Lisboa no Ano Três Mil
Carta IV
A estátua de José Estevão. — Como se fabricavam legisladores. —
Caixeiros e titulares. — O telónio da «Arcada». — Os escaninhos da
burocracia. — Cretinos e bongas. — História dos concursos.
Caríssimo. — Visitei demoradamente as ruínas de São Bento, que ficam a meio de uma encosta, quase a cavaleiro da margem, donde partia a velha ponte, de que já te falei.
O monumento, que primeiro se me deparou, foi uma estátua de bronze, derruída e meio coberta de sedimentos argilosos. A estátua representa José Estevão, um legislador eloquente, que floresceu no século XIX, no tempo em que os homens públicos ainda tinham convicções, sacrificando-se por elas, e falando sinceramente dos interesses da pátria.
José Estevão, a julgar pelo que se escreveu nessas eras, possuía a ingenuidade das crianças e dos homens de bem, a coragem dos apóstolos convictos, e aquela eloquência inexcedível, que não tem nada com a arte, e tudo com a alma, com a inspiração, e com a grandeza dos ideais, que fazem acurvar todos os espíritos sãos.
A alma portuguesa ainda vibrava um pouco, sob as ondulações mágicas daquela voz privilegiada, que, se a morte a não gelara, poderia salvar um país condenado…
Foi merecida a estátua, bem vês. Mas se José Estevão fora vivo quarenta anos depois, a sua voz ardente e nobilíssima cairia friamente no tímpano dos legisladores; e, os que não dormitassem, teriam para o discurso um bocejo e um comentário reles: — Cantigas! —
É que a política foi-se transformando com os anos. Por fim, não se compreendia que houvesse eloquência parlamentar, quando o orador não tivesse o necessário vigor para fazer voar em estilhas uma bancada de legisladores, ou o desplante suficiente para cuspir na cara do presidente da assembleia; e o verdadeiro político seria aquele que mais afortunadamente se afanasse no bom arranjo da sua pessoa e dos seus afins.
Os legisladores, na sua maioria, eram eleitos indirectamente pelos governos, a quem impendia o redigir as leis, que eram da responsabilidade dos eleitos. Conseguintemente, os predicados de um legislador eram de uma simplicidade extraordinária; e assim, a par de um ou outro erudito, de um ou outro publicista, o diploma de legislador era emprestado graciosamente a caixeiros de balcão, recoveiros, arrais e cabos-de-esquadra. Verdade é que, a pouco trecho, os cabos eram generais, os arrais eram almirantes, os recoveiros eram banqueiros, e os caixeiros eram marqueses. Não se discutia o ponto de partida; a questão era subir e chegar. Aceitavam-se os factos, e, segundo o consenso geral, harmonizavam-se perfeitamente com a índole da democracia. A única dificuldade era evitar que, ao mezinheiro convertido em alta potência, não se desse nome que recordasse as mezinhas.
Para obviar a dificuldade, criaram-se expedientes vários. Ao mezinheiro, por exemplo, impunha-se oficialmente a crisma de — conde de qualquer coisa ilustre. Um Santos, bacalhoeiro, passava a chamar-se conselheiro Dias Santos. Domingos houve, que foram comendadores, quando na organização predial já não havia comendas nem feudos. A um Semana, que curava flatos e erguia a espinhela, chamou-se doutor Semana; e até os meses serviram para baptizar as grandezas anónimas, dizendo-se geralmente: o director Janeiro, o inspector Fevereiro, o pescador Maio.
Uma vez guindadas aos intermúndios da prosápia social e burocrática, as nulidades da véspera davam-se particularmente a longos ensaios para falar de papo, e varriam da memória todos os seus conhecidos, desde conselheiro para baixo. Barbeadas, erectas, solenes, à semelhança de Momos mascarados de Júpiter, eram inacessíveis à humanidade do seu bairro e aos peões da sua antiga igualha; e quando se dignavam de palmilhar o asfalto da cidade, os candidatos a escriturários e os pacóvios de todos os matizes abriam alas respeitosas, murmurando com reverência.
— Sr. comendador…
— Sr. conselheiro…
— Sr. marquês…
E o marquês, e o conselheiro, e comendador, aprumavam mais a espinha, aproximavam da aba do chapéu o dedo indicador, e orientavam-se para a Arcada.
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A Arcada era a bolsa pública, em que se cotavam as celebridades daqueles tempos. O prólogo das crises políticas, dos sindicatos, e da comédia da alta vida e da alta finança, representava-se na Arcada. O cavalo de bronze, que o reconhecimento público ergueu à memória de Pombal, assistia impassível ao falario dos grupos; as majestades momentâneas subiam às secretarias, e as ondas do Tejo espreguiçavam-se na lama…
E o Semana, e o Domingos, e o Dias Santos, e o Fevereiro, e o Maio, e o Natividade, e o Cebola, devidamente crismados com títulos vistosos, e transformados agora em árbitros da coisa pública, guiavam arteiramente as suas combinações pelos escaninhos burocráticos, em que se baralhavam os memoriais e as alpacas, num jogo complicado de trunfos, biscas, tolice e patronato. O jogador, que melhor conhecesse as cartas e contasse com algum mérito próprio, como o Maio, era degredado para as regiões da retórica, ou para o país dos ingénuos, e o bolo era repartido pelos afilhados dos jogadores mais felizes, mais ineptos e de consciência mais elástica.
Os Fevereiros e os Natividades davam-se as mãos, para atravancar a passagem e o acesso a todos os importunos que valessem alguma coisa e pudessem sombreá-los.
E assim, aqueles que um cego acaso, ou um braço de mulher, ou os esforços inconscientes do prefeito de um burgo, elevavam às eminências sociais, desvelavam-se tenazmente em rodear-se de cretinos, que os não excedessem na craveira intelectual, e que lhes garantissem o predomínio de um bonga em aringa de cafres.
Tal garantia e tais intuitos eram, uma vez ou outra, contrariados por uma formalidade legal, a que se dava o nome de concursos. Uma vez ou outra, e não em geral. Em geral, sucedia uma de duas: ou o ministro despachava in petto, previamente, o sobrinho, o cunhado, ou o afilhado, e nessa hipótese o resultado do concurso era indiferente para a nomeação definitiva; ou a nomeação dependia da classificação superior, e os candidatos analfabetos tinham ao lado, por trás de um reposteiro, um espírito santo de alpaca, que os convertia momentaneamente em Mezzofantes e Picos de Mirandola, infundindo-lhes o saber preciso para discorrerem de omni scibili e desbancarem os enciclopedistas do século XVIII.
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Entre os livros do Reliquiano, há uma interessante monografia, A História dos Concursos em Portugal, e não resisto à tentação de te referir
alguns dos seus episódios mais edificantes. 3
Podes rir-te à vontade, porque ninguém hoje sente os lastimosos efeitos dos episódios que leste. É essa uma das grandes vantagens da história: podermos assistir, em espírito, ao desmoronar das sociedades, sem que venha ferir-nos o ouvido o tripúdio dos impenitentes e as imprecações das vítimas.
E tudo isto a propósito de uma estátua! Mas é que realmente, enquanto se não adiantarem mais as minhas explorações, os assuntos escasseiam-me, e vou discorrendo ao acaso, familiarmente, como quando conversamos juntos, nas naves da Universidade Central.
Parece que em Lisboa abundavam as estátuas. Pelo menos, um dos meus operários já me anuncia o aparecimento de outra, na orla do Tejo, à beira talvez da antiga Avenida Marginal. Não a vi ainda, mas, segundo as indicações de Reliquiano, deve ser a de um guerreiro ilustre, que tinha por nome Bandeira.
Vou vê-la. Até breve.