Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana
O som e o aroma da morte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
– Guardei essa notícia – principiou nosso anfitrião – graças ao grande interesse que nutro, com o j á devem ter percebido, pelas experiências de vanguarda realizadas em todos os cam pos da ciência. Neste caso trata-se de Sergio Sandes, especialista em botânica nativo de Buenos Aires e graduado em Paris, que realizava fascinantes experiências produzindo flores de cores exóticas ao m isturar brotos de diferentes espécies da m esm a planta, por m eio de enxertos engenhosos. Seus esforços se desviavam , naquele então, no sentido de tentar produzir híbridos de vegetais de diferentes espécies, em com binações j am ais experim entadas. Fui pessoalm ente assistir um a de suas palestras acadêm icas, ao final da qual tive a oportunidade de conversar com Sandes. Tratava-se de um hom em pequeno e j á de idade considerável, que am ava suas flores com o um pai, m anifestando fanática adoração por elas. Percebendo m eu genuíno interesse por assunto tão distante das preocupações corriqueiras daqueles que o cercavam , encontrou-se bastante à vontade para tratar longam ente com igo do tem a.
Procurei por um segundo vislum brar um a conversa entre aqueles dois hom ens. Era um a visão de pesadelo. Desisti e continuei escutando:
– Ele m e falou de suas tentativas frustradas no sentido de produzir um a rosa negra; além disso, de sua frustração na m anipulação de passifloras e tulipas. Mas salientou que estava especialm ente entusiasm ado em suas experiências envolvendo violetas. Esperava para breve ser capaz de produzir um a dessas flores de cor negra e absolutam ente sem perfum e. Diante de m inha m anifestação de descrença, argum entou com dados estatísticos im pressionantes: os senhores acaso sabiam que, para m il cento e noventa e três espécies de flores brancas, há cento e setenta e cinco perfum adas e doze fétidas? E que, para dezoito espécies de flores negras, há dezessete inodoras e um a fétida?
Olhei de relance para Maucler, cuj o rosto perm anecia desesperadoram ente im passível. Cruzei os braços, franzi a testa e proj etei o lábio inferior, expressando da m elhor m aneira possível o quanto aquela inform ação deveria estar m e fascinando.
– Com issário, eu não fazia ideia...
– Sandes ressaltou que um a série de cruzam entos que vinha fazendo, indispensáveis para prevenir a degeneração, vinha atrasando o êxito final, m as calculava que este não estava longe. Ainda assim questionei sobre qual seria a utilidade de tal êxito; eu não via o m enor fascínio na produção de um a flor negra e sem qualquer perfum e. Naquele m om ento a expressão de seu rosto m udou. Um brilho peculiar cintilou em seus olhos. Ele olhou ao redor, certificando-se de que nós estávam os sozinhos, e então m e segredou que aquela tentativa, ao se concretizar, seria apenas o prim eiro passo para um desafio m aior, este sim de apelo irresistível para sua alm a de cientista.
Lugones fez um a pausa dram ática, conferindo as expressões faciais de cada um de nós. Constatando que até m esm o Yzur encontrava-se vidrado à espera da conclusão, ele prosseguiu:
– Sergio Sandes pretendia produzir híbridos m esclando a violeta negra com plantas com o estram ônio, j asm im e beladona...
– Que são plantas de onde derivam poderosos narcóticos e alucinógenos – interrom peu Maucler, que não cessava de m e surpreender.
– Isso m esm o! E daí pretendia alcançar, através de novos cruzam entos com plantas ainda m ais venenosas, seu obj etivo final: um a violeta negra capaz de exalar um tóxico m ortal sem odor algum , um a peçonha fulm inante e im perceptível. Ele j á havia concebido inclusive o nom e de sua nova espécie em proj eto...
– Viola acherontia.
– Precisam ente, Monsieur Mauclair! Esta pequena pétala de um negro aveludado, que repousa diante de nós dentro do lenço sobre a m esa, é a prova m ais contundente de que, após tantos anos, nosso audacioso botânico parece ter, finalm ente, alcançado o sucesso.
– O que nos leva a outra pergunta, com issário: afinal, onde – e por que – se cruzam de m aneira tão trágica os cam inhos de Sergio Sandes e Javier Méndez?
– Foi por isso que recorri a este j ornal antigo, Herr Lidenbrock. Com o eu esperava, consta da notícia o endereço da estufa onde Sandes realizava seus experim entos. Fica em um a propriedade rural não m uito distante daqui, e pretendo ir até lá im ediatam ente. Interrogar o hom em certam ente deverá nos trazer inform ações valiosas sobre essa m orte. Presum o que venham com igo...
– Talvez o m elhor a fazer sej a, a partir de agora, dividir nossos esforços, com issário – retrucou Maucler. – Com o não encontram os no hotel nenhum sinal do Dispositivo Ôm ega, acredito que nossa m elhor pista estej a ligada ao endereço do hotel em La Boca, m arcado neste alm anaque. Sendo este o principal obj etivo de nossa presença aqui, penso que Axel e eu devam os seguir essa pista em particular.
– Muito j usto – assentiu Lugones. – Façam os o seguinte: pedirei que m eus agentes enviem para cá outra carruagem im ediatam ente e nos encontrarem os aqui m ais tarde com os frutos de nossas investigações.
Dito isso, Lugones deixou o aposento apressadam ente. Ouvim os quando ele orientou um m ordom o a nos cham ar assim que chegasse o transporte. A presença de um serviçal hum ano deixou-m e aliviado. A assistência gentil de Yzur ainda m e causava calafrios. Enquanto Maucler e eu perm anecem os sentados na biblioteca, o m acaco nos observava sentado a um canto, a expressão inquietante em seus olhos fazendo parecer que ele até m esm o nos com preendia.
– O que você pensa, Maucler? Esse Sergio Sandes pode m esm o ser nosso assassino?
– É possível que sej a m esm o o responsável por arm ar a m ão do crim inoso e, sendo assim , m erece ser preso com o cúm plice, em bora eu sej a capaz de apostar, se é que o velho Sandes era m esm o um hom em de bem devotado à ciência, que o com issário não encontrará m ais que um cadáver naquela estufa. Nosso assassino é detalhista, não deixaria para trás um rastro tão óbvio.
– Ora, e o que lhe dá tanta certeza disso?
– O sim ples fato de que sei exatam ente quem é o assassino, Axel. Sou capaz inclusive de dizer-lhe seu nom e verdadeiro e o que esse indivíduo esteve fazendo nos últim os anos.
– Scheisse...
– O que foi que encontram os no quarto do hotel, Axel? – principiou Maucler, ignorando educadam ente m inha im precação indigna de um cavalheiro – Pela rigidez, tem peratura e cianose do cadáver, j á estava m orto havia algum as horas. Eu diria que o óbito ocorreu por volta de duas ou três da m adrugada. Pela posição do corpo, deve ter m orrido durante o sono, sem sentir absolutam ente nada.
– O que fala a favor do veneno “fulm inante e im perceptível” m encionado por Lugones.
– Mas com o esse veneno chegou até ali? Qual a sua origem ? O m arcador im provisado por Méndez, para assinalar a página onde estava o endereço do hotel em La Boca, denunciou tudo.
Maucler sacou de dentro do alm anaque a tira de papelão com as boas-vindas ao hóspede do hotel. O barbante em um a das pontas sugeria que estivera am arrado em algo.
– Percebi logo que isto fazia parte de algum enfeite, possivelm ente flores, em bora estas não estivessem à vista. De fato, percebi um a fina poeira de cerâm ica sobre o criado-m udo. Decididam ente, pouco tem po antes um vaso de flores estivera depositado ali, j unto à cabeceira do m orto. Mas com o eu j á disse, ele não estava em lugar algum e, além disso, havia outro detalhe que não com binava com o cenário...
Ele ergueu as sobrancelhas de m aneira inquisitiva, m as eu apenas balancei a cabeça negativam ente. Assim , ele continuou:
– Axel, num a típica noite gelada e chuvosa de j unho, não lhe parece estranho que Méndez haj a dorm ido com a j anela aberta? Poderia até nos levar a crer que o hom em m orreu de frio! Considerando que a m orte deu-se no início da m adrugada, ou a j anela estava aberta desde a noite anterior, ou alguém m ais esteve ali e a abriu...
– Para se livrar do vaso de flores!
– Não apenas para isso. Mas você tem razão, se solicitarm os um a busca pelos j ardins, é possível que o vaso de violetas negras estej a caído dentro de algum arbusto. O batente da j anela estava com pletam ente seco pelo lado de dentro, o que indica que ela foi aberta depois que a chuva parou, o que ocorreu bem próxim o do am anhecer, se você se recorda. Quem deixou as flores venenosas naquele quarto fechado, para que o veneno se acum ulasse no am biente e elim inasse Méndez, teve o cuidado de entrar lá pela m anhã e abrir a j anela, a fim de se livrar da “arm a do crim e”, e tam bém para perm itir que o ar externo penetrasse e dissipasse o veneno. Para sua infelicidade, em um daqueles acasos a que a Providência costum a recorrer para atrapalhar a m aioria dos crim es perfeitos, um a das pétalas negras desprendeu-se de um a violeta e caiu dentro do quarto, o que foi m ais contundente que um a im pressão digital.
– Mas Maucler, ninguém entrou no quarto naquela noite, a não ser...
Encarei m eu com panheiro com absoluto espanto.
– Gonçalo, o cam areiro perneta?!
– É com o sem pre diz o com andante Dupin: elim inado todo o im possível o que resta é a verdade, por m ais im provável que pareça. O hom em esteve no quarto por m enos de cinco m inutos, de acordo com o guarda. É pouco para m atar um hom em , m as é m ais do que suficiente para abrir a j anela, atirar um vaso de violetas no j ardim , e dar um a rápida busca pelo quarto à procura do Dispositivo Ôm ega. Em seguida ele cham ou o agente e deu sequência a sua pantom im a...
– Mas o tem po todo estivem os esperando por um espião inglês! Por que um argentino, veterano da guerra brasileira...
– Não se iluda, Axel. O perfeito sotaque do portunhol é um indício claro de que enfrentam os um espião de qualidade excepcional. Mas eu lhe asseguro de que o nosso hom em não tem com o ser m ais inglês!
– Há m ais um detalhe que, a m eu ver, fala contra essa sua teoria, Maucler: se o cam areiro era o assassino, e se j á havia conseguido apossar-se do Dispositivo Ôm ega, por que diabos perm aneceu na cena do crim e, à nossa espera, correndo o risco de ser desm ascarado em flagrante?
– Essa é j ustam ente a questão, m eu am igo: ele vasculhou o quarto, m as não encontrou o aparelho de Méndez! Ele certam ente não se arriscaria a atirar o dispositivo j untam ente com as flores pela j anela do terceiro andar, sob risco de danificar um item tão exclusivo e precioso. Por outro lado, o agente de Lugones não o viu retirar nada da cena do crim e, havendo perm anecido lá todo o tem po até nossa chegada.
– Entendo. Ele perm aneceu lá para tentar descobrir, com nossa presença, onde o cientista poderia ter escondido o dispositivo!
– Eis porque pediu para retirar-se im ediatam ente após eu haver encontrado o alm anaque na gaveta do criado-m udo, com o endereço de um hotel em La Boca. Certam ente, receoso de ser interceptado antes que pudesse estar conosco, Méndez teve a ideia lum inosa de alugar um quarto em um hotel nas docas, assim que colocou os pés em Buenos Aires. É ali que encontrarem os nosso Dispositivo Ôm ega.
– Pelo que m e lem bro, nenhum de nós pronunciou o endereço do hotel em voz alta. Ele ainda não sabe que se trata do Timonel!
– Mas agora tem um núm ero lim itado de opções, e deve estar agora m esm o m anquitolando pelas ruas de La Boca à procura do local. Isso nos dá algum tem po, m as não devem os abusar da sorte...
Com o se aquelas palavras fossem um sinal, o m ordom o de Lugones adentrou a biblioteca, anunciando a chegada de nossa carruagem . Im ediatam ente descem os até a rua e tom am os o cam inho das docas de La Boca. Mas a curiosidade ainda estava m e corroendo as entranhas.
– Você disse que sabia a identidade do crim inoso, e até m esm o seus antecedentes...
Maucler aj eitou-se no assento da carruagem e percebi que seu olhar m ergulhou no passado. Com eçou a falar em tom baixo, e eu estava certo de que em sua m ente revivia fatos inim agináveis.
– Faz alguns anos, estive atuando com o agente infiltrado nas fileiras britânicas. Graças às m anipulações de nossos hom ens disfarçados nos corredores do Alto Com ando do Serviço Secreto deles, fui adicionado ao grupo com andado por um engenheiro cham ado Banks, que foi incum bido pelo Serviço Secreto de viaj ar à Índia e caçar Nana Sahib, líder do Motim Indiano e responsável por incontáveis m ortes de cidadãos britânicos. Minha m issão era roubar a tecnologia envolvida na construção de nosso m eio de transporte em terras indianas, um carro blindado m oldado na form a bizarra de um elefante e m ovido a vapor, sem qualquer tração anim al. O contingente m ilitar era com andado pelo Coronel Munro, que viaj ava conosco no colosso m etálico. Recordo-m e de que ele e seu auxiliar im ediato, o Capitão Hood, trocavam frequentem ente im pressões sobre os m ovim entos das tropas inglesas no norte da Índia. Eu prestava um a especial atenção naqueles relatos, pois via neles a oportunidade de recolher algum as inform ações táticas vitais para as tropas da Grande France que, com o você sabe, apoiavam em segredo os grupos rebeldes indianos. Bem , foi naqueles relatos que ouvi pela prim eira vez, e em repetidas oportunidades, o nom e de Charles Lawson, um soldado inglês que estava se transform ando em um a lenda viva naquelas paragens. Pelo que diziam a bravura do hom em era legendária e sua audácia deixava estupefata a própria Liga dos Assassinos. Lawson não hesitava em avançar sozinho por territórios dom inados por inim igos e lograva com isso vantagens inestim áveis para seus com patriotas. Sua astúcia o aj udara a escapar m ais de um a vez da m orte certa nas m ãos dos indianos. A im pressão unânim e entre os oficiais era de que o futuro de Lawson seria brilhante no exército britânico. De fato, soube que ele foi rapidam ente condecorado e prom ovido, tendo chegado a tenente. Bem próxim o ao final de nossa m issão, recebem os a notícia de que Charles Lawson havia sido gravem ente ferido em um a explosão, durante um a escaram uça em Oudh. O hom em foi enviado com todas as honras de volta a Londres, m as deixou na Índia um a de suas pernas.
– Com preendo. Nada de bom bardeio na Província Cisplatina...
– Já de volta a Londres, ainda sob m eu disfarce, tive a curiosidade de procurar saber o destino de Charles Lawson. O que apurei foi surpreendente: pouco tem po depois de repatriado, Lawson recebeu a herança de um parente m uito rico que o tinha com o único herdeiro e que m orreu subitam ente, de causas naturais. Sua vida parecia estar encam inhada em tons dourados, quando veio a grande surpresa: em um dia de bebedeira, Charles Lawson confessou ter m atado o tal parente para assum ir a posse da herança. Diante da descrença de vários presentes, descreveu com detalhes seu plano m agistral: na volta da Índia ele trouxe consigo am ostras de um veneno raro e poderosíssim o; Lawson m isturou a substância na cera com a qual m oldou um a vela e, sabendo que seu parente gostava de ler à noite antes de dorm ir, deixou a vela envenenada na cabeceira de sua cam a. Na m anhã seguinte, só teve o trabalho de entrar no quarto do parente m orto e abrir as j anelas para dissipar o veneno da atm osfera. E assim estava feito.
– “Morte por visita de Deus”.
– Sem dúvida. Brilhante, não?
– Com toda certeza. Mas por que um gênio do m al com o Lawson com eteria a idiotice de confessar seu crim e perfeito, m esm o estando sob efeito do álcool?
Percebi que Maucler vacilou um pouco antes de responder, com o se escolhesse as palavras.
– Há diferentes m aneiras de interpretar essa atitude. Os m ais levianos a interpretariam sim plesm ente usando palavras com o a que você escolheu: um a rem atada idiotice! Porém , seu próprio questionam ento traduz a necessidade de um a explicação m ais plausível, com o que concordo plenam ente. Alguns investigadores da psique hum ana traduziriam o m al de que padecia Lawson com o “o dem ônio da destruição”; usando um exem plo claro: quando você se vê desprotegido na borda de um precipício, de onde vem a tensão ou m esm o o frio que lhe sobe pelas pernas?
– Obviam ente vem do m edo de cair...
– Ou talvez não sej a tão óbvio! O tem or pode não ser o de cair, m as de se jogar. Ou você, na beira de algum abism o, nunca se im aginou dando um passo adiante e sofrendo o efeito da queda fatal, sentindo no fundo da m ente um a ponta de curiosidade para saber com o é a sensação? Algum as pessoas adm item que experim entam , naquela situação, um claro im pulso no sentido de se j ogarem , com o se fosse algo m esm érico, e assim se afastam horrorizadas para algum lugar seguro. Com o nesse caso, alguns defendem que dentro de cada ser hum ano existem os dois im pulsos em constante pugna: para o bem e para o m al; para a salvação e para a destruição. O interessante é que os britânicos George Oliver e Sharpey -Schafer descobriram , há alguns anos, que em situações de perigo o corpo hum ano secreta um horm ônio cham ado “adrenalina”, que parece preparar o indivíduo em term os biológicos para enfrentar a am eaça.
– Li algo a respeito. Recentem ente, inclusive, m eu com patriota Friedrich Stolz realizou o prodígio de obter esse horm ônio sinteticam ente.
– Com o você m esm o certam ente j á experim entou, com o efeito de várias ocorrências típicas do nosso ram o de trabalho, um a descarga de adrenalina é seguida de um a sensação generalizada de prazer, sem pre que a am eaça que se apresentou é superada com sucesso. Bem , m inha teoria é de que há pessoas viciadas nesse tipo de sensação e dar ouvidos ao “dem ônio da destruição” pode ser um a form a de buscarem situações para satisfazerem esse vício. A m eu ver isso pode explicar a frequência com que, de acordo com os relatos dos oficiais ingleses, Lawson se atirava em m issões de alta periculosidade de m aneira m uitas vezes tem erária.
– Hum . Não seria tanto por bravura, m as o soldado gostava de procurar sarna para se coçar...
– E é claro que por trás disso existe um a vaidade colossal, o desej o irreprim ível de se ver ovacionado e adm irado por seus pares e até por seus superiores. Isso potencializaria ainda m ais o efeito prazeroso que se segue à descarga de adrenalina.
– Muito bem , e o que tem tudo isso a ver com a confissão insensata de Lawson?
– Im agine Lawson saindo vitorioso de seu crim e perfeito; ele conseguiu tudo: a fortuna para viver bem pelo resto de seus dias e, além disso, escapou ileso e absolutam ente insuspeito de um crim e de m orte! Por algum tem po ele congratula a si m esm o, ergue brindes solitários à própria genialidade diante da lareira, ri com deboche quando cruza com os agentes da lei. Mas ele sente falta de um a coisa: a adm iração de seus pares, que ele colhia após cada um a de suas loucuras m ilitares na Índia. O pior: ele sabe que ninguém j am ais sequer desconfiará de sua autoria naquele assassinato... a não ser que ele m esm o conte!
– Eis que o “dem ônio da destruição” o espeta com seu tridente...
– Com um agravante: m esm o com tudo que fez no front, Lawson retornou à Inglaterra aleij ado. Perdeu um a perna e isso sobrepõe de m aneira incôm oda a im agem de vítim a à do herói de guerra. Enquanto na Índia seu nom e era um a lenda, tudo que seus com patriotas podem ver, e assim será para toda a vida, é o ex-soldado que perdeu a perna na guerra. Para a vaidade m onstruosa de um hom em com o ele, o olhar de piedade de hom ens e m ulheres ao seu redor deve ser algo que beira o insuportável.
– “Vaidade m onstruosa” – repeti, em tom de escárnio. – Um típico inglês, você quer dizer. Todos esses “rosbifes” parecem iguais, m ais até que os próprios chineses...
– Um a só e m esm a alm a para os m ilhões de habitantes daquelas ilhas, é o que eu sem pre digo.
– Então você tam bém pensa que o álcool não foi suficiente para turvar a razão do hom em a ponto de confessar o crim e.
– Pelo contrário. Eu apostaria que o álcool apenas lhe deu coragem para fazer o que lhe obrigava o dem ônio que carcom ia suas entranhas. Lawton enfrentou a confissão e suas consequências com o se investisse sozinho contra um batalhão de guerreiros sikh revoltosos. A polícia reabriu o caso, exum ou o corpo do falecido e encontrou o laboratório im provisado de Charles Lawton, contendo provas contundentes de sua m anipulação do veneno e da cera para fabricação da vela m ortal. Foi j ulgado, condenado e posto a ferros, porém teve o reconhecim ento definitivo, por parte de toda a opinião pública, de seu intelecto e talento com o assassino ardiloso.
– E, no entanto, nós o encontram os em ação bem aqui, na Confederação Argentina...
– Isso é o que m ais m e espanta, Axel! Pelo que tudo indica, os britânicos estão treinando até m esm o seus assassinos condenados para executarem sua “arte” contra o Im pério Francês. Algum m aldito burocrata certam ente considerou um desperdício m anter o talento de Lawson trancafiado num a cela, quando existia todo um im pério adversário para que ele pudesse exercitar sua vilania.
– Agora que o desm ascaram os talvez possam os acabar com essa patifaria, ainda m ais que o vim os pessoalm ente. Não deve ser difícil fechar as saídas desta cidade para im pedir a fuga de um hom em sem um a perna. Claro, depois de cum prirm os com nossa m issão prim ária de encontrar o dispositivo. Vej a, parece que chegam os.
De fato, o cocheiro fez a carruagem parar na entrada de um a rua estreita de aspecto peculiar. Dos dois lados destacavam -se os cham ados conventillos, casarões que eram praticam ente um am ontoado de côm odos m inúsculos onde viviam às vezes diversas fam ílias de im igrantes, m aruj os ou estivadores. As casas eram pintadas de diversas cores vivas, form ando um verdadeiro m osaico urbano cuj a alegria contrastava com a pobreza que se respirava em todas as partes. No andar térreo proliferavam estabelecim entos especializados em salgar carne para exportação, oficinas para curtir couro e ferrarias onde se consertava de tudo, de ferram entas agrícolas até arm as de guerra. De quando em quando um sobrado ostentava um a placa indicando que ali havia quartos para alugar, e a regra era a existência de apenas um a cozinha e um banheiro a ser com partilhado por todos os ocupantes do prédio. No final da rua onde descem os, um a placa redonda com pequenos apêndices, sim ulando um tim ão de navio, trazia escrita em azul a palavra Timonel.
Seguim os diretam ente até a hospedaria, desviando de vendedores am bulantes e pedintes entre as pedras irregulares do calçam ento. No pequeno hall de entrada, um rapaz franzino sorriu com dentes escuros de trás de um balcão.
– Em que podem os ser úteis, señores? Um quarto duplo, talvez? – disse ele em um francês quase ininteligível, adivinhando nossa condição de estrangeiros.
– Na verdade estam os procurando por um am igo, que deve ter se registrado recentem ente neste hotel. Cham a-se Javier Méndez.
O rapaz trocou rapidam ente o sorriso por um a expressão de desolação. Deu de om bros.
– Não, eu lam ento, señores, m as aqui ele não se registrou.
– Você parece estar bem certo disso – retruquei, desconfiado -, um a vez que nem sequer consultou seu livro de registros.
– Ah, nem é necessário consultar, señor – disse ele, rindo. – Hoj e m esm o, m ais cedo, esteve aqui alguém procurando por ele. Talvez tam bém sej a am igo dos senhores...
Maucler e eu nos entreolham os. Ele indagou:
– E você pode nos descrever esse hom em ?
– Na verdade era um tipo bem com um , de altura m ediana e m agro, m as com um detalhe: era coxo. E parecia, apesar disso, estar com m uita pressa.
Instintivam ente olhei para a rua, procurando vislum brar algum sinal de nosso “conhecido”. Agora ele e nós tínham os um problem a em com um . Consultei o alm anaque de páginas am areladas de Méndez, m as não havia dúvida: o hotel assinalado era m esm o o Timonel.
– Bem , parece que vam os ter m ais trabalho do que im aginam os. Por aqui parece haver m uitos desses... hotéis – disse Maucler, suspirando.
– Mas haverem os de encontrar o lugar correto antes de nosso “am igo”, ou não m e cham o Axel Lidenbrock.
– Lidenbrock! – gritou de repente o recepcionista, brindando-nos novam ente com a alegria decadente de seus dentes podres – Ah, sim , nós tem os aqui um señor Lidenbrock!
Com eçou a folhear alegrem ente o livro de registros. Eu estava surpreso.
– Tem certeza?
– Claro que sim ! Com o eu poderia esquecer nom e tão im ponente? Vej a, hospedou-se ontem , deixou sua bagagem , m as é estranho, não retornou para passar a noite...
A caligrafia da assinatura no livro m e era totalm ente estranha, m as o nom e escrito era inconfundível: “Otto Lidenbrock”. Maucler sorriu e acenou com a cabeça, satisfeito. Afinal, Méndez era m ais esperto do que havíam os pensado. Sabendo que eu era um dos agentes enviados para contatá-lo, e im aginando a possibilidade de haver problem as, registrou-se com um nom e falso, m as que eu pudesse reconhecer: o nom e do m eu tio, seu am igo de j uventude.
Apresentam os nossas credenciais e o atendente, assustado, engoliu em seco. Conduziu-nos im ediatam ente escada acim a até o quarto que ficava m ais no alto, sob o telhado. O calor devia ser especialm ente forte ali, pois através de um alçapão no teto era possível ver as telhas de zinco. No m ais, era um aposento bem pequeno. Tirando a cam a estreita e um a m esa com cadeira a um canto, m al havia espaço para nós três do lado de dentro. Não havia sinal da referida “bagagem ” deixada pelo hóspede, m as tam bém não havia m uitos lugares onde escondê-la. Aj udei Maucler a erguer-se até a borda do alçapão do teto. Ele olhou cuidadosam ente do lado de dentro e soltou um a exclam ação de triunfo. Puxou cuidadosam ente um a caixa com prida de m adeira, retangular, com um fecho no centro da parede lateral.
Colocam os a caixa sobre a cam a e, antes de abri-la, dispensam os o recepcionista, que nos observava com ar curioso. Ouvim os seus passos na escadaria de m adeira e só então abrim os o fecho.
O Dispositivo Ôm ega não se parecia com um a arm a. Não tinha as linhas suaves e adequadas ao m anuseio que um a boa arm a tem . Esse pensam ento m e fez retornar à realidade e lem brar que Méndez não havia criado aquilo para ser um a arm a. Tratava-se de um a caixa retangular, um pouco m ais estreita do que a própria caixa que a continha, com aproxim adam ente cinquenta centím etros de com prim ento por trinta de largura. Um a das extrem idades continuava em um cone com prido e estreito, que ia afinando a partir da base até culm inar em um a abertura m ais larga, que m e fez lem brar o cano de um antigo bacam arte. No topo da extrem idade contrária do retângulo, um único botão protegido por um a pequena cam pânula de vidro, que podia ser levantada para expor o desaj eitado gatilho. Ainda com m inha im aginação presa ao conceito da arm a, pensei que aquela poderia ser utilizada de m aneira m ais confortável se fosse adaptada sobre um tripé, com o as m etralhadoras de grande calibre.
Maucler colocou o dispositivo cuidadosam ente sobre a m esa e o observou com atenção por todos os ângulos. Encontrou um a pequena presilha na quina da extrem idade contrária à do cone e, após destravá-la, tornou possível retirar a m adeira superior da caixa, um a tábua fina que deslizava para trás em um sulco, expondo o interior do artefato. O m ecanism o interno era chocante em sua sim plicidade: um a série de sete pequenos diapasões, pouco m ais finos que cerdas, im plantados em intervalos desiguais sobre um diafragm a de m adeira que constituía o fundo da caixa. Um sutilíssim o aram e se estendia e os roçava, form ando um a espiral que se estreitava até um diapasão central, de onde o fio m etálico seguia em linha reta, sem tocar em m ais nada, até a base de um círculo que correspondia, com o pude observar, à entrada do cano cilíndrico externo, que era oco. Vi que por dentro, entretanto, era riscado por um sulco tam bém em espiral, e supus que o delgado fio m etálico prosseguia por dentro do sulco até algum ponto ao longo do interior do cone. Estreitando os olhos, percebi que o fundo da caixa, sob o traj eto do fio, estava m arcado por um a escala m ilim étrica dim inuta, o que sugeria que a distância irregular entre um diapasão e outro havia sido cuidadosam ente m edida. O botão externo nada m ais fazia do que vibrar, através do acionam ento de um pequenino pêndulo m etálico de borda esférica, o prim eiro diapasão. Aquilo era suficiente para desencadear a ressonância ao longo do sistem a, direcionando a onda sonora através do cano do dispositivo para o alvo apontado por ele. Muito engenhoso; m as seria efetivo? Se a história sobre só Méndez ser capaz de acioná-lo corretam ente fosse verdade, talvez nunca soubéssem os.
Percebi que os m esm os pensam entos torturavam a curiosidade de Maucler. Lançando-m e um olhar significativo, ele fechou cuidadosam ente a tam pa do aparelho e girou a caixa, apontando o cano cilíndrico na direção da j anela fechada. Acionou o botão e o quarto foi preenchido por um zum bido grave, que foi gradualm ente ficando m ais agudo até desaparecer suavem ente. Nada m ais aconteceu. Dei de om bros e tentei propor um a saída:
– Vam os levar a coisa para os técnicos do departam ento científico em Paris. Talvez estudando com m ais detalhes o m ecanism o...
– Era o que eu tinha em m ente, exceto que não pretendia que o destino fosse Paris – disse um a voz à porta do quarto, em um francês im pecável, livre de qualquer sotaque. Olham os sim ultaneam ente naquela direção, apenas para descobrirm os Charles Lawton com o om bro direito encostado ao batente da porta, aliviando o peso sobre a perna artificial. Segurava um a pistola com m ão firm e, apontada em nossa direção.
– Sua voz não está m ais tão trêm ula, Lawton. A cam inhada pelo bairro parece lhe ter feito bem .
– Nem tanto, prussiano. Isso aqui às vezes ainda dói – disse ele calm am ente, fazendo um gesto ligeiro com a arm a em direção à perna direita e depois voltando a apontá-la para m im . – O pior foi não conseguir descobrir onde o m aldito cientista havia escondido seu brinquedo. Tive de esperar escondido e observar pacientem ente cada carruagem que vinha da direção de San Telm o, esperando por vocês. Felizm ente fui recom pensado. Mas vej o que estiveram bem ocupados, j á que descobriram até m eu nom e verdadeiro.
– Não foi difícil, inglês – disse Maucler, procurando dar um tom irônico à voz. – Eu o j ulgava criativo, m as vej o que você tende a se repetir.
Percebi um brilho de ódio atravessar com o um relâm pago o olhar de Lawton, m as durou apenas um segundo até que ele retornasse à calm a anterior.
– Adm itam que as violetas negras deram um toque de classe ao procedim ento. Flores venenosas, dispositivos desintegradores... Com o são criativos esses argentinos em tem pos de guerra, não? Nossos agentes infiltrados por aqui se divertem m uito com essas ocorrências, m as quanto a m im ... – ergueu as sobrancelhas e m oveu a cabeça levem ente na direção da arm a que em punhava –...costum o ser m ais tradicional, quando necessário.
– O que o faz pensar que vai escapar dessa, Lawton?
Ele riu.
– Além do fato de que estam os a poucos m etros do cais do porto, onde um barco m e espera para m e levar a um porto seguro na outra m argem do Prata, e de que tenho em m inhas m ãos a única arm a disponível que realm ente funciona, com o vocês m esm os acabam de atestar?
Maucler ergueu gentilm ente o Dispositivo Ôm ega da m esa e, aj eitando-o sob um dos braços, apontou-o lentam ente na direção do assassino inglês. Sua voz soou fria com o a chuva que voltava a cair lá fora:
– Sem pre podem os tentar de novo.
– Você pode tentar, por favor – rebateu Lawton ironicam ente, erguendo a arm a am eaçadoram ente em sua direção.
– Além do m ais som os dois e você está sozinho. No m om ento em que disparar essa pistola, o outro de nós que estiver de pé terá tem po de sacar a própria arm a e dar cabo de você. Acredite, tem os bastante prática nisso...
– Pois bem , e quem será o voluntário, hum ? Pois na verdade eu não preciso m esm o dos dois, apenas do m ais sensato para m e aj udar a levar essa geringonça até o barco, desde que esse sobrevivente tam bém não decida bancar o engraçadinho. Afinal, convenham os, ainda tenho m eus dois braços, e m inhas m ãos são bastante ágeis no gatilho. Ei, vocês parecem conhecer m eu passado, quem pensam que eu sou?
– Já que perguntou – disse Maucler, estreitando os olhos -, você não passa de um pavão de um a perna só, que se esforça m uito para não parecer digno de pena, só porque m atou um tio velho covardem ente, na calada da noite, com o um rato.
Aquilo foi dem ais para o facínora. Ele trincou os dentes e, com o ódio voltando ao olhar de m aneira duradoura, ergueu a arm a em direção ao m eu colega. Sua voz saiu trêm ula, m as desta vez de raiva:
– Parece que tem os nosso voluntário, afinal. Adeus, francês...
Aquele instante era o que eu esperava, com todos os m eus m úsculos em tensão. Antes que ele disparasse, j oguei m eu corpo para frente e cruzei todo o quarto, que com o disse era bem pequeno, com um único salto. Mas Lawton, apesar de todas as bravatas, era de fato ágil e veloz. Seu braço arm ado girou num arco e ouvi o estam pido, seguido de um clarão e de um a queim ação terrível em m eu om bro, que se prolongou num a sensação de choque que desceu por m eu braço esquerdo. Caí estatelado aos pés de Lawton. Ainda tive tem po de olhar para cim a e ver o círculo escuro do cano da arm a, pronto para o segundo e derradeiro tiro.
Mal percebi o zum bido que preencheu o quarto enquanto eu caía, por isso foi com um susto enorm e que vi o rosto de Lawton m udar, do ódio insano para um a expressão de absoluto terror. Num a sequência extrem am ente rápida, sua cabeça inchou com o um balão, adquirindo um a tonalidade verm elha, enquanto seus olhos inj etados pareciam prontos para saltar. A explosão fez um som estranho, m olhado, e a cabeça de m eu adversário desapareceu, substituída por um a fina chuva de gotículas averm elhadas que desceu suavem ente sobre m im e salpicou as paredes do quarto.
Perm aneci rígido, observando o corpo de Charles Lawton desabar e rolar para o corredor, o alto do pescoço transform ado em um chafariz que esguichava um a onda pulsátil de sangue. Olhei assustado na direção de Maucler, que ainda segurava o Dispositivo Ôm ega apontado, olhando fascinado para um buraco redondo que se abrira na parede do corredor, do lado oposto da porta do quarto.
– Bem – disse ele, enrugando o queixo em um a careta -, resta-nos aprender a regular a potência desta coisa.
Enquanto m e levantava, ouvi passos rápidos que se aproxim avam escada acim a. Com olhares horrorizados, o com issário Lugones e dois de seus agentes surgiram diante da porta, tentando não pisar nas poças de sangue que se expandiam pelo piso.
– Lam ento pelo atraso. Encontram os o velho Sergio Sandes assassinado em sua estufa, cercado de espécim es vegetais absolutam ente fascinantes, o que nos tom ou certo tem po. Foi só quando retornei a m inha casa que fui inform ado do destino dos senhores.
– Com o pode ser isso, com issário? – estranhei – Não m e lem bro de term os dito ao seu m ordom o o hotel para onde nos encam inhávam os...
– De fato. Mas Yzur estava na biblioteca e ouviu toda a sua conversa. Foi ele quem m e disse onde encontrá-los.
Olhei para Maucler, que sorriu ao ver m inha expressão. Acho que quem ficou doido fui eu.
Após m e perm itir o benefício de um banho cuidadoso para m e ver livre de todos os fragm entos do cérebro de Charles Lawton, Lugones nos levou, no final daquela tarde, ao cais do porto onde o Pèlerin nos aguardava para a próxim a etapa de nossa viagem . Só então fui inform ado de que rum aríam os para a Baía da Guanabara, onde deixaríam os o agente Maucler, que deveria partir dali diretam ente para um a nova e secreta m issão.
Vários m aruj os locais, que haviam testem unhado há poucas horas a prisão do barco que escondia os associados de Lawton, nos receberam com aplausos. O capitão Servadac nos cum prim entou e inform ou que, a despeito do forte nevoeiro que se form ava na baía, preferia deixar que escurecesse m ais um pouco para iniciarm os a j ornada, portanto esperam os.
Enquanto nos despedíam os, o com issário Lugones, que fizera questão de trazer o m acaco Yzur especialm ente para a ocasião, dirigiu-se ao m eu colega:
– Antes de partir, Monsieur Maucler, rogo para que satisfaça o pedido de um velho escravizado pelo espírito da curiosidade científica. Com o disse antes, eu m esm o testei em certa ocasião o Dispositivo Ôm ega e tive que m e render à afirm ação de Méndez de que só ele próprio seria capaz de fazê-lo funcionar. Afinal, com o foi que o senhor conseguiu acionar o aparelho contra o espião inglês?
Maucler olhou cuidadosam ente ao redor e só então abriu novam ente a caixa que continha o dispositivo, que decidim os não tirar do alcance de nossos olhos até que estivesse segura nas m ãos do com andante Dupin. Deslizou a tam pa superior do aparelho, exibindo a espiral de diapasões interconectados.
– Toda ciência em ação parece sobrenatural quando não analisada sob a luz dos conhecim entos adequados, com issário. A afirm ação do senhor de que tinha visto o dispositivo funcionar, certam ente de absoluta confiabilidade, contrastava flagrantem ente com a ideia de que som ente o dedo de seu inventor, ao acionar este sim ples botão, fosse capaz de desencadear a onda destrutiva. Era óbvio para m im que tinha que existir um a trava de segurança, que Méndez pudesse acionar discretam ente antes de passar o Ôm ega a outras m ãos. Quando pude observar o m ecanism o interno, a solução m e saltou aos olhos. Com preendi que a onda sonora era potencializada desde sua origem , no acionar do gatilho sobre o prim eiro diapasão, ao longo deste fio m etálico que a transm itia para toda a série de diapasões de alta frequência, dispostos nesta sequência específica. Ora, para interrom per o circuito bastava que algo fizesse pressão física sobre algum dos diapasões, im pedindo-o de vibrar, e assim de transm itir a onda adiante. Pois observe...
Para m eu deleite, contem plei o entusiasm o infantil com que Lugones reagiu quando Maucler em purrou um discreto encaixe quadrado de m adeira na parte inferior externa do dispositivo. Do lado de dentro, um a pequena lingueta proj etou-se da parede lateral da caixa e ficou com prim ida contra o quarto diapasão da sequência, localizado m ais próxim o dela.
– Na prim eira vez em que apertei o botão de disparo, o fiz com a trava acionada, para observar o efeito. Percebi que a vibração se iniciava e se esvaía rapidam ente, e m e preparava para voltar a disparar o Ôm ega, agora com a trava desconectada, quando fom os surpreendidos por Lawton. Para seu infortúnio, o canalha acabou servindo com o cobaia para nosso experim ento definitivo.
– Bravo! – aplaudiu Lugones, enquanto o capitão Servadac fazia sinais para que em barcássem os a fim de levantarm os âncora. – Señores, transm itam m eus cum prim entos ao com andante Dupin, a quem parabenizo sinceram ente pela elevada qualidade de seus agentes de cam po. E espero que possam os nos encontrar novam ente, de preferência em tem pos m enos belicosos, para que tenham a oportunidade de conhecer m elhor as m aravilhas de nossa Am érica do Sul.
Maucler e eu subim os ao convés e o barco lentam ente com eçou a se afastar do píer. Lugones, com Yzur ao seu lado, foi lentam ente se desvanecendo em m eio ao nevoeiro. No final ainda pudem os ouvir sua voz grave:
– Façam um a boa viagem , cavalheiros, e lem branças m inhas à bela França!
– Bon voyage!
A segunda voz que ouvim os era com pletam ente diferente da do com issário. Era m ais rouca e ao m esm o tem po m ais aguda. Parecia a voz de um velho que tivesse se privado do dom da fala por m uitos e m uitos anos, e finalm ente, quando decidiu usá-la, a m esm a soasse enferruj ada e arranhada, com o se forçar as cordas vocais resultasse em um esforço hercúleo. Estreitei m eus olhos e m e inclinei sobre a am urada. Mas no píer não fui capaz de ver m ais ninguém , apenas Lugones, que acenava, e Yzur, que dava pequenos saltos e balançava a cabeça, exibindo seu sorriso de inúm eros dentes.
O m odo com o olhei para Maucler falava por si. Meu com panheiro riu e bateu em m eu om bro sadio, aquele que não havia sido m achucado pelo tiro de raspão da arm a de Lawton.
– Lem bre-se, Axel, o conhecim ento não é, em sua essência, nem bom e nem m au. Ele está disponível na Criação de form a absolutam ente dem ocrática para quem for capaz de percebê-lo e assim ilá-lo. Quem escolhe a m aneira com o se o usa, com sabedoria ou com m ás intenções, é a m ente que o m anipula.
– Certo, m as o que tem isso a ver com ...
– Você ainda está com dúvidas a respeito da sanidade m ental de Leopoldo Lugones? Não é capaz de decidir se acaba de ouvir m esm o a voz de um chim panzé pronunciando palavras hum anas, ou se foi apenas o truque barato de um velho com issário adepto da arte do ventriloquism o?
Perm aneci em silêncio. Era exatam ente aquilo. Ele deu de om bros.
– Bem , confesso que eu tam bém não sei. Não tenho dados que m e perm itam afirm ar um a coisa ou outra. Mas de algo estou certo: que tal deixarm os que outros se habilitem a proferir o veredito, j á que m e parece um a questão de m enor im portância se aquele bom e diligente com issário se dedica ou não a testar as teorias m ais obscuras? Afinal, sej a qual for a form a com o ele utiliza os conhecim entos que adquire... bem , m e parece que o verdadeiro ônus disso será apenas dele.
De um a form a ou de outra, as palavras de Maucler tiraram um peso de m inha m ente. Senti que a partir de agora eu era capaz de deixar a Confederação Argentina para trás e m e preocupar com as duas grandes perspectivas que m e aguardavam do outro lado do oceano, um a feliz e outra triste: a prim eira, a de reencontrar m inha am ada Grauben; a segunda, a de dar a m eu tio Otto a notícia da m orte de seu am igo. Meu tio Otto...
Um a ideia percorreu m inha m ente e m e fez girar a cabeça, fitando a caixa que guardava o Dispositivo Ôm ega.
– Sabe de um a coisa, Maucler, por falar em dar uso adequado aos conhecim entos... A existência desse aparelho, que de acordo com Lugones é capaz de pulverizar granito, abre algum as perspectivas interessantes. Não sei se j á m encionei um a ideia de m eu tio Otto Lidenbrock, a de construir um túnel sob o Canal da Mancha para nos dar um a vantagem estratégica, no caso da necessidade de um a invasão das Ilhas Britânicas...
– E você acredita que isso sej a m esm o possível? – riu ele, divertido com a ideia.
– Com o uso de um a m áquina com o esta? E por que não? No m ínim o, terem os m ais um experim ento com base sólida, que m esm o que não nos leve aos costados dos ingleses, certam ente nos levará até um pouco m ais perto da verdade.
– Hum . Você precisa m e falar um pouco m ais sobre essa ideia...
– Com um a condição: quero saber tudo sobre aquela m aluquice de atravessar o território indiano a bordo de um elefante blindado m ovido a vapor.
– Negócio fechado, Axel. Com o tem po de viagem que tem os pela frente até o porto do Rio de Janeiro, um pouco m ais de m aluquice não nos fará nenhum m al.
Descem os com nosso prêm io para o cam arote inferior, enquanto o clipper rasgava bravam ente as ondas e o nevoeiro em direção ao Brasil.