Lisboa no Ano Três Mil
Carta I
Carta I2
Os ermos ocidentais. — Um pescador de pérolas nas Berlengas. Um
cenobita nos Açores. — Recordações de Portugal: Camões, a
decadência, a morte.
Querido mestre e amigo. — Escrevo-te das ruínas de um castelo, a 38º 42’ de latitude boreal, e a 160º 24’ de longitude ocidental do meridiano de Sydney.
Aqui foi Lisboa.
Quando me despedi de Sua Omnipotência Russa, norteei a minha bússola, e dirigi-me ao ponto donde te escrevo, convencido de que, na bacia do Tejo, encontraria alguns indígenas, que me auxiliassem nas investigações que me preocupam. Não obstante a profusão de mapas geográficos e topográficos, parecia-me indispensável um guia, que melhor conhecesse o território e as tradições do país. Não encontrando ninguém, equipei o balão, e fui pairando sobre a costa até acima do paralelo 39, deparando-se-me então, nas ilhas Berlengas, um pescador de pérolas, não indígena, mas australiano, que percorre todos os meses o litoral da Europa, da África e da Austrália, e que me deu esclarecimentos úteis.
Segundo as suas indicações, a população portugalense não se extinguira totalmente, e, pelo menos nos Açores, havia ainda alguns representantes da velha nacionalidade ocidental.
Vinte minutos depois, tinha eu descido no vale das Furnas, na ilha de São Miguel, onde o amanho dos terrenos e o alvejar de algumas habitações dispersas me revelaram, a distância, o que quer que fosse de vida actual.
Efectivamente, no mais esconso do vale, um respeitável cenobita assomou à porta do seu casebre, para me receber e à minha comitiva, porque alguém lhe havia anunciado a aproximação do nosso veículo aéreo.
Tive grande dificuldade em o compreender, e em me fazer compreendido; porque, embora o nosso vocabulário volapuque tenha as respectivas equivalências para todas as línguas mortas, a linguagem do cenobita não era portuguesa, nem francesa, nem inglesa, nem italiana, mas um misto caótico de todas estas.
Felizmente, o cenobita, que dava pelo nome de Reliquiano, conhecia largamente as tradições de Portugal, e possuía uma vasta colecção de histórias e memórias. Por mais difícil que fosse a interpretação das suas palavras e dos seus livros, vi nele um cicerone imprescindível, e com ele e com os seus livros voltei ao esteiro do Tejo, sobranceiro ao qual, ergui a tenda, donde te escrevo.
*
Antes de proceder às explorações e investigações que mais me interessam, quero traçar-te, em duas palavras, a história do pequeno país, de que foi capital a cidade, cujas ruínas me cercam.
Portugal, um país microscópico, de origem neo-visigótica, pôde manter a sua autonomia por dez séculos. Meado porém o século XXI, já quase nada existia daquela nacionalidade, que teve na história alguns momentos de robustez e prestígio. Dizem que foi um português quem mostrou aos povos ocidentais o caminho marítimo das Índias. A Ásia e a África estremeceram perante os navegadores portugueses; as nossas bibliotecas ainda hoje consignam o nome de um português de génio, Camões; e nas tradições do ocidente ainda não morreu o nome de um estadista, a quem todo este país, especialmente Lisboa, deveu assinalados serviços. Mas para que formes ideia de como entre os portugueses se galardoavam os melhores serviços, bastará dizer-te que, em meio dos monumentos com que Pombal restaurou Lisboa, os seus contemporâneos ergueram à sua memória um cavalo de bronze, que ainda dura, montado por um cavaleiro anónimo.
Muito excêntricos, estes neo-visigodos!
Excêntricos, e de pouco juízo. As riquezas africanas e asiáticas, que poderiam ter impulsionado as artes e as indústrias, serviram para erguer conventos e praças de toiros. Não sabes talvez o que eram no ocidente as praças de toiros, e é bom que o não saibas, para não mareares por qualquer maneira a ideia sublime que formas da humanidade.
Nos princípios do século XIX, Portugal sentiu uns vagos pruridos de civilização, e começou a golpear os privilégios das classes, a humanizar-se, por que assim o diga, e a demandar indecisos ideais que já ficavam longe dos povos verdadeiramente selvagens.
Mas, no espírito daquela nação, operava-se ao mesmo tempo uma evolução psicológica, que podes oferecer como problema ao nosso eminente sociólogo Priscofilogêncio: à proporção que se alumiava o espírito público, e que se iam entrevendo os caminhos do dever cívico e dos destinos humanos, a vontade reagia contra a ciência e contra o bem, e voltavam-se as costas para não ver o abismo, a que a vontade impelia…
São muito curiosas, a este propósito, as memórias de Reliquiano, a que me estou socorrendo. Nos fins do século XIX, grande parte da população já sabia ler. Estudavam-se direitos e deveres, democratizava-se a educação, multiplicavam-se associações humanitárias, celebravam-se congressos de beneficência, reconhecia-se por lei a soberania popular, e não se deferiam prémios à virtude por se entender que ela estava na índole e na brandura dos costumes nacionais e era de si própria o mais elevado prémio. Conjuntamente porém, o direito e a justiça, todas as vezes que tivesse de dar um passo, necessitava de muletas ou patronos esforçados; o nepotismo e os privilégios sorriam-se das leis, e esmagavam os pequenos e os fracos: os poderes públicos consentiam a exposição de domadores de feras, e aplaudiam nos anfiteatros a destreza com que se sangrava um toiro em briga com o homem; nas trapeiras dos mais vistosos arruamentos, morria-se de fome e de frio; os velhos e as crianças não tinham protecção especial; os infanticídios ficavam muitas vezes impunes; as ciganas mendigavam livremente, levando os filhos às costas, quase asfixiados em trapos imundos, dentro de ceirões infectos; dois ou três homens dispunham da soberania nacional, e arrebanhavam-se as ovelhas de Panurgo, para borregarem o seu voto nas assembleias legislativas; a prostituição adquiria os foros de uma instituição social, e instalava-se, paredes-meias, com a burguesia honesta e com a mais delicada aristocracia, levando o contágio aos mais vedados recessos. E mais; muito mais que a blasfémia de Bruto.
Tu sabes, meu querido mestre, que as leis históricas hão-de resistir sempre a blasfémia igual; não é verdade? Como é natural, foi rápida a decadência dos portugueses. Nos primeiros anos do século XX, o industrialismo concentrara o resto das forças vivas do país, e o predomínio individual era a ambição única, o sonho doirado de seis milhões de cidadãos. No encalço dessa ambição, todos os meios eram legítimos. Os governados injuriavam os governantes, estes locupletavam-se à custa daqueles, o poder transmitia-se ao mais audaz e mais feliz, e a efémera duração dos consulados supremos apressava a anarquia geral. Por fim, ninguém pagava as despesas públicas, ninguém reconhecia os poderes do Estado. Nesta conjuntura, houve quem pensasse que o cesarismo poderia alongar os dias de uma nação moribunda, e um grupo de agricultores chamou do exílio um príncipe desconhecido. Mas o princípio da autoridade era mais desconhecido ainda, e as ondas da guerra civil varreram o príncipe, refluindo sobre si mesmas e dizimando a população.
Foi então que uma nação aliada condoendo-se do pouco que produziam estes campos e do abandono em que estavam as riquezas naturais do país, mandou ao Tejo uma esquadra, que saqueou as principais cidades, transportou os homens válidos para o Canadá, e disse aos velhos e aos doentes que lavrassem os campos da pátria.
Se os lavraram, não sei. Sei apenas que aquela boa aliada não veio tratar da colheita, porque se achou envolvida numa luta geral entre as maiores potências da Europa. A esse tempo, a Rússia alargava já o seu domínio até ao interior da China, e pôde apresentar nas fronteiras ocidentais da Europa dois milhões de moscovitas, mongóis, tártaros, e manchus, que reduziram a Europa a um grande campo de batalha, em que só eles colheram despojos. Desde então, ninguém manda na Europa, senão Sua Omnipotência Russa, que vive nas ruínas do Kremlin, guardado por ursos brancos.
E agora, já é tempo de te dar conta das explorações que estou fazendo nas ruínas da capital portugalense. Vejo, porém, que o pescador de pérolas, de quem receberás esta missiva, vai partir, e obriga-me a fazer ponto por agora. Aguarda para breve mais informações minhas, como eu aguardo as tuas boas novas.