Impermanência
– Sente-se, Cidadã Hawiya-MT – disse Zoun-LH,…
8.
– Sente-se, Cidadã Hawiya-MT – disse Zoun-LH, indicando a cadeira do outro lado da secretária do consultório. – Acho que devíamos começar a tratar-nos por tu, se não te importares, visto que vamos estar em contato direto durante várias centenas de dias.
– Obrigada. Fui destacada para esta... experiência, se é que lhe podemos chamar assim, e agora temos que discutir os pormenores, não é? – perguntou Hawiya com um suspiro.
– Vamos chamar-lhe “projeto” – respondeu Zoun com um sorriso. – Não gosto muito de considerar isto uma experiência. É compreensível que tenhas ficado bastante alarmada no outro dia, na reunião com todo aquele peixe graúdo, mas estou otimista. Embora seja um procedimento completamente novo, pelo menos na história recente, temos todos os meios necessários para concretizar este “projeto” com sucesso. Vamos substituir o teu útero, que está atrofiado como o de todas nós e implantar um semiartificial, modelado a partir de uma reconstrução de como o órgão original das fêmeas hominídeas deve ter sido. Ou melhor, do que nosso útero original deve ter sido, quando ainda eramos hominídeas, juntamente com todos os outros aparelhos acessórios que permitam que o teu corpo nutra a criatura que vais carregar dentro de ti. Depois vamos proceder à tua fecundação. Perto do final da sua existência, os hominídeos masculinos mostraram um vislumbre tardio de vontade de evitar que a sua espécie fosse completamente destruída e conseguiram pelo menos construir equipamento que permitia preservar o sémen e mantê-lo vivo indefinidamente, e depositaram algumas amostras no Depósito Global de Espécies Vivas.
– Mas eu poderei... quer dizer, posso ser... – balbuciou Hawiya, tentando encontrar as palavras.
– ... fecundada? – sugeriu Zoun.
– Sim, fecundada. O nosso corpo já não está equipado para a reprodução, pois não? – perguntou Hawiya com ceticismo.
– Hawiya, tu sabes para que serve a menstruação? – perguntou Zoun.
– Não serve para nada. São dejetos produzidos pelo nosso metabolismo, como a urina e as fezes, só que eliminados com uma frequência diferente – respondeu Hawiya.
– Não é bem isso – explicou Zoun. – Em certo sentido, podes dizer que são dejetos, mas a menstruação está relacionada com a nossa fertilidade. Tu e eu, tal como todas as outras, ainda possuímos ovários perfeitamente funcionais, que produzem regularmente óvulos. Estes estão prontos para ser fecundados e dar vida a um embrião que em seguida cresce até tornar-se um ser humano. Pelo menos presumimos que é o que ainda acontece, embora já não suceda há tempos imemoriais. A menstruação não é um subproduto do nosso metabolismo alimentar mas do nosso ciclo de fertilidade.
– Mesmo se for assim, como sabemos que ainda somos férteis depois de tantos ciclos solares? – perguntou Hawiya.
– Na verdade, não sabemos – admitiu Zoun. – Só podemos descobrir se tentarmos. Mas pensa nisto: embora geralmente tenha sido considerada um enorme estorvo, esta capacidade permaneceu intata durante todo este tempo. Porque desde há milhares e milhares de ciclos solares que continuamos paciente e pontualmente a produzir, a cada vinte e oito dias, ovos que nunca foram fecundados. Se isso nunca cessou...
– ... foi porque, no fundo, sabíamos que mais cedo ou mais tarde haveria necessidade deles! – concluiu Hawiya, a voz cheia de esperança. – E agora chegou o momento.
– É o que parece – confirmou Zoun. – Pelo menos é isso que esperamos.
– E quanto tempo demoraremos a saber se resulta? – perguntou Hawiya, novamente cheia de dúvidas.
– Não se sabe ao certo – respondeu Zoun. – Amanhã de manhã vais dar entrada na clínica, vamos manter-te numa dieta controlada durante alguns dias e avançar depois com a implantação dos órgãos necessários. Nessa altura teremos de esperar alguns dias para que o teu corpo se ajuste e vamos monitorizar como reage. Não prevejo grandes dificuldades – afinal de contas, realizamos operações muito mais complexas –, porém, como se trata de um projeto tão delicado, teremos de garantir que os teus parâmetros estejam perfeitamente alinhados com os níveis pretendidos. Seja como for, pelos testes que te fizemos e pelos questionários que preencheste esta manhã, descobrimos que ainda faltam dezassete ou dezoito dias para o teu próximo período fértil; se tudo correr de acordo com os planos, esse será o momento de avançar com a fecundação. Se não for bem-sucedida, tentaremos novamente no ciclo seguinte, vinte e oito dias depois.
– E se continuar a não resultar no ciclo seguinte? – perguntou Hawiya, alarmada.
– Por enquanto, sugiro que tentemos não pensar nessa eventualidade. De momento não temos muitas alternativas – respondeu Zoun. Então, suspirando, acrescentou: – Olha, Hawiya, se não quiseres, não és obrigada a fazer isto. É uma responsabilidade enorme e até podes...
– Mas sou obrigada a fazer isto. Também estiveste na reunião, se recusar, a alternativa será... – Hawiya calou-se, receosa só de mencionar a alternativa.
– Escuta, Hawiya – retomou Zoun, baixando ligeiramente a voz –, aqui entre nós, elas não têm elementos suficientes para condenar-te à pena máxima. Apanharam-te desprevenida e puseram-te à frente da Presidente para te fazer sentir indefesa, sozinha e desesperada. Na reunião sabiam perfeitamente que te tinham na mão e que concordarias com o que quer que fosse para te salvares. Mas, quando pensamos nisso, o teu “crime”, se é que podemos chamar-lhe assim, pode ser classificado no máximo como a difusão de notícias falsas ou distorcidas, embora para poucas pessoas e dificilmente representando uma ameaça para a ordem pública. Agora de maneira nenhuma crime contra a humanidade! No máximo podias ser condenada a uma restrição muito ligeira das tuas atividades, nada mais do que isso. Convém-lhes levar-te ao desespero, mas elas estão muito mais desesperadas do que tu. Estão a braços com uma crise que pode ameaçar a própria existência da humanidade, e todas as outras soluções que tentaram falharam.
– Estás a dizer que... sou sua última esperança de salvação da humanidade? – perguntou Hawiya com os olhos fechados.
– Talvez não apenas tu – respondeu Zoun –, mas esta parece ser a única solução que nos resta, pelo menos até conseguirmos descobrir as causas da impermanência, assumindo que vamos realmente conseguir fazê-lo. Se não resultar contigo, será preciso encontrar novas “voluntárias”, genuínas ou à força. Em qualquer caso, por enquanto este é o único caminho que podemos seguir. E podes ter a certeza de que já foram tentados outros. Esta crise arrasta-se há várias centenas de dias.
– A sério? – perguntou Hawiya, surpreendida. – Então porque é que só soubemos há cerca de vinte dias?
– Só recentemente é que aconteceu na tua zona – explicou Zoun. – Mas noutras partes do mundo já tem acontecido há algum tempo, sem um padrão espaciotemporal preciso e, como deves compreender, os noticiários mantiveram-se em silêncio acerca disso, compreensivelmente, para não espalhar o pânico entre a população. Além de que, em geral, aquelas que são testemunhas ou que têm conhecimento de um caso de impermanência tendem a falar muito pouco acerca dele, e é por isso que as notícias não se espalham. Cinco ou seis pessoas podem deixar de funcionar durante vinte dias num raio de cem quilómetros e depois nada acontece durante uns tempos. Depois acontece o mesmo noutro sítio, e assim por diante. É sempre o mesmo: todos os dados desaparecem do cérebro, da cópia doméstica e das cópias provinciais e mundiais. Os dados não podem ser restaurados. Não sabemos quais são as causas nem se ou como se dissemina ou é contraído. Não sabemos se é um vírus ou uma bactéria, ou outro microrganismo. Não deixa quaisquer vestígios e não foi encontrada uma “cura”, se é que podemos empregar tal termo.
– E as outras soluções de que falaste? Não funcionaram? – perguntou Hawiya.
– Houve outras propostas, é verdade – confirmou Zoun após um momento de hesitação. – A primeira possibilidade discutida foi a clonagem. Esta opção resume-se a criar uma cópia de uma pessoa existente, escolhida não se sabe bem com base em que critérios, para substituir a pessoa que deixou de viver. Mas isso implica uma série de questões sensíveis de natureza prática e mesmo ética. Por exemplo, temos a certeza de que o clone ficaria completamente dissociado do original? Além disso, quem poderia aceitar saber que existe uma cópia de si própria do outro lado do mundo? E como escolhemos quem clonar? Demasiadas dúvidas e, no fim, a proposta foi sempre rejeitada por maioria absoluta no Conselho Mundial.
– Talvez isso possa ficar reservado para último recurso, se tudo o resto falhar – disse Hawiya, pensativa.
– Sim, talvez – afirmou Zoun. Mas quando se pensa nisso, seria ainda pior como solução de emergência. Significaria recorrer à clonagem com a população ainda mais reduzida. O número de clones necessários seria considerável e a probabilidade de nos depararmos com a nossa clone ou de encontrá-la intencionalmente, se alguém se dispusesse a isso, seria proporcionalmente maior.
– Sim, e se soubesses que havia uma cópia de ti, ou mesmo várias, seria improvável que não desejasses encontrá-las – acrescentou Hawiya.
– Por outras palavras, esta opção está fora de questão – prosseguiu Zoun. – Uma solução mais aceitável, e que já foi objeto de experiências, seria criar uma nova pessoa a partir do zero. No fundo, não há necessidade de criar cópias, basta modelar um padrão cerebral que não seja muito diferente da média da população, adicionar competências e características adequadas para permitir que a nova pessoa se adapte à sociedade e, se necessário, incluir fatores aleatórios para simular a individualidade dessa pessoa. Quanto à criação de uma nova mente, não é nada difícil e até já foi feito. E é ainda mais fácil para o corpo: apenas temos de montar as peças. Na verdade, podíamos ter utilizado os corpos das pessoas descobertas sem vida, mas preferimos criar corpos novos para evitar outras questões éticas e também para não perturbar aquelas com quem se dava anteriormente depois de a pessoa ter sido reintegrada com uma nova mente criada a partir do zero.
– Mas não funcionou. Ou eu não estaria aqui – concluiu Hawiya com um suspiro.
– Precisamente – confirmou Zoun –, as novas pessoas eram perfeitas, os seus sinais vitais estavam em ordem, mas as suas mentes funcionavam passivamente e não demonstravam nenhuma iniciativa. Permaneciam imóveis, não fazendo nada além de receber estímulos externos e formular pensamentos como “ordenaram-me que me levantasse” ou “aplicaram-me um elétrodo no dedo” e coisas desse género. Mas não se moviam nem demonstravam qualquer desejo de interagir ou de comunicar. Foi exasperante! A experiência acabou por ser abandonada.
– E que aconteceu a essas... pessoas? – perguntou Hawiya, horrorizada, imaginando o pior.
– Não foram liquidadas, se é nisso que estás a pensar – tranquilizou-a Zoun. – Mas talvez fosse melhor se tivessem sido. Abandoná-las àquela existência sem vida não faz muito sentido. Além disso, o insucesso desta experiência levou a que a opção da clonagem fosse algo repensada. Se é assim que são as novas pessoas, como podemos ter a certeza de que os clones não sofrerão o mesmo destino? Imagina uma pessoa igual a ti numa sala algures, eternamente imóvel...
– Para, para! – cortou bruscamente Hawiya, mas depois apercebeu-se de que aquele tom tinha sido grosseiro. – Desculpa, Zoun, é que...
– Sim, eu sei, Hawiya, não precisas de desculpar-te – tranquilizou-a Zoun. – Tantos estímulos e tantas novidades em tão pouco tempo: quem não estaria nervosa se estivesse no teu lugar? De qualquer forma, para encerrar o assunto das várias experiências, o principal é que todas falharam. Concluindo, só podemos seguir este caminho, o que significa que, para o Governo, é mesmo a última oportunidade e só te chantagearam porque temiam que pudesses descobrir o jogo delas. Precisam muito mais de ti do que estão dispostas a admitir.
– Mas porquê logo eu? – foi a pergunta óbvia de Hawiya.
– Em primeiro lugar porque, para os objetivos delas, tu estás realmente exposta à chantagem – respondeu Zoun. – E depois por causa do que recolheram das tuas conversas, sobretudo com Ezrat, para este projeto preferiam alguém que se conseguisse identificar-se até certo ponto com uma hominídea, pois essa pessoa terá de carregar uma no ventre. Mas, como eu dizia, não podem obrigar-te a fazê-lo e as ameaças delas são descaradamente infundadas. Podes simplesmente recusar e safar-te com uma pena leve.
– Admito que estou bastante assustada, mas... não sei, sinto que devia mesmo fazer isto – respondeu hesitantemente Hawiya.
– Sabes – disse Zoun com um sorriso –, estou um pouco invejosa. Até cheguei a pensar voluntariar-me no teu lugar, mas elas certamente não aceitariam. Foi-me pedido para gerir o projeto e esse género de ordens não está aberto a discussão. Talvez ponha o meu nome na lista de espera para a próxima vez.
– Essa é boa! – disse Hawiya em tom divertido. – Enquanto isso eu ando a brincar às cobaias, não é?
– Considera-te uma pioneira – respondeu Zoun, rindo-se. – Pode ser o teu passaporte para a fama!
– Claro, conhecida como aquela que trouxe os hominídeos de volta à vida, olha que belo serviço à humanidade – prosseguiu alegremente Hawiya, que depois acrescentou, mais séria: – Mas, se a fecundação for bem-sucedida, que fazemos depois?
– Dos documentos deixados pelos hominídeos – explicou Zoun – calculamos que a gestação demorava aproximadamente entre duzentos e cinquenta e trezentos dias. Se o teu caso não se afastar muito desta média, quando o período acabar, a criatura nascerá, tal como todos os descendentes dos mamíferos. Alternativamente, podemos considerar uma pequena operação para te extrair a criatura do corpo. Nada mais do que uma simples incisão, um procedimento de rotina como quando nos mudam o fígado.
– E durante todo esse tempo... – começou Hawiya a dizer com ceticismo.
– ... permanecerás no centro hospitalar, numa enfermaria especial inteiramente dedicada ao projeto – prosseguiu Zoun. – Só poderás sair de lá na companhia de uma enfermeira e com a minha autorização na qualidade de responsável pelo projeto. Quanto a nós, faremos tudo o que pudermos para tornar a tua estadia o mais agradável possível, ou pelo menos não muito aborrecida.
– Vou poder receber visitas? – perguntou Hawiya depois de pensar um pouco.
– Talvez, mas não fiques muito esperançada – respondeu Zoun. – Podes ter a certeza de que qualquer visita terá de ser aprovada pela Segurança, que não estará propriamente muito interessada em autorizar contatos com o exterior. É mais provável que a tua única companhia seja a equipa médica, as enfermeiras e eu própria.
– Estou a ver. Espero não me tornar um estorvo para todas! – retorquiu Hawiya com um suspiro.
– Não digas disparates, vai correr tudo bem – exclamou Zoun. – Mas não precisas de aceitar imediatamente. Porque não pensas nisto durante um ou dois dias? No que diz respeito à organização do projeto, não haverá diferença se começarmos depois de amanhã ou no dia seguinte.
– Não preciso de pensar – afirmou Hawiya. – Vamos a isto.