Impermanência
– Não continuas obcecada por esse assunto…
3.
– Não continuas obcecada por esse assunto dos hominídeos, pois não – perguntou Baxti, meio divertida, meio exasperada. As duas amigas estavam a conversar depois do jantar em casa de Hawiya. – Não consigo compreender como é que consegues interessar-te pela vida desses animais.
– Mas aí é que está – respondeu Hawiya, pensativa. – Sempre nos referimos a eles como “animais”, mas eram muito semelhantes a nós humanas. Temos assim tanta certeza de que eram animais?
– Que mais poderiam ter sido? Plantas? – Baxti riu-se com vontade, lembrando a Hawiya porque gostava tanto da amiga. Aquela alegria tão sincera e espontânea era enternecedora. Quase perdeu o fio à meada e, com o comentário subsequente, pareceu realmente avançar para outro assunto.
– Já te interrogaste sobre as nossas origens? – perguntou.
– Sim, eu antes morava em B143, em pleno centro e sei que, até há cerca de trinta ciclos, moraste num lugarejo perto de L652 – desta vez, Baxti desabou de lado no sofá, rindo-se descontroladamente da própria piada disparatada. Hawiya esforçou-se por permanecer séria, pois sempre achara contagiante a hilaridade da amiga, mas agora estava a pensar noutra coisa.
– Para de gozar! Estou a falar sobre a Questão das Origens! – prosseguiu Hawiya, tentando retomar a conversa.
– Ei, já percebi isso, OK? – retorquiu a amiga. – A Questão das Origens foi resolvida há muitos anos, se é que alguma vez houve tal questão. Quer dizer, isso das origens não tem fundamento. Nós sempre existimos. O espaço e o tempo são ao mesmo tempo fechados e ilimitados, e juntos constituem uma superfície de quatro dimensões que se fecha em si própria e é perfeitamente visível na quinta dimensão, parecendo perfeitamente definitiva e imutável para um ser de seis dimensões. Tal como nós, seres de quatro dimensões, podemos ver e definir facilmente uma superfície bidimensional fechada e ilimitada, como a superfície de uma esfera. Um ser bidimensional, imóvel e eterno sobre a esfera, não pode vê-la porque lhe falta uma dimensão (duas, na verdade), por isso chama “tempo” a uma das suas duas dimensões e à outra “espaço”, para tornar a sua física mais interessante. Interroga-se de onde vem, no espaço e no tempo, e não consegue compreender que na verdade não vem de lado nenhum: existe, ponto final. Connosco passa-se o mesmo: chamamos “tempo” a uma das nossas quatro dimensões e “espaço” às outras três, e não conseguimos apreciar uma realidade penta-dimensional. Mas basta fazer um pequeno esforço teórico para explicar tudo. A única coisa que ainda não consigo compreender muito bem é quantas dimensões existem, se o seu número é infinito e, em caso afirmativo, se um raciocínio semelhante pode ser aplicado ao número de dimensões em si, supondo que isso tenha alguma utilidade, embora tudo leve a crer que provavelmente não tenha. Mas todas as humanas o sabem, portanto, porque perguntas?
‒ Porque não acredito nisso. Para começar, de acordo com os registos oficiais, estamos na Terra porque o nosso planeta original tornou-se inóspito quando a estrela em torno da qual orbitava se aproximava do colapso. Mas não sabemos o seu nome, onde ficava ou se a estrela se transformou numa qualquer anã branca ou noutra coisa qualquer. Não achas isso estranho? ‒ Hawiya virou-se para a amiga com ar interrogativo. Baxti encolheu os ombros: já não era assim tão importante, parecia sugerir, já ninguém se interessava por história, havia muitos outros assuntos para cultivar que eram muito menos aborrecidos.
‒ Porque é que ninguém se lembra do planeta onde vivíamos antes? ‒ insistiu Hawiya.
‒ Porque nenhuma de nós está interessada ‒ respondeu a amiga com uma exasperação simulada. ‒ O nosso cérebro tem uma capacidade de armazenamento enorme, embora não infinita, e todas nós preferimos usá-la para outras coisas.
‒ Isso a mim não me parece plausível ‒ contestou Hawiya. ‒ Consigo compreender que o assunto possa não ser muito popular, mas como é possível que, de todas as centenas de milhões de pessoas no mundo, nem uma única esteja interessada em preservar a memória do último planeta em que vivemos antes de nos mudarmos para a Terra? Além disso, sabemos que mesmo a mais pequena transferência intergaláctica, mover, por exemplo, algumas centenas de pessoas, envolve um enorme investimento em energia e materiais. Como conseguimos mover um planeta inteiro? Onde encontrámos os recursos para tantos e tão grandes veículos? E o hidrogénio para o combustível? Vais dizer-me que os recursos do universo são praticamente ilimitados, mas então porque é que não os estamos a utilizar para explorar outros planetas? Não temos curiosidade? Há demasiadas perguntas.
‒ Fico contente por teres sido tu a dizê-lo – interpôs Baxti, lançando-lhe um olhar de soslaio. – Demasiadas perguntas, que não levam a lado nenhum. A nossa existência é demasiado confortável para que queiramos procurar complicações onde não as há. As tuas perguntas são grãos de areia numa engrenagem que funciona às mil maravilhas. Se soprares a areia, a engrenagem continuará a girar – no entanto, Baxti parecia mais empenhada em convencer-se a si própria do que em convencer a amiga.
– Então e os hominídeos? – insistiu novamente Hawiya, voltando ao ponto de partida.
– Que queres que te diga – respondeu Baxti. – Foram responsáveis pela própria extinção, quem sabe há quantos milhares de ciclos solares, ao tornar este planeta inabitável, um estado que persistiu longo tempo depois do seu desaparecimento. A economia deles baseava-se em combustíveis fósseis, o que mostra como eram imprudentes e primitivos, muito mais parecidos com os animais do que com as humanas. Pouco a pouco, envenenaram o ar, tornando a vida no planeta impossível para si e para muitas outras espécies, algumas das quais foram extintas mesmo antes dos hominídeos. Depois de terem desaparecido, a Terra reparou gradualmente os danos que sofreu, a habitabilidade foi restaurada relativamente depressa e, passado algum tempo, chegámos nós.
– Isso é outra coisa que acho difícil de engolir – disse Hawiya. – Parece-me que os hominídeos não eram assim tão primitivos. Conseguiam expressar-se e comunicar, embora de forma grosseira e rudimentar, e provaram que conseguiam dar algum sentido à sua sociedade, apesar da tendência ocasional que tinham de se atacarem até que uma das duas partes destruísse a outra, ou a segunda se rendesse, submetendo-se à autoridade da primeira.
– Pois, estás a ver? – interrompeu Baxti. – Talvez se tenham aniquilado reciprocamente durante uma dessas... como é que é que se chamavam? Esqueci-me da palavra.
– Guerras – respondeu Hawiya. – Era assim que lhes chamavam. Não sei, é possível, mas através do estudo da história antiga, fiquei com a ideia de que não eram animais, pelo menos não inteiramente. Podemos encontrar muitas afinidades entre a sociedade deles e a nossa.
– Sim, e também com a das formigas! Vivem em grandes cidades como nós, não é? – perguntou Baxti, rindo-se. – No entanto, não deixam de ser animais. Podes encontrar todas as afinidades que quiseres, mas prevalece uma distinção fundamental: enquanto nós somos permanentes, todos os animais deixam de funcionar mais cedo ou mais tarde e têm de continuar a produzir cópias de si próprios se desejam evitar a extinção da sua espécie. Aqueles pobres hominídeos tinham uma vida muito curta, poucas dezenas de milhares de dias no máximo, e estavam constantemente atarefados a tentar reproduzir-se, a sua existência miserável girava em torno dessa necessidade. Sem mencionar as complicações que tiveram que enfrentar devido à diferenciação entre os sexos. Ainda bem que somos permanentes e, acima de tudo, que não precisemos de suportar a presença do outro sexo! Os hominídeos masculinos eram irracionais, violentos e belicosos, e a sociedade não podia durar nas mãos desses selvagens, nem poderia evoluir para além do estágio primário em que viviam. Na verdade, acabaram por autodestruir-se.
– Sim, claro. Pelo menos, é o que às vezes vemos nos filmes de ficção científica. No entanto, nos últimos dias, não fiz nada a não ser interrogar-me se a extinção deles aconteceu como sempre pensámos – um véu de tristeza desceu sobre as feições de Hawiya.
– Então, não fiques a matutar nisso. Não suporto ver-te tão melancólica. Vamos falar de coisas mais divertidas – incitou Baxti, erguendo-se e sentando-se na borda do sofá.
– Tens razão, provavelmente estou a deixar-me levar demasiado por esta história – admitiu Hawiya, pousando a mão na mão de Baxti.