Impermanência

Daniel Frisano · Capítulo 5 de 8

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Impermanência

Por falar em concertos, estava programado um…

6.

 

Por falar em concertos, estava programado um festival de música para alguns dias mais tarde e Ezrat convidou Hawiya para acompanhá-la. A amiga tinha aceitado de bom grado. No escritório, o ritmo de trabalho era novamente mais aceitável, as novas competências tinham sido assimiladas, a frequência das folgas voltou ao normal, e todas ficaram satisfeitas por se poderem permitir uns momentos de lazer.

Hawiya tentara falar com Baxti por telefone, mas a amiga tinha-se mostrado fria e evasiva, e recusara-se a sair com ela. Deve estar só um pouco stressada, pensou Hawiya, tem sido um período difícil para todas nós.

Os concertos realizavam-se de dia, num grande parque, e à noite seguia-se mais entretenimento, exposições e tomavam-se bebidas no interior. Hawiya conversava com Ezrat antes de uma bebida quente quando viu Baxti a avançar por entre algumas mesas próximas.

– Ei, Baxti! Estamos aqui! – gritou, acenando com o braço. – Não te vi no concerto. Mas... há algum problema? – acrescentou, notando a estranha expressão da amiga.

– Sim, receio que haja – respondeu Baxti sentando-se junto delas. – Quis vir com a Luxoq, mas ela ligou-me esta manhã, muito perturbada: não tinha vontade de sair e, depois do que me contou, eu também não fiquei com muita. Sobretudo depois de termos voltado a falar mais tarde. Acabei por obrigar-me a vir, pelo menos para apanhar um pouco de ar puro e para me distrair um bocado.

– Disseste que a Luxoq estava perturbada? Aconteceu alguma coisa desagradável? – perguntou Hawiya, alarmada.

– Acho que “desagradável” é um eufemismo – respondeu Baxti. – Seja como for, a ideia era a Luxoq ir hoje de manhã buscar a amiga, a Akshoyya – acho que a conheces –, e depois ir buscar-me, para virmos juntas para cá.

– E então? – perguntou Hawiya sem fazer a mais pequena ideia do que estava para vir.

– Ouçam, vou repetir o que ouvi da boca de Luxoq, que estava tão agitada que mal conseguia falar. Chegou a casa da Akshoyya esta manhã, tocou várias vezes à campainha e não obteve resposta. Então tentou telefonar-lhe: nada, o telemóvel estava desligado. Luxoq tinha as chaves, elas são muito chegadas, por isso acabou por decidir entrar. Akshoyya estava na cama, petrificada, sem vida. Luxoq chamou imediatamente uma ambulância e, enquanto esperava, ligou o computador de Akshoyya para ver quando tinha sido a última vez que a amiga tinha feito uma cópia dos dados cerebrais...

– Mas não se deve tocar em nada! – interveio Hawiya, rompendo o silêncio após a hesitação da amiga. – Isso deve ser feito exclusivamente pelo pessoal clínico e pelas autoridades.

– Na verdade, a Luxoq arrependeu-se imediatamente do que tinha feito, sobretudo porque não havia vestígios de quaisquer dados no computador. Estava vazio, a memória tinha sido completamente apagada. E, agora, a Luxoq tem medo de a poderem culpar.

– Não me parece que corra qualquer perigo – afirmou Ezrat, que ainda não abrira a boca. – Se a Luxoq não mexeu no computador, pode facilmente prova-lo. Está tudo registado na sede provincial, não é? Será fácil localizar a origem da falha.

– Claro, mas isso ainda não foi nada – disse em seguida Baxti, respirando fundo para ganhar coragem. – A ambulância acabou por chegar e levou a Akshoyya ao hospital para os procedimentos de recuperação previstos nos casos muito raros em que uma de nós é encontrada sem vida. Sabem, os que são periodicamente ensinados nos cursos de atualização, ou seja, a reparação ou a substituição dos órgãos defeituosos que tenham provocado a situação, e a reconstrução do mapa cerebral completo a partir da última cópia dos dados guardados no computador de casa ou no provincial. A Luxoq foi para o hospital por iniciativa própria, para saber notícias da Akshoyya e, passado algum tempo, informaram-na... de que não era possível ressuscita-la. Não havia nenhuma cópia dos dados cerebrais dela, nem sequer na sede provincial.

– Mas isso nunca aconteceu! – exclamou Hawiya. – Pelo menos, não consigo lembrar-me de alguma vez ter ouvido nada desse género. Imaginem esquecermo-nos de depositar a nossa cópia periódica na memória da sede provincial: estávamos completamente tramadas! Essas cópias são constantemente monitorizadas quanto à integridade e até fazem uma cópia suplementar, como medida de segurança redundante adicional, embora na verdade nunca sejam utilizadas, porque os casos de pessoas descobertas sem vida ou cujo corpo está totalmente destruído são extremamente raros. E nesses poucos casos, basta-lhes uma cópia do computador de casa, nem precisam de recorrer ao provincial. Mas... quais são as últimas novidades?

– A médica que falou com a Luxoq não tinha mais informações – respondeu Baxti – Ainda deve haver a cópia que o Governo central armazena para todas nós, mas não creio que esteja imediatamente acessível, e a equipa hospitalar não soube ou não quis dar nenhuma informação à Luxoq. Pelo contrário, a Luxoq acabou até por ter de responder às perguntas bastante incisivas da Segurança. Ligou-me há algumas horas, enquanto esperava para ser interrogada, e não soube mais nada dela desde então. Acho que vou para casa tentar ligar-lhe mais uma vez.

– Queres que vamos contigo? – ofereceu-se Ezrat.

– Não, obrigada, não se incomodem, vou sozinha – respondeu Baxti, levantando-se.

Baxti acabou por concordar em deixar Hawiya acompanhá-la, enquanto Ezrat regressou sozinha a casa. Durante a viagem, as duas amigas falaram muito pouco e as suas conjeturas sobre o que podia ter acontecido a Akshoyya chegaram inevitavelmente a um beco sem saída. Acima de tudo, nenhuma delas tinha coragem para expressar a terrível suspeita de que as inesperadas e repetidas faltas registadas nas últimas semanas podiam ser atribuídas a casos semelhantes. Hawiya ofereceu-se para passar a noite em casa de Baxti para fazer-lhe companhia, mas a amiga insistiu que preferia estar sozinha, por isso, Hawiya apanhou um táxi e chegou a casa muito depois de escurecer.

* * *

Só tinha chegado a casa há poucos minutos quando a campainha tocou. A esta hora?

– Quem é? – perguntou Hawiya por detrás da porta.

– Sou eu, a Ezrat. Temos de conversar – ouviu responderem do outro lado. A voz era realmente de Ezrat, mas parecia diferente.

– É importante? É bastante tarde e estava prestes a ir deitar-me – protestou Hawiya.

– É, senão não teria vindo incomodar-te. Podes abrir a porta? Está bastante frio aqui fora – prosseguiu a voz diferente de Ezrat. Quando Hawiya abriu a porta foi confrontada por Ezrat e uma pessoa fardada.

– Esta é a agente Ojren-SD, da Segurança. E eu sou oficialmente a Tenente Ezrat-KQ. Agora que já fomos devidamente apresentadas, podemos entrar? – perguntou Ezrat.

– Quer dizer que tu és... mas então... c-claro – balbuciou Hawiya. – Entrem, por favor. Mas não compreendo... é por causa da... vai demorar?

– É melhor sentarmo-nos – prosseguiu Ezrat, que tomou novamente a palavra quando já estavam sentadas na sala de estar. Enquanto Ezrat explicava o motivo da sua presença, Hawiya ouvia, cada vez mais confusa. – Vou tentar ser breve e ir direta ao assunto. Como poderás ou não ter concluído, os casos recentes de pessoas desaparecidas são quase todos semelhantes aos que a Luxoq nos descreveu hoje. Na verdade, todos são praticamente idênticos. Uma pessoa é encontrada sem vida e é impossível recuperar os seus dados, mesmo através dos servidores globais. E, apesar de o Governo estar a investigar o assunto há algum tempo, ainda não surgiu nenhuma explicação ou solução. Escusado será dizer que nenhum esforço foi poupado na tentativa de encontrar uma solução. Por motivos sobre os quais não quero alongar-me, o Governo acredita que tu, Hawiya, poderias ajudar a resolver o assunto e enviou-me para convencer-te a ajudá-las.

– Eu? E como é que acham que eu poderia... – interveio Hawiya, atónita, deixando a frase inacabada.

– As minhas informações são limitadas, mas o teu possível contributo tem que ver com o teu interesse pela história antiga, de que me falaste extensivamente – explicou Ezrat.

– Quer dizer que... que este tempo todo tens estado a representar para ganhar a minha confiança! – exclamou Hawiya com raiva. – Eu disse-te tudo e tu encorajaste-me. Deixei-me levar... que estúpida que fui!

– O Governo age no interesse da população, e em certos casos pode solicitar o contributo de uma civil considerada adequada – prosseguiu Ezrat, imperturbável. – Agora és considerada adequada e convido-te vivamente a acompanhar-me à capital para as entrevistas relevantes.

– Por outras palavras, estão a prender-me – disse Hawiya, deslocando o olhar de Ezrat para a agente, que tinha permanecido sentada, imóvel e com uma expressão indecifrável durante toda a conversa.

– Não estamos a prender-te – respondeu Ezrat. – Apenas as pessoas que cometem um crime são presas e esse não é o caso. Eu disse “convidada” a acompanhar-nos. Não és obrigada a fazê-lo, embora eu pessoalmente te aconselhe a aceitar.

– E se eu recusar? – perguntou Hawiya com um toque de orgulho.

– Se recusares, vamo-nos embora – retorquiu Ezrat, cujo tom era tudo menos tranquilizador. – Mas fica ciente de que foste indefinidamente suspensa do teu trabalho. E tenho a certeza de que reparaste que nos últimos tempos já não és tão popular junto das tuas colegas e amigas.

Era verdade. Recentemente apercebera-se não de uma hostilidade aberta, mas de um distanciamento claro, e não apenas na amizade com Baxti, mas nas relações sociais em geral. Não tinha dado muita importância a isso, ocupada como estava com as novas tarefas no trabalho, e atribuiu principalmente essa atitude ao período stressante que todas estavam a atravessar. Baxti pode ter ficado com ciúmes da nova amizade (falsa) com Ezrat, mas Hawiya não ficara excessivamente preocupada. Baxti era temperamental e às vezes um pouco lunática, mas acabava por passar-lhe.

Mas, naquele ponto, que lhe restava? Um círculo social em que deixara de ser bem-vinda e Ezrat encontraria sem dúvida maneiras de piorar as coisas. Uma pessoa não se metia com o Governo. E, no fundo, Ezrat era apenas uma agente de patente média: escusado será dizer que, se os pesos pesados da Segurança entrassem em cena, seriam ainda mais persuasivos. Meditou em silêncio durante alguns minutos, talvez um quarto de hora, enquanto as outras não mostravam sinais de impaciência ou de tensão, nem a exortavam a dar uma resposta. Era evidente que tinham sido treinadas para manter a calma ao lidar com tais situações.

– Não estão a obrigar-me, mas não estão a dar-me muita escolha – concluiu por fim Hawiya com um suspiro. – Querem que vá convosco à capital, não é? Bem, quando partiríamos?

– Imediatamente, se quiser – respondeu prontamente a agente Ojren, falando pela primeira vez. Muito astutas. Ezrat concluíra com sucesso a pretensa “persuasão”, agora cabia à subordinada tratar dos pormenores práticos.

Imediatamente? Hawiya fechou os olhos. Sim, talvez seja o melhor a fazer. Que outra escolha me resta? Mudar-me para uma nova cidade, começar tudo de novo com um novo emprego e um novo círculo de amigas? Não, não me deixariam. E passaria a ver espias em toda a parte. Que nova vida seria essa? Ou então ficar aqui e esperar que tudo volte ao que era antes? Ainda mais improvável.

– Posso tomar um duche? Fazer uma mala? – acabou por perguntar, dirigindo-se a Ojren.

– Pode demorar o tempo que quiser a refrescar-se – respondeu a agente. – Quanto à bagagem, pode trazer o que quiser, mas na verdade não é necessário. Receberá tudo o que precisa, incluindo roupa ao seu gosto. Esperamos lá fora, no carro. Depois levamo-la ao aeroporto e, a partir daí, vamos diretamente para a capital.

Nem sequer lhe deram um limite de tempo para arranjar-se: meia hora, uma hora, nada. Esperariam no carro, durante horas, um dia inteiro ou mais. Haveria sempre alguma lá fora à espera no carro – era assim que o Governo agia. Hawiya levantou-se e acompanhou-as à saída. Entregou-se a um longo duche fumegante e depois preparou um saco de viagem com alguma roupa e o habitual conjunto de viagem. Acabou por deixar tudo no quarto, saindo sem nada, nem sequer o telemóvel.

Quando estava a poucos passos do carro da Segurança, a agente saiu e abriu-lhe a porta. Hawiya sentou-se, o carro arrancou e ninguém abriu a boca até chegarem ao aeroporto. Não era necessário. O silêncio foi quebrado apenas por Ezrat, que minutos antes de chegarem ao destino, alertou as guardas pelo rádio. Tendo passado um rápido controlo visual num portão de entrada, estacionaram ao lado de um avião que estava pronto a partir.

Hawiya embarcou, seguiu as instruções da tripulação, sentou-se, fechou os olhos e adormeceu profundamente. Nem sequer sentiu a descolagem.