Lisboa no Ano Três Mil
Dedicatória
Ao notável historiador, poeta, romancista,
dramaturgo,
jurisconsulto e heróico militar,
O SENHOR GENERAL
D. VICENTE RIVA PALÁCIO
ministro plenipotenciário
dos Estados Unidos Mexicanos
em Portugal e Espanha.
Em demonstração de homenagem, reconhecimento e respeitoso afecto
of.
Cândido de Figueiredo
PREFÁCIO
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Hipnotismo. — Ruínas da Europa. — O omnipotente russo Ivan LIV.
— A civilização na Austrália. — A «Biblioteca Universal» de Sydney.
— A prodigiosa obra de um sábio futuro. — Da Austrália ao Tejo.
Quando o doutor Das anunciou ao público lisbonense várias cenas de hipnotização, tive desde logo um vivo sentimento de curiosidade. A vida sugestiva pode realmente exibir os mais extraordinários cambiantes, os mais fantásticos panoramas, os lances mais belos e os mais terríveis.
Aproximando-me do hipnotizador, senti ao mesmo tempo o medo e a atracção do abismo, a ânsia do incognoscível, a sede de revelações sobrenaturais, e manifestei-lhe receosamente o desejo de uma experiência. O doutor anuiu, mas eu pedi a palavra para uma questão prévia, como se diz em São Bento, e parolei-lhe assim:
— Senhor conde. Nasci montanhês, criei-me entre as serranias da Beira, bebi nas mesmas fontes onde se dessedentaram os heróis que vingaram a afronta de Galba e fizeram rosto ao cônsul Serviliano… (E a este propósito ingeri-lhe no tímpano toda a história de Viriato.) O grande caso, senhor conde, é que o sentimento da independência e da liberdade radicou-se em mim a tal ponto, que me horrorizam instintivamente as caprichosas e arbitrárias sugestões de Vossa Excelência — não consentirei jamais que a minha consciência seja estranha aos meus actos; e, antes de hipnotizar-me, pretendo que Vossa Excelência se obrigue a não me sugerir palavras ou actos que não tenham a minha aprovação prévia. —
Concordou o doutor com as minhas reflexões, e pediu-me que indicasse a sugestão.
Neste ponto, desdobraram-se diante de mim os planos mais deslumbrantes. Que diria eu? que deveria eu fazer durante o sono hipnótico?
Ocorreu-me uma grande e legítima ambição: viver no futuro; guindar-me ao vértice das civilizações vindoiras, e estirar a vista por todo o passado, abrangendo num lance de olhos todas as sociedades extintas e todo o quadro ingente dos progressos humanos. Devia ser um momento assombroso.
Mas este plano, segundo o que me observou o doutor, era de execução dificílima. Para ler toda a história do futuro, seria mister um sono hipnótico de muitos meses ou de muitos anos, e à dificuldade acresceria o perigo.
Tive que modificar a minha ambição:
— Visto que em poucas horas não é possível fazer a revista dos séculos, como se faz a revista do ano para os teatros de terceira ordem, desejo, senhor conde, que por duas ou três horas a sugestão me transporte ao ano Três Mil, e que me coloque no ponto mais civilizado do mundo de então, podendo eu saber se ainda haverá memória do meu país e o que dele se pensa.
— Far-se-á o que deseja, — rematou o hipnotizador. —
E, sem pronunciar uma palavra mais, sentou-se defronte de mim, tocando nos meus joelhos com os dele. Abriu as mãos e espalmou-mas nas regiões temporais, obrigando-me a fixar os olhos no seu olhar, vivo, penetrante e ao mesmo tempo imóvel.
Senti percorrer-me o corpo uma languidez estranha, e adormeci profundamente.
Pelo que eu soube depois, o hipnotizador ordenou-me que fosse sentar-me junto de uma mesa e que, tomando uma pena, descrevesse tudo o que visse.
*
Conservo, e conservarei, quanto escrevi durante o sono hipnótico; e é à vista desse escrito que posso contar hoje a assombrosa excursão que fiz, durante algumas horas, pelo mundo do futuro.
Num dado momento, esvaeceram-se-me todas as memórias do presente, perdi a consciência da minha primitiva personalidade, e achei-me dentro de
um grande veículo aéreo, — um balão do ano Três Mil 1, — em companhia de muitos milhares de passageiros, que falavam todos a mesma língua, o volapuque, e descemos na Austrália, um pouco acima do lago Torrens.
A Austrália era então a nação mais civilizada do mundo.
Extraordinários cataclismos geológicos e grandes convulsões sociais haviam transformado enormemente os velhos continentes. Grandes arquipélagos, muito celebrados nas histórias antigas, haviam desaparecido, submergidos pelo oceano. Em compensação, uma infinidade de ilhas madrepóricas, desconhecidas hoje, disseminavam-se alegremente pelo Pacífico, opulentas de vida e de vegetação.
A Europa e a Ásia, como duas cortesãs decadentes, atestavam a inanidade das grandezas humanas; e tudo o que escapara aos cataclismos naturais e sociais constituía um feudo enorme, que reconhecia por seu único chefe Sua Omnipotência Russa. Esta omnipotência intitulava-se Ivan LIV, e residia guardado por ursos brancos, nas ruínas do Kremlin.
O movimento, a vida, o progresso, concentrava-se todo na Austrália, tendo esta por dependências a África ao poente, e a leste as duas Américas.
Desde a Carpentária à Tasmânia, e desde o cabo Biron ao cabo Cuvier, numa extensão de mais de sete milhões de quilómetros quadrados, era tudo uma cidade enorme, repleta de gente laboriosa, sadia e alegre. Os antigos desertos Vitória e Gibson estavam agora cobertos de fábricas, aquários, jardins, bibliotecas e palácios. As águas do Brisbane e do Murrei, desviadas por grandes canais, iam abastecer aqueles bairros. Mas os bairros mais opulentos e magnificentes eram Sydney, Melbourne, Adelaide e Perth.
Grandes aleias de acácias, cedros, palmeiras, laranjeiras e eucaliptos, sombreavam as praças mais amplas daqueles bairros.
A agricultura decaíra, porque a alimentação humana estava reduzida a um simples elixir, de que bastava tomar uma gota diariamente, e cuja invenção era atribuída pelos antiquários a Tâner e a Succi, que viveram, um na Europa, e outro na América, pouco antes do século XX.
Não havia caminhos-de-ferro nem navegação a vapor: as viagens e os transportes faziam-se por meio de rápidos veículos aéreos, que numa hora cruzavam todo o Pacífico, desde Sydney até à Califórnia. O Dragão, em que eu descera na Austrália, fora imediatamente fretado por dois noivos, que iam passar a lua-de-mel, pairando alguns meses sobre as Filipinas e os estreitos da Malásia.
A governação pública era de uma simplicidade extraordinária. Conheciam-se dois poderes do Estado, — o legislativo e o executivo, que residiam essencialmente numa corporação única, uma espécie de senado eleito, de funções vitalícias, excepto no caso raríssimo de nepotismo ou concussão.
Os delegados do senado eram, sob a responsabilidade deste, os executores especiais da lei, dentro de todo o falanstério, e das suas dependências. Esquecia-me dizer que esta originalíssima nacionalidade se denominava falanstério, em homenagem a um filósofo humanitário, Fourier, que vivera no século XIX, segundo afirmavam os cronicões australianos.
Os delegados do senado, mal comparados, eram como os nossos governadores civis. Tinham a seu cargo a execução das leis na sua respectiva área, correspondiam-se com o senado pelo teléfono, e eram os únicos candidatos à dignidade senatorial.
O que mais vivamente me atraiu a vista e a atenção foi um imenso farol eléctrico, tão alto, e tão monstruosamente grande, que do centro da Austrália iluminava todas as costas do continente! Falta só dizer que esse farol era apenas o zimbório do mais majestoso e extraordinário edifício de toda a Austrália, — a Biblioteca Universal.
*
Exteriormente, a Biblioteca era um imenso palácio de coral, de forma quadrangular, com dois quilómetros de diâmetro, e cem portas, rasgadas em toda a altura do edifício e constantemente abertas. Os intervalos das portas compreendiam interiormente a biblioteca propriamente dita. Mas livros propriamente ditos, não os havia: eram enormes rolos de papel, dispostos e empilhados, como nos nossos estabelecimentos de papel para forrar casas.
Cada um destes rolos tinha um número de ordem, correspondente ao número que cada obra tinha no catálogo. Catálogo era uma maneira de dizer. Lá não havia catálogos como os nossos: em cada repartimento, isto é, em cada intervalo das portas, estendia-se, a toda a altura, um grande listão de metal branco, exibindo, em grandes letras doiradas, os números e os títulos das obras contidas no respectivo repartimento.
Não obstante a aparente justaposição dos rolos, qualquer deles podia sair dos seus lugares, sem se alterar a posição dos demais. O visitante, ou o estudioso, consultava o listão-catálogo, e, tocando no botão de um aparelho eléctrico, fazia descer a obra que procurava: o rolo poisava numa grande mesa, onde se desenrolava, depressa ou devagar, segundo a pressão que o leitor exercesse no botão do aparelho. O aparelho estava em comunicação com uma lâmina metálica, à volta da qual se enrolava a obra, e com outra lâmina que correspondia à margem oposta.
Como é natural, entre as duas margens mediava maior ou menor extensão, segundo as dimensões da obra. Havia obra que daria um quilómetro: mas, ao ler-se, a lâmina exterior ia dobrando sobre si a parte lida; e, quando se chegava ao fim da primeira página, a lâmina interior, que então se descobria, realizava a operação da outra lâmina, para que se lesse a segunda e última página.
Nem escadas, nem contínuos, nem cadeiras. Lia-se, escrevia-se de pé, a toda a altura do peito, porque a ciência e a higiene assim o prescreviam.
Em vez do contínuo, e junto de cada repartimento, permanecia um sábio, que tinha o encargo de explicar, durante duas horas em cada dia, as doutrinas científicas, artísticas ou literárias, contidas nas obras que lhe estavam ao lado.
Os sábios da biblioteca constituíam o corpo universitário; e, pelas naves do edifício agrupavam-se os mais engenhosos maquinismos, maravilhas práticas da indústria, das ciências e das artes, poderosos auxiliares do ensino universitário. Este ensino, embora graduado, compreendia todos os ramos de conhecimentos humanos, desde a instrução elementar até à mecânica celeste.
Todas as obras da biblioteca, originais umas e traduzidas outras, estavam escritas no idioma universal, o volapuque, que todos podiam ler e entender. Procurei o listão-catálogo, que tinha por título geral Viagens, e tive tentações de ler o n.º 98.765, porque eram as Digressões no Extremo Ocidente, pelo sábio Terramarique.
Toquei no botão eléctrico, e, momentos depois, devorava com avidez uma obra curiosíssima, em forma de cartas. Era nada menos que a descrição geográfica, histórica, sociológica e etnográfica das extremas regiões ocidentais, de que se conservava uma vaga reminiscência, como das lendas que ouvimos na meninice.
Terramarique saíra do Queensland, no seu balão de recreio, com uma numerosa comitiva de operários e estudantes, ao quinto dia da vigésima lua do ano 2995, e demorara-se algum tempo na Anatólia e na Sibéria, realizando escavações e investigações interessantíssimas. Aproximara-se do Báltico, para obter de Sua Omnipotência Russa a permissão de visitar as ruínas ocidentais, desde o Reno até Gibraltar e achava-se à beira do Tejo, no primeiro equinócio do ano 3000.
Sobretudo as cartas que ele data das ruínas portugalenses excitaram em mim o maior interesse e a mais natural surpresa. E, como escrevi quanto pude ver e ler até que o doutor Das me despertou cruelmente para os tristes esplendores da actualidade, não posso esquivar-me a tornar públicas algumas dessas cartas.
Não obstante a seriedade e a imparcialidade do sábio australiano, há por vezes nas suas palavras uma franqueza tão rude a nosso respeito, que, pelo menos por agora, não reproduzirei o que mais possa ferir as susceptibilidades nacionais. Se eu fizer a edição definitiva das cartas, resolverei se devo ou não manter a prudente reserva de agora.
E, dito isto, vou ceder a palavra a Terramarique.
Cândido de Figueiredo
Lisboa
no Ano Três Mil
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Digressões no Extremo Ocidente:
Cartas de Terramarique ao sábio Policosmo
da Universidade Central da Austrália