Lisboa no Ano Três Mil

Cândido de Figueiredo · Capítulo 8 de 12

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Lisboa no Ano Três Mil

Carta VII

 

A história. — O romance. — O teatro. — Garrett, e Emília.

 

Sapientíssimo mestre. — Já compreendeste que a poesia da decadência, em Portugal, tinha alguma coisa de planta exótica, transplantada para vaso camareiro, em horto de tasca.

Pois as letras de outros géneros, a não serem as do câmbio, não eram melhor tratadas.

A História, ou não existia, ou, para ter leitores, diluía-se em contos de fadas, com que se embalavam as crianças e se acalentava o patriotismo dos velhos. Quando um investigador sisudo, Herculano, se lembrou de fazer História a sério, parou a meio da empresa, porque viu que estava em terra de getas e que os portugueses preferiam à história o conto.

E tão preferido era este, que quase todos os literatos faziam profissão de contistas ou romancistas.

Segundo as diversas influências do tempo, o romance variou de escolas e processos. Um dia, era a Menina e Moça, levada de casa de seus pais, e baldamente procurada em montes e vales pelo seu pastor aflito e amante; de outra vez era o Feliz Independente do Mundo e da Fortuna, gizando filosofias à laia de Horácio…

 

Felix ille qui, procul negotiis,

Ut prisca gens mortalium,

Paterna rura bobus exercet suis,

Solutus omni foenore.

 

Aqui, era a Filha do Brasileiro, golfando o sangue dos pulmões sobre ilusões perdidas; cheia de incompreendidas amarguras; rasgada pelos espinhos da saudade, e obrigando a lágrimas as meninas sentimentais e as viúvas novas; ali eram as Cenas de Hoje, em que o autor, dispensando-se de estudar a sociedade no seu conjunto moral e social, e sem se preocupar da beleza real, nem ainda da beleza ideal apostolada pela filosofia da arte, devassava os monturos e os hospitais de leprosos, para só registar o asqueroso e o ignóbil, brindando a pervertida sensibilidade do público com o desenho grotesco das mais torpes e hediondas aberrações da Vida.

Segundo se depreende da colecção da Revista Negra, redigida pelo crítico Sampaio Pires, que morreu em 1925 ou 1926, os quadros dissolventes do romance predilecto, para que melhor atraíssem a atenção e a leitura do mundo feminino, vulgarizavam-se em luxuosas edições, acompanhadas de estampas d’aprés nature, e adornadas, em letras versais, com o título geral de Leitura para Homens, Biblioteca Secreta, etc.; e o Estado, pela sua indiferença ou tácita aprovação, protegia essa indústria, que se lhe recomendava por ser verdadeiramente nacional.

Infere-se da citada revista que a dissolução literária, lisonjeando a dissolução social, não se restringia ao romance, e reflectia-se no teatro e no jornalismo; e conta Sampaio Pires que o mais aplaudido dramaturgo, nos princípios do século XX, era Bernardo Supino. Este autor não se limitava, como os seus antecessores do século XIX, a descrever os escândalos picantes, reais ou imaginários, de uma sociedade decadente, e a disfarçar mal a obscenidade soez com um trocadilho de mau gosto ou com uma frase cheia de reticências. Bernardo Supino ia mais longe: alarvemente convencido de que a literatura deve corresponder ao meio social, levou para o palco, dando-lhes o tom das mais cruas realidades, as agências de Vénus; o comércio das rameiras; incestos aristocráticos, extraídos da crónica das classes mais elevadas; estupros inacreditáveis, fielmente transladados da vida prática dos burgueses e peões; maridos filósofos, que apreciavam a consorte, na proporção dos lucros que ela auferia das suas aventuras galantes.

Dentre as comédias de Bernardo Supino, cita a Revista Negra uma, que teve extraordinário êxito, representando-se quinhentas vezes sucessivamente, e que enriqueceu a empresa do Teatro Aéreo, construído, segundo parece, a meio de um grande viaduto que passava sobre a Avenida da Liberdade. Chamava-se a comédia O Novo Paraíso; e o protagonista, Adão Júnior, fielmente caracterizado à semelhança do Adão Sénior da lenda bíblica, exibia-se em cena, muito naturalmente, sem pecados, sem folha de parra, sem nada. A ingénua, Eva Lusa, trajava unicamente a sua longa trança flutuante, e demonstrava, com a mais atraente convicção, que o fruto proibido não passava de uma lenda. O cenário do último acto representava uma alcova, em que os habitantes do paraíso devassavam ardentemente os mistérios da criação.

E o Padre Eterno, representado por um administrador de bairro, trémulo de solenidade, abençoava o novo tronco de nova progénie, deixando escoar dos cílios uma lágrima eloquente de ternura paradisíaca.

E o entusiasmo apossava-se dos espectadores. Os velhos choravam de alegria, agitavam-se febrilmente nas cadeiras, e distendiam as pupilas incendidas, para ver, ver muito, ver tudo. As meninas consultavam as mamãs e absorviam-se em profundas meditações, em planos de uma ventura desmedida. E os novos irrompiam em aplausos delirantes, arremessavam à alcova luvas, chapéus e binóculos, e arremessavam-se depois eles próprios, abraçando doidamente os protagonistas, na maior das confusões, num pêle-mêle infernal, em que já ninguém distinguia Adão e todos distinguiam Eva. A ovação convertia-se numa luta, o pano caía, a luz afroixava, e os espectadores resignavam-se a deixar por 24 horas as cadeiras do teatro, e iam dessedentar-se nas próximas locandas.

O público fizera o teatro, e o teatro satisfazia o público.

Os moralistas caturras, os Larragas de todos os tempos, pregavam furiosamente contra a desmoralização dramática, e, à noite, por distracção, iam ver o Paraíso no Teatro Aéreo.

As autoridades, desde a polícia até ao prefeito da cidade, assistiam ao espectáculo e não tinham observações que fizessem.

Os governos, fiéis mantenedores da pureza dos costumes, sustentavam um teatro-modelo, destinado a fomentar a boa literatura nacional e a educação pelo drama; mas as empresas não se inventaram para fomentar o interesse alheio, e muito menos os interesses morais de uma sociedade qualquer; donde se conclui que avisadamente andaram as empresas, que preferiam, por economia, as peças estrangeiras, e se dispensavam de estimular a literatura do país.

Entretanto, o teatro-modelo tinha a coragem de se desviar um pouco da escola do tempo, mas a coragem obrigou-o a reconsiderações, porque os dramas e as chamadas comédias de sala faziam-lhe adormecer os espectadores nas bancadas, e esteve a ponto de ser abandonado, se não entrasse na esteira dos confrades, dando larga extracção ao género burlesco das revistas do ano e à literatura picante das comédias bocacianas, ou das operetas espanholas.

E foi isso o que salvou a empresa, mas não salvou a arte. A arte resvalou pelo pendor enlameado das cenas eróticas; e os bustos de Garrett e Emília, — dois nomes gloriosos na história do teatro, — descobri-os ontem, cobertos de pó e de vergonha, de envolta com fragmentos de loiça e de estatuetas, no sítio onde existiu um mercado originalíssimo, a Feira da Ladra.

As minhas explorações concentram-se agora neste mercado, e dar-te-ei conta do que mais importante se me deparar ali.

Abraço-te com efusão.