Lisboa no Ano Três Mil

Cândido de Figueiredo · Capítulo 9 de 12

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Lisboa no Ano Três Mil

Carta VIII

 

A Feira da Ladra. — Fac-símile de uma gazeta. — O artigo de

«fundo». — O noticiário. — O anúncio.

 

Mestre. — Referi-me anteriormente, e de passagem, ao célebre mercado, a Feira da Ladra, onde se me havia deparado o busto de Garrett, de envolta com fragmentos de estatuetas e utensílios da velha cerâmica.

Consultei as memórias de Reliquiano, para, de alguma forma, ajuizares o que era a Feira, e encontrei, dispersos por várias crónicas, excertos de uma apologia, atribuída a um fabulista do século XIX, O’Neill.

Aproximando e reunindo esses excertos, parece-me que terei pintado a Feira, sem urgência de paleta.

Era isto a Feira:

Aqui a imagem, venerada outrora

Por milagrosa…

......................................................

Ali, retratos, que os avós preclaros

A netos imbecis mal recordavam.

......................................................

Além, bojudo calhamaço insulso,

Obra de frade, forjador de petas.

......................................................

Mais longe vejo colossais volumes:

São leis, decretos, alvarás, Diários. ......................................................

Vejo novelas mil, por fora imundas,

Mais imundas por dentro, traduzidas

Em chulo português de francês chocho.

......................................................

Colecções de jornais… ai, os meus pecados!

Em que eu ia falar; cala-te boca!

.....................................Agora vejo

Arcas de pinho dos boçais galegos

......................................................

Mais longe está o batalhão cerrado

De quanto já calçou pés delicados,

Desformes patas, um museu completo!

......................................................

Armas não faltam, mais ou menos virgens.

......................................................

 

Ocioso é dizer que, de todo esse pandemónio, só restam, para o visitante e para o explorador, fragmentos de estatuetas e loiças, tachos de ferro, bacias de arame, chaves e fechaduras, ferraduras e arreios, e outros objectos de metal. Entre estes, deparou-se-me uma lâmina, que tenho estudado com muita curiosidade, porque equivale a um largo e minucioso capítulo da história portugalense.

É uma inscrição, gravada em cobre, e que constituía certamente uma vistosa tabuleta, para decorar a frontaria de uma casa de redacção.

A inscrição abrange três divisões: duas laterais e uma central; aquelas são o fac-símile da primeira e a segunda página da Opinião da Arcada, diário político, noticioso e industrial; e a parte central reza assim, em grandes caracteres:

 

NESTA CASA SE FUNDOU

EM 1895

A OPINIÃO DA ARCADA,

A MAIOR E A MAIS POPULAR GAZETA

DAS REGIÕES OCIDENTAIS.

TIRAGEM 365.000 EXEMPLARES.

REDACTOR — CÉSAR FERNANDES,

1895.

 

O fac-símile da segunda página representa a parte anunciatória do jornal, donde se infere que a terceira e a quarta página seriam analogias àquela; e o fac-símile da primeira exibe o título do jornal, o nome do redactor e da Empresa, e numerosos assuntos, distribuídos por 15 colunas.

Politicamente, vê-se que a Opinião da Arcada estava sempre na oposição, porque, falando sempre mal de tudo e de todos, é que adquiriu a mais a extraordinária popularidade e o maior prestígio no ânimo de todos os governos.

No primeiro artigo do fac-símile, há cruezas deste calibre:

 

— «Desengane-se o governo: enquanto não restituir à fazenda os dez mil e quinhentos

contos que roubou aos contribuintes e distribuiu pelo compadre Nunes e pelo afilhado Lopes, havemos de dizer bem alto que o ministério é uma quadrilha de ladrões, e havemos de esgotar todos os nossos tinteiros, cobrindo de negra ignomínia a lama em que os miseráveis se a atolam.»

 

Mais adiante, a pena do noticiarista conta-nos:

 

— «Veio hoje ao nosso escritório Josefa Simeoa, uma galante rapariga de 18 anos,

padeira, queixar-se de que o seu namorado, num momento de despeito, a ferira com uma tesoira na coxa esquerda.

Vimos o ferimento: é um golpe de 2 centímetros de comprimento e 1 de profundidade.

Compungia-nos o contraste do sangue com a alvura da pele, que é de uma macieza veludínea. A coxa direita estava perfeitamente incólume. O sangue havia espirrado para a fímbria da camisa, maculando-a. As meias, que eram de finíssimo algodão, não ofereciam nada de notável. Fomos ver depois o instrumento do crime: é uma tesoira pequena e barata, tendo ainda numa das folhas uma nodoazinha de sangue. Pedimos todo o rigor da lei para o criminoso, e sentimos o desgosto da pobre Simeoa, que é realmente de uma condescendência amabilíssima, e de uma formosura tentadora.» —

 

A Opinião fornecia aos seus 365.000 leitores, de todos os sexos e de todas as idades, minuciosas informações sobre os factos ainda os mais insignificantes. Parece que a vida particular deixara de existir, porque entrava no domínio público tudo o que hoje consideramos íntimo, e defeso à curiosidade pública. No fac-símile da primeira página lê-se, por exemplo:

 

— «Quando ontem subíamos ao 5.º andar do prédio n.º 229 da Rua do Conselheiro

Aoaoci, aonde íamos levar as nossas consolações a uma pobre menina que chegou da província e ainda não tem colocação, percebemos que havia altercação entre os habitantes do 4.º andar; e, na nossa qualidade de repórter da Opinião, foi-nos facultada a entrada, e percebemos então que o sr. major reformado Silvestre Silvano discutia com sua esposa o orçamento doméstico. Toda a razão estava do lado do sr. major, porque já tinha empenhado a cama por 4$000 réis, não vestia camisa lavada há 15 dias, não tinha sapatos para sair à rua, e negava-se a empenhar a espada, para que a esposa fosse ver os elefantes do circo.»

 

Em assuntos industriais, cito-te apenas um exemplo. Em discussão com um colega, dizia a Opinião:

 

— «Acusa-nos a Voz da Baixa de que deixámos de agredir violentamente a nova

Companhia do Guano, desde que a direcção desta companhia nos brindou com duas mil acções beneficiárias. Não tem de que acusar-nos: a companhia procedeu nobremente, esquecendo nocivos ressentimentos, para ter ao seu lado um defensor convicto; e nós convencemo-nos afinal de que é dever de todos auxiliar qualquer indústria destinada a fomentar a riqueza pública.» —

 

A parte anunciatória da Opinião oferece curiosidades, que o nosso critério estranha hoje, mas que eram factos vulgaríssimos da vida portuguesa.

Um anúncio:

— «Barnabé Catão da Silva, director-geral dos descaminhos e contrabandos, prontifica-

se, por módico preço, a obter o lugar do tesoireiro das décimas para quem tenha boa forma de letra e conheça as quatro operações, satisfazendo o mais que se combinar.» —

 

Outro:

 

— «O lavrador do casal das Pintas, que dispõe de 4 votos e possui os melhores porcos

do Alentejo, dará 3 contos em dinheiro ao sr. deputado ou a qualquer influente, que lhe consiga o título de marquês das ditas Pintas.» —

 

Outro ainda, em caracteres maiores, no alto da coluna 12.ª:

 

— «Previne-se o sr. ministro das justiças de que, se não nomeia Miguel dos Anjos para

o lugar de escrivão dos órfãos, publicaremos integralmente a cartinha desencaminhada que o ministro escreveu à sr.ª condessa dos Açudes, e na qual ele prometia tratar imediatamente de se divorciar da sua mulher, para consagrar o resto dos seus dias à encantadora condessa.» —

 

Mais ainda:

 

— «Meu bem. Teu pai opõe-se, mas vamos vencer tudo. Está pois combinado: amanhã,

às 2 da madrugada um trem há-de parar à tua porta. Não te digo mais. Como seremos felizes!» —

 

Ainda outro:

 

— «Uma senhora muito decente, de 21 anos, e possuidora de todas as prendas, oferece-

se para governante de homem só, solteiro, novo, que esteja em boa posição e dê boas abonações. Carta a P. P.»

 

Não tenho espaço para reproduzir todo o fac-símile, nem vale a pena. Isto, meu grande amigo, não é o fac-símile de um jornal, é o fac-símile de uma época, e por isso o recomendo aos teus estudos de filosofia da história.

Os demais objectos, que observei nas ruínas da Feira da Ladra, pouco interessam à arqueologia. Há entretanto uns restos de portão, de ferro fundido, conservando sobrepostos um tinteiro, um livro e uma ave nocturna, tudo do mesmo metal. Provavelmente são vestígios dos tempos simbólicos. Vou estudar o assunto, e ainda te escreverei, antes do solstício do Verão.