Impermanência

Daniel Frisano · Capítulo 4 de 8

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Impermanência

Hawiya dava-se realmente bem com Ezrat, talvez…

5.

 

Hawiya dava-se realmente bem com Ezrat, talvez sobretudo porque era a única que partilhava, pelo menos até certo ponto, a sua curiosidade pelo passado. Era sobre isso que as duas estavam a conversar no regresso a casa de Ezrat depois de terem ido jantar fora.

– Interessas-te mesmo pela história antiga, Ezrat? – perguntou Hawiya – Não é um assunto nada popular e também não é muito bem visto.

– Para ser franca, é uma paixão recente. Nem sei bem porquê, mas comecei a interrogar-me sobre o que aconteceu aos hominídeos – respondeu a amiga. – Quer dizer que todos sabemos que foram extintos, mas acho tão estranho que uma espécie pelo menos semicivilizada se tenha apagado assim, que se tenha entregado ao seu destino, aparentemente sem fazer o mais pequeno esforço para sobreviver.

– Agora estás mesmo a pedi-las! – retorquiu alegremente Hawiya. – Este é o meu assunto preferido e, quando começo a falar nisto, nunca mais me calo.

– Não me importo nada, antes pelo contrário – afirmou Ezrat. – Então, que descobriste até agora?

– Bem, como talvez saibas, os hominídeos – embora biologicamente muito semelhantes a nós e capazes de criar uma estrutura social organizada, provaram ter fortes tendências autodestrutivas, assim como convicções e obsessões inexplicáveis – explicou Hawiya.

– Estou a par das “guerras” deles, como lhes chamavam, e também da sua obsessão com um conceito que designavam por “dinheiro”, embora não compreenda exatamente o que era – comentou Ezrat.

– Ninguém compreende – retomou Hawiya. – Pode ter sido um mineral raro ou outra substância existente na natureza naquele tempo. De certeza que era um recurso escasso, porque, a partir das informações confusas e às vezes contraditórias que reunimos sobre os hominídeos, parece claro que lamentavam constantemente não ter o suficiente dessa substância e que não podiam viver sem ela. Parece que as guerras deles eram causadas em parte por essa necessidade, embora não possamos ter a certeza. Este assunto era certamente uma fonte de grande tensão na sociedade deles. Por mais estranho que possa parecer, outra fonte de tensão e uma possível causa das guerras pode ter sido a diferença da cor da pele. Atribuíam grande importância às tonalidades, o que muitas vezes era uma desculpa para conflitos. Tendiam a agrupar-se pela cor da pele e os grupos nem sempre se davam bem uns com os outros.

– Mas isso não faz sentido – interveio Ezrat. – Muitas espécies animais, e mesmo nós humanas, temos caraterísticas cromáticas diferentes ou raças diferentes. Porque é que isso haveria de ser uma fonte de ódio?

– Eu sei, não faz realmente sentido – admitiu Hawiya. – Mas, no fundo, não há muito material disponível sobre hominídeos que seja inteiramente fiável e não podemos acreditar em tudo. Às vezes suspeito que algumas informações podem ter sido editadas após a extinção para fazê-los parecer mais selvagens do que realmente eram, porque há aspetos da sua pseudocivilização que acho inexplicáveis. Por exemplo, há registos de guerras simuladas envolvendo a maioria da população nas quais quase ninguém foi morto e onde a violência foi reduzida ao mínimo. Dois miniexércitos com uniformes de cores diferentes eram escolhidos para se enfrentarem um ao outro num pequeno campo de batalha, de acordo com certas regras. No campo estavam presentes alguns juízes, encarregados de supervisionar o respeito por essas regras. No final da miniguerra era nomeado o vencedor, mas não me perguntes por que critério.

– E isso era suficiente para dar vazão aos instintos agressivos deles? – perguntou Ezrat.

– Parece que sim, até certo ponto. A maioria dos hominídeos, sobretudo os machos, observava essas miniguerras em pessoa ou remotamente – prosseguiu Hawiya. – Os hominídeos masculinos deixavam-se ficar tão absorvidos por tais atividades, violentas ou não, a ponto de se desinteressarem pelas fêmeas. Preocupadas com a conservação da espécie, as mulheres começaram a experimentar maneiras de produzir bebés sem homens, mas não tiveram muito sucesso.

– Na verdade, extinguiram-se todos – acrescentou Ezrat. – Por causa da segregação dos sexos ou porque queimavam constantemente enormes quantidades de recursos naturais, acabaram por tornar o planeta inabitável e, possivelmente, tornaram-se inférteis como resultado da poluição quase imparável. Ou então por causa dos seus instintos assassinos, ou talvez porque foram submersos ou intoxicadas pelos resíduos que continuaram a produzir em quantidades insustentáveis ou por uma combinação de todos esses fatores. Pelo menos temos conhecimento desta parte.

– Ainda não estou convencida – afirmou Hawiya. – Além de experimentarem novos métodos de reprodução, as fêmeas parecem ter descoberto uma maneira de prolongar as suas vidas, pelo menos para permanecerem férteis durante mais tempo e explorarem as poucas ocasiões de fecundação que lhes restavam.

– Suponho que sim, mas não faz muita diferença – concordou Ezrat, que dava realmente a impressão de saber mais do que dizia. – De acordo com as teorias mais credenciadas, a distância entre os dois sexos cresceu cada vez mais, até geograficamente, devido a migrações lentas, até que cada um se extinguiu sozinho. Talvez isso tenha ocorrido menos rapidamente para as fêmeas, se de fato vivessem mais tempo, porém, em qualquer caso, uma vez perdidas todas as possibilidades de reprodução, a espécie dos hominídeos, mais cedo ou mais tarde, atingiu o seu fim, acelerado pela utilização imprudente dos combustíveis e pela subsequente saturação do ar com os gases residuais, até ter-se tornado quase impossível viver ao ar livre e os forçou a habitar em cidades subterrâneas. Segregados entre si, com muito poucas oportunidades de interagir diretamente e sem nenhuma possibilidade razoável de reparar os danos causados ao planeta dentro de um período compatível com a duração da sua vida, a extinção foi inevitável.

– Então, passado algum tempo, quis o destino que aparecêssemos nós – acrescentou sarcasticamente Hawiya. – De um planeta de que ninguém se lembra, em veículos desconhecidos, dos quais não permanecem vestígios. Além disso, somos muito semelhantes aos hominídeos, tanto biologicamente como em termos de estrutura social. Até empregamos praticamente os mesmos termos para defini-los a eles e a nós mesmas, “hominídeos” e “humanas”. Não achas estas coincidências suspeitas?

– No fundo, não as considero coincidências – objetou Ezrat. – Os hominídeos eram o produto deste planeta, adaptaram-se biologicamente ao clima e às condições naturais. Se escolhemos a Terra como nossa nova casa é porque ela se adequa à nossa própria biologia, então é óbvio que devemos ser semelhantes aos hominídeos. Uma espécie de princípio antrópico transitivo, se quiseres. Se podemos, e realmente escolhermos, viver onde viviam, é precisamente porque somos semelhantes a eles.

– Mas repara, suponhamos que hominídeos femininos tiveram tanto sucesso em prolongar as suas vidas que se tornaram permanentes como nós? Suponhamos que conseguiram evitar a extinção da espécie? Porquê excluir essa possibilidade?

– Sabes muito bem que não foi isso que aconteceu! – argumentou Ezrat com uma risada um pouco forçada. – Se se tivessem tornado permanentes, ainda estariam algures no planeta. Diz lá, já alguma vez viste alguma? Onde é que estão?

– Em toda a parte – respondeu calmamente Hawiya. – Somos nós. Eu, tu, todas nós. Somos hominídeas evoluídas que descobriram a permanência há muitos ciclos solares.

– Não, não, não, de maneira nenhuma! – exclamou Ezrat. – Se assim fosse, então, porque não nos lembramos de ter sido hominídeas? Porque é que, pelo menos, não registámos as descobertas e os procedimentos que nos permitiram tornar permanentes?

– Em primeiro lugar, porque aconteceu num passado muito remoto e a nossa memória não consegue certamente chegar tão longe – prosseguiu Hawiya. – Mas, acima de tudo, porque preferimos esquecer, e renunciámos deliberadamente à preservação de documentação tangível. Se tiver sido assim que aconteceu, nem a transição nem o fato de se ter sido testemunha impotente da extinção dos hominídeos masculinos devem ter sido muito agradáveis. Além disso, se pensares bem no assunto, quem gostaria de recordar-se desse modo de vida, mesmo antes da sua extinção? Se éramos assim, reproduzimo-nos como fazem todos os outros mamíferos e, portanto...

– Para! – exclamou Ezrat. – Já chega. Não consigo conceber de maneira nenhuma que descendamos desses animais.

– Nós não descendemos deles – concluiu Hawiya. – Nós somos eles. Nós nascemos como hominídeos, crescemos como cresciam as crias deles e como crescem as crias dos animais. Depois, uma vez falhadas todas as tentativas de reprodução, evoluímos, ou pelo menos algumas de nós evoluíram, até nos tornarmos permanentes.

– Acho que vou deitar-me, é tarde e estou a ficar com dor de cabeça – disse bruscamente Ezrat. – Encontramo-nos amanhã na empresa?

– OK, mensagem recebida, vou deixar-te em paz – respondeu Hawiya com um suspiro.

Levantou-se, disse boa noite a Ezrat e saiu. Pronto, pensou a caminho de casa, mais uma pessoa que vai evitar-me como se eu tivesse peste. Mas talvez elas tenham razão. Estou a ficar alienada com isto da história antiga. Devia pura e simplesmente esquecer o assunto, como todas as outras – concentrar-me exclusivamente no trabalho, na televisão, no ginásio, nas compras, nas saídas e nos concertos no meu tempo de lazer – e não me interrogar tanto.

Naquela noite, Hawiya dormiu outra vez muito pouco.