Impermanência

Daniel Frisano · Capítulo 6 de 8

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Impermanência

Segunda Parte

7.

 

Hawiya foi despertada por pequenos movimentos do assento, que oscilou muito suavemente de início, depois com intensidade crescente. Uma hospedeira informou educadamente que não tardariam a chegar. Depois de o avião ter aterrado, foi acompanhada à escada. Ao fundo esperavam-na duas agentes da Segurança, uma das quais lhe fez sinal para que a acompanhasse e a outra seguiu na sua peugada. Falar era desnecessário. Na verdade, depois de sair de casa sentiu que quase perdera até a capacidade de pensar. Durante o trajeto até ao aeroporto, o silêncio tinha sido quase total, à sua volta e dentro de si, depois dormira toda a viagem e agora, mais uma vez, o silêncio prevalecia, à sua volta e dentro de si.

Enquanto o carro da Segurança percorria as amplas avenidas da capital, a mente de Hawiya começava gradualmente a funcionar de novo. Que horas seriam? O sol estava baixo, portanto podiam estar no início da manhã ou no final da tarde. Se calhar tinha sido presa – quer dizer, “convidada a acompanhá-las” – por volta da meia-noite. A viagem de carro até ao aeroporto demorava menos de uma hora e um voo comercial para a capital levava cinco ou seis horas, embora aquele voo especial deva ter sido um pouco mais rápido. Mais duas horas e meia por causa do fuso horário diferente: sim, devia ser final da tarde.

– Que horas são? Para onde vamos? – perguntou finalmente.

– Sete e oitenta e um – respondeu uma das agentes. – Vamos levá-la ao alojamento preparado para si. Estaremos lá antes das oito. Vai ser acompanhada ao seu quarto e terá tempo para refrescar-se. Tem uma entrevista às oito e setenta e cinco com a presidente e algumas funcionárias. A partir das oito e sessenta, duas agentes esperá-la-ão à porta do seu alojamento. Fica a menos de cinco minutos a pé da sala de reuniões onde a entrevista será realizada.

A presidente? A presidente de quê? – estava prestes a perguntar Hawiya, mas depois conteve-se. Não pediu mais informações e nenhuma lhe foi voluntariamente fornecida.

O alojamento estava imaculado e, como fora prometido, continha tudo aquilo de que precisava, incluindo roupa em abundância. Tomou um duche, mudou de roupa e seguiu as duas agentes da Segurança, que a conduziram a um edifício de aparência anónima, cercado por caminhos e jardins impecavelmente cuidados.

Subiram ao primeiro andar e foi escoltada até à sala de espera. Poucos minutos depois foi convidada a segui-las até ao final de um corredor. As trocas verbais foram reduzidas ao mínimo. As agentes da Seguranças abriram a porta e indicaram-lhe uma cadeira diante de uma grande mesa oval.

Já estavam cinco pessoas sentadas à mesa. Ao centro estava nem mais nem menos do que a Presidente do Governo, à sua direita estava a Diretora da Segurança, Suwun-IV, que frequentemente aparecia nos noticiários e nos comunicados do Governo. Ao seu lado, na extremidade esquerda do semicírculo, estava Ezrat, aparentemente absorta numa pilha de documentos que tinha à sua frente. A Presidente parecia descontraída. Usava um vestido em tons de amarelo ocre, mais vivo e colorido do que aqueles que normalmente exibia, pelo menos quando era vista nos noticiários. Será que se vestia sempre assim quando não estava frente às câmaras? Ou tinha escolhido deliberadamente aquelas tonalidades para alegrar uma atmosfera que de outra forma seria completamente sombria?

A Diretora Suwun e Ezrat usavam as fardas cinzento-esverdeadas habituais das agentes da Segurança, uma quarta pessoa estava anonimamente vestida em tons desmaiados de cinzento e castanho e uma quinta usava uma espécie de farda branca debruada a azul. Nenhuma das mulheres sorria. Hawiya continuava a interrogar-se sobre a identidade das duas desconhecidas. Só podiam ser VIP, dadas as circunstâncias. Fosse como fosse, de nada adiantava matar o cérebro, provavelmente não tardaria a descobrir quem eram e o que queriam dela.

A Presidente falou primeiro. – Obrigada por ter vindo, Cidadã Hawiya-MT.

Obrigada um raio, como se eu tivesse outra escolha. Como se pudesse ter ficado lá fora deitada na relva a cheirar margaridas! Hawiya quase rebentou a rir ao imaginar aquela cena enquanto algumas daquelas que eram possivelmente as pessoas mais poderosas do mundo esperavam impacientemente que se dignasse a aparecer. Por um momento pensou, com alguma nostalgia, nos tempos em que conseguia dar-se ao luxo de passar umas poucas horas numa doce ociosidade, em todos aqueles belos dias tranquilos antes de todo aquele absurdo ter começado, e perguntou a si própria se... bolas, eu para aqui a pensar nestas parvoíces enquanto a Presidente continua a falar! Boa, agora perdi o início do discurso dela!

– ... de Medicina, a doutora Zoun-LH – dizia a Presidente, indicando a pessoa vestida de branco sentada à direita. Tinha obviamente acabado de apresentar as participantes e obviamente que Hawiya, absorvida nos seus pensamentos, tinha perdido tudo. Bem, pelo menos uma delas tinha algo que ver com medicina, nem todos pertenciam à Segurança ou ao Governo. Devia ser diretora de uma instituição importante, ou talvez uma consultora do Governo para questões médicas. Até podia ser a própria Diretora do Departamento de Saúde.

– Diretora Suwun-IV, pode tomar a palavra – concluiu a Presidente.

– Os documentos em nossa posse contêm a lista dos seus acessos à Biblioteca Central de História nos últimos cento e dezanove dias – começou a dizer a Diretora da Segurança, apontando para a pilha de papéis à frente de Ezrat. – A lista fornece pormenorizadamente os títulos dos documentos consultados e descarregados, e a análise ao seu computador confirma o acesso repetido a determinadas seções e permitiu ver as notas que a Hawiya tirou. Ao examinar esses dados com a ajuda das nossas especialistas do Departamento de Psicologia, podemos formar uma ideia bastante precisa das suas atividades e reconstruir os seus percursos mentais de forma extremamente fiel.

– Desculpe, Diretora, mas não consigo ver mal nenhum em nada disso – replicou Hawiya num tom talvez mais severo do que o que seria correto. A ideia de que pudessem ler-lhe a mente, reconstruindo simplesmente todos os documentos que abrira e todas as teclas em que carregara no computador de casa era desconcertante. No entanto, pensando melhor, nada poderia ser mais fácil e todas sabiam que os computadores privados enviavam continuamente informações à base de dados do Governo, mesmo que depois ninguém parecesse importar-se particularmente com essas informações. Afinal, quase ninguém cometia nenhum crime, nem sequer fazia nada particularmente embaraçoso. Num mundo que não tinha espaço para hábitos excessivamente extravagantes, não havia no fundo verdadeira privacidade. – A história antiga é, ou melhor, tornou-se recentemente, o meu passatempo, e o acesso e a Biblioteca é acessível ao público, não fiz...

– É verdade, isso não tem nada de mal – prosseguiu Suwun, levantando ligeira mas percetivelmente a voz para indicar que a interrupção de Hawiya não caíra muito bem. – Mas também não tem nada de bom. No fundo, a opinião pública considera que grande parte da história não passa de contos de fadas sem sentido. Aos olhos da cidadã comum, nem sequer é claro onde essa literatura estapafúrdia foi desencantada, que apenas preservamos porque, por estranho que pareça, é mais fantasiosa e emocionante do que o material que os modernos computadores escritores criam, além de ser um excelente material para ficção científica de terceira categoria e filmes ligeiros. Porém, se uma pessoa se embrenhar demasiadamente na história pode perder a capacidade de distinguir o real do ridículo, e ficar com ideias estranhas na cabeça.

Suwun interrompeu-se por um momento, sem tirar os olhos de Hawiya. As outras esperavam em silêncio, palpavelmente aliviadas por a Diretora continuar em posse da palavra, um sinal claro de que o assunto era incómodo.

– Como eu dizia, Cidadã Hawiya-MT, conseguimos reconstruir os seus processos mentais e reproduzir as ideias que teve com bastante precisão. Para ser franca, esse processo de reconstrução era supérfluo, pois bastavam as teorias bizarras que espalhou de forma descuidada aos quatro ventos e que podemos definir como...

Hawiya não conseguiu abster-se de lançar um olhar de relance a Ezrat, aparentemente ainda embrenhada nos seus documentos. Sentiu-se novamente traída e replicou a Suwun num tom ainda mais irritado e que bordejava perigosamente a irreverência. – E então? Quer dizer que não tenho liberdade para ter as minhas opiniões nem para expressá-las como e quando me apetece? É um dos direitos fundamentais da população, não é? Diga-me a senhora, já que é...

– Por favor, Cidadã Hawiya-MT – interveio a Presidente precisamente no momento certo, a voz com a modulação exata necessária a acalmar a crescente irritação de Hawiya. Apesar da indignação, Hawiya não podia deixar de admirar como aquela mulher, a autoridade suprema na Terra, era ao que parecia suficientemente humilde para dizer “por favor”, de modo a acalmá-la, em vez de impor-lhe silêncio, e ao mesmo tempo dar a impressão de que estava sempre no comando. Bem, devia haver um motivo para estar naquela posição. A impressão que dava de conseguir adotar a conduta mais adequada e de empregar as palavras e o tom de voz mais eficazes em qualquer situação era uma das qualidades que mantinham a Presidente no seu cargo.

– Desculpe, Presidente, não quis faltar ao respeito a ninguém – balbuciou Hawiya, esforçando-se ao máximo para olhar em frente. – É que me senti atacada no meu...

– Compreendo, mas acredite, não estamos a acusá-la de nada – prosseguiu a Presidente, com uma breve pausa que parecia propositada para dar a entender pelo menos por enquanto. – Asseguro-lhe que é do seu interesse deixar a Diretora Suwun-IV continuar. Verá que vai acabar por concordar comigo – desta vez, Hawiya limitou-se a assentir sem abrir a boca.

– ... estranhas, no mínimo – prosseguiu Suwun, ainda olhando fixamente para Hawiya e retomando exatamente o discurso onde o interrompera. Onde é que íamos? Ah, sim, a Diretora estava a falar das minhas ideias. – Normalmente, essas histórias rebuscadas caiem no vazio e esmorecem gradualmente, como merecem. Mas neste caso vingaram parcialmente, talvez favorecidas pela ansiedade geral causada pelos acontecimentos recentes. Num momento tão delicado, não podemos permitir-nos que tais rumores circulem, pois têm o potencial de desestabilizar a nossa estrutura social. É nosso dever proteger a população contra a mais pequena ameaça de infeção ideológica.

– Desculpe, mas se a história não passa de um absurdo, de material para filmes, como lhe chamou, que danos pode provocar? – interrompeu novamente Hawiya, incapaz, apesar da anterior intervenção da Presidente, de conter-se por mais tempo. Desta vez nem sequer estava irritada, apenas sinceramente surpreendida por as suas teorias poderem provocar tal reação. No fundo, não passava de uma gestora de nível médio, como tantas outras, numa empresa vulgar e numa cidade vulgar. Não era certamente uma opinion maker capaz de arrastar consigo massas enfurecidas. Mas a reação de Suwun deixou todas petrificadas. Até Ezrat ergueu a cabeça de repente.

– Porque não é um absurdo, sua idiota! – explodiu Suwun, tombando a cadeira ao levantar-se e batendo ruidosamente com as palmas das mãos no tampo da mesa. Quase berrou com Hawiya. Parecia prestes a subir para a mesa e saltar sobre ela, e nenhuma das presentes parecia capaz de detê-la ou mesmo inclinada a fazê-lo. Mas a fúria cessou escassos segundos depois; Suwun respirou fundo várias vezes, virou-se para erguer a cadeira tombada, endireitou-se e recuperou a compostura. Prosseguiu com a enunciação precisa habitual, embora as paredes ainda reverberassem com a explosão recente.

– Por mais estranhas que pareçam, as suas ideias têm sólidas bases históricas. Professora Jofshae-ER, queira continuar, por favor – convidou Suwun, fazendo sinal com a cabeça na direção da única participante ainda não identificada, sentada na extremidade direita do semicírculo. A mulher aproveitou sem demoras a oportunidade de intervir, evidentemente entusiasmada com a ideia de poder falar na presença de um público tão prestigiado e disposto a escutá-la com atenção. Uma especialista em história? – interrogou-se Hawiya.

– De acordo com a nossa reconstrução, somos realmente as hominídeas que conseguiram evitar a extinção, tal como você suspeitava – começou por afirmar Jofshae. – Extinção ou impermanência. Na verdade, os hominídeos chamavam-lhe “morte”. Obviamente que temos muitos dados a suportar esta teoria. A partir dos fósseis que encontrámos, conseguimos estabelecer que as hominídeas tentaram tornar-se permanentes, ou pelo menos prolongar a sua existência, implantando órgãos artificiais quando os seus próprios órgãos biológicos originais deixavam de funcionar. Vários restos mortais foram encontrados com corações ou pulmões artificiais, assim como com outros implantes sintéticos em partes menos vitais mas mais visíveis do corpo, presumivelmente destinados a despertar o interesse sexual nos hominídeos masculinos, então absorvidos em atividades não relacionadas com as fêmeas. Agora sabemos perfeitamente que a implantação de órgãos internos artificiais não produz resultados satisfatórios a longo prazo e que a única abordagem viável é a nossa: cultivar, aperfeiçoar e personalizar órgãos biológicos em laboratório e implantá-los depois durante as revisões regulares. A sua hipótese de migrações geográficas também estava correta, embora não tivessem certamente ocorrido êxodos em massa. Em vez disso houve mudanças lentas que ocorreram durante gerações inteiras, tendo sido depois concluídas mais à pressa quando a humanidade foi forçada a mudar-se para as cidades subterrâneas, depois de ter tornado o ar definitivamente irrespirável. Os dois sexos tinham cada vez menos em comum, a começar pela duração da vida, que aumentava cada vez mais para as fêmeas, permanecendo inalterada (e extremamente curta) para os machos. Não é muito claro o motivo de os machos mostraram tal falta de interesse, se não pela procriação, pelo menos em prolongar a sua existência. Seja como for, os machos ficaram cada vez mais isolados. Os poucos casais que ainda se reproduziam tenderam a gravitar espontaneamente em torno de um dos dois grupos, dependendo do sexo da sua prole, mas as procriações tornaram-se progressivamente menos frequentes. Pouco a pouco, cessaram completamente, os machos inevitavelmente extinguiram-se, e as fêmeas que tinham encontrado uma forma de se tornarem permanentes tornaram-se... nós. Com o passar do tempo aprendemos a reconverter a nossa economia com base em recursos energéticos completamente renováveis e não poluentes, continuámos a viver no subsolo, aguardando pacientemente que os mecanismos de autorreparação do planeta completassem o seu curso e depois voltámos lentamente à superfície. Uma vez restaurada a civilização, optámos por esquecer o nosso passado como hominídeas e acreditar em vez disso que viemos de outro planeta: uma convicção que mantivemos até hoje. Talvez seja uma conduta questionável do ponto de vista histórico, mas sem dúvida compreensível perante as circunstâncias. Todas estas informações foram primeiro deliberadamente postas de lado e depois voltaram muito lentamente a surgir, embora a sua difusão sempre tenha sido... hum... desencorajada pelos órgãos oficiais. Quanto ao tempo que passou desde a extinção dos últimos hominídeos masculinos, as estimativas mais confiáveis falam em algumas dezenas de...

– Como já terá percebido – interpôs Suwun, para evitar que o discurso descarrilasse –, o seu tiro no escuro atingiu em cheio um alvo que com facilidade podia explodir violentamente e destruir o equilíbrio de nossa civilização. Se passasse a ser do domínio público que descend... que somos hominídeas evoluídas, algumas pessoas começariam a perguntar-se se não seria preferível voltar a esses tempos e partilhar o planeta com o outro sexo. As mais imaginativas podiam até chegar ao ponto de acusar o Governo de ter provocado deliberadamente a extinção de hominídeos masculinos, ou pelo menos de os ter empurrado nessa direção. Não sou especialista em assuntos jurídicos, mas acredito que não deve ser muito difícil incriminá-la por atividades subversivas, pelo menos ao nível da negligência grave. Se puder ser provado que houve dolo, poderia até ser acusada de alta traição contra a humanidade, o que normalmente é punido com a pena máxima.

Instalou-se um silêncio de morte e a temperatura pareceu descer vários graus. Hawiya sentiu o sangue gelar. A julgar pelas expressões, as outras ficaram igualmente consternadas, apesar de quase certamente terem sabido de antemão qual seria a conclusão do discurso de Suwun. Até a voz da Diretora tinha falhado um pouco ao pronunciar aquelas palavras graves.

A pena máxima era o ostracismo absoluto, embora ninguém lhe chamasse assim. Das raras vezes que o ostracismo era referido, empregavam-se sempre eufemismos como “pena máxima”, “sentença definitiva” e outros. A pena resumia-se ao isolamento completo e permanente da sociedade, de qualquer atividade pública, comunicação ou interação humana. A condenada continuava a viver na própria casa e podia movimentar-se livremente, mas era vigiada quase sem cessar e não era permitido conversar ou manter qualquer outra forma de contato com outras humanas. Era obrigada a usar constantemente duas pulseiras de um laranja muito chamativo que indicavam claramente o seu estatuto e ninguém sonhava em trocar uma palavra que fosse com ela, em olhar-lhe sequer de relance para a cara ou em dar qualquer indicação de ter reparado na sua presença. Reservada àquelas que cometiam os piores crimes – sabotagem, incitamento a tumultos, alta traição –, esta pena era extremamente rara e tornava a vida insuportável. As poucas pessoas condenadas não tardavam a decidir voluntariamente nunca mais sair de casa. Em pouco tempo eram esquecidas e acabavam a viver num vazio infinito e total. Os únicos contatos que lhes eram permitidos eram os estritamente relacionados com os cuidados de saúde, a revisão periódica e a substituição de órgãos, e mesmo esses eram realizados sob a supervisão de alguma agente do Departamento de Segurança, para garantir que a interação humana fosse restringida ao mínimo. Tornavam-se não-seres.

Portanto, os seus piores receios tinham fundamento. Desta vez tinha metido a pata na poça e estava prestes a pagar por isso. Mas espera lá, se queriam incriminar-me, porque não o fizeram? Porquê toda esta farsa, esta reunião absurda? Acima de tudo, porquê perturbar tanta gente importante, inclusivamente a Presidente?

O silêncio gelado que descera após a terrível ameaça foi logo quebrado pela própria Presidente. – Cidadã Hawiya-MT, acredito que esteja consciente da gravidade da sua situação. A Diretora Suwun-IV foi clara e as suas palavras refletem exatamente o nosso ponto de vista. O crime que cometeu e as informações que divulgou descuidadamente poderiam ter consequências catastróficas sobre a disposição da população, já abalada pelos acontecimentos recentes. A única forma razoável de recuperar a nossa benevolência seria prestar à humanidade um serviço de tal valor que compensasse os potenciais danos causados.

Força, acaba lá com isto. Sabes perfeitamente que, no ponto em que as coisas estão, estou disposta a tudo, pensou Hawiya. Podiam ter-me dito isso imediatamente: é óbvio que não posso dar-me ao luxo de recusar.

– Felizmente para si, há uma saída – prosseguiu a Presidente. – De acordo com a Dra. Zoun-LH, você pode ajudar-nos a resolver o problema crítico que aflige a população mundial há algumas centenas de dias. Podemos ter encontrado uma solução possível: ninguém sabe ao certo se e como funcionará, nem quais as possíveis consequências, porém, na ausência de alternativas válidas, é o caminho que devemos seguir. Se isso não nos levar a lado nenhum, paciência, não ficaremos pior do que estamos agora. Tem a palavra, Dra. Zoun-LH.

A Presidente voltou-se para a especialista em medicina, ou o que quer que fosse aquela mulher, a única pessoa que ainda não falara. E, quando falou, não esteve com rodeios. – Tudo o que precisa de fazer é voluntariar-se para um determinado projeto, Cidadã Hawiya-MT.

Ao ouvir estas palavras, o primeiro pensamento de Hawiya foi que queriam usá-la como cobaia e arrastá-la por onde quer que se tivessem manifestado casos de impermanência, ou então que tinham isolado o vírus e queriam inoculá-la diretamente, e depois observar como a doença evoluía. Perguntou a si própria o que seria pior, aquilo ou o ostracismo absoluto. Este último era um pesadelo sem fim, mas ninguém sabia realmente o que era a impermanência. Como raio posso escolher? Em pânico, Hawiya disse de uma assentada: – Não sei, não tenho a certeza de querer fazê-lo, tenho medo, ninguém sabe como o vírus nos atinge, ou melhor, se existe realmente um vírus. E que acontecerá ao meu corpo? Se me tornar impermanente, que sentirei, e que acontecerá depois? Como vou recuperar a permanência? Talvez devêssemos primeiro...

– ... pare, pare, espere, Cidadã Hawiya-MT – interrompeu Zoun com um meio sorriso, quase divertida perante a candura daquela tirada. – Ninguém mencionou nenhum vírus e nem sequer temos a certeza de que esteja realmente envolvido um vírus. As causas desta impermanência ainda são desconhecidas, só temos conjeturas.

– Mas então eu estaria a voluntariar-me para... – começou a dizer Hawiya, detendo-se logo abruptamente ao compreender. Os acontecimentos recentes podiam conduzir a uma única conclusão lógica. Interrogou-se porque é que isso não lhe ocorrera antes e uma profunda e intensa sensação de calor surgiu dentro dela, uma onda de medo, esperança, espanto e maravilha. E de sabedoria antiga.

– Sabes exatamente para quê – cortou secamente Ezrat, pondo de lado os documentos que fingira estar a consultar. – Precisamos de alguém e tu és adequada.

Sim, ela tem razão, sei exatamente para que vou voluntariar-me, pensou Hawiya.