Lisboa no Ano Três Mil
Carta III
A ponte monumental. — Melhoramentos desnacionais. — Ministros
budistas. — A lenda da «Pasta». — Epopeia e comédia.
Amigo e mestre. — Fui, com efeito, examinar os postes, que da minha tenda, se avistam no Tejo, de espaço a espaço, desde uma à outra banda.
São restos de grandes pilares de ferro, meio carcomidos pelo tempo e pelos óxidos salinos. Folheando memórias seculares, cheguei à conclusão de que estes pilares sustentaram, há dez séculos, uma grande ponte que ligava as duas margens do Tejo.
É difícil verificar-se hoje a quem pertenceu a iniciativa daquela construção, realmente notável. As relações e monografias coevas falam vagamente de um construtor nacional, Pais, como sendo o primeiro que forneceu um plano exequível para a famosa ponte. Parece no entanto averiguado que os portugueses não acreditaram jamais que santos de casa fizessem milagres, e que aceitaram o primeiro ou segundo plano que apareceu firmado por um ou mais nomes estrangeiros.
Timbravam de patriotas os portugueses, mas tinham uma adoração fetichista por tudo que lhes viesse de fora, desde os toireiros e cantores de opereta até aos trajes de gala e aos planos de construções nacionais. Nacionais, digo eu, por se realizarem dentro da nação; mas foram de ordinário estrangeiros os construtores das obras, de que mais se envaidecia o país.
A velha e grande ponte fizeram-na pois estrangeiros, que por muitos anos lhe auferiram os melhores lucros.
Não devo porém ocultar-te que os governos nem sempre negaram o seu apoio aos grandes melhoramentos materiais.
Mas tal apoio não era, nem podia ser vulgar, porque exigia rara coragem e disposição para o sacrifício e para os golpes da calúnia. Ministro que aparecesse, com ânimo para grandes empreendimentos; que tivesse a coragem de cortar fundo nos abusos que o rodeavam; que zelasse a sério os rendimentos do Estado, fiscalizando as receitas, embaraçando as falsificações industriais, e despertando os devedores remissos, acendia desde logo a eloquência do rancor, e açulava as matilhas, que constituíam a guarda de honra dos corrilhos de seita.
Como natural consequência destes processos, para que um ministro passasse por exemplar, fashionable, aplaudido de gregos e troianos, devia ter uns laivos de filosofia budista, e não incomodar a consciência nem a legislação sobre as necessidades do Estado e o dever dos estadistas. E assim, os ministros mais prudentes eram os que nada faziam, arriscando-se apenas a fazer tolice, quando um director de semana, uma favorita, ou um contínuo, lhes aproveitavam a habitual sonolência, para lhes introduzirem arteiramente na pasta uma ilegalidade, ou uma espoliação, sob-color de decreto.
Muito provavelmente, não sabes o que era a pasta.
A pasta era o velocino de oiro, dos tempos mitológicos da Grécia: frotas de Jasões coalhavam os mares, em demanda do carneiro precioso… A pasta era o verdadeiro Santo Graal, das lendas medievais: cada cidadão era um cavaleiro andante, que levava a existência, em procura do vaso sagrado… A pasta era a terra santa, que estava sempre em poder do infiéis; e todo o fiel português reconhecia em si o patriótico e religioso dever de ser Godofredo, ainda que fosse Godofredo de loiça das Caldas.
A pasta era um símbolo e uma religião, meu amigo. Assim como o barril era o símbolo do trabalho, e a giga o símbolo da honradez nacional, a pasta era o símbolo do poder, dos ócios deslumbrantes, das vacas gordas do Egipto, do paraíso do Alcorão.
Como as grandes ideias e os grandes cometimentos, a pasta foi assunto de grandiosas epopeias, de que apenas restam alguns fragmentos. Destes, conservo um, com que me brindou Reliquiano, e cuja reprodução me não desagradecerás, porque tem verdade e… cor local. Não sei se pertence a algum trovador de gestas; mas, pela caligrafia e pelos conceitos, não pode ser anterior ao século XIX.
O bardo cantava assim a pasta:
I
Ela saía triunfante, cheia,
alegre, rubicunda e satisfeita,
tomando pela rua a mais direita
que leva ao real paço, onde pompeia,
entre festões e púrpuras e rendas,
a chancela das graças e prebendas.
II
E todos estendiam olhos ávidos
para o bojo da pasta, são, repleto; e, sofreando o coração inquieto,
abriam alas aos corcéis impávidos,
que levavam a pasta deslumbrante
como um rajá num dorso de elefante.
III
E as alas murmuravam em segredo:
— Que leva a pasta? Não haver quem entre
naquele estranho e avermelhado ventre! —
E uma viúva suspirava a medo:
— É talvez a pensão! talvez… — E um padre: — Tem mais um bispo a nossa Santa Madre…
IV
— Enfim, vou ver barão! — outro dizia,
poisando as mãos na refegada pança.
Um patriota: — Firma-se a aliança
de Albion com a nossa monarquia! —
Um político: — Eu já o tinha dito:
vai Astreia reinar no meu distrito! —
V
Um servidor da pátria: — Os meus serviços
vão ter o galardão, o justo prémio! —
Uma elegante: — Ele perdeu no Grémio uns quatro contos, mas os meus feitiços
conquistaram da sábia ditadura
para nós dois a perenal ventura. —
VI
Um traficante: — Temos já governo
que remunera amigos prestadios;
entro na alfândega; e o cunhado e os tios
lá entrarão, quando chegar o inverno. —
Um proletário: — Mesmo assim servente, já se pode ter casa e cama quente. —
VII
Um sábio, quasi a crer na Providência:
— Até que enfim, houve um ministro amigo,
que me viu, e que disse lá consigo:
«não é bonito esfomear a ciência!»
e por decreto vai mandar-me em breve
tratar de bombas, que é ofício leve. —
VIII
E a pasta prosseguia o seu caminho, serena, impermeável… Quando a abriram,
um rato e uma grã-cruz dela saíram,
um cónego, um fiscal, um barãozinho,
um sino, três comendas, uma estrada,
um escândalo reles e… Mais nada.
Sendo as coisas assim, como se refere nas epopeias, a comédia política em Portugal devia ser muito divertida… para os espectadores. Tinha apenas o inconveniente de não ser edificante, porque ninguém aproveitou as lições, a não sermos nós, que hoje podemos moralizar a história.
Deixo porém à tua discrição todas as ponderações morais, e vou, ainda hoje, examinar a antiga praça de São Bento, onde parece que se reuniam os legisladores, e onde naturalmente se me depararão alguns fósseis e monumentos para estudo.
Até logo.