Impermanência
Estava a chover torrencialmente. Os poucos veículos…
9.
Estava a chover torrencialmente. Os poucos veículos fechados movimentavam-se cautelosamente pelas faixas do centro hospitalar, e os jardins estavam cobertos de folhas amarelas caídas. A capital mundial situava-se na zona climática temperada-fria do hemisfério norte, onde o outono chegava cedo e se alongava.
Hawiya estava sentada na sua poltrona preferida, no quarto acessível às enfermeiras, ao lado da grande porta envidraçada que se abria para o pequeno terraço. A barriga em crescimento já lhe dificultava consideravelmente os movimentos e tinha-se habituado a passar os dias a ler ou simplesmente a descansar. Tinha-lhe sido dado um apartamento com todas as comodidades e todos os livros que queria, e até tinha um pequeno ginásio para manter-se em forma, assim como uma piscina só para si. Também tinha a sua própria zona completamente privada, com um segundo quarto para quando desejava estar sozinha. Mas já não a utilizava. Sentia-se mais tranquila ali, na zona aberta dia e noite às enfermeiras, que passavam de vez em quando para verificar se estava tudo a correr bem ou apenas para conversar um pouco.
Hawiya pensou nos longos dias que ali passara: aquele sítio tornara-se todo o seu mundo. A inseminação teve sucesso à segunda e a criança cresceu dentro dela, como era esperado e desejado. Recordou a primavera, complicada por uma sensação recorrente de mal-estar e náuseas; o verão glorioso, quando, com o bebé a crescer, se permitira longas caminhadas no exterior do centro hospitalar. O seu tempo assumira uma dimensão inteiramente diferente, um fluxo de agradável tranquilidade em sintonia com o ritmo da nova vida que se movia dentro dela.
Os duzentos e cinquenta dias tinham acabado de passar e aproximava-se a data prevista para o parto. Mas, acima de tudo, Hawiya sentia que o momento se avizinhava. Como correria? De acordo com Zoun, tudo corria maravilhosamente bem e o resto da equipa médica também estava otimista, mas até ao momento de...
– Hawiya? Como estás? Está aqui a Tenente Ezrat-KQ – anunciou uma enfermeira, enfiando a cabeça pela porta aberta.
– Obrigada, Ishearr, Ezrat que entre – respondeu Hawiya, desviando os olhos da janela.
– Bom dia, Hawiya, querias falar comigo? E como é que tens passado? – perguntou Ezrat assim que entrou.
– Poupa-me as delicadezas, Ezrat. Senta-te – respondeu Hawiya. – Se quisesses saber como eu estava, porque é que não vieste visitar-me? Afinal de contas, tu és o meu contato oficial.
– Sabes perfeitamente que podias ter-me chamado a qualquer momento – afirmou Ezrat, sentando-se. – Tu é que optaste por não o fazer. Foi-me ordenado que não interferisse ou tomasse quaisquer iniciativas a teu respeito, incluindo visitas espontâneas.
– Como estão as coisas lá fora? – perguntou Hawiya para mudar de assunto. – Descobriram o vírus da impermanência, se é que é um vírus?
– Não soubeste? – perguntou Ezrat.
– Não, até agora tenho preferido manter-me completamente isolada. Nem sequer vejo os noticiários – respondeu Hawiya. – Decidi seguir o conselho da Zoun. Nem a ela tenho pedido que me diga o que se passa no mundo. Prefiro manter-me tranquila e este é o sítio ideal para isso. São todas muito simpáticas e não tenho que preocupar-me com nada. É o meu micromundo.
– Bem, para responder à tua pergunta sobre o macromundo lá fora – prosseguiu Ezrat – não, não descobrimos a causa da impermanência nem nenhum tratamento eficaz. Os casos continuam a manifestar-se de forma irregular e aleatória, sem aumentar nem diminuir de frequência. Isso é o que exaspera as investigadoras. Se fossem de origem infeciosa, os casos deveriam multiplicar-se, ou pelo menos disseminar-se de acordo com uma lógica territorial. Mas não é isso que acontece.
– Por falar em possíveis tratamentos, tu és só o meu contato? – perguntou Hawiya. – Ou há outras “voluntárias” como eu, destinadas a salvar a humanidade?
– Não estou autorizada a responder a esse género de perguntas – respondeu Ezrat, imperturbável. – Apenas posso transmitir informações que sejam do domínio público.
– O fato é que não acredito que seja a única – prosseguiu Hawiya. – Claro que, entre as minhas amigas, sou a única que sempre se interessou pela história antiga, tanto quanto sei. Mas como é possível que, tendo o mundo tantas habitantes, este assunto não interesse a mais a ninguém?
– Sabes muito bem que não é um assunto muito popular – acrescentou Ezrat após uma breve pausa.
– Talvez porque sempre o tenham censurado, não? – perguntou Hawiya, olhando-a fixamente.
– Bem, não é propriamente segredo de Estado, Hawiya – retorquiu Ezrat. – Muito pouca gente se interessa e o Governo prefere manter as coisas assim – ou preferia, até se terem dado os acontecimentos recentes. Tudo o que fez foi acompanhar a tendência da população de não debater o assunto. Se as pessoas preferem filmes, atualidade, moda e essas coisas, o Governo acha bem. Se abrires regularmente no teu computador de casa páginas sobre, digamos, música ou arte, continuarás a receber links e anúncios sobre música e arte. Sempre foi assim.
– E se se consultarem muitas vezes páginas sobre história antiga? – perguntou Hawiya com um toque de sarcasmo.
– Receberás links e publicidade a filmes, atualidade e moda – respondeu Ezrat. – Tudo isto para desencorajar o acesso a dados e documentos que não sejam de confiança e que poderiam dar origem a ideias absurdas. É por isso que a nossa sociedade funciona na perfeição. E se estás a pensar em “manipulação”, então enganas-te. O Governo não impõe nem proíbe o acesso a qualquer informação e as bibliotecas e as bases de dados estão abertas a todas. Chamemos-lhe “educação”, no sentido de incentivar as pessoas a interessarem-se por questões inofensivas e possivelmente construtivas. Esse sempre foi o objetivo dos média, não é verdade? Portanto, todas vivem felizes. Não podes negar que funciona.
– Mas eu não fiquei desencorajada por aceder a informações que não são de todo “inofensivas”, para utilizar a tua designação – prosseguiu Hawiya. – Pelo contrário, podem até ter-me empurrado nessa direção, não é? A impermanência já se andava a manifestar há várias centenas de dias antes de me terem trazido para aqui. As bases deste projeto devem ter sido definidas com antecedência, portanto, tudo o que precisaram de fazer foi recolher informações sobre as pessoas que se interessavam pela história dos hominídeos, aproveitar a sua presumida elegibilidade para o projeto, prendê-las sob falsas acusações de traição e chantageá-las para que se “voluntariassem”. Caso contrário, quem é que teria aceitado?
– Não estarás a ser demasiado egocêntrica? – perguntou Ezrat. – Não acreditas mesmo que mereceste uma atenção constante, pois não? O Governo não tem necessidade nem recursos para o género de vigilância que descreves. As análises automatizadas comuns de perfis individuais, feitas regularmente por razões demográficas e económicas, são suficientes para o efeito.
– E, no caso em questão, o meu perfil mostrou-se adequado ao projeto – acrescentou Hawiya. – Mas acredita, tenho plena consciência de que podia ter recusado e apanhado uma pena leve. Mas na verdade estou contente por ter aceitado. Acho que devia agradecer-te, não sei...
– Muito bem – disse Ezrat. – Fico contente por não estares rancorosa. Era sobre isto que querias falar comigo? Ou há mais alguma coisa?
– Não, não pedi que te chamassem por este motivo, na verdade há outra coisa – respondeu Hawiya, hesitando em seguida. – Gostava de receber uma visita. É possível?
– É possível, sob condições bastante rigorosas. Esperávamos este pedido, embora te seja franca: surpreende-me que tenhas esperado tanto tempo.
– Quais são as condições? – perguntou Hawiya.
– Em princípio, tendo em conta a natureza confidencial do projeto, quem quer que aceite visitar-te terá de partilhar o teu destino – explicou Ezrat. – Se o projeto falhar, a tua disponibilidade para prestar um serviço tão importante ao Governo será à mesma reconhecida e apenas serás condenada a uma pena leve.
– Tretas! – cortou Hawiya. – A pena será leve porque não há motivos para aplicar uma mais pesada.
– Tens todo o direito de pensar isso, se quiseres, embora te garanta que o Governo sabe mostrar-se agradecido – prosseguiu Ezrat. – Em qualquer caso, a tua pena vai ser leve, provavelmente uma restrição das tuas atividades, como a que está prevista para crimes de baixa a média gravidade. Então, se o projeto não for bem-sucedido, quem decidir entrar neste centro e visitar-te será automaticamente sujeita a uma pena equivalente à tua. Vamos transmitir-lhe o teu pedido e informá-la sobre estas condições. Dependerá de ela aceitar ou recusar. Fui clara?
– Perfeitamente – respondeu Hawiya. – E se o projeto for bem-sucedido?
– Se for, o Governo terá provavelmente interesse em divulgar as boas notícias, com a devida cautela, no momento certo e da maneira apropriada – informou Ezrat. – Nesse caso, provavelmente não será oportuno condenar-te. Poderias mesmo ser absolvida de todas as acusações, embora não possa garantir-te isso. O Governo decidirá quando tudo estiver concluído. É a Baxti, não é?
– Co... como? – perguntou Hawiya com um sobressalto.
– A pessoa que queres ver – prosseguiu Ezrat. – É a Baxti-LY, não é?
– Sim – confirmou Hawiya, baixando os olhos.
– Muito bem – comentou Ezrat. – Agora sabes quais são as condições. Quando tomares a tua decisão, informa-me.
– Já decidi – disse Hawiya. – Diz à Baxti que gostava que viesse visitar-me.
10.
Alguns dias depois, Hawiya estava sentada na cama a observar Baxti, que estava de pé à frente do terraço. Aquela maluca tinha deixado tudo e apanhado o primeiro voo disponível. Nem sequer um dia se passara entre o pedido de Hawiya e a chegada de Baxti.
– Ainda não posso acreditar que decidiste vir – disse à amiga.
– E eu não posso acreditar que não possas acreditar, tonta – respondeu a amiga com irritação fingida. – Ainda me lembro do dia a seguir ao concerto. Passei em tua casa e não te encontrei, e também não atendeste as minhas chamadas. Depois do que aconteceu à Akshoyya fiquei preocupadíssima contigo! E depois passaram centenas de dias sem saber o que te aconteceu...
– Ontem, a Zoun falou das vossas conversas – prosseguiu Hawiya. – Até disse qualquer coisa acerca de uma possível colaboração?
– Sim, falámos disso quase por acaso – explicou Baxti. – Parece que a minha experiência na quantificação de microdesvios no campo gravitacional da Terra pode ser útil para aperfeiçoar alguns instrumentos eletrónicos utilizados na medicina. Há uns dias, a Zoun apresentou-me a uma das gestoras da divisão que trata desses assuntos, uma tal... não consigo lembrar-me, mas anotei. Conversámos a tarde toda e ela depois deixou-me uns documentos: manuais, especificações técnicas, relatórios de inspeções e outras coisas que estudei durante toda a manhã de ontem. Estou convencida de que uma parte da tecnologia que utilizamos na indústria podia ser aplicada para melhorar a precisão de certos dispositivos médicos. O equipamento deles é incrivelmente avançado, mas ainda há algum espaço para melhorias.
– Ainda vais acabar por vir morar para cá! – disse Hawiya com um sorriso.
– É verdade que debatemos alguns projetos fascinantes, mas como é possível viver neste sítio horrível? É bom, para ti, que sempre estiveste aqui dentro. Mas lá fora é tudo tão perfeito que quase parece falso. As pessoas não são nem demasiado simpáticas nem demasiado frias e continuo a não conseguir compreender como se conseguem divertir. Não há praticamente nenhum sítio para se conviver. E nem me fales nas lojas, há tão poucas! E vendem todas o mesmo. Parece que as únicas coisas que as pessoas usam nos pés por estas bandas são aquelas horríveis botas pelo tornozelo forradas a pele. Ontem à tarde quis fazer umas compras, mas foi impossível! Imagina calcorrear uma cidade deste tamanho e não encontrar um par decente de... Hawiya!!!! Que aconteceu?!?
Baxti calou-se e voltou-se ao ouvir um gemido: a amiga tinha fechado os olhos de repente e aferrava-se aos lados do colchão com ambas as mãos.
– Acho que... – começou a dizer, mas então contraiu-se novamente enquanto Baxti continuava a olhar, petrificada. Hawiya acabou por retirar uma mão do colchão e alcançou o botão junto da mesa-de-cabeceira, mas as enfermeiras já tinham chegado, alertadas pelo grito de Baxti.
– Não te preocupes, Hawiya, está tudo pronto, há dias que esperávamos este momento – disse uma das enfermeiras. – Zoun está de serviço e chega daqui a dois minutos. Não podias estar em melhores mãos.
Através das pálpebras fechadas, sentiu as luzes a tremeluzir enquanto era transportada rapidamente pelo corredor e depois restou apenas a intensa brancura do bloco operatório.
* * *
Um som agudo e penetrante devolveu-lhe repentinamente a lucidez. O quê... onde... já tinha acabado? Hawiya já não sentia a criatura dentro dela... devia significar que já tudo tinha terminado... sentia-se zonza, a cabeça inclinada de lado na almofada encharcada em suor. Uma enfermeira mexia em algo que lhe tinham prendido ao braço, enquanto Baxti, sentada a um canto, estava lavada em lágrimas. Mas porque é que...
Outra vez aquele ruído! Ouviu um grito incrivelmente agudo algures à sua frente, de um sítio que não conseguia ver, para lá da cortina que lhe ocultava a parte mais baixa do corpo e o pessoal médico ali presente. Outro grito ressoou vindo da mesma direção. Mas Hawiya apenas conseguia ver Zoun a observar algo e... estaria a sorrir por detrás da máscara?
– Que... Que acont... – tentou perguntar.
– Hawiya! – disse Zoun, virando-se para ela. Sim, estava mesmo a sorrir! – Correu tudo na perfeição. A criatura está viva e é maravilhosa! Acabas de ser...
– Mostra-ma – disse com voz desmaiada.
Enquanto isso, as enfermeiras tinham acabado de lavar o ser e colocaram-no numa espécie de almofada, envolta numa manta minúscula. A criatura, que se acalmou um pouco e parou de gritar tão alto, continuava a emitir sons estranhos e a mover-se devagar. A enfermeira aproximou-se, endireitou cuidadosamente a cabeceira da cama e pôs-lhe a criatura no colo.
Hawiya observou-a cuidadosamente. Que engraçada, realmente parecia um ser humano em miniatura, com aquelas madeixas esparsas na cabeça e aquela boca desdentada a fazer caretas estranhas. Hawiya começou a levantar a manta e observou os braços, o tronco...
– Ela é realmente maravilhosa... um novo ser humano... temos de dar-lhe um nome... que nome havemos de escolher para ela? – disse Hawiya a custo.
– Que nome havemos de escolher para ele, queres tu dizer – respondeu Zoun com um sorriso cada vez mais radiante.
Sim, não havia dúvida: era um menino lindo.
FIM
(ou um novo começo?)
Você terminou Impermanência
Daniel Frisano
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