Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana

Flávio Medeiros Jr. · Capítulo 5 de 8 · parte 2/2

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Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

– Prim eira vez? Você j á tinha visto algo assim antes?

– Bem ... Quatro vezes, na verdade. Esta é a quinta vítim a nos últim os três m eses e m eio, todas elas prostitutas m ortas e evisceradas de form a sem elhante. Parece que tem os um serial killer à solta em Whitechapel, e o m ais curioso é que, apesar da exuberância dos crim es, ninguém j am ais conseguiu vê-lo. Esta m oça chegou aqui sozinha na noite passada, de acordo com o senhorio, que se recolheu por volta das dez. Só voltou a ser vista por ele nesse estado, por volta das dez da m anhã, quando foi surpreendido com a presença de um policial da Yard j á correndo pelas escadas. Mas se você não sabia dos outros crim es... por que o Serviço Secreto se interessaria por esta vítim a em particular?

Pigarreei antes de responder.

– Isso é inform ação sigilosa, Inspetor, m as recebem os denúncias de que esta m oça em particular poderia ser um a espiã, atuando em Londres a serviço dos franceses.

Lestrade arqueou as sobrancelhas, olhando de volta para o cadáver m utilado. Sua m ente, com o de costum e, funcionou com rapidez.

– O que nos leva à pergunta: será que o assassino sabia disso ou seria um a coincidência? Um assassino de prostitutas que pegou a m oça errada? Ou quem fez isso estava procurando por esta senhorita em particular?

– Se m e perm ite, gostaria de dar um a olhada m ais de perto.

Ele fez um a m esura e abriu cam inho para m inha entrada no quarto. Respirei fundo e cam inhei até j unto da cam a. Usei o lenço para enxugar o rosto, pois com ecei a suar frio. Não era o aspecto do corpo que m e im pressionava; eu j á presenciara coisas assim antes m uitas vezes, e esse era j ustam ente o problem a. Em m inha m ente, im agens de anim ais vivisseccionados sobrepunham -se alternadam ente à da pobre m oça m orta. Senti a presença de Lestrade atrás de m im , olhando por sobre m eu om bro.

– Com o pode ver, as vísceras desapareceram ; estôm ago, intestinos...

– Em m inha opinião trata-se de um a infeliz coincidência, Inspetor. O serial killer não devia desconfiar de sua dupla identidade.

– Claro que não. Se fosse assim , poderíam os desconfiar de um a execução, não é? Talvez algum agente inglês encarregado de caçar essa tal espiã francesa...

– Se fosse assim , por que eu estaria aqui hoj e?

– Boa pergunta. Som ando a isso o fato de que você não sabia das outras vítim as, concluím os que o Serviço Secreto está sendo pego de surpresa assim com o nós, da Scotland Yard.

– Muito bem pensado, Inspetor. Agora, se m e dá licença...

Cam inhei resoluto para a porta. A voz de Lestrade m e deteve no batente:

– O desaparecim ento das vísceras m e faz pensar que esse assassino procurava algum a coisa, e não queria perder tem po fazendo um a busca m inuciosa no local do crim e, correndo o risco de ser surpreendido. Já que você tam bém veio até aqui à procura de algo, Prendick... será que não faz ideia do que seria esse prêm io, valioso a ponto de levar um m onstro doentio a fazer isso com um a j ovem indefesa?

Voltei-m e sobre os calcanhares com m inha expressão m ais inocente no rosto.

– Não faço ideia do que seria, Inspetor. Mas estou certo de que, se realm ente houver algo tão im portante, a Scotland Yard logo descobrirá e com partilhará a inform ação conosco, não é?

Ele riu em voz alta. O som não com binava com o am biente daquele cenário, era quase um a afronta. Lestrade ergueu a aba do chapéu e acenou para m im .

– Até m ais ver, agente Prendick.

Desci as escadas e ganhei a rua. Apesar do cheiro pútrido das vielas, acolhi de bom grado em m eus pulm ões a brisa que soprava ao ar livre. Alguém de fato estava à caça da espiã francesa, e a encontrou pouco tem po antes de m im . A brutalidade e a capacidade de entrar e sair incógnito era quase um a im pressão digital do responsável: Griffin! Tinha que ser Griffin!

Ninguém sabia seu prim eiro nom e. Ninguém sabia sequer se “Griffin” era um sobrenom e verdadeiro. A partir do segundo escalão do Serviço Secreto, não havia quem fosse capaz de fazer um a descrição física do hom em . Ele era com o aquelas criaturas terríveis que as m ães utilizam para am eaçar os filhos que não querem tom ar a sopa ou ir para a cam a. Quando o Serviço Secreto queria um resultado “a qualquer custo”, ele era o agente convocado. Para Griffin não parecia haver lim ites m orais ou hum anos de nenhum a espécie. Sua brutalidade e a porcentagem de êxitos em suas m issões eram infinitam ente m ais conhecidas que sua aparência física. Todos no Serviço Secreto o tem iam e fora dele m ais ainda. O fato de ninguém que tenha sobrevivido a ele era capaz de descrevê-lo lhe angariou o apelido de “Hom em Invisível”. Se ele estivesse atrás de você, você só saberia tarde dem ais, e da pior m aneira. Quanto a um a coisa Lestrade estava certo: Griffin m atara as cinco prostitutas à procura da verdadeira espiã; provavelm ente o m ilitar que dera com a língua nos dentes era um cliente habitual de Whitechapel e o único crim e das garotas anteriores foi terem se relacionado com ele. O desaparecim ento das vísceras tam bém era facilm ente explicável: o procedim ento padrão entre os espiões com o Marie Jeanette Kelly era escrever a inform ação a ser repassada em um pequeno canudo de papel, que ia no interior de um a cápsula m etálica dim inuta até ser entregue a outro agente m ais graduado ou a um a estação de telégrafo. Caso corresse perigo, a espiã deveria engolir a pequena cápsula m etálica, na esperança de escapar e poder recuperá-la posteriorm ente. Se Griffin não houvesse encontrado a cápsula entre os pertences de seu alvo, sua m ente doentia não hesitaria em rem over todo o trato digestivo da vítim a para procurar o obj eto com m ais calm a em outro lugar. Nas quatro prim eiras vítim as ele não encontrara nada, m as eu suspeitava de que dessa vez as m ortes do serial killer de Whitechapel cessariam m isteriosam ente. Aquela linha de investigação parecia estar com pletam ente m alograda. Retornei para m inha casa em Londres, e após algum as horas de descanso esperei pelo pôr-do-sol para m e encam inhar ao Reform Club, onde deveria dar as m ás notícias a Passepartout.

O Reform Club era um reduto tradicional dos endinheirados ingleses. Eu tinha livre acesso ao local porque m inha fam ília era detentora de algum as posses, o que tornava m inha presença algo aceito com naturalidade. Ali eu convivia com pessoas im portantes sem que m uitos sequer se lem brassem de onde eu trabalhava, o que era m uito útil quando se buscam inform ações.

O chefe de Passepartout, o m inistro Phileas Fogg, era um hom em absolutam ente previsível, graças à pontualidade legitim am ente britânica com que cum pria suas atividades. No m om ento em que adentrei o salão ele se encontrava, com o sem pre naquele horário, sentado j unto ao bar bebendo drinks com outras celebridades da vida política local e com entando os assuntos do dia. Em breve eles se deslocariam para o salão anexo, onde j á estava preparada sua m esa de uíste.

Encontrei Passepartout em um a das discretas sacadas que davam para o rio, e conversam os com o dois cavalheiros que casualm ente tivessem se retirado para fum ar um charuto. Ele evidentem ente não gostou das novidades. Meses de trabalho haviam sido perdidos por m uito pouco tem po. Se tivéssem os nos adiantado a Griffin em doze horas que fossem ...

Naquela tarde o m inistro tivera m ais um a de um a série de três reuniões supersecretas, j untam ente com autoridades políticas, cientistas e m ilitares, m as o sigilo acerca dos assuntos tratados era absoluto. O hom em do Clube do Canhão, vindo especialm ente da Am érica, estivera presente. A sensação de que o tem po se esgotava era m uito forte. Precisávam os encontrar algum a outra pista rapidam ente.. Passepartout estava disposto a tentar forçar um a conversa sobre “assuntos confidenciais” entre as autoridades do grupo de uíste, na m edida em que o teor alcoólico da m esa de j ogo baixasse as defesas. Talvez fosse m esm o o m om ento de um lance arriscado naquele j ogo perigoso.

Eu j á sabia por onde eu iria tentar. Olhando pelo salão, vi duas figuras conhecidas sentadas em um a m esa afastada. Um era m eu am igo de longa data, My croft Holm es, um grandalhão que expandiu os lábios entre as duas bochechas de buldogue em um sorriso sonolento assim que m e viu chegando. O outro não era propriam ente um conhecido, m as alguém que eu era capaz de reconhecer por força de m eu ofício: Melvin Moore, um dos cientistas do cam po da física que, de acordo com a Inteligência, fazia “pesquisas secretas” para o governo. Em bora se vestisse com bom gosto sua aparência era deplorável, com as roupas finas em desalinho e a barba por fazer. Seu olhar estava perdido em algum lugar distante e seus dedos brincavam com um copo de uísque, proveniente de um a garrafa cuj o conteúdo j á ia bem abaixo da m etade. Passepartout m e alertou que via o hom em no Reform Club quase diariam ente, e ele rivalizava com o próprio Fogg em term os de rotina, em bora a sua fosse m uito m ais triste: sentava-se na m esm a m esa às nove horas, bebia e fum ava sozinho até cerca de m eia-noite, e então se retirava, geralm ente solitário. O com entário geral era que o hom em havia se transform ado naquele farrapo desde que sua noiva m orrera no ataque ao Príncipe de Gales, um navio de passageiros que havia ido a pique perto do Mediterrâneo após ser atacado por um subm ergível francês, supostam ente com andado pelo próprio Nem o. Estar naquela noite em com panhia de m eu am igo Holm es era um golpe de sorte que decidi aproveitar, apesar dos altos riscos. Meu am igo My croft era um hom em com poderes de observação e dedução brilhantes. Muitos afirm avam que essas qualidades excediam até m esm o as de seu irm ão caçula, um dos m aiores detetives de Londres da atualidade. Ele poderia ter se dado m uito bem na carreira policial ou m ilitar, se não fosse um indolente incorrigível, um investigador sedentário que quase nunca continuava o desenvolvim ento de suas brilhantes deduções até o final. Acabou encontrando seu lugar com o um dos principais conselheiros das autoridades do Im pério, inclusive da fam ília real. Com o seu am igo de longa data, eu não precisava encontrar subterfúgios para um a boa conversa durante a qual poderiam escapar inform ações úteis. Desta vez, entretanto, era diferente. Ele não passava de um a ponte para o verdadeiro alvo. Eu só tinha que cuidar para não deixar isso tão óbvio.

– Ora, vej a só o que o gato do m ordom o trouxe para dentro do clube...

– Tam bém estou feliz em revê-lo, My croft.

– Já conhece o m eu am igo Melvin?

– Não creio. De qualquer form a é um prazer, senhor.

Moore m e respondeu com um sorriso forçado. As olheiras lhe davam a im pressão de ser m ais idoso do que provavelm ente era.

– E você, Edward, de qual canto do m undo está chegando de volta?

– De um tour por algum as colônias africanas, My. Um a aventura de alto risco nos dias atuais. Você sabe que aquelas águas estão infestadas por tubarões e subm ergíveis franceses.

O com entário aparentem ente inocente causou o m al-estar que eu secretam ente esperava. Moore, j á bastante alcoolizado, virou o restante de sua dose de bebida e m anifestou o desej o de retirar-se. Perguntei-lhe onde m orava, e ele m e respondeu que vivia em May fair.

– Parece que vam os os dois para a m esm a vizinhança. Em noites tão perigosas, seria prudente viaj arm os j untos. Se m e perm ite, faço questão de acom panhá-lo em m inha carruagem , e o deixo em May fair a cam inho de casa. A viagem foi dura, e tam bém necessito de descanso.

Moore não fez oposição ao convite e nos despedim os de My croft. Enquanto o físico, visivelm ente alcoolizado, apanhava seu sobretudo, My croft m e segredou:

– Apenas para registro, Edward, não pense que m e convenceu com essa gentileza de bom sam aritano.

Enrij eci os m úsculos instintivam ente. Teria sido descuidado dem ais?

– Agentes do Serviço Secreto não se aproxim am de cientistas im portantes com o Moore por acaso. Mas não se preocupe, com preendo que, nesses tem pos de guerra, hom ens im portantes para o governo que se degradam com o nosso pobre am igo m ereçam um cuidado especial. Apenas cuide para não pisar m ais ainda com sua bota descuidada na m iséria do pobre, ok?

My croft deu um a gargalhada e m e abraçou, ao que correspondi aliviado.

Aj udei Moore a descer as escadas e em barcar na carruagem . Orientei o cocheiro para que seguisse para seu endereço em May fair. No cam inho, decidi aum entar um pouco a pressão:

– My croft disse que você é um pesquisador, Melvin. Qual é sua área de interesse?

Ele deu um a risadinha triste antes de responder:

– Causas e efeitos, Edward. É a isso que tenho dedicado m inha vida.

– Um assunto por certo interessante, em bora você ainda estej a sendo um tanto vago para m im .

– Você j á pensou com o foi que chegam os até aqui? Com o foi que essa m iséria de guerra tom ou um vulto tão assom broso?

– Quem ainda não pensou nisso? Im agine se após o m assacre de nobres aztecas, com andado por Alvarado, Hernán Cortéz não tivesse sido ele tam bém m assacrado pelos nativos enfurecidos, j untam ente com todos os espanhóis e seus aliados...

– Na fam osa “Noche Triste”, desencadeando décadas de inúteis tentativas por parte dos espanhóis para reconquistar os aztecas.

– Ou im agine se anos depois os ingleses com andados por Francis Drake, inj uriados após o traiçoeiro ataque espanhol em San Juan de Ulúa, não houvessem sido capazes de entrar em entendim ento com o rei azteca Cuauhtém oc, iniciando a expulsão dos ibéricos da m aioria de suas colônias am ericanas...

– Um a Am érica colonial espanhola, em vez de inglesa... – riu Moore, com voz pastosa. – E eu achava que eu é que tinha bebido dem ais, Edward.

– História é um dos m eus hobbies, Melvin, e é divertido especular com ela. A aliança entre aztecas e ingleses contra os espanhóis foi decisiva para a consolidação do poder do Im pério Britânico nas Am éricas. Im agine se a Inglaterra houvesse m assacrado os aztecas, com o era de praxe na política colonialista espanhola, ao invés de aproveitar as aptidões dos indígenas para ciências com o Arquitetura e Astronom ia e estabelecer um a aliança com o Im pério Azteca, trocando conhecim ento por ouro.

– Ou se Cuauhtém oc não tivesse sido coroado Cavaleiro Britânico; ou se a Invencível Arm ada espanhola, quando atacou nossa frota em busca de vingança, não houvesse sido surpreendida pela cilada arm ada pelos ingleses e pela nova frota de caravelas aztecas e seus canhões de ouro...

– Exatam ente. Talvez os ibéricos derrotados não tivessem que pedir auxílio à França, que teria perdido a oportunidade de anexar Portugal e Espanha a seus dom ínios e estabelecer seu im pério continental, invadindo tam bém a Prússia e aliando-se à Rússia. Quem sabe se não seria um m undo m elhor? Mas isso são águas passadas, portanto j am ais saberem os.

– Você m udaria tudo se pudesse, Edward? Ainda que pela razão egoísta de ter de volta seres queridos levados pela violência da guerra, você se arriscaria e arcaria com as consequências?

– E você, m eu am igo, se arriscaria?

Moore apenas riu, entre soluços. O cocheiro freou os cavalos, pois acabávam os de chegar ao casarão onde ele vivia. Aj udei-o a descer, e ele quase se esborrachou na sarj eta. Insisti, apesar dos protestos em voz arrastada, em aj udá-lo a entrar na casa, onde para m inha sorte ele vivia sozinho.

Subim os até seus aposentos e deixei que o pobre diabo alcoolizado despencasse na cam a com o um saco de batatas. Retirei-lhe as botas e em segundos j á podia ouvi-lo ronronar.

– Que o sono lhe traga paz, Melvin Moore – sussurrei, antes de iniciar m inha m inuciosa busca. Em algum lugar devia haver docum entos a respeito de suas atividades secretas j unto ao governo. O quarto e o closet estavam lim pos; vasculhei rapidam ente os outros quartos e desci para o andar térreo. Nos fundos da casa descobri o laboratório, m as o que encontrei ali não era absolutam ente o que eu esperava.

A coisa se parecia com um a carruagem sem rodas, coberta por um em aranhado caótico de fios elétricos. Diante do assento havia um painel, com duas fileiras horizontais e paralelas de núm eros esculpidos em rolos giratórios, e ao lado havia um a pequena alavanca de m ovim ento vertical. Não consegui decifrar o m istério daquela esfinge tecnológica que ocupava o espaço central do laboratório, com o se tudo m ais que havia ali de fato existisse em função dela.

Olhando ao redor, vi um livro aberto sobre a escrivaninha. Tratava-se de um diário, e estava aberto. Moore interrom pera um texto pela m etade, talvez bloqueado pelo álcool ou por seus fantasm as m isteriosos. Olhei em direção à porta e parei para escutar o silêncio da casa, antes de exam inar o livro.

O que descobri era tão surpreendente quanto assustador. Melvin Moore estava construindo um a m áquina do tem po! Aquela traquitana no m eio da sala deveria levar um hom em para o passado ou para o futuro, com o sim ples m over de um a alavanca após selecionar um a data específica nos rolos num éricos. Lendo adiante, m eu espanto aum entava: na verdade a m áquina estava pronta, e havia sido testada pelo próprio Moore. Segundo ele, com sucesso!

Nas páginas seguintes, a tortura psicológica que atorm entava aquele brilhante cientista com o o abutre de Prom eteu se explicava: ele sentia um im pulso quase irresistível para voltar ao passado e evitar que sua noiva em barcasse no Príncipe de Gales, onde seria “m orta pelo pirata Nem o”. No entanto, não se sentia m oralm ente capaz de salvar um a pessoa, por m ais que lhe fosse cara, e deixar que dezenas de outros inocentes seguissem às cegas em direção à m orte certa. O correto, pensava, seria alertar o com andante do navio e evitar com pletam ente a tragédia. Porém , ele com preendia o perigo que isso representava: salvar tantas pessoas j á m ortas pelo destino poderia alterar as linhas do tem po de form a im previsível. Moore sim plesm ente não encontrava coragem para assum ir os riscos e isso o levara a afogar-se na bebida. Mesm o que salvasse apenas sua noiva, ele refletia adiante, sua m orte fora exatam ente o gatilho que o im pulsionara nas pesquisas que culm inaram na construção da m áquina do tem po, num m om ento em que ele planej ava abandonar seu trabalho para o governo, e a serviço da guerra. Se ela sobrevivesse Moore tem ia que a m áquina j am ais virasse realidade, e isso gerava um paradoxo que o aterrorizava. Ele chegara àquele ponto pensando em salvar a am ada, e agora não encontrava coragem para fazê-lo, e por isso sentia-se o m ais m iserável dos hom ens.

Aquilo abria possibilidades estonteantes! Um a m áquina daquelas poderia, com o haviam especulado havia pouco na carruagem , m udar o panoram a ou até m esm o evitar o início da guerra. Entretanto, nas m ãos erradas poderia levar a um a catástrofe ainda m aior. Eu não tinha a m enor intenção de colocar aquele segredo espetacular nas m ãos dos franceses, e tem ia vê-lo em m ãos de m eus com patriotas ingleses. Foi quando um a luz acendeu em m inha m ente. Pensando bem , havia algo que aquela geringonça poderia fazer para salvar m inha m issão.

Lem brei-m e do relato de Lestrade: Marie Jeanette, a vítim a de Griffin, chegara em casa sozinha antes das dez horas da noite passada. Agora eram quase duas da m anhã. Se eu conseguisse retornar no tem po pouco m ais de um dia...

Não poderia ser m uito m ais que isso, para evitar ao m áxim o interferências no passado. Provavelm ente Griffin j á a estaria seguindo, ou ainda, estaria à sua espera no quarto. Se eu pudesse alcançar “Mary Jane” no m om ento em que chegasse à pensão, poderia receber a m ensagem e deixar que a roda do destino girasse livrem ente.

Aj ustei a fileira inferior de núm eros com a data do dia anterior, às nove da noite. De acordo com Passepartout, àquela hora Moore j á se encontraria em sua m esa no Reform Club, e assim eu evitaria um encontro indesej ado no laboratório. O suor descia pelo rosto e encharcava m eu colarinho. Eu só esperava não estar sendo um idiota, confiando na palavra de um bêbado a ponto de colocar m inha vida em risco naquela m áquina. Mas m inha m issão estava por um fio, e eu tinha que arriscar. Girei a chave que ligava a coisa, que trem eu com um zum bido elétrico. Com um m ovim ento resoluto, puxei o m anete para baixo.

Não houve explosão nem clarão, com o eu im aginava que aconteceria, com o se voltar no tem po fosse igual a dar um tiro contra a própria cabeça. Passado o prim eiro instante, no qual senti um frio na boca do estôm ago com o se caísse num abism o de pesadelo, tive a im pressão de que nada havia acontecido. Então m eus olhos decepcionados caíram sobre os ponteiros de um relógio de parede, e percebi que estavam se m ovendo para trás! Perm aneci inerte, observando o fenôm eno, e qual não foi m eu susto quando vi o próprio Moore entrar na sala em passo acelerado. Só que o hom em cam inhava de costas! Sem olhar para m im , parou diante da m esa com o diário, escreveu algo em ritm o ainda estranham ente acelerado, e voltou a sair do aposento cam inhando de costas, sem se dar conta da m inha presença. Não pude reprim ir um a risada quando percebi o que estava de fato ocorrendo: o tem po cam inhava para trás, e eu deslizava para um destino passado dentro de um a espécie de “bolha de tem po” criada pela m áquina, im perceptível para pessoas que se encontrassem no fluxo norm al das horas. Por um instante pareceu-m e que assistia a um dos film es apresentados por aqueles am alucados franceses, os irm ãos Lum ière, em sua m ais nova invenção, o cinem atógrafo, apenas rodado de trás para diante, do final em direção ao início. Com efeito, percebi através da am pla porta que dava para um j ardim de inverno que o dia am anhecia m ais rapidam ente que o norm al, m as não se iniciava com a claridade vigorosa da m anhã, e sim com a luz m ortiça de um entardecer. Já era dia claro quando um a senhora de idade traj ando um uniform e de serviçal adentrou o laboratório, tam bém andando rapidam ente de costas, e percorreu todo o aposento tirando a poeira dos m óveis. Ela tam bém não era capaz de m e ver. Saiu da m esm a m aneira com o havia entrado, e o laboratório perm aneceu vazio durante o restante daquele bizarro dia às avessas. Percebi que todas as coisas ao m eu redor tinham um aspecto levem ente nevoado, certam ente efeito da “bolha do tem po” que m e envolvia. A claridade diurna então voltou a esm aecer, e a escuridão da noite retornou. Em dado m om ento voltei a ouvir ruídos vindos da rua, coisa que, agora m e dava conta, haviam cessado por com pleto durante o fenôm eno. Olhando ao redor sob o reflexo da luz da lua, percebi que o laboratório recuperara sua nitidez. Sem que eu nada sentisse, a viagem no tem po chegara ao final. O relógio na parede, cuj os ponteiros agora j aziam im óveis, m arcava exatam ente nove horas. Exultante, saltei para fora da m áquina prodigiosa. Eu precisava voltar rapidam ente a Whitechapel, e talvez salvar m inha m issão! Escalei o m uro do j ardim de inverno nos fundos da casa, agarrando-m e aos ram os grossos de um a trepadeira, e ganhei a rua escura. Corri com o se o fim da própria Guerra Fria dependesse disso. E quem sabe se não dependeria...

Confiei no m eu preparo físico e em m eu conhecim ento dos becos e atalhos que devia cruzar para chegar ao endereço em Miller’s Court sem recorrer a um a carruagem , m as apenas cheguei ao local j á bem próxim o das dez horas, com pletam ente sem fôlego. A rua estava deserta. Encoberto por um a som bra na esquina, vi quando o senhorio chegou à porta do núm ero 13, olhou ao redor e apagou a luz do hall. Ouvi o som da chave do lado de dentro. Tentei identificar a j anela do andar superior onde ficava o quarto de Marie Jeanette, e vi a luz fraca por entre as cortinas. Ela certam ente j á estava lá. E pelo j eito das coisas, era grande a chance de que Griffin tam bém j á estivesse no prédio. Assassinar, dissecar e eviscerar um a j ovem era algo que tom ava tem po, m esm o para o m ais frio e experiente assassino. Griffin pensava que tinha a noite toda; não se eu pudesse im pedir.

Estudei a posição da j anela e a altura, e concluí que a m elhor abordagem seria m esm o pela porta da frente. Isso m e custou m ais um a hora de angustiante espera. Precisava dar tem po para que o senhorio pegasse no sono, pois de seu quarto no andar térreo certam ente poderia ouvir o barulho de m inha entrada. Mesm o assim fui o m ais silencioso possível, com o aram e retorcido que eu cham ava de “chave m estra”. A fechadura cedeu após dois ou três m inutos. Olhei ao redor para m e certificar de que ninguém m e vira na rua, e subi cautelosam ente as escadas.

A porta do quarto de Marie estava entreaberta, e um filete de luz ilum inava a parede oposta do corredor. Meu coração acelerou. Talvez ele j á estivesse dentro do quarto e a surpreendeu ao entrar, sem ter sequer tem po para fechar a porta; ou talvez tivesse batido à porta e atacado a m oça quando abriu, deixando a passagem livre atrás de si.

Em punhei m inha arm a, retirando-a do coldre sob o braço esquerdo, e em purrei lentam ente a porta. A cena m e desconcertou por um instante. Marie estava deitada na cam a, sua figura em parte eclipsada por um hom em de pé ao seu lado, de costas para m im . Mas o que m e surpreendeu foi que o hom em estava fardado: era um policial da Yard! Por um segundo m e ocorreu que Griffin j á houvesse escapado e a polícia chegado ao local, m as no m om ento seguinte aquilo m e pareceu absurdo. Sim plesm ente não haveria tem po para isso.

A porta rangeu brevem ente sob efeito de m eu toque e o policial voltou-se sobressaltado em m inha direção, e só então percebi que ele usava luvas de borracha, em punhando um a lâm ina afiada e suj a de um verm elho intenso. No exato instante em que o hom em se j ogava sobre m im , dei-m e conta do quanto fui idiota em não ter com preendido im ediatam ente a verdade. Afinal, o “Hom em Invisível” devia parte de sua fam a ao fato de ser um m estre nos disfarces.

A lâm ina zuniu por sobre m inha cabeça onde segundos antes estivera m eu pescoço. Meu soco atingiu Griffin nas costelas, m as ele im ediatam ente revidou m e em purrando para o chão do corredor. Enquanto batia a cabeça contra a parede, lem brei-m e das palavras de Lestrade: o senhorio fora surpreendido com a presença de um policial da Yard nas escadas pela m anhã. Quem diabos poderia ter cham ado a polícia, se o corpo ainda não havia sido descoberto? O hom em provavelm ente surpreendera o próprio assassino abandonando o local do crim e!

Griffin chutou m inha m ão, e a pistola rodou pelo piso m al encerado. Ainda caído, devolvi o golpe com um chute na lateral do j oelho, fazendo-o gem er e tom bar de lado, apoiando-se à parede. Meu próxim o chute, com os dois pés j untos e apoiando m eu corpo sobre as costas, atingiu sua cintura. O falso policial perdeu o equilíbrio e desapareceu na escuridão, rolando pela escada abaixo com um barulho que acordaria até os m ortos. Ouvi o grito abafado, entre assustado e furioso, que partiu do quarto do senhorio. A porta do hom em abriu com violência e a luz trêm ula de um candelabro espalhou-se pelo hall, onde j á não havia m ais ninguém . O hom em sonolento olhou para a porta escancarada que dava acesso à rua e depois para o alto da escadaria, onde eu j á m e punha de pé.

– Cham e a Scotland Yard! – gritei – Um assassino acaba de fugir do edifício!

A partir dali um a balbúrdia de sons de portas batendo e gritos assustados tom aram conta do lugar. Luzes piscavam e vozes m isturavam -se nos dois pisos do prédio. Retornei ao interior do quarto, e vi a pobre Marie Jeanette im óvel em seu leito de m orte, um risco vertical fino e rutilante am pliando-se em intensidade de cim a abaixo em seu frágil corpo despido. Chegando m ais perto vi que a parte m acia do abdom e j á se encontrava bastante aberta, com intestinos de um brilho gorduroso à m ostra. Ignorei os gritos abafados das pessoas que paravam diante da porta do quarto e viam a cena, e aproxim ei-m e da vítim a. Nem tudo estava perdido; Griffin não tivera tem po de procurar a cápsula com a m ensagem , nem de extrair as vísceras onde ela provavelm ente se escondia.

Eu não tinha luvas nem tem po. Enfiei as m ãos trêm ulas na cavidade quente e úm ida, e apalpei cuidadosam ente toda a extensão do intestino delgado, subindo até o estôm ago. Fechei os olhos, m as im ediatam ente m inha m em ória explodiu com o um flash, levando-m e de volta ao passado até certa ilha na costa africana. Eu podia ver o sol forte através da j anela, e diante de m im o corpo trêm ulo de um ser sem elhante a um j avali, vivo e am arrado, m as com a pele aberta em vários pontos e os intestinos à m ostra. Ele grunhia de dor e desespero, e seus pequenos olhos lacrim osos im ploravam piedade, enquanto eu sentia ao m eu lado o hálito m alcheiroso do Doutor Moreau, dizendo com sua voz rouca e inexpressiva: “Aqui, Edward, por favor, estanque este sangram ento”.

Abro os olhos, o suor em papando as roupas, e o cenário é m enos angustiante: um a j ovem espiã francesa disfarçada de prostituta, m orta e estripada sob m inhas m ãos, que não conseguem localizar em parte nenhum a do estôm ago ou dos intestinos o grânulo rígido da cápsula m etálica contendo um a inform ação vital. Lem bro-m e de m eus conhecim entos de anatom ia e enfio o dedo superiorm ente entre o estôm ago e o m úsculo do diafragm a. Acim a do sutil disco m uscular do cárdia, alcanço a porção inferior do esôfago. E de repente, j usto na j unção entre ele e o estôm ago abaixo, encontro o que buscava. A pobre m oça m al teve tem po para cum prir com seu dever e engolir a inform ação cobiçada antes de ser m orta, j á que a cápsula nem sequer chegara ao interior do estôm ago. Ao lado do corpo Griffin abandonara um volum e de couro desenrolado, no interior do qual brilhavam várias facas e bisturis de diversos tam anhos e form as, seus terríveis instrum entos de trabalho. Destaco um a delas ao acaso de sua presilha e resseco o esôfago na j unção com o cárdia. Im ediatam ente um pequeno obj eto prateado e cilíndrico, m edindo cerca de dois centím etros de com prim ento, cai entre m eus dedos. Enfio a cápsula rapidam ente no bolso do colete e lim po as m ãos ensanguentadas nos lençóis. Passo pelo senhorio atônito em m eu cam inho até a rua, onde j á posso ouvir as sinetas e os apitos que denunciam a im inente chegada da Scotland Yard ao local do crim e. Não tenho m ais tem po para isso. Corro pela rua enfum açada e m e perco nas som bras.

Um a dor no flanco m e adverte que m inha força física chegou ao lim ite, após tam anha correria som ada a um a bela luta física com um psicopata. Cam inhando com dificuldade pelas vielas escuras, percebo atrás de m im a aproxim ação de um a carruagem guiada por um sonolento cocheiro de longos cabelos e bigode grisalhos. O pobre hom em quase cai de seu assento, tal o susto que provoca m inha saída das som bras, acenando diante dos cavalos. Dou-lhe o endereço de Melvin Moore. Precisava alcançar a m áquina do tem po antes que o cientista retornasse do Reform Club.

Protegido no interior do carro, desatarraxo cuidadosam ente a cápsula de m etal e retiro o pequeno pergam inho enrolado. A inform ação recolhida pela pobre m ártir Marie Jeanette é precisa: “Dia prim eiro de dezem bro, 22h47m in, Dover”

Am asso o papel, irritado. Agora que a inform ação veio à luz, tudo parece óbvio dem ais: considerando o tem po de viagem pelo espaço, para alcançar a Lua no dia 4, data do próxim o perigeu, o proj étil deveria ser m esm o lançado em prim eiro de dezem bro. A cidade de Dover fica próxim a a Canterbury, local das experiências desastrosas de Cavor, facilitando o transporte seguro da suposta cavorita e de m ateriais para a construção da base de lançam ento. Fica tam bém no condado de Kent, um dos locais cuj a costa é m ais bem protegida por fortificações britânicas, graças a sua proxim idade do continente e do inim igo francês, no ponto m ais estreito do Canal da Mancha. Finalizando, Dover fica no extrem o sul da Grã-Bretanha, sendo um dos pontos m ais próxim os da latitude ideal para o lançam ento, prevista pelos analistas franceses.

Quando a carruagem se detém diante da residência de Moore, j á tracei m eu plano: prim eiro, voltar ao exato m om ento de saída com a m áquina do tem po, para evitar qualquer prej uízo à continuidade e um encontro indesej ado com o cientista, chegando am parado por m im m esm o. Seria um paradoxo constrangedor. Segundo, acionar o grupo de Passepartout para um deslocam ento im ediato até as im ediações de Dover, onde terem os cerca de um a sem ana para avaliar o terreno e estabelecer um plano de ação.

Pago a viagem ao cocheiro, que agradece com um m urm úrio e vai em bora. Assim que dobra a esquina, corro até os fundos da propriedade, arrasto um latão de lixo até o m uro alto, e salto dessa plataform a im provisada para dentro do j ardim de inverno nos fundos do laboratório.

Tudo está com o deixei. Tom o o cuidado de checar todo o traj eto que percorri em m inha prim eira entrada no laboratório, retornando obj etos a sua posição inicial e apagando digitais. Era chegado o m om ento de voltar ao futuro. Sentei na m áquina e girei a chave.

O laço envolveu m eu pescoço e puxou-m e para trás, esfolando a pele e m e estrangulando. Tentei em vão enfiar as m ãos entre a corda e o pescoço. Bati os pés desesperadam ente sobre o painel de controle da m áquina, até que consegui apoio suficiente para im pulsionar m eu corpo para fora do assento; caí no chão e rolei para o lado, e m eu peso puxou m eu agressor sobre m im . Usei o im pulso para alavancá-lo em direção à porta de vidro, que se estilhaçou com o im pacto. Vi, surpreso, o velho cocheiro que m e trouxera havia poucos m inutos debatendo-se para se erguer entre cacos de vidro e m etal. Com preendi de im ediato: Griffin!

O bastardo era m esm o um a raposa; após fugir da cena do crim e disfarçara-se de cocheiro esperando que eu tam bém escapasse de lá. O m elhor m odo de m e seguir seria viaj ar com igo até m eu destino, e agora ele tinha m uito m ais inform ações a m eu respeito do que eu gostaria.

Arranquei a corda que feria m eu pescoço, e vi que se tratava do próprio chicote de couro do cocheiro. Quando Griffin se levantou, arrancando um a lâm ina am eaçadoram ente afiada do m eio das roupas, brandi o chicote e consegui envolver seu braço arm ado. Não conseguia ver seu rosto na penum bra, ainda oculto pelo espesso bigode grisalho do disfarce, m as percebi sua fúria na m aneira com o ele tentou puxar o chicote em sua direção. Em vez de transform ar aquilo num inútil cabo-de-guerra, aproveitei o puxão para lançar m eu corpo no espaço sobre ele. O im pacto do m eu peso atirou-o no j ardim , e ele bateu ruidosam ente contra o m uro. Por um instante pareceu estar desacordado, m as quando m e aproxim ei girou o corpo com um a velocidade espantosa. Senti a dor aguda da lâm ina, que rasgou a m anga do paletó e feriu m eu braço superficialm ente. Desferi um chute contra o rosto do adversário caído, que tom bou para trás. Mas antes que eu am eaçasse investir de novo, aquele m onstro dotado de surpreendente resistência, m esm o estando evidentem ente tonto, j á se apoiava sobre os j oelhos, brandindo a inseparável lâm ina diante de si, m eio às cegas. Ouvi um apito do lado de fora do m uro. Algum policial que fazia sua ronda pela rua ouvira o barulho da luta e solicitava reforços. Além de tudo eu estava ferido. Corri para a m áquina do tem po, caindo sobre o assento. Vi a silhueta de Griffin apoiando-se no batente da porta no m om ento em que em purrei o m anete para adiante.

O processo de deslocam ento para o futuro foi sem elhante ao da vez anterior, apenas as im agens eram m ais desfocadas ao m eu redor, e estranham ente a viagem m e pareceu m ais dem orada. Fiquei surpreso quando a “bolha de tem po” se desfez, e a claridade do sol entrando pelo j ardim ofuscou m inha visão. Percebi que a porta de vidro continuava quebrada, e olhando ao redor não vi a m obília que anteriorm ente enchia o laboratório. O salão estava vazio, exceto pela m áquina do tem po na qual eu acabava de chegar. Os acontecim entos do passado haviam m udado algum a coisa. Alguém , talvez o próprio Moore, rem overa o laboratório dali após as evidências de invasão. Mas com o fora capaz de agir tão rápido? Essa dúvida e a luz solar m e indicavam que havia algo errado. Eu deveria ter chegado á noite, no m om ento em que antes havia partido. Meus olhos caíram sobre o painel de controle, e m inha espinha gelou. A fileira de núm eros superior, que indicava m inha data de destino no traj eto rum o ao futuro, indicava o dia prim eiro de dezem bro do m esm o ano, às dezesseis horas. A explicação m e atingiu com o um raio: no m om ento em que eu m e debatera, buscando apoio com os pés no painel para escapar ao estrangulam ento, m eus m ovim entos haviam alterado a posição dos rolos de núm eros. Em vez de um dia rum o ao futuro eu avançara nove!

Minha m ente com eçou a trabalhar febrilm ente. Em poucas horas, naquela m esm a noite, ocorreria o lançam ento do proj étil britânico rum o à Lua. Eu não fazia ideia do que Griffin fizera durante aqueles dias com as inform ações de que agora dispunha. Eu sabia que o hom em era im previsível e m uito esperto. O conhecim ento da existência da m áquina do tem po era m uito valioso para ser entregue de bandej a nas m ãos do Serviço Secreto por alguém de sua laia, a m enos que lucrasse m uito com isso. Talvez ele ainda estivesse tram ando algo em segredo, e nesse caso eu dispunha de algum tem po para agir. Se ele tivesse sido apanhado por seus superiores e confessado toda a história, estaria isolado até que a m áquina fosse recuperada, e nesse caso m inha cabeça estaria a prêm io. Eu só podia confiar na astúcia j á dem onstrada tantas vezes por m eu adversário. Provavelm ente Moore fora deslocado com seu laboratório para algum lugar secreto até que sua invenção reaparecesse ou fosse reconstruída; nesse caso, possivelm ente Griffin é que estivesse sendo procurado com o suspeito do desaparecim ento. Estaria entocado em algum buraco m atutando com o fazer para m e encontrar.

Todas as hipóteses indicavam que eu tinha, m ais um a vez, que agir rápido. Saí da m áquina, tendo o cuidado de levar a chave que a acionava, e percorri cuidadosam ente os côm odos da casa. Moore não estava lá, e em seu quarto observei sinais de que levara roupas e obj etos pessoais. Passando perto do hall de entrada, deparei com um hom em estranho cochilando tranquilam ente em um a poltrona, um a pistola de uso padrão do Serviço Secreto descansando em seu colo. Retornei ao laboratório e usei novam ente a rota de fuga do m uro dos fundos. Na esquina dei um a olhada furtiva, e vi do outro lado da rua dois agentes com pletando o tim e da tocaia. Fugi pelo outro lado, e com m eu conhecim ento dos becos e vias alternativas de Londres pude traçar um cam inho até o Ministério das Relações Internacionais. O plano era arriscado, m as eu não via escolha m elhor. Apresentei m inhas credenciais de agente e procurei por John Withm ore, o pseudônim o de Passepartout em seu disfarce britânico. A secretária do m inistro inform ou que o chefe do gabinete e seu secretário haviam partido naquela m anhã para destino ignorado, considerado confidencial. Eu fazia um a ideia do que se tratava; se Passepartout estivesse acom panhando Fogg a Dover, não teria tem po hábil para evitar o lançam ento sem com prom eter seu disfarce. Eu continuava sendo o curinga naquela m issão. Assim sendo, usei m inha autoridade e lábia de agente para requisitar em caráter de urgência um dos veículos autom óveis que perm aneciam a serviço do Ministério. Era um caso de vida ou m orte, e isso era m esm o verdade, em bora não da m aneira com o aqueles funcionários públicos im aginavam .

O veículo tinha um m otor de dois cilindros e fazia dezenove m ilhas por hora. Levaria a eternidade de quatro horas de Londres até Dover, portanto pus-m e a cam inho sem m ais tardar.

O dia escureceu, apesar de m inha viagem sem m aiores im pedim entos em velocidade m áxim a. Eu estava bem próxim o à cidade costeira quando ouvi as prim eiras explosões, acom panhadas de clarões que ilum inavam o espaço por alguns segundos. Direcionei o veículo por um a estrada secundária até o alto de um penhasco, de onde poderia ter um a boa visão do que acontecia abaixo. E o que vi era ao m esm o tem po totalm ente inesperado e absolutam ente assustador.

A base m ilitar estava repleta de soldados, que se perfilavam em batalhões de colunas paralelas, form ando retângulos perfeitam ente geom étricos no am plo pátio j unto aos edifícios. Percebi que a m aioria absoluta deles tinha a pele m orena e os cabelos escuros, e os capacetes enfeitados por longas penas de ave m ulticoloridas. Havia tam bém oficiais aztecas, m as à frente de cada grupo de cinco ou seis retângulos hum anos, um oficial de alta patente ostentava o orgulhoso uniform e do exército inglês. Os soldados eram conduzidos na direção de enorm es estruturas m ontadas j unto ao m ar; na m ais perfeita ordem , entravam em enorm es cilindros de brilho m etálico, e pude observar através de um a das escotilhas com o se prendiam à parede acolchoada no interior dos m esm os com grossas correias e fivelas. Quando a escotilha se fechava, o cilindro deslizava sobre trilhos até o interior de estruturas escuras e tubulares, verdadeiras cham inés de um cenário de pesadelo inclinadas diagonalm ente em direção ao m ar. Eram dez gigantescos canhões, que em pouco tem po disparavam aqueles cilindros recheados de soldados britânicos um após outro, com um a explosão e um clarão apavorantes. Não era apenas um , m as inúm eros proj éteis, e m e surpreendi ao observar o ângulo de inclinação dos canhões; não pareciam estar disparando em direção à Lua, e sim na direção... sudeste! Com preendi prontam ente o significado daquilo. Consternado, retornei ao m eu veículo e tom ei o cam inho de volta para Londres.

O m inistro Jules Verne estava certo o tem po todo; não existia nada parecido com a cham ada “cavorita” e agora as palavras que ouvi da boca daquele hom em sábio ecoavam em m inha m ente com o a voz de um fantasm a: “Acreditem, senhores, vocês só terão algo a temer caso estejam deixando passar alguma informação da qual nem desconfiam, mas que, tenho certeza, nada tem a ver com substâncias milagrosas abortadas pela imaginação de um tolo.”

Obviam ente eu tinha em Londres outra m oradia, desconhecida por m eus com panheiros do Serviço Secreto Britânico, que eu usava para m eus encontros com os agentes franceses, e reservava para um possível esconderij o caso fosse desm ascarado por m eus pares em m eu j ogo duplo. Foi para lá que rum ei im ediatam ente. Ali contava com um aparelho de telégrafo, que m e perm itiria falar com m eus contatos do outro lado do Canal da Mancha. Para m inha surpresa, o aparelho estava ligado e funcionando quando entrei. Passaram -se alguns segundos antes que eu percebesse o vulto de pé na penum bra, em um canto do aposento.

– Se pretendia avisar os franceses, tem o que tenha chegado tarde – disse Passepartout.

– Você esteve em Dover... – era um a afirm ação, não um a pergunta.

– Reunido com todo o Estado-Maior no últim o m om ento antes da deflagração do plano, quando finalm ente tudo foi revelado. Quando retornei a Londres e consegui m e desvencilhar do m inistro Fogg, não havia m ais tem po para nada. O ataque j á estava em andam ento.

Lancei um olhar para o telégrafo, que continuava vom itando fitas com m ensagens. Passepartout percebeu m eu olhar e continuou:

– Vim até aqui e usei seu telégrafo para avisar Dupin, m as as notícias do norte da França j á anunciavam a catástrofe. Seus traiçoeiros com patriotas lançaram a isca da conquista da Lua para desviar nossas atenções, e enquanto nos distraíam com esse truque barato de prestidigitação, com a m ão livre equiparam a base secreta em Dover com os canhões que lançariam as tropas, soldados britânicos de elite e hordas de selvagens aztecas, por cim a das torres de defesa da Linha Bonaparte, diretam ente em território francês. Essas torres j am ais esperariam um ataque por trás, estando perfeitam ente equipadas para defender o continente de um ataque pelo m ar, portanto foram rapidam ente neutralizadas.

– Misericórdia...

– E isso não é tudo – continuou Passepartout, no m esm o tom baixo e som brio -, em seguida com eçaram a chegar os navios vindos de Dover. As notícias de Calais dão conta de que esses navios desem barcaram sem a m enor resistência estranhas e terríveis m áquinas de guerra: estruturas m etálicas fortificadas que se m ovem pelo terreno sobre três pernas na form a de colunas telescópicas, disparando contra pessoas e construções com o que j á está sendo cham ado de “raio da m orte”: um raio de calor concentrado, que parte de um a fonte irradiadora e passa através de um sistem a intrincado de lentes e espelhos, para ser intensificado e tornar-se capaz de m atar e incendiar.

– Lentes e espelhos... Meu Deus, era nisso que Cavor esteve trabalhando em Canterbury !

– Parece claro agora, não é? Você com preende o que tudo isso significa?

– Que acabou a hipocrisia da cham ada “Guerra Fria”, Passepartout. Ingleses e aztecas deflagraram a verdadeira “Guerra dos Mundos”.

– Exato. O Outro Mundo, com andado por seus com patriotas, decidiu finalm ente m ostrar sua face e invadir o Velho Mundo, que afirm am estar fraco e decadente. Estão se espalhando por toda a Norm andia. Mas tenho fé de que subestim am nossa capacidade de defesa...

– A invasão está acontecendo m uito próxim a à fronteira com a Prússia. Esses aliados dos franceses não vão perder tem po e encurralar os invasores entre duas frentes de batalha...

– Até nisso os ingleses pensaram , m eu caro. Sua pusilanim idade vai m uito além do que você im agina; as últim as m ensagens revelam que um a im ensa frota de fortalezas voadoras, aparentem ente com andadas pelo próprio Robur, está neste m om ento atacando os prussianos pelas costas.

– Pelas costas? Isso significa...

– Que a aliança entre França e Rússia estava m ais desgastada do que im aginávam os. Os russos franquearam seu território à passagem dos norte-am ericanos, sabe-se lá m ediante quais prom essas. Apenas um a pergunta ainda perm anece sem resposta...

Perm aneci em silêncio. Passepartout adiantou-se, e a luz do lam pião aceso no aposento brilhou sobre o cano esguio de sua pistola, apontada em m inha direção.

– Onde é que você esteve durante toda a últim a sem ana, desaparecido e sem dar qualquer notícia?

Eu poderia facilm ente responder essa pergunta. Poderia contar ao agente francês sobre a m ais espetacular arm a secreta dos britânicos, a m áquina do tem po que m e fez saltar por sobre um a sem ana inteira de existência, e que tem o potencial de transform ar toda a realidade que conhecem os em um punhado de delírios enlouquecidos, saídos da m ente alucinada de autores de ficção. Mas eu não estava pronto para revelar esse segredo a eles. Não ainda.

– Desculpe, Passepartout, m as ainda não posso revelar isso. Você terá que confiar em m im .

– Não sei se estou disposto a confiar em qualquer inglês novam ente – disse ele, erguendo a arm a e apontando seu orifício escuro na direção de algum ponto entre m eus olhos.

Suspirei desanim ado. Quando você é um agente duplo, precisa aprender a conviver com algum as situações desagradáveis. Esta é apenas um a delas.