Impermanência
Algum tempo depois, enquanto percorria o caminho…
4.
Algum tempo depois, enquanto percorria o caminho que conduzia ao átrio principal da empresa, Baxti vislumbrou, através das grandes portas de vidro, um grupo de colegas envolvidas numa animada discussão à frente do quadro de avisos.
– Olá, Luxoq, que se passa? – perguntou à colega de departamento logo que a viu.
– Novidades importantes, mas não lhes chamaria boas – respondeu Luxoq. – A empresa está a passar por uma reorganização, fundindo alguns departamentos. Vamos passar a fazer parte da produção, ao passo que o departamento comercial vai ser absorvido pela administração. Por enquanto, apenas a armazenagem e a logística permanecerão inalterados, o que não significa que não venham a sofrer o mesmo destino, mais cedo ou mais tarde.
– Bem, que surpresa! – exclamou Baxti. – Os negócios não pareciam estar a correr assim tão mal. Pelo contrário, de acordo com o departamento comercial, o volume de negócios está em alta. Na verdade, talvez até tenhas reparado que se vêm cada vez menos modelos da concorrência por aí. Portanto, porquê estas medidas tão drásticas?
– O comunicado da administração não dá grandes explicações, fala apenas de “reestruturação orgânica”, o que pode significar tudo ou nada – respondeu Luxoq, pensativa. – Julgo que deve ter algo que ver com as faltas repetidas dos últimos tempos. Não consigo pensar em nenhuma outra explicação plausível.
– Talvez tenhas razão. De fato, nos últimos vinte a trinta dias tivemos que estar em todo o lado, a tapar os buracos deixados por uma colega ou outra – disse Baxti, tentando vislumbrar os comunicados por cima das cabeças das colegas. – Diz aqui que receberemos instruções precisas das nossas respetivas chefes de departamento. Bem, só nos resta ir para o laboratório e esperar que a Rhowe nos diga como havemos de fazer. Pressinto que vai ser um período bastante caótico.
– Sim – suspirou Luxoq, juntando-se a Baxti a caminho do laboratório. – Anda, vamos descobrir o que para aí vem, assim não ficamos para aqui na expetativa.
* * *
Conforme o previsto, os dias seguintes no departamento científico foram quase completamente ocupados com atividades relacionadas com a reorganização da empresa, começando pela mudança de boa parte das ferramentas para uma grande sala no rés-do-chão, anteriormente ocupada pelas linhas de produção dos veículos e agora propositadamente desocupada. Baxti e Luxoq, juntamente com a chefe de departamento e a única colega “científica” restante, assumiram pacientemente a responsabilidade de transferir toda a maquinaria delicada, assim como os computadores e os arquivos, uma operação que demorou três dias inteiros.
Em seguida veio a fase da reciclagem. No âmbito da nova organização, foi pedido ao pessoal do departamento científico que fizesse turnos de três dias no departamento de produção de quinze em quinze dias. Antes disso, claro, precisavam de fazer um curso de atualização sobre a utilização da maquinaria e sobre a gestão da cadeia de produção, dividindo mais cinco dias ao meio entre as suas tarefas normais e a preparação para as novas funções.
Depois, tiveram obviamente de adaptar-se a um novo cronograma, a novas colegas, à necessidade de interromper o trabalho num projeto e retomá-lo quatro dias depois, etc. Foi, de fato, um período difícil para todas as envolvidas. Baxti encontrava-se ocasionalmente com Hawiya, que por sua vez estava atarefada com a fusão entre o departamento comercial e a administração, com o treino das novas colegas nos procedimentos seguidos no seu departamento e com a redistribuição de zonas de competência entre as comerciais, depois de duas delas terem sido chamadas novamente para se ocuparem de tarefas internas, e assim por diante.
Às vezes avistava Hawiya na companhia de uma colega que nunca tinha visto, possivelmente uma ex-comercial. Também as viu sair do trabalho juntas, uma tarde no final do período de transição da empresa.
– Ei, Hawiya! – Baxti chamou a amiga, que estava a aproximar-se do portão com a nova colega.
– Olá, Baxti! Tudo bem? – Hawiya virou-se e saudou-a com um sorriso. – Não nos temos vimos muito nos últimos tempos, andamos todas tão ocupadas com outras coisas. Mas parece que o pior já passou, só temos de adaptar-nos às nossas novas tarefas e ao novo ritmo de trabalho. Como estão a correr as coisas no teu departamento?
– É mais ou menos o mesmo – respondeu Baxti. – Hoje foi o meu terceiro dia inteiro na produção e estou de rastos. Felizmente, amanhã de amanhã volto ao laboratório e fico lá alguns dias seguidos. Vamos acabar por habituar-nos, mais cedo ou mais tarde, penso que não vai ser assim tão difícil.
– É verdade, apresento-te a Ezrat – acrescentou Hawiya, apontando a colega com a cabeça.
– Muito prazer, chamo-me Baxti.
– O prazer é todo meu – respondeu Ezrat, apertando-lhe a mão com cordialidade. – Agora tenho de despedir-me, o meu autocarro deve estar quase a chegar.
– Até logo – disse Baxti a Ezrat. – É uma das comerciais que agora estão a realizar tarefas internas? – perguntou a Hawiya quando a colega se foi embora.
– Não, Ezrat é nova – respondeu Hawiya. – Nova na empresa e também nesta zona. Mudou-se para aqui perto há pouco tempo; antes disso julgo que morava em F552. Foi destacada para dar entrada de pedidos e geri-los. Ainda bem, precisávamos mesmo de sangue novo, já estávamos nas últimas.
– Parecem dar-se bem – acrescentou Baxti. – Estás ocupada amanhã à noite? Queres ir jantar a minha casa?
– Amanhã? Hum... acho que não posso – respondeu hesitantemente Hawiya – já tenho uma coisa combinada.
– Ah, não faz mal. Bem, diverte-te. Fica para a próxima. Até logo – retorquiu Baxti, dirigindo-se ao parque de estacionamento. Os olhos de Hawiya seguiram-na. Parecia um pouco irritada, ou seria apenas uma impressão?