüíssima apontou, era um velho. Desse, eu digo, salvei a vida. Socorrido assim, pelo fato d’eu não conseguir conhecer a intenção da existência dele, sua razão de sua consciência. Ele morava numa burguéia, em choça muito de

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas solidão, entre as touças da sempreviva-serrã e lustro das folhagens de palmeira-pindoba.

Eu, com outros, tinha subido no tope do morro, que era de espalhaventos. De lá do alto, a mente minha era poder verificar muitos horizontes. E, mire veja: em quinze léguas para uma banda, era o São Josezinho da Serra, terra florescida, onde agora estava assistindo Nhorinhá, a filha de Ana Duzuza. Assunto que, na ocasião, meu espírito me negou, digo o dito. Além, além. Dela eu ainda não tinha podido receber a carta enviada. Para mim, era só uma saudade a se guardar. Hoje é que penso. Nhorinhá, namorã, que recebia todos, ficava lá, era bonita, era a que era clara, com os olhos tão dela mesma... E os homens, porfiados, gostavam de gozar com essa melhora de inocência. Então, se ela não tinha valia, como é que era de tantos homens?

Mas, no vir de cimas desse morro, do Tebá – quero dizer: Morro dos Oficios – redescendo, demos com o velho, na porta da choupã dele mesmo. Homem no sistema de quase-doido, que falava no tempo do Bom Imperador. Baiano, barba de piaçava; goiano-baiano. O pobre, que não tinha as três espigas de milho em seu paiol. Meio sarará. A barba, de capinzal sujo; e os cabelos dele eram uma ventania. Perguntei uma coisa, que ele não

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas caprichou de entender, e o catrumano Teofrásio, que já queria se mostrar jagunço decisivo, o catrumano Teofrásio bramou –

abocou a garruchona em seus peitos dele. Mas, que não deu tujo.

Esse era o velho da paciência. Paciência de velho tem muito valor. Comigo conversou. Com tudo que, em tão dilatado viver, ele tinha aprendido. Deus pai, como aquele homem sabia todas as coisas práticas da labuta, da lavoura e do mato, de tanto tudo.

Mas, agora, que tanto aforrava de saber, o derrengue da velhice tirava dele toda possança de trabalhar; e mesmo o que tinha aprendido ficava fora dos costumes de usos. Velhinho que apertava muito os olhos.

Seria velhacal? Não fio. E isto, que retrato, é devido à estúrdia opinião que divulgou em mim esse velho homem. Que, por armas de sua personalidade, só possuía ali era uma faquinha e um facão cego, e um calaboca – Porrete esse que em parte ocado e recheio de chumbo, por valer até para mortes. E ele mancava estragado: por tanto que a metade do pé esquerdo faltava, cortado – produção por picada de cobra – urutu geladora, se supõe. Animado comigo, em fim me pediu um punhado de sal grande regular, e aceitou um naco de carne-de-sol. Porque, no comer de comum, ele aproveitava era qualquer calango sinimbu,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas ou gambás, que, jogando neles certeiramente o calaboca, sempre conseguia de caçar. Me chamou de: - “Chefão cangaceiro...”

Acabando que, para me render beneficio de agradecimento, ele me indicou, muito conselhante, que, num certo resto de tapera, de fazenda, sabia seguro de um dinheirão enterrado fundo, quantia desproposital. Eu fosse lá... – ele disse ; eu escavasse tal fortuna, que merecida, para meus companheiros e para mim... - “Aonde, rumo?” – indaguei, por comprazer. Ele piscou para o mato. Por lá, trinta e cinco léguas, num Riacho-dasAlmas... Toleima. Eu ia navegar assim para acolá, passar matos, furar a caatinga por batoqueiras, por louvar loucura alheia? Minha guerra nem não me dava tempo. E, mesmo, se ele sabia assim, e verdade fosse, por que era que não ia, muito pessoalmente, cavacar o ouro para si? Derri dele, brando. Por que é que se dá conselho aos outros? Galinhas gostam de poeira de areia – suas asas... E o velho homem – cujo. Ele entendia de meus dissabores? Eu mesmo era de empréstimo. Demos o demo... E possuía era meu caminho, nos peitos de meu cavalo.

Siruiz. Aleluia só.

E o velho, no esquipático de olhar e ser, qualquer coisa em mim ele duvidava dela. Mas – que é que era? que é que era?!... Eu

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas carecia de indagar. E, mesmo – porque a chefe não convém deixar os outros repararem que ele está ansiando preocupação incerta – tive de indagar leixo, remediando com gracejo diversificado: - “Mano velho, tu é nado aqui, ou de donde? Acha mesmo assim que o sertão é bom?...”

Bestiaga que ele me respondeu, e respondeu bem; e digo ao senhor: - “Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: –

... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.” Respondeu com uma insensatez, ar de ir me ferir, por tanto; jacaré já! Respondeu, apontando com o dedo para o meu peito. Desgostou de meu debique? Dele o dito, eu não decifrava. Sertanejo sem remanso. Mas desabandonamos aquilo, às pressas, porque o velho assoava o nariz com todos os dedos de uma mão, em modo que me deu nojo. Descemos flauteando o resto do morro. Quando chegamos cá no acampo, as ramas d’árvores já iam pegando o pó da noite. Ermo meu?

Do que hoje sei, tiro passadas valias? Eli. – fome de bacurau é noitezinha... Porque: o tesouro do velho era minha razão. Tivesse querido ir lá ver, nesse Riacho-das-Almas, em trinta e cinco léguas – e o caminho passava pelo São Josezinho da Serra, onde assistia Nhorinhá, lugarejo ditoso. Segunda vez

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas com Nhorinhá, sabível sei, então minha vida virava por entre outros morros, seguindo para diverso desemboque. Sinto que sei.

Eu havia de me casar feliz com Nhorinhá, como o belo do azul; vir aquém-de. Maiores vezes, ainda fico pensando. Em certo momento, se o caminho demudasse – se o que aconteceu não tivesse acontecido? Como havia de ter sido a ser? Memórias que não me dão fundamento. O passado – é ossos em redor de ninho de coruja... E, do que digo, o senhor não me mal creia: que eu estou bem casado de matrimônio – amizade de afeto por minha bondosa mulher, em mim é ouro toqueado. Mas – se eu tivesse permanecido no São Josezinho, e deixado por feliz a chefia em que eu era o Urutu-Branco, quantas coisas terríveis o vento-das-nuvens havia de desmanchar, para não sucederem? Possível o que é – possível o que foi. O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repen te se estremece, debaixo da gente... E – mesmo – possível o que não foi. O senhor talvez não acha? Mas, e o que eu estava dizendo, mas mesmo pensando em Nhorinhá, por causa. Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou... Mas, como jagunços, que se era, a gente rompeu adiante, com bons cavalos novos para retroco. Sobre os gerais

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas planos de areia, cheios de nada. Sobre o pardo, nas areias que morreram, sem serras de quebra-vento.

Com a campina roxa brandamente, vagarosa por onde fomos, tocamos, querendo o poente e tateando tudo, chapada sem lugar de fim. Só os punhados daquele capim de lá, com sua magra dureza. O para bem valer era que, agora, quando alguém com o nosso brabo cortejo deparava, seriam gente já distante, desconhecida dela, e que não diziam mais: - “Aquela é a dona de um seô Hermógenes, que estão remetendo para as enxovias...”

Essa mesma não dava trabalhos; a mulher ocultada no xale verde, como dizer. A mulher sem resgate – isto é dizer: que ia para morte de outro homem – à sina sorte. Eu tinha era receio de que ela adoecesse. Dei as todas ordens, de bom tratamento.

Tanto a tanto, decidi disposto que não se entrasse com bruteza nos povoados, nem se amolasse ninguém, sem a razoável necessidade. Também pelo que aquilo não me dava glória, e eu ia para um grande fim. Até estive nervoso.

Desde as crondeúbas, nascidas em extraordinárias quantidades, e os montes de areia quase alvos, com as seriemas por cima perpassando, e o mais, tudo eu tinha avistado. Que vi córrego que corta e salga, e comi coco de ouricuri. Desordens

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas não me tentavam, o assaltar e o rixar. Agora, para essas e outras jagunçagens – assim mesmo como para pautear à-toa, de abocabaque – eu não tinha interesse de tempo. Não por moleza ou falta de hombridade; ah, não: tanto em que durou minha chefia, e acho mesmo que de dantes, eu agüentei tudo o que é cão e leão. Corrijo e digo: só o frio é que mal tolerei. Quando geava, dormi deveras estreito entre diversas fogueiras. O frio desdiz com jagunço. A gente indo, ali mesmo nos altos tabuleiros, enchemos surrões com talos de canela-de-ema, boa acendedora de fogo. A canela-de-ema de qualidade – crescida mais de metro, acertante. Depois da madrugada, de guardado eu bebia um chá de jurema, me restabelecesse todos os ânimos. Daí diante, melhor, foi desamainando a friagem das madrugadas. E já fazia tempo que eu não passava navalha na cara, contrário de Diadorim. Minha barba luzia grande e preta, conferindo conspeito – isto eu mesmo podia fácil ver, mirando na folha da água, quando meu cavalo Siruiz se debruçava para beber em qualquer riachinho da largura de duas braças. Estórias!

Consabido que meus homens, por sincera precisão de mulher, armavam querer de trazer umas delas, pegadas pelas beiras de estradas, me vinham com lelê disso. O que eu, enérgico, debelei e reprovei: não se estava ainda em ponto para esse

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas desmazelo de bem-passar. Pelo mal de que essas mulheres não davam para ser ao menos uma para cada um, e, por via de jus dessas condições, a companhia delas podia estragar a lei do viver da gente, com arrelias de vuvu e rusgas. O que ajuntávamos, trazendo, era cada bom cavalo que se pegasse. E tocamos conosco cinqüenta-e-tantas reses, de gado baiano; à-toa. Por campos gramados, quando havendo, isso ia mais sem estorvo, em conformes. Depois, piorou. Mas outras coisas melhoraram.

O senhor tenha na ordem seu quinhão de boa alegria, que até o sertão ermo satisfaz.

Digo mesmo de meu expor, falante de mulheres. Quando se viaja varado avante, sentado no quente, acaba o coxim da sela fala de amores. E eu surgia em sossego assim, passo compasso, o chapadão tão alargante. Lá o ar é repousos. Os Hermógenes andavam por bem longe. E nunca que pelotão de soldados havia de ali vir, por cima de nossas batidas. Sossego traz desejos. Eu não lerdeava; mas queria festa simples, achar um arraial bom, em feira-de-gado. Queria ouvir uma bela viola de Queluz, e o sapateado de pés dançando. Mas, por lei, eu carecia de nudezes de mulher. Nesses dias, moderei minha inclinação. Baixei ordens severianas: que todos pudessem se divertir saudavelmente, com as mulheres bem dispostas, não deixando no vai-vigário; mas não

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas obrassem brutalidades com os pais e irmãos e maridos delas, consoante que eles ficassem cordatos. Estatuto meu era esse. Por que destruir vida, à-toa, à-toa, de homem são trabalhador? Zé Bebelo não teria outro reger... E vejo, pergunto: donde era que estava então o demo, perseguição? Devo redizer, eu queria delícias de mulher, isto para embelezar horas de vida. Mas eu escolhia – luxo de corpo e cara festiva. O que via com um desprezo era moça toda donzela, leiga do são-gonçalodo-amarante, e mulher feiosa, muito mãe-de-família. Essas, as bisonhas, eu repelia. Mas, daí então, me deram notícia do VerdeAlecrim. Joguei de galope. Torei o cavalo para lá.

Guia era um exato rapaz, vaqueiro goiano do Uruú. Esse me discriminou – o Verde-Alecrim formava somente um povoado: sete casas, por entre os pés de piteiras, beirando um claro riozinho. Meia-dúzia de cafuas coitadas, sapé e taipa-de-sebe. Mas tinha uma casa grande, com alpendre, as vidraças de janelas de malacacheta, casa caiada e de telhas, de verdade, essa era a das mulheres-damas. Que eram duas raparigas bonitas, que mandavam no lugar, aindas que os moradores restantes fossem santas famílias legais, com suas honestidades. Cheguei e logo achei que lugar tal devia era de ter nome de Paraíso.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Antes, primeiro, pensei em todos, para o justo quinhão, porque eu era chefe. Reparti o pessoal em grupos, determinando que saíssem indo adiante, com via por trechos remarcados. Pois, mesmo a poucas léguas de lá aonde eu, eles iam achar, por um exemplo, dois arraiais – o Adroado e o São Pedro – e até o Barro-Branco, que era um vilório. Entanto que, Diadorim, conforme conveniente, enviei também expresso – ele comandasse os guias tenteadores. Tudo pronto, vim, acompanhado só com uma guarda de dez homens. O que eu não disse: que o Verde-Alecrim ficava em aprazível fundo, no centro de uma serra enrodilhada. Dum alto, se via, duma olhada e olhar.

Esporeei, desci, de batida.

Aí cheguei bem de mão. Meus homens, deixei que fossem para as casas domésticas, conversar casadas e suas crias. Eu apeei na das duas. Escolhi assim. Bom, quando há leal, é amor de militriz. Essas entendem de tudo, práticas da bela-vida. Que guardam prazer e alegria para o passante; e, gostar exato das pessoas, a gente só gosta, mesmo, puro, é sem se conhecer demais socialmente... Eu chegasse de noite, e elas estavam com casa alumiada, para me admitir. Como que o amor geral conserva a mocidade, digo – de Nhorinhá, casada com muitos, e que sempre amanheceu flor. E, isto, a torto digo, porque as duas não

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas se comparavam com Nhorinhá, não davam nem para lavar os pés dela.

Mas que, porém, beleza a elas também não faltava, isto sim.

Uma – Maria-da-Luz – era morena: só uma oitava de canela. Os cabelos enormes, pretos, como por si a grossura dum bicho –

quase tapavam o rosto dela mesma, aquela nhazinha-moura. Mas a boquinha era gomo, ponguda, e tão carnuda vermelha se demonstrava. Ela sorria para cima e tinha o queixo fino e afinado. E os olhos água-mel, com verdolências, que me esqueciam em Goiás... Ela tinha muito traquejo. Logo me envotou. Não era siguilgaita simples.

A outra, Hortência, meã muito dindinha, era a Ageala, conome assim, porque o corpo dela era tão branquinho formoso, como frio para de madrugada se abraçar... Ela era ela até no recenso dos sovacos. E o fio-dolombo: mexidos em curvos de riacho serrano, desabusava. Comprimento exato dele, assim, o senhor medir nunca conseguia. No meio delas duas, juntamente, eu descobri que até mesmo meu corpo tinha duros e macios. Aí eu era jacaré, fui, seja o que sei.

No meio daquela noite, andei com fome, não quis cachaça.

Me descansei, comi uma coalhada muito fria. Comi bolo com

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas cidrão. Bebi bom café, adoçado com um açúcar de primeira, branco igual. Porque as duas minhas-damas eram ricas; dizer: deviam de ter muito dinheiro de prata aforrado. Por lá, na casa delas, era ponto de pernoite de lavradores de posses, feito estalagem, com altas pagas. Mas as duas, mesmas, provinham de muito boas famílias, a Ageala Hortência era filha de grande fazendeiro paranãnista, falecido. Eram donas de terras, possuíam aquelas roças de milho e feijão nas vertentes da serra, nos dependurados. Ali mesmo no VerdeAlecrim, delas era toda a terra plantável. Por isso, os moradores e suas famílias serviam a elas, com muita harmonia de ser e todos os préstimos, obsequiando e respeitando – conforme eu mesmo achei bem: um sistema que em toda a parte devia de sempre se usar.

Como se deu que, enquanto se bebia o café, escutamos uma tosse, da banda de fora. E era do homem que eu tinha deixado de vigia. O qual tinha acontecido de ser o Felisberto – o que, por ter uma bala de cobre introduzida na cabeça, vez em quando todo verdeava verdejante, como já foi dito. E então elas duas pensaram em se mandar o Felisberto entrar para provar do café também, dando que não é justo ficar um desconfortado no sereno, enquanto os outros se acontecem. Sendo as duas, o senhor vê, pessoas muito bondosas.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Assenti, boamente, nisso, em que elas estavam com a razão.

Só que, pelo respeito, eu sendo Chefe, não ia poder deixar o Felisberto me avistar assim, perfeito descomposto nu, como eu estava. Maria-da-Luz aí trouxe uma roupagem velha dela, que era para eu amarrar na cintura, tapando as partes. Experimentei. Daí, entendi o desplante, me brabeei, com um repelão arredei a mulher, e desatei aquilo, joguei longe. Tornei a vestir minhas roupas, botei até jaleco. Elas melhor me riam. Eu era algum saranga? Eu podia dar bofetadas – não fosse a só beleza e a denguice delas, e a estroina alegria mesma, que meio me encantava.

O Felisberto entrou, saudou, comeu e bebeu. Naquela ocasião ele estava passando bem, normal. Só assim, ao silenciosamente. Entendo que mais fosse para o galhardo que para o sem-graça, rapaz desses de que as mulheres se arregalam.

Em ver, seria mais moço do que eu, mais calmo. Não quisesse ardores com damas, quisesse os poucos recantos para devagar se resignar. Não cobiçou a qual, ou agrados. Nem na hora reparei que a Maria-da-Luz com ele se olhasse. Só bem, o que ela refletiu, quando o Felisberto, comido e bebido, tornou a sair, ela me disse: – que, se eu no caso dúvida não pusesse, o Felisberto podia com ela se introduzir, no outro cômodo, por variação

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas dumas duas horas, constante que nesse breve prazo eu ainda restava felizardo com a Ageala Hortência. Danado eu disse que não; e ela: - “Tu achou a gente casual aqui, no afrutado. Tu veio e vai, fortunosamente. Tu não repartindo, tu tem?...” – assim ela me modificou. A doidivã, era uma afiançada mulher. No sertão tem de tudo.

E eu tinha falado meu não, era mais somente porque não se pode falhar na regra: de só se pandegar com sentinela posta. Eu era o chefe. O Felisberto era sentinela. Aquela casa de lugar – as delícias que estavam – eu melhores neste mundo não achasse, pensei. Eu quisesse reinar lá, pelos meus prazeres. O senhor sabe: eu chefe, o outro sentinela. Esse Felisberto, pelo jeito, ia viver tão escasso tempo, podia bem que nem fizesse mais conta do ofício.

Sendo o mais que pensei: eu, sentinela! O senhor sabe. Ah –

ainda que no nocivo desses andares – eu conseguia meditar minhamente: ah, eu não tive os chifres-chavelhos nem os pés de cabra... Ali, pelos meus prazeres eu quisesse me reinar, descambava para fecho de termo. A morte estava com esse Felisberto, coitado desgraçado. A coisa estranha que uma bala de arma tinha entrado nos centros da cabeça mesma dele, recessos da idéia dele – de lá, de vezes em vezes, perturbava com excessos: daí um dia, em curto, era a morte fatal. Agora, podia

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas bem ser que ele quisesse largar de mão de ser jagunço? Aquele fato daquela bala entrada depositada no dentro de um – e que não se podia tirar de nenhum jeito, nem não matava de uma vez, mas não perdoava na data – me enticava. Aquele homem, mesmo com a valia e bizarria dele, eu pudesse querer mais no meu bando? As duas mulheres, belezas assins, dando delícias, bilistrocas... Outra idéia eu tive. Só eu sei: eu sentinela! Só não posso dar uma descrição ao senhor, do estado que eu pensei, achei; só sei em bases.

Amanheceu claro. Mas Maria-da-Luz não era logrã, isso conheci, no ver como ela olhou para o Felisberto, com modos mimosos. Quem sabe ele havia de gostar de ficar para sempre permanecido ali? Perguntei. O Felisberto se riu, tão incerto feliz, que eu logo vi que tinha justo pensado. E elas, demais. – “Deixa o moço, que nós prometemos. Tomamos bom cuidado nele, e tudo, regalado sustento. Que de nada ele há-de nunca sentir falta!” Tanto elas disseram, que tudo transformavam. Mulheres.

E o Felisberto ia permanecer, a siso, arrecadado na sujeição desses deleites; podia ter um remédio de fim de vida melhor? Em tal, abracei o companheiro, e abracei as duas, dando para sempre a minha despedida e fazendo mostra de falar de farto. Mulheres sagazes! Até mesmo que, nas horas vagas, no lambarar, as duas

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas viviam amigadas, uma com a outra – se soube. O que, quando eu já ia saindo, acharam de me dizer? Isto:

– “Mas, você já vai, mesmo, nego? Visita-de-médico?...”

Como não pude sofrear meu rir.

Reuni meus outros meus homens. Abalei de lá. Bem que eu sentia – eu exalava uma certa inveja do Felisberto. Mas, aí, eu estimei o Felisberto, como se ele fosse um meu irmão. Como Céu há, com esplendor, e aqui beleza de mulher – que é sede.

Deus que abençoe muito aquelas duas. A pois, me ia, e elas ficavam as flores naquele povoadozinho, como se para mim ficassem na beira dum mar. Ah: eu sentinela! – o senhor sabe.

Assim eu queria me esquecer de tudo, terminada aquela folga. O dever de minha hombridade. Aí mais, quando tornei a rever Diadorim, constante vi, que andava à minha espera com os companheiros, num papuã, matando perdizes. E encaminhei para Diadorim, com a meia-dúvida. Eu não tinha razão? Porque Diadorim já sabia de tudo. Como sabia? Ah, o que era meu logo perdia o encoberto para ele, real no amor. – “Riobaldo, você vadiou com as do Verde-Alecrim... Você, está comprazido?” –

ele de franca frente me perguntou. Eu tibes. Corri mão por meu

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas peito. Mas admirei que Diadorim não estivesse jeriza. Mesmo, ele ao leve se riu, e o modo era de malina satisfação.

– “Você já está desistido dela?” – em fim ele indagou.

– “Hem? Hem? Dela quem dela? Tu significa essas velhacas palavras...» – eu só fiz que respondi, redatado.

Mediante porque: aí logo entendi, no instante. E ele cerrou a conversa.

Porque eu entendi: que a referida era Otacília. Minha noiva Otacília, tão distante – o belo branco rosto dela aos poucos formava nata, dos escuros... Tudo isto, para o senhor, meu senhor, não faz razão, nem adianta. Mas eu estou repetindo muito miudamente, vivendo o que me faltava. Tão minhas coisas, eu sei. Morreu a lua? Mas eu sou do sentido e reperdido. Sou do deslembrado. Como vago vou. E muitos fatos miúdos aconteceram. Conforme foi. Eu conto; o senhor me ponha ponto.

Pelo que, do trecho, voltamos. Para mais poente do que lá, só uruburetamas. E o caminho nosso era retornar por essas gerais de Goiás – como lá alguns falam. O retornar para estes gerais de Minas Gerais. Para trás deixamos várzeas, cafundão, deixamos

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas fechadas matas. O joão-congo piava cânticos, triste lá e ali em mim. Isto é, minto: hoje é triste, naquele tempo eram as alegrias.

Suaçuapara corria da gente, com a cabeça empinada quase nas costas, protegendo para não prender nas árvores sua galhadura dele. Galheiro suaçupucu com sua fêmea suaçuapara. Um dia, vez, se matou uma sucuri, de trinta-e-seis palmos, que de ar engravidava. Dava lugares, em que, de noite, se estava de repente no cabo do revólver, ou em carabinas, mesmo; e carecia de se acender maiores fogueiras, porque, no cheio oco do escuro, podia vir cruzar permeio à gente algum bicho estranhão: formas de grandes onças, que rodeando esturravam, ou a mãe-da-lua, de vôo não ouvido, corujante; ou, de supetão, às brutas, com forte assovio, vindo do lado do vento, algum macho d’anta, cavalo-rão.

E foi aí que o Veraldo, que era do Serro-Frio, reconheceu uma planta, que se chamasse guia-torto, se certo suponho, mas que se chamava candeia na terra dele, a qual se acendia e prendia em forquilha de qualquer árvore, ela aí ia ardendo luminosa, clara, feito uma tocha.

Atravessamos campos. Dias, tão claros, céu de toda altura.

Assaz voavam eram os gaviões. E Goiás estava pondo fogo nos seus pastos. Arte que fumaçava, fumaceava, o tisne. O sol roxo requeimão. Tive uma saudade de outras audácias. Morreu o

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Pitolô, por bala de arma que disparou sem ser por querer de ninguém – caso muito acontecível. Num sítio Padre-Peixoto, morreu o Freitas Macho, também, de uma dor forte no vão da barriga, banda-da-mão-direita; remédio de chá nele não produziu o vero efeito. Alaripe teve uma carregação-dos-olhos. O

Conceiço destroncou o braço, deu trabalho e dores, para se repor no lugar. Advertido que, antes, dessas passagens assim não lhe vinha minuciando, e que elas corretamente sempre se dão; mas que eram somente as mortes sérias serenas, doutras desgraças diversas, ou doenças para molestar.

E dos fazendeiros remediados e ricos, se cobrava avença, em bom e bom dinheiro: aos cinco, dez, doze contos, todos tinham mesmo pressa de dar. Com o que, enchi a caixa. E abriam para a gente pipotes de cachaça, a qual escanceavam. Se jantava banquete, depois um coreto se cantava. As vezes, não sei porque, eu pensava em Zé Bebelo, perguntava por ele em outros tempos; e ninguém conhecia aquele homem, lá, ali. O de que alguns tivessem notícia era da fama antiga de Medeiro Vaz. Daí, me dava raiva de ter pensado refletido em Zé Bebelo. Bobéias. E, andantemente, só me engracei foi duma mulher, casada essa, que, com tremor enorme, me desgostou neste responder: – “Ai, querendo Deus, que o meu marido quiser...” Ao que eu atalhei:

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

“Ah, pois nem eu não quero mais não, minha senhora dona. Não estou de maneira.” E, sem ser de propósito, até botei mau-olhado num menino pequeno, que estava perto.

Que assim viemos. Mas, conto ao senhor as coisas, não conto o tempo vazio, que se gastou. E glose: manter firme uma opinião, na vontade do homem, em mundo transviável tão grande, é dificultoso. Vai viagens imensas. O senhor faça o que queira ou o que não queira – o senhor todaa-vida não pode tirar os pés: que há-de estar sempre em cima do sertão. O senhor não creia na quietação do ar. Porque o sertão se sabe só por alto.

Mas, ou ele ajuda, com enorme poder, ou é traiçoeiro muito desastroso. O senhor...

Tomei mais certeza da minha chefia. Quer ver que eu tinha deixado de parte todas as minhas dúvidas de viver, e que apreciava o só-estar do corpo, no balanço daqueles dias temperados tão bem, quando o céu varreu. Dias tão claros. Tanto que as cigarras chiavam em grosas; e de que tal-arte valessem por um atraso das chuvas do ano, alguns já queriam desejar. Não foi.

Mas eu cria por mim nas melhores profecias. E sempre dei um trato respeitável amistoso aos homens de valia mais idosa, vigentes no sério de uma responsabilidade mais costumeira.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Esses eram João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, Alaripe e outros uns restantes – que mereciam de si; e não me esqueci das praxes. Tirante que não pedi conselhos. Mas não houvesse; mas, pedir conselho – é não ter paciência com a gente mesmo; mal hajante... Nem não contei meus projetados. O Rio Urucuia sai duns matos – e não berra; desliza: o sol, nele, é que se palpita no que apalpa. Minha vida toda... E refiro que fui em altos; minha chefia.

Diadorim mesmo mal me entendeu. Qual que recordo, foi num durante de tarde, a incertas horas, quando se vinha por um selado, estirão escampante. Nós dois em dianteira, par de homens; um diabo de calor; e os cavalos pisavam légua destinada de cristal e malacachetas. Céu e céu em azul, ao deusdar. O

senhor vá ver, em Goiás, como no mundo cabe mundo.

E o que Diadorim me disse principiou deste jeito assim: que perguntou, esconso, se eu queria aquela guerra completamente. Tal achei áspero – que ele me condenava o vir dando tantas voltas, em vez de reto para topar o inimigo ir.

Remeniquei:

– “Uai, Diadorim, pois você mesmo não é que é o dono da empreita?!” – e, mais, meio debiquei, com estas: – “Que eu,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas vencendo vou, é menos feito Guy-de-Borgonha...” Acho que, as palavras que eu disse, agora não estou trastejando...

Mas Diadorim repuxou freio, e esbarrou; e, com os olhos limpos, limpos, ele me olhou muito contemplado. Vagaroso, que dizendo:

– “Riobaldo, hoje-em-dia eu nem sei o que sei, e, o que soubesse, deixei de saber o que sabia...”

Demorei que ele mesmo por si pudesse pôr explicação. E

foi ele disse: – “Por vingar a morte de Joca Ramiro, vou, e vou e faço, consoante devo. Só, e Deus que me passe por esta, que indo vou não com meu coração que bate agora presente, mas com o coração de tempo passado... E digo...”

Afirmo que não colhi a grã do que ele disse, porque naquela hora as idéias nossas estavam descompassadas surdas, um do outro a gente desregulava. E o tom mesmo de sério que ele impunha rumou meu pensamento para outros pontos: o Urucuia

– lá onde houve matas sem sol nem idade. A Mata-de-São-Miguel é enorme – sombreia o mundo... E Diadorim podia ter medo? –

duvidei. Eu sempre sabia: um dia, o medo consegue subir, faz – 765 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas oco no ânimo do mais valente qualquer... Com tanto, eu fui e disse:

– “Tudo na vida cumpre essa regra...”

Duvidei pouco. Diadorim não temia. O que ele não se vexou de me dizer:

– “Menos vou, também, punindo por meu pai Joca Ramiro, que é meu dever, do que por rumo de servir você, Riobaldo, no querer e cumprir...’ Nem considerei. – “É, o Hermógenes tem de acabar!” – eu disse. Diadorim, ia ter certas lágrimas nos olhos, de esperança empobrecida. Me mirava, e não atinei. Será que até eu achasse uma devoção dele merecida trivial?

Certo seja. Não dividi as finuras. Mas, também, afiguro que responder mais não pude, por motivos de divertência. Qual que, na hora, deu de dar, diante, um desvôo de tanajuras, que pelas grandes quantidades delas, desabelhadas, foi coisa muito valente, para mim foi o visto nunca visto: em riscos, zunindo como enchiam o ar, caintes então, porque a lei delas é essa, como porque o corpo traseiro pesa tão bojudo, ovado, bichão maduro, elas não agüentam o arco de voar, iam semeando palmos de chão, de preto em acobreadas, e tudo mesmo cheirava à natureza delas, cheiro cujo que de limão ruivo que se assasse na chapa.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Bagos dessas, muito mundialmente... Caso que os cavalos se espantavam, uns na só cisma até refugando. E o menino Guirigó, de ver mais que todos, tocou cá para adiante, com gritos e arteirices, tão entusiasmável; como tanto aprovei, porque o menino Guirigó do Sucruiú eu tinha botado viajante comigo era mesmo para ele saber do mundo. Mas o esbagoar estirante das tanajuras vinha para toda parte, mesmo no meio da gente, chume-chume, fantasiado duma chuva de pedras, e elas em tudo caíam, e perturbavam, nos ombros dos homens, e no pêlo dos animais. Como digo que eu mesmo a tapas enxotei muitas, e outras que depois tive de sacudir fora da croa de meu chapéu, por asseio. Içá, savitu: já ouvi dizer que homem faminto come frita com farinhas essa imundície... E os pássaros, eles sim, gaviãozinho, que no campo esmeirinhavam, havendo com o que encher os papos. Mas bem porém que cada tanajura, mal ia dando com o chão, no desabe, sabia que tinha de furar um buraco ligeirinho e se sumir desaparecida na terra, sem escolha de sorte, privas de suas asas, que elas mesmas já de si picavam desfolhadas, feito papelzinho. Isso é dos bichos do mundo; uso.

Mas, então, quando mirei e não vi, Diadorim se desaportou de meus olhos. Afundou no grosso dos outros. Ai-de! hei: e eu tinha mal entendido.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas E o senhor tenha bons estribos: que informo que o que disse se deu bem em antes dele Diadorim ter tido a conversa com a mulher do Hermógenes. Que agora, do que sei, vou tosquejar.

Como de fato, desamarrou o tempo. Formou muita chuva.

Com assim, emendados chovidos três dias, então certificamos de permanecer esse tempo em prédio, e enchemos a Fazenda Carimã, que era de um denominado Timóteo Regimildiano da Silva; do Zabudo, no vulgar. Esse constituía parentesco proximado com os Silvalves, paracatuanos, cujos tiveram sesmarias, na confrontação das divisas, das duas bandas iguais. Do Zabudo: o senhor preste atenção no homem, para ver o que é um ser esperto.

Primeiro, encontramos de repente com ele, quando se ia por um assente – chapadazinha dessas, de capim fraco. Conciso já principiava a chuviscar, e eu estava pensando: que, por ali, menos longe, algum rancho ou alguma casa de sitiante havia de vagar. Nessa mesma horinha, o tal se apareceu. Conforme vinha, num cavalo baio, com uma daquelas engraçadas selas cutucas, que eles usam, e introduzido em botas-de-montar muito boas, dessas de couro de sucuriju, de que eles faziam antigamente. No natural, que foi ele ver a gente e levou choque.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Instantezinho, porém, se converteu. Isto, que se desapeou, ligeiro, e tirou o chapéu, com cortesia mor, com gesto de braço, e manifestou:

– “Senhores meus cavaleiros, podem passar, sem susto e com gosto, que aqui está é um amigo...”

– “Amigo de quem?” – eu revidei.

– “Vosso, meussenhor cavaleiro... Amigo e criado...”

Esperança dele era ver a gente pelas costas. Com ele apertei: aonde que morasse? – “Lá daquela banda, meussenhor...

Sitiozinho raso...” – outrarte ele respondeu, nhento, pasmado.

Atalhei: – “A pois, pra lá vamos, adonde menos chova. O senhor mostre.” Aí ele remudou os modos, falando em muito aprazimento, em honras de sinceridade. A fazenda era ali, só a uns passos. Assim ele já se astuciava.

Do Zabudo, homem somítico, muito enjoativo e sensato.

Requeri dele o prêmio – que marquei em arras de sete contos – e ele se desesperou, conforme caretas, e suas costas das mãos, mesmas, uma e depois a outra, diversas vezes ele beijava. Sempre gemendo que não e que sim, pediu vênia de me noticiar como os negócios da lavoura para ele nos derradeiros três anos andavam

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas desandando, com peste que no gado deu e redeu, e praga no canavial: por via dela, nem fervia mais safra. E, tudo que falava, explicava e redizia, mesmo se fiou de querer me levar, debaixo de temporal, para exemplificar minhas vistas com o pejorativo de suas posses. Por causa da caceteação, concedi rebates, acabei deixando o estipulado em três-contosquinhentos; e também por receio de se pegar em mim a nhaca daquele atraso. Se bem que, no repleto de dinheiro ganho goiano, como já se estando, eu descarecia de sistema de bruteza com ninguém. E mesmo se traçou que o sustento nosso ele por metade fornecia gracioso, sem estipêndio; escatimava, mas dava. Ao tanto que o resto eu pagava caro, e os percebidos: certas dúzias de ferraduras, o milho para os animais, umas mantas de toicinho e dez quartilhos de cachaça – que, em justo dizer, nem prestava. Bom, lá, era o fumo de rolo. E, já dava de ser: como desemboque, eu pagasse a ele só para se comportar calado. Por fim, penso, a falha nossa lá, para aquele do-Zabudo, ficou quase de graça.

E dito e referido, que chovia em Goiás todo, assistimos dentro de casa, só saindo no quintal para chupar jabuticabas. A gente tinha baralhos, se jogou, rouba-monte e escopa, porque truque eu não consentia, por achar que me faltava floreado rompante para os motes e gritos, que nesse endiabrado jogo

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas compertencem; e mesmo por achar vadiado, para a minha chefia.

Então bem, enquanto a gente formava essa distração, o do-Zabudo ia e vinha, flauteando, excogitando decerto – para ratinhar e sisar a gente com mangonhas – outras velhaquices choradas. E foi, de repente, ele se chegou com esta, que não se esperava por barato nem caro: – Que a nhã senhora, aquela, suplicava o favor dum particular com o moço chamado Reinaldo...

Essa, nhã, refiro, era a mulher do Hermógenes; que em reserva fechada se tinha, no quarto-do-oratório. E Diadorim, saber o senhor tem, era o conhecido por “Reinaldo”.

Que me invocou – o senhor vai dizer – me causou espantos? Haviade. Eu estava na sala-de-jantar, jogando, com João Goanhá, João Concliz e Marcelino Pampa. Alaripe, com a baciinha de lixívia em areia e com estopa, na soleira da porta para o quintal, acendrava as armas. Ele falou: – “Deus que, olh’ lá: que se o Reinaldo não dá cabo da criatura...” Descontamos. – “Eh, ela será que faz mandraca?” – João Goanhá alvitrou, com essas risadas. – “Ara, para obrar bom feitiço, que valha, diz-se que só mesmo negra, ou negro...” Isto que Marcelino Pampa deu de opinião, enquanto pegava o sete-belo com o sete-de-paus. Eu

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas joguei, e João Goanhá somou seis e três, na mesa, conforme pegou com um valete, e escopou. Diadorim se tinha encaminhado para onde estava a mulher, para ir ouvir o que ela queria que ele ouvisse.

Tocou minha vez de baralhar e repartir cartas. Ou seria algum pedido que ela tivesse de fazer a ele, bem. Daí, João Goanhá esteve dizendo que a mulher rogava era por sua liberdade. E eu desconversei, observando casual, primeiro a respeito do luxo de tantos anéis que João Goanhá gostava de botar em cheios dedos; e depois chamei atenção para as goteiras abertas na telha-vã daquele grande cômodo, que se carecia de dispor umas latas em diversos pontos e até uma gamela, no meio da mesa, fim de se aparar águas da chuva. Mas, mesmo por mim, eu já tinha perdido a simpatia no divertimento do jogo, e me ergui de lá, fui ver a coisa nenhuma, no alpendre, onde até homens dormiam madraços, aborrecidos com um chover tão constante.

Diadorim não vinha, não dava de sair do quarto-do-oratório. E, quando foi que veio, não me contou nada. O que disse, comum: – “Ah, ela só chorou mágoas...” Não perguntei passo. Devido que não perguntei logo à primeira, depois foi não

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas ficando bem, para o meu brio, o perguntar. Diadorim se atarantava quieto, nem não era correto o que ele estava fazendo –

escondendo fatos. Palavras que vieram a gume em minha boca, foram estas: – Que eu não gostava de hipocrisias... Pensei, e não disse. Eu podia duvidar das ações de Diadorim? Lá ele alguma criatura para traição? Rosmes! Idéia essa não aceitei, por plausível nenhum. Mas, de motivo como me desgostei, assim resolvi a saída da gente dali da Carimã, no instante mesmo, e dei ordem.

Fossem trazer os cavalos, e arrear, atrás do tempo que fizesse –

enxurradas tais, nuvens grossas, céu nubloso e trovão em ronco.

Chuvas com que os caminhos se afundavam.

E assim cumpriram. Mas, aí nem bem os cavalos vieram no curral, se deu uma estiada muito repentina – por um montão de vento. O céu firmou, e sol, com todos os bons sinais. Ante o que

– por isso e por tanto – a admiração do pessoal foi de grandes mostras. E eu vi que: menos me entendiam, mais me davam os maiores poderes de chefia maior.

Só o do-Zabudo, saiba o senhor, parava fora da roda, sem influência nenhuma, feito um tratante. Saiba o senhor que assim ele ainda me veio, com visagens e embaraços, por amortecer a paga, pedindo ágios de calote e prazos mercantis. Agora – mais

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas que tudo – saiba o senhor uma coisa, a que ele, para os fins, executou na hora da confusão da saída, no zafamar. Pois de repente trouxe e ofertou a Diadorim, de regalo, uma caixeta da boa e melhor marmelada goiana, dada a valores: – “Ademais o senhor prove o de que demais gostará... A de Santa Luzia, perto desta, perde por famosa...” Dando aquilo a Diadorim, ele não queria disfarçado me agradar, por vantagens? Se sei. O que é que estivesse adedentro das idéias daquele homem? O jeito estúrdio e ladino de olhar a gente, outrolhos – e que na hora não me fez explicação. Sendo que, mediado esse obséquio a Diadorim, ele conseguiu mesmo me adular. Saranga fui, contracontas, contra aquele paranãnista lordaço. Ele se saiu quite, por pouco não pegou até dinheiro meu emprestado. Mesmo pelos cavalos e burros que cedeu, recebeu igual quantidade dos nossos, bem melhores, somente que estavam cansados. Teve até permissão de conservar o dele próprio, o baio, que disse ser de venerada estimação, por herdado pessoal do pai. Nele, amontado prazido, naquela dita cutuca, pandegamente, pois ainda veio, por quarto-de-légua, fazendo companhia à gente. Coisa assim, não se vê.

Tanto ambicionava, que nem temia. Sempre me olhava, finório, com as curiosidades. E assim. Agora, o senhor prestou toda a atenção nesse homem, do-Zabudo? O diabo dele. O senhor me

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