Maigret e o Homem Solitário
Seis
MAIGRET MAL chegara ao Quai des Orfèvres, quando telefonaram de la
Baule. Era Véran, um dos inspetores enviados em busca de Mahossier.
— Com o foram as coisas?
— Inicialm ente, m al. Com eçou dem onstrando m uita altivez e se recusando a acom panhar-nos. Falou em am igos seus de prestígio e do escândalo que o fato provocaria.
— Qual a reação da esposa?
— Ela ouvia, surpresa. Deixei-o discutir durante alguns m inutos, depois apanhei as algem as no bolso dizendo que se não viesse por bem , viaj aria com aquela “pulseira”. O sangue lhe subiu à cabeça.
— O senhor ousaria fazê-lo?
— Sim .
— Mas por que, diabos?
— Im agino que sofria m uito com a hum ilhação. Finalm ente, acom panhou-nos à estação e tom am os o trem da noite. Sua m ulher queria acom panhá-lo, m as ele recusou afirm ando que regressaria em quarenta e oito horas.
“— De nada podem m e acusar, você entende? E eles é que ficarão m uito em baraçados...”.
Na m anhã seguinte, Maigret se sentou em sua sala, escolheu um cachim bo que encheu lentam ente e fez um sinal a Torrence para que se instalasse na ponta da m esa, com um bloco. Norm alm ente, era Lapointe quem estenografava os interrogatórios, pois se tratava do m elhor taquígrafo da PJ.; Torrence, entretanto, tam bém “quebrava o galho”. Maigret apertou um botão e Véran entrou com um Mahossier de cara fechada e olhar im óvel.
— Sente-se.
— Protesto contra esta inj ustificável detenção e m e reservo o direito de processá-lo, sej a o senhor quem for, com issário. Maigret não se m oveu.
— Quer m e inform ar, senhor Mahossier, onde está o seu revólver?
— Que revólver?
— O que ficava na gaveta superior de sua m esa de cabeceira, ainda há uns dias. Um trinta e dois, se não m e engano.
— Nada entendo de arm as e m e j ulgo incapaz de dizer qual o calibre desta arm a, que m e foi presenteada há m uito tem po.
— E onde se encontra, agora?
— Provavelm ente na m esm a gaveta. Falava com voz im pregnada de ódio e seus olhos, encarando o com issário, expressavam intenso rancor. Mas não haveria m edo tam bém ?
— A arm a sum iu. O que fez dela?
— Não sou o único que tem acesso ao apartam ento.
— O que pretende? Que a senhorita Berthe furtasse-a? Não brinque, por favor. De nada adiantará.
— Não disse que a cozinheira...
— Sua sogra, talvez? Encontrava-se j ustam ente em sua casa na noite em que j antou sozinho, no chez Pharam ond e voltou às três da m adrugada ...
— Nunca voltei às três horas da m anhã...
— Quer enfrentar um a testem unha que o viu perfeitam ente e não deixará de reconhecê-lo? Torrence, com a testa coberta de suor, escrevia o m ais rapidam ente possível. — Tenho aqui, à m inha inteira disposição, alguém que reparou quando entrava, pouco antes das três horas na Travessa do Vieux-Four; m as, outra pessoa ouviu, quando regressou ao seu apartam ento, alguns m inutos m ais tarde. Ele ironizou:
— Minha esposa, talvez?
— Se assim fosse, não poderia depor contra o senhor. Maigret, contrariam ente ao seu interlocutor, era a calm a personificada.
— Então foi aquela velha p... Da Berthe. Sob o pretexto de que criou m inha esposa, é tão cium enta que não m e suporta.
— Onde conheceu Marcel Vivien?
— Não sei de que fala.
— Não lê os j ornais?
— Os acontecim entos corriqueiros, não.
— Mas tem conhecim ento, pelo m enos, de que foi assassinado, enquanto dorm ia? Levou três tiros no peito.
— E isto se relaciona com igo?
— Talvez. Seria form idável para o senhor se encontrasse sua arm a.
— Precisaria saber, em prim eiro lugar quem a levou ou m udou-a de lugar. Era um hom em capaz de continuar na negativa, por m ais óbvios que se apresentassem os fatos. Acendeu um cigarro com a m ão a trem er. Raiva?
— Im agino que nunca foi à Travessa do Vieux-Four?
— Nem m esm o sei onde fica. Maigret m udou bruscam ente de assunto, confundindo assim Mahossier.
— O que aconteceu a Nina Lassave?
— Devo conhecê-la? Seu nom e nada m e diz, absolutam ente.
— Em 1945 e 1946 o senhor m orou em Montm artre, num hotel próxim o ao Boulevard Rochechouart.
— Habitei o bairro, m as não m e lem bro do ano.
— Ela possuía um apartam ento no Boulevard Rochechouart.
— É possível. Existem m ilhares de pessoas na m esm a situação. Devo conhecê-las tam bém ?
— Conheceu provavelm ente Nina e Marcel Vivien, seu am ante. Reflita, antes de responder. Não ocorreu o m esm o com o senhor?
— Nem preciso pensar. Não. Naquela época, ainda solteiro, tive várias am antes, m as esta não; e j am ais encontrei o tal Marcel Vivien.
— Em sum a, o senhor nada tem a ver com o caso?
— Nada m esm o. Tornava-se insolente, m as seu nervosism o aum entava e não conseguia controlar o trem or dos seus dedos.
— Para que possa m editar m elhor, vou enviá-lo ao Depósito de Presos.
— Não tem o direito...
— Esquece o m andado, devidam ente assinado pelo j uiz de instrução?
— Se pensa m e interrogar novam ente, exij o a presença de m eu advogado.
— Poderia recusar. O advogado só pode intervir j unto ao j uiz. Mas desej o que tenha todas as oportunidades. Qual o seu nom e?
— Loiseau. Doutor Loiseau. Mora no Boulevard Beaum archais, trinta e oito.
— Avisá-lo-ei assim que se fizer necessário.
Maigret levantou e foi até a j anela aberta sobre um céu desesperadam ente azul, sem a m enor nuvem . Todos, m enos nas praias, clam avam por chuvas, que não caíam ; e a tem peratura tendia a subir. O inspetor Véran reconduziu Mahossier à sua cela.
— Não m e pega não, resm ungava ele, em voz baixa, se referindo certam ente ao com issário Maigret. E Maigret, por seu turno, se dirigindo a Torrence:
— Ele é fogo. Bata à m áquina as anotações que tom ou; da próxim a vez ele assinará o depoim ento.
— O senhor j ulga m esm o que ele conheceu Nina Lassave?
— É possível. Joguei verde. Mas creio que reagiu, pois não contava que tocasse em seu nom e. Trocou de cachim bo e colocou o chapéu. — Se precisarem de m im com urgência estarei no Parisien Liberé...
Torrence olhou-o, surpreso, m as nada com entou. Maigret tom ou inicialm ente um chope na Brasserie Dauphine e depois apanhou um táxi.
— Ao Parisien Liberé.
Recordava-se de que fora um dos prim eiros j ornais a surgir após a Libertação. Ele, em 1946, se achava fora de Paris. Naquela época, desagradara ao diretor da PJ., aposentado alguns m eses m ais tarde, e enviaram -no a Luçon. Nada tendo a fazer, passava o tem po j ogando bilhar. Aborrecera-se durante quase um ano; e a senhora Maigret tam bém não se adaptara ao local. Felizm ente o novo diretor reconduzira-o a Paris. Ainda não era com issário-chefe, e nem dirigia a brigada crim inal, m as, sim plesm ente, com issário. Sua passagem por Luçon, era com o um vazio em sua carreira e em suas lem branças.
— Gostaria de falar com o redator-chefe.
— Da parte de quem ?
— Com issário Maigret. O redator-chefe, m uito j ovem e a quem não conhecia, saiu de sua sala para recebê-lo.
— A que devo a honra desta sua visita?
— Ao trabalho, confessou Maigret.
— Em que podem os aj udá-lo?
— Suponho que conservam todos os núm eros do seu j ornal.
— Claro. Classificados por ano...
— Preciso consultar os de 1945 e 1946...
— Venha com igo...
Cam inharam por longos corredores, chegando finalm ente a um côm odo som brio; nas prateleiras se arrum avam enorm es encadernações de tela preta.
— Quer alguém para auxiliá-lo?
— Não, obrigado. Além do m ais isto pode durar algum as horas.
Era j ustam ente o que Maigret esquecera de fazer, desde o início do inquérito. Pensara no assunto em determ inado m om ento, m as o raciocínio lhe fugira, por assim dizer, da m em ória.
— Posso encom endar cervej a... O bar, em frente, está habituado...
— Agradeço-lhe, m as acabo de tom ar um copo...
Ao ficar só, tirou o paletó, arregaçou as m angas e apanhou o volum e correspondente ao ano de 1945. Um a hora m ais tarde, term inou. Evidentem ente, lia som ente as m anchetes. Nada encontrara relacionado a Marcel Vivien, Nina Lassave ou Louis Mahossier. Recolocou-o em seu lugar e, j á com dor de cabeça, se dedicou a 1946. Por duas vezes o redator-chefe veio se assegurar de que tudo corria bem .
— Continua sem sede?
— Aceitaria um chope, com prazer.
A fum aça do cachim bo tornara o ar azulado. A peça recendia a papel velho e tinta de im prensa.
Deparou com m anchetes que o surpreenderam : casos que na época causaram enorm e reboliço, m as agora com pletam ente esquecidos. Janeiro... Fevereiro... Março... Abril... O m ês de agosto, finalm ente. E no dia dezessete, o seguinte título:
JOVEM ESTRANG ULADA NO BOULEVARD ROCHECHOUART
A m anchete não era das m aiores nem constava da prim eira página. O fato não despeitara m aior atenção.
Uma moça de vinte e dois anos, Nina Lassave, foi encontrada morta, estrangulada, inteiramente despida, sobre o leito do quarto que ocupava no Boulevard Rochechouart. O aposento, bem como o resto do apartamento se encontrava em absoluta ordem. A porteira, interrogada, nada informou que pudesse auxiliar as investigações. Durante vários anos, Nina Lassave trabalhou como vendedora numa loja de roupa branca feminina na Rua Lepic. A proprietária, interrogada, declarou que fora uma excelente funcionária. No final de 1945 deixou bruscamente o trabalho. Havia um homem em sua vida, mas raramente se encontravam na casa desta. O que aconteceu na noite de sua morte? O caso se apresenta difícil, pois a porteira, já bastante idosa, não liga muito para quem entra ou sai do imóvel. O comissário Piedboeuf assumiu a direção do inquérito.
No núm ero seguinte, se lia:
Nada de novo em relação ao crime do Boulevard Rochechouart.
Algum as linhas som ente, inform ando que pesquisavam a vida pregressa da j ovem . O relatório do m édico-legista estabelecia, em term os técnicos, que m orrera por estrangulam ento. Não sofrera outras sevícias. Interrogada novam ente, a porteira confirm ou que um hom em , ainda bastante j ovem , acom panhava-a, subindo às vezes ao seu apartam ento; m as j am ais pernoitava.
Vira-o em um a ou duas ocasiões. Não se j ulgava capaz de reconhecê-lo. Há dois m eses m ais ou m enos, outro hom em , vinha durante a tarde. Sua descrição seria m ais fácil, pois a claridade perm itira que o exam inasse perfeitam ente. Era bem alto, m agro, de olhos escuros. Subia os degraus de quatro em quatro e, um a hora m ais tarde, saía sozinho. Três dias m ais tarde, o Parisien Liberé com unicava aos seus leitores:
Suspeito interrogado pelo comissário Piedboeuf. Um grande mistério cerca a atividade da Polícia Judiciária. Identificaram, de fato, o segundo indivíduo que visitava Nina Lassave no Boulevard Rochechouart. Trata-se de um certo Louis M..., pintor de paredes, que mora num pequeno hotel do bairro. Reconhece ter sido amante da jovem, mas afirma que não esteve com ela no dia de sua morte. A porteira, entretanto, diz peremptoriamente que se encontrava na escada quando ele apareceu, naquele dia, por volta das quatro horas da tarde. Devido à falta de provas, M... foi colocado em liberdade, mas prosseguem as investigações a seu respeito. Quanto a Marcel V... Marceneiro, amante de Nina Lassave há seis meses, conseguiu provar que se achava num café do Boulevard da Chapelle, no momento do crime.
Maigret fazia inúm eras anotações em seu antigo caderno preto. O garçom de um a das cervej arias das redondezas lhe trouxera um chope espum ante; e o interesse despertado pelas revelações do j ornal lhe curara a dor de cabeça. Tentou se dirigir à sala do redator-chefe, m as se perdeu pelos corredores e foi obrigado a solicitar auxílio.
— Existe algum inconveniente em que eu m ande fotografar alguns artigos arquivados?
— De form a algum a.
— Perm ite que use o telefone? Ouviu a voz de Moers.
— Mestral está?... Peça-lhe que venha até o Parisien Liberé; m e encontrará no setor de arquivos.
Maigret retornou ao seu lugar e prosseguiu folheando os antigos núm eros do j ornal. Falavam cada vez m enos de Nina Lassave, um as poucas linhas, pois um grande processo político apaixonava a França.
Parece que Louis M... Que a porteira alega ter visto subir ao apartamento de Nina Lassave, por volta das quatro horas da tarde, também possui um álibi. O comissário Piedboeuf e seus inspetores continuam o inquérito, mas nenhum elemento novo foi descoberto.
Era quase o enterro do caso do Boulevard Rochechouart. O j ornal não publicara nem o retrato de Mahossier, nem o de Marcel Vivien. Interrogaram Mahossier, duas ou três vezes, no Quai des Orfèvres. Conduziram -no à presença do j uiz Com éliau, que ainda vivia, m as devido à ausência de qualquer prova, foi finalm ente ilibado. Mestral chegou m eia hora m ais tarde, com um conj unto de m áquinas fotográficas e flashes.
— Muitas páginas a fotografar?
— Uns poucos artigos, e bem curtos. Maigret acom panhou seu trabalho, indicando os textos. — Dá para receber as provas durante a tarde?
— Digam os quatro horas, se perm itir que eu alm oce. Maigret agradeceu ao redator-chefe.
— Encontrou o que procurava?
— Sim .
— Suponho que ainda não possa divulgar nada?
— No m om ento oportuno, lhe prom eto um furo...
— Obrigado. Até breve, espero...
Passava, j á, do m eio-dia. Da Rua de Enghien ao Boulevard Richard-Lenoir havia cerca de trinta m inutos de cam inhada; Maigret, de bom hum or, olhava os transeuntes, as vitrinas e os ônibus de turistas. Havia dois ou três na Bastilha, que os estrangeiros fotografavam , com o fotografaram o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel. A m aioria parecia cansada, m as não desej ava perder nada das curiosidades prom etidas. Entrou cantarolando em seu apartam ento.
— Parece que as coisas m elhoraram , observou a senhora Maigret com eçando a servi-lo.
— Acho que trabalhei bem . Não sei ainda qual será o resultado, m as algo vai acontecer. Pena que um a pessoa não possa falar.
— Quem ?
— Marcel Vivien. Tenho, aliás, um a novidade que não preciso ocultar. Nina Lassave foi assassinada em seu apartam ento, em agosto de 1946.
— A tiros?
— Estrangulada.
— E você a procurá-la!
— É m esm o. Interroguei Mahossier que se torna cada vez m ais rebarbativo.
Com eu com apetite. Um pernil de carneiro, m alpassado, com um a gotinha de sangue j unto ao osso.
— Delicioso, suspirou, cortando outra fatia.
— Acredita que se aproxim a do final?
— Um a afirm ação seria prem atura, m as j á percorrem os um bom pedaço. O m ais engraçado é que tudo o que descobri hoj e no Parisien Liberé se deve encontrar, com m aiores detalhes, nos arquivos da PJ. Não pensei nisto antes pois aconteceu na época em que estávam os em Luçon...
— Nunca m e aborreci tanto na vida...
— E eu?
— Quer um pêssego? Vej a só, bem m aduros e sum arentos...
— Vá lá... Sentia-se em paz com o m undo e consigo m esm o.
Desta vez, foi de táxi para o escritório. Pelas j anelas, com o nos dias anteriores, escancaradas, chegavam sopros de ar ligeiram ente m ais fresco, que circulavam pelo aposento.
— Torrence!...
— Sim , chefe.
— Term inou de datilografar o depoim ento?
— Antes m esm o do m eio-dia.
— Traga-m e um a cópia, sim ? Recebeu-a e disse ao inspetor: — Dê um pulo aos Arquivos; nos processos relativos a 1946, deve haver algum a coisa concernente ao assassinato de Nina Lassave, no Boulevard Rochechouart...
— Bem que achei o nom e conhecido... Agora m e recordo... Foi o com issário Piedboeuf quem cuidou do caso.
— Exatam ente. Quero a pasta o quanto antes.
Releu, palavra por palavra, com um a pausa de vez em quando, para pensar ou acender o cachim bo, as perguntas que fizera de m anhã e as respostas de Mahossier. Cada frase tinha sua im portância. No texto escrito, as declarações de Mahossier se m ostravam bem m ais desordenadas. Term inando, Maigret perm aneceu im óvel, com os olhos sem icerrados. Dir-se-ia que cochilava, m as sua m ente trabalhava m ais ativam ente do que nunca. Tentava se lem brar dos m enores detalhes do inquérito. Analisava detalhadam ente todas as fases. Não sentia a m enor pressa em concluir. Resolveu de repente ligar para Ascan, o com issário de polícia da prim eira circunscrição.
— Sinto m uito, senhor com issário! Meus hom ens nada m ais descobriram ...
— Não foi por isto que telefonei. Gostaria, se fosse possível, que apanhassem o hom em e a m ulher que interroguei em sua sala. Se conseguirem , m ande os dois para cá...
— Cuidado com as pulgas...
— Não seria a prim eira vez. Riscos da profissão ...
— Neste bairro tem os de tudo... A que horas, então?
— Se der, lá pelas quatro...
— Vam os tentar... Não conto, no m om ento, com o pessoal adequado...
Maigret pediu à telefonista que ligasse para o advogado Loiseau, no Boulevard Beaum archais. Ela ligou em seguida inform ando que o causídico não se encontrava em seu escritório m as, provavelm ente, no Tribunal.
— Experim ente, então, o Palácio da Justiça. Desta vez levou quase quinze m inutos. Procuraram -no, certam ente, por todos os lados.
— Loiseau...
— Com issário Maigret... Eis do que se trata, doutor. Após um recente caso de assassinato, detive um cliente seu, Louis Mahossier... Hoj e, pela m anhã, tentei, em vão, lhe fazer algum as perguntas, m as não obtive resultado algum ... Só desej a falar em sua presença e não vej o inconveniente... Haveria algum a possibilidade de nos encontrarm os, às quatro, em m inha sala?
— Im possível. Tenho um a audiência às três... Mas às cinco, se quiser...
— Certo, às cinco...
Mal Maigret desligara, Torrence lhe trouxe um a pasta, bem fina, do caso Nina Lassave, em 1946. Tirou, inicialm ente o paletó, acendeu um novo cachim bo e se sentou diante dos docum entos. Havia em prim eiro lugar o testem unho da porteira, na delegacia do bairro; com o não vira sua inquilina às duas horas da tarde, logo num dia em que regressara, cedo, subira e batera à sua porta. Com o estivesse entreaberta, penetrou no apartam ento.
“— Encontrara tudo em ordem . As gavetas arrum adas, cada coisa em seu lugar. No quarto, a pobre m oça estendida sobre o leito, nua, o rosto contorcido e o olhar vazio fitando o teto...”.
Seguia-se o relatório elaborado pelo com issário de polícia, Maillefer que visitara o local em com panhia do agente Patou. Depara com a vítim a exatam ente com o descrevera a porteira. Suas roupas, entre outras um vestido estam pado, se arrum avam sobre um a cadeira próxim a à cam a.
“— O roubo não parecia ter sido o m otivo do crim e. Além disto a nudez da vítim a provava que conhecia o assassino, pois não procurara se cobrir e perm itira que se aproxim asse dela...”.
O com issário de polícia telefonara, do quarto, à Polícia Judiciária. Piedboeuf lhe dissera que chegaria em seguida, lhe recom endando que não tocasse em nada; solicitara, ainda, que ligasse para o j uiz de instrução. Se Maigret não se enganava, Piedboeuf contava na época pouco m enos de cinquenta e cinco anos. Um hom em que entendia de sua profissão e que não se deixava iludir. Era, talvez, um tanto rude e perdia facilm ente a paciência. Fazia-se acom panhar por dois inspetores, um dos quais ainda não se aposentara. Do longo relatório de Piedboeuf constava tam bém um a planta do apartam ento.
“— Tudo parecia em ordem nos m óveis dos diferentes côm odos, e encontrei, na bolsa da vítim a, trezentos francos, bem à vista, sobre a m esa de cabeceira...”.
Resum ia tam bém o que se passara quando do com parecim ento dos j uízes, cuj a presença não passava de m era form alidade. Anexos ao do com issário havia dois laudos, bem com o algum as fotografias da vítim a, tal com o fora encontrada. O prim eiro, de Moers, falava da inexistência, no apartam ento, de outras im pressões digitais que não as da própria vítim a; as da m açaneta, pertenciam à porteira. E Maigret anotou.
O outro relatório continha a assinatura de um hom em com quem trabalhara durante m uito tem po e que, infelizm ente, falecera. O doutor Paul, m édico-legista e gastrônom o por excelência.
Concluía, em term os científicos, que a m orte se dera por estrangulam ento. As m arcas deixadas pelo assassino no pescoço da vítim a m ostravam que era dotado de m ãos particularm ente vigorosas. O interrogatório dos inquilinos do prédio, em pequeno núm ero, resultou inútil. Ninguém ouvira, nem vira nada.
“— Nina Lassave recebia m uitas visitas?”.
“— Não”.
“— Mas alguém aparecia com frequência?”.
“— Sim , dois hom ens”.
“— Ao m esm o tem po?”.
“— Não. Separadam ente. O m ais alto vinha à tarde... O outro aparecia de noite e saíam j untos. Não sei aonde iam , m as um dia, ou m elhor, um a noite, vi-os no “Cy rano”...”.
“— Qual o m ais antigo?”.
“— O da noite... O outro surgiu há uns dois m eses...”.
“— No dia do crim e, não deparou com nenhum dos dois na escada?...”.
“— Para dizer a verdade fiquei em casa até às seis horas da noite...”.
Os outros locatários quase nada sabiam . Um deles, solteirão, funcionário de um banco dos Grands Boulevards, saía de casa às oito da m anhã e só voltava às vinte e um a horas.
“— Ignorava por com pleto a existência desta m ulher; e m ais ainda a presença, interm itente, de seus am antes no prédio...”.
Graças à porteira, descobriram Mahossier. Chegara certa tarde num a cam ioneta onde, em letras am arelas, se lia: Lesage & Gélot. Pinturas. Boulevard des Batignolles. Sem pre m ais relatórios. A m enor pergunta feita a um a testem unha era obj eto de um a exposição, com frases estereotipadas. Relendo-os, Maigret não podia deixar de sorrir!
“De ordem do com issário Piedboeuf m e dirigi à em presa de pinturas Lesage & Gélot, no Boulevard das Batignolles, núm ero vinte e cinco. Falei som ente com o senhor Gélot, dada a ausência de seu sócio. Perguntei quantos operários tinha e m e respondeu que, em virtude da época contava som ente com quatro. Forneceu-m e os nom es e as idades. Três passavam dos quarenta e um inclusive atingira os sessenta. Só um certo Louis Mahossier estava com vinte e seis anos. Aguardei-o cerca de m eia-hora, pois levara m aterial a um a obra. Dirigia a cam ioneta descrita pela porteira do Boulevard Rochechouart. Mahossier ficou furioso. Indagou com que direito eu o interrogava e com eçou negando conhecer qualquer Nina Lassave. Convidei-o a m e seguir ao im óvel da vítim a e a porteira reconheceu-o sem a m enor dúvida. Fora ele, realm ente, quem vira na escada, na antevéspera, aproxim adam ente no m om ento em que assassinaram a j ovem . Assim , lhe pedi que m e acom panhasse ao Quai des Orfèvres e entreguei-o ao m eu chefe, o com issário Piedboeuf.
Maigret enxugou o suor. Subm eteram Mahossier a quatro interrogatórios, m as suas declarações perm aneciam as m esm as. Afirm ava que, naquele dia, por volta da hora do assassinato se encontrava na cam ioneta conduzindo latões de tinta para um a obra na Rua de Courcelles. Os colegas que receberam o m aterial, confirm aram o fato, sendo entretanto m enos precisos quanto à hora. O j uiz de instrução Com éliau lhe fez, tam bém , inúm eras perguntas. Interrogaram ainda Marcel Vivien, o dono e um garçom de um café do Boulevard de La Chapelle. Vivien se m ostrava extrem am ente abatido. A m orte de sua am ante parecia tê-lo destruído. Nada existindo contra ele, retornou ao seu hotel, na Praça das Abbesses. Mahossier foi obj eto de um inquérito m ais rigoroso; por falta de provas porém , decidiram deixá-lo em paz. A pasta não continha a m enção “Caso Encerrado”, um a vez que a polícia não arquiva os casos sem solução; m as, no fundo, dava no m esm o...
— Torrence!... Dentro de quinze m inutos, vá, por favor, ao Depósito de Presos e m e traga Mahossier.
Isto lhe perm itia tom ar um chope na Brasserie Dauphine. Se o advogado Loiseau fosse tão “durão” quanto seu cliente, o interrogatório prom etia ser m uito espinhoso. Ao voltar, deparou com Mahossier j á num a cadeira de sua sala e Torrence instalado diante do bloco de taquigrafia.
— Precisam os aguardar o doutor Loiseau...
Mahossier não dem onstrou ter ouvido. Maigret folheava negligentem ente a pasta, relem brando alguns detalhes. Loiseau chegou, de toga, pela porta que liga o Palácio da Justiça à Polícia Judiciária.
— Desculpe-m e, m as a audiência sofreu um pequeno atraso.
— Sente-se, por favor. Vou fazer um certo núm ero de perguntas. Até agora ele negou tudo, sistem aticam ente. Sabe qual a acusação que pesa sobre seu cliente?
— Acusação? Palavra um tanto pesada! Im agino que a instrução nem com eçou.
— Digam os então que o consideram os culpado do assassinato de Marcel Vivien, m endigo, num prédio em ruínas da Travessa do Vieux-Four.
Maigret encarou Mahossier.
— Vam os, inicialm ente, estabelecer sua presença em Les Halles na noite em questão.
— O senhor tem testem unhas dignas de fé?
— Julgará sozinho...
Solicitou a Torrence que encam inhasse o assim cham ado Toto, que um a viatura da prim eira circunscrição transportara até à PJ, acom panhado da gorda Nana. Toto, m uito à vontade, com o um hom em j á habituado à polícia, fitava um por um . Quando seu olhar caiu sobre Mahossier, o rosto se abriu num sorriso.
— Este “cara” eu conheço... Com o vai, m eu “chapa”?... Só espero que não estej a num a “fria”... Maigret indagou:
— Onde e quando o encontrou?
— El Les Halles, ''ora bolas”... Passo lá todas as m inhas noites...
— Diga-nos, precisam ente, em que local...
— A m enos de dez m etros do Chez Pharam ond... Apreciava descarregarem um cam inhão... Tinha um “colega” lá... Bem , “colega” não é exatam ente o term o, pois ele não era am igo de ninguém ... Cham ava-se Vivien... Enquanto ele trabalhava com o cam inhão de legum es eu esperava a chegada de um outro para arrum ar um servicinho...
— O que aconteceu em seguida?
— Abriu-se a porta de Chez Pharam ond e o cavalheiro aí saiu do restaurante. Parou algum tem po para observar os suj eitos que trabalhavam na descarga. Aproveitei, m e aproxim ei dele e pedi um trocado para um vinhozinho. Em vez de um franco m e deu um a prata de cinco e pude com prar um a garrafa inteirinha...
— Vira-o antes, em Les Halles?
— Nunca...
— E quanto ao senhor?
— Há quinze anos, todas as noites...
— Doutor Loiseau, se desej ar, pode se ocupar, tam bém , da testem unha.
— Obrigado. Em que dia aconteceu o que acaba de relatar?
— E o senhor pensa que eu conto os dias? De qualquer form a foi na noite em que Vivien “bateu as botas”...
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Não estava bêbado?
— Às três horas da m anhã, talvez; m as às dez, nunca...
— E reconhece-o, sem a m enor dúvida?...
— E ele tam bém . Vê-se pela sua cara... Maigret se dirigiu a Mahossier.
— É verdade?
— Nunca vi este farrapo hum ano...
— Farrapo hum ano... Farrapo hum ano...
Torrence conduziu-o para fora e deixou entrar a gorda m ulher, de pernas inchadas e dedos sem elhantes a salsichões. Ainda não bebera, m as não se apresentava m uito firm e. Assim que se acom odou, fitou os presentes e ergueu a m ão direita para Mahossier.
— É ele, rouquej ou no que seria, talvez, sua voz norm al.
— Fala de quem ?
— Do hom em que saiu, por volta das dez horas da noite, do restaurante onde os ricos vão com er dobradinha...
— Sabe o nom e do estabelecim ento?
— Chez Pharam ond.
— E está certa de que era ele, o hom em ?
— Cem por cento. Vi até quando falava com Toto. Depois ele m e contou que o suj eito lhe dera um a m oeda de cinco francos, e m e ofereceu um copo de vinho.
— Reconhece-a, Mahossier?
— Não. Nunca a vi e ela j am ais m e viu e m uito m enos em Les Halles... Maigret se virou para a enorm e m ulher.
— Tornou a encontrá-lo?
— Na m esm a noite, lá pelas três horas. Sentara-m e num recanto som brio da esquina da Rua da Grande-Truanderia com a Travessa do Vieux-Four. Ouvi passos e um indivíduo alto e m agro passou bem a m eu lado. Foi fácil perceber quem era pois seu rosto se destacou na luz do poste existente logo no com eço do beco.
— Sabe para onde ele se dirigiu?
— Para um a casa, condenada há m ais de dez anos e que acabará caindo sozinha...
— Então, Mahossier. Reconhece esta m ulher?
— Reafirm o o que disse... O advogado suspirou:
— Se todas as testem unhas tiverem este gabarito...
— Torrence, leve-a para o corredor...
— E faço entrar o próxim o?
— Num instante... Quando interrogado pela prim eira vez, Mahossier, o senhor negou ter j antado, naquela noite, no Chez Pharam ond... Mantém a declaração?...
— Claro...
— Onde com eu? Não foi em sua casa, devido à visita de sua sogra com quem não “cruza” m uito bem ...
— Num barzinho dos Grands Boulevards...
— Reconhecê-lo-ia?
— Talvez...
— Bebeu?
— Nunca bebo, a não ser um copo de vinho durante as refeições...
— Portanto, não pôs os pés no Chez Pharam ond? Maigret acenou a Torrence que introduziu um hom em de seus cinquenta anos, vestido de preto da cabeça aos pés.
— Sente-se, senhor Genlis.
— Em m inha profissão sou m ais conhecido com o Robert.
— Pode-nos dizer qual é, e onde a exerce?
— Sou o m âitre auxiliar do Chez Pharam ond ...
— Deve portanto atentar para as idas e vindas dos clientes...
— Na m aioria das vezes, arrum o as m esas ...
— Há alguém nesta sala que o senhor conheça?
— Sim . E designou Mahossier, que em palideceu um pouco.
— Quando viu-o pela últim a vez?
— Encontrei-o num a única ocasião, segunda-feira à noite. Achava-se só, o que é raro em nossa clientela. Com eu rapidam ente, e fui eu quem abriu a porta, quando saiu.
— Concorda, senhor Mahossier?
— Não vou ao Chez Pharam ond há m ais de dez anos. E este hom em tem a coragem de afirm ar que reparou em m im , um a vez som ente, num a sala repleta?
— E com o sabe que estava cheia?
— Im agino, pela fam a da casa...
— Vej a, disse o m âitre, — Raram ente deparo com um cliente tão alto e tão m agro...
— Perguntas, doutor Loiseau?
— Nenhum a. Aguardarei o interrogatório oficial.
— Obrigado, senhor Genlis. Não quero retê-lo por m ais tem po.
— Com issário, o senhor tem outras testem unhas?
— Por hoj e, encerram os este caso. O advogado se ergueu, aliviado. — Passarem os agora ao segundo.
— Existe m ais um ? Acusar m eu cliente da m orte de um m endigo que j am ais conheceu, não basta?
Mahossier, desta vez, em palidecera realm ente. Assim , sobressaíam suas olheiras e a linha am arga de seus lábios cerrados.
— Vam os então, com issário...
— Lem bra-se do dia seis de agosto de 1946, senhor Mahossier?
— De form a algum a. E nem tenho m otivo para tanto. Com o nos outros dias, certam ente trabalhava. Naquela época nem tirava férias, para j untar algum dinheiro.
— Era em pregado de Lesage & Gélot?
— Exatam ente. Parecia surpreso, inquieto.
— Dirigia com frequência um a cam ionete da firm a, com estes dois nom es pintados na porta?
— Sim .
— Naquele dia, o senhor entregou num erosos galões de tinta aos seus colegas que trabalhavam num a obra da Rua de Courcelles.
— Não m e recordo.
— Tenho aqui sua declaração, feita ao com issário Piedboeuf. Im agino que adm ite ter sido interrogado várias vezes pelo m esm o? Maigret lhe m ostrou a pasta.
— O que pretende provar?
— Onde m orava?
— Não m e lem bro m ais. Vivia em pequenos hotéis que trocava com frequência...
— Vou lhe refrescar a m em ória. No hotel Jonard, situado na Praça das Abbesses. Sabe quem habitava ali tam bém ?
— Não conhecia ninguém .
— Sim , pois acabou de encontrá-lo em Les Halles, após vinte anos. Falo de Marcel Vivien, antigo am ante de Nina Lassave.
— Isto não m e concerne.
— Engano seu. Ela visitava frequentem ente Vivien. Não sei se a seguiu, m as a porteira reconheceu-o e afirm ou que durante os dois últim os m eses o senhor aparecia com regularidade.
O advogado perguntou:
— Esta porteira se acha presente?
— Não, m orreu anos atrás na aldeia onde m orou nos últim os tem pos.
— Em outras palavras, não poderá testem unhar. Até o m om ento, o senhor apresentou dois bêbedos im undos, um hom em que vive de gorj etas e agora um a m orta. Quem será o próxim o?!
— Cada coisa a seu tem po, m urm urou Maigret enchendo um outro cachim bo.
* * *