Lisboa no Ano Três Mil
Carta V
Sá da bandeira. — Bifes de moiro. — Os guerreiros: o soldado; o alferes. — Os ideais portugueses. — A reforma, a aposentação, o
sindicato, a sorte grande. — O sabre municipal. — Pé de alferes. — O
uniforme, sua influência social.
Querido mestre. — Efectivamente, a estátua, de que te falei, representa um guerreiro, que se apelidava Bandeira, e que era marquês, e Sá, e outras coisas, mas que, sob outro aspecto, era menos que qualquer homem, porque tinha apenas um braço. O outro, perdera-o combatendo por o que ele supunha a liberdade da pátria, e teve a fortuna de morrer, antes de perdida a gratíssima ilusão.
Teve guerreiros esforçados este pequeno país. Conta-se até que o seu emancipador Afonso não se alimentava senão com bifes de moiro, magistralmente cozinhados em Santarém e Lisboa. Outro chefe português, quando já se não caçava um moiro ou um judeu para assar nos brasidos da Inquisição, sentiu a nostalgia do acepipe, e atirou consigo para as terras da Moirama, morrendo de uma indigestão em Alcácer-Quibir.
Quando se convenceram da impossibilidade de perpetuar a iguaria, os portugueses molharam a sopa em sangue de espanhóis e franceses, e por fim lançaram-se uns contra os outros, porque a religião dizia a estes — mata! — e a liberdade dizia àqueles — esfola!
Havia porém larguíssimos intervalos, em que os guerreiros, cansados de esfolar e matar, faziam exposição gratuita da sua pessoa, da sua espada e do seu uniforme, por todos os ângulos do país, como para atestar que não se havia extinguido a raça mavórcia daqueles que comiam bifes de moiro.
Exposição gratuita… não disse bem. Os guerreiros, em tempo de paz, eram largamente estipendiados, e o estipêndio sobrevivia ao uniforme, porque a reforma garantia a subsistência, e dispensava os serviços da exposição.
Como consequência, o ideal de 2.250.000 portugueses era a reforma, como a aposentação era o ideal de outros 2.250.000; havia também 2.250.000 que tinham por ideal o sindicato; e o ideal dos restantes era a sorte grande.
Somados todos estes ideais, cifravam-se em: viver sem trabalhar. Os que atingiam convertiam-se em sátrapas, que dormiam desde a madrugada ao lusco-fusco, para se absorverem nos mistérios da noite, e defrontarem os seus diamantes com o brilho das estrelas do céu e da terra. Os que o não atingiam, eram novos Prometeus, que, amarrados ao destino, sentiam devorar-lhes as entranhas um abutre invisível e implacável.
Entretanto, não se pode dizer que a reforma fosse o ideal exclusivo de todos os guerreiros em férias. Pelo menos, havia entre eles duas categorias, o soldado e o alferes, que de outra forma repartiam os seus cuidados.
Notarei de passagem que eram variadíssimas as categorias militares, e mais ou menos numerosas, segundo a elevação do posto: nos princípios do século XX, o exército português era composto de duas bocas de fogo, 50 soldados, 100 sargentos, 200 alferes, 400 tenentes, 800 capitães, 1.600 majores, 3.200 tenentes-coronéis, 6.400 coronéis, 12.800 generais de brigada.
De todas as categorias, as mais características eram as de soldado e alferes.
O soldado era a tentação viva, ou, como se dizia então, o ai Jesus das vendedeiras ambulantes e das servas de cozinha. Havia moça, que sentia um prazer inefável, ao correr as mãos pela bainha de um sabre municipal; e o guerreiro, ao contemplar-lhe as mãos, manchadas do fogão e tresandando a refugo de cebola, sentia as visões do ópio e julgava aspirar o mais inebriante perfume oriental.
Desde que, ao fim de uma rua, vermelhejava um uniforme de soldado, havia rebate nas cozinhas e refeitórios: dezenas de cabeças, no desalinho da ansiedade, assomavam às janelas e às trapeiras, e muitos olhos convergiam instintivamente no mesmo ponto, ilaqueando o guerreiro numa rede interminável de aventuras. Ao mesmo tempo, a sopa esturrava-se na panela, o gato saboreava o guisado e provava as costeletas, e a dona da casa perguntava ao seu cristal de Veneza se já não teriam demora os pés de galinha. E o guerreiro, triunfante e feliz, contava, à noite, na tarimba, ao 29 da 5.ª, a história dos seus feitos e conquistas, que deixavam a perder de vista as proezas do Albuquerque terríbil e do Castro forte. Meses depois, a imprensa linguareira noticiava que em vários saguões e becos, e até em barris de lixo, apareceram vários recém-nascidos, de procedência misteriosa.
Mas o alferes não se confundia com os guerreiros da ínfima escala. Embora não exercesse menor prestígio, só excepcionalmente tomava a cozinha por campo de batalha: as suas vistas mediam todos os andares dos prédios burgueses; a sua estratégia abrangia os passeios públicos; nos seus planos entravam essencialmente os templos, os teatros e as praias.
Conhecia-se em tudo o alferes; até no andar. Fazer pé de alferes era o predicado mais gentil dos moços esperançosos. Não permitiam as leis a poligamia nem a poliandria; mas a multiplicidade de amoricos num peito de alferes era a primeira e mais inevitável das condecorações de um guerreiro.
Era desmedido o domínio de cada alferes. Verdadeiro senhor feudal da burguesia feminina, os pais de família olhavam-nos de soslaio, as tias viajavam as fechaduras e os moços de fretes, as mamãs estarreciam-se de susto, e as meninas alvoroçavam-se de esperanças e incertezas.
Passara o tempo, em que as jovens Lílias tinham por alvo o amor e uma cabana. Em todos os corações femininos dos quintos andares só cabia por fim esta aspiração: um piano e um alferes. O piano era o prelúdio da marcha, o alferes era a música da vida.
*
Desejas certamente que eu te desvende o mistério desta influição magnética, exercida outrora pelos guerreiros em férias. Mas, não penses que vou falar-te do seu espírito, ou da sua beleza; não se ocupam disto as memórias coevas, e o que pude averiguar é que o soldado e o alferes não precisavam de outros amavios nem de outras seduções além do seu uniforme. Houve até um alferes que, por ter despido o uniforme na noite das suas núpcias, viu fugir-lhe a esposa no dia seguinte; e um cronista daquele tempo conta que uma noiva exigira do seu par que não se separasse do uniforme durante a lua-de-mel.
Tu não imaginas o irresistível poder que as aparências em geral, e os uniformes em particular, exerciam no espírito dos portugueses da decadência. O uniforme reagia exactamente contra a uniformidade dos trajes: para que não houvesse uniformidade, é que se criou o uniforme. Este separava as classes e até as categorias de cada classe; e tal distinção era universalmente acatada, enquanto universalmente se proclamava e aplaudia a extinção das classes e a abolição dos privilégios.
Mas, de facto, as categorias sociais subiam a tal número, que a imaginação ocidental, se bem que poderosa, teve que confessar-se impotente para criar uniforme em todas as categorias, e aceitou, para certos cidadãos e para actos solenes da vida social, uniformes que haviam sido o traje habitual de gerações extintas. Assim, cem anos depois da extinção dos monges, os estudantes trajavam o uniforme monacal; os homens nobres vestiam-se de cavaleiros e pajens da Idade Média; os sábios perpetuavam a usança dos vistosos colares do tempo da regência; e os caprichosos chapéus emplumados dos jograis de carnaval eram, nas ocasiões mais graves, o emblema obrigatório de um homem distinto.
Os espíritos superiores aceitavam estes factos sem discussão; e a arraia-miúda sentia-se tomada de respeito, perante uma fila de uniformes. Era do estilo; e conta um gracioso cronista, que, quando em público aparecia um cavaleiro uniformizado, o povo formava alas, e a besta passava.
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Cerro-me hoje por aqui; mas, antes de fazer ponto, quero dizer-te que, na minha próxima carta, te falarei ainda de uma estátua. Creio que já te disse que uma convulsão geológica abateu o antigo monte de Santa Catarina. Na vertente dessa depressão, onde deveria existir o bairro de São Roque, pude descobrir, soterrada e mutilada, uma estátua que representava o poeta, a que noutra carta aludi, e cujo nome é ainda hoje o vivo reflexo da arte portuguesa.
Falar-te-ei portanto de Camões e de letras portuguesas, o quanto me permitam os ensinamentos de Reliquiano e os livros que o acompanham.
Pensa em mim, e vive para todos.